Protagonismo e vivência

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Quando o assunto de um debate é FEMINISMO, movimento NEGRO, movimento LGBT ou gira em torno de outros grupos de luta pró-minorias, por vezes a posição e o pensamento discordante (ou não!) de um sujeito – que simpatiza com a causa em questão e a ela se dispõe a somar forças, mas cuja própria individualidade não é identificável cultural, social, sexual, fenomênica ou até mesmo biologicamente (?) com as pessoas que “naturalmente” integram o movimento – são frequentemente desclassificadas e descartadas por meio da desqualificação do próprio sujeito.
 
Quando ainda no nível da argumentação, diz-se que tal indivíduo pretende assumir um protagonismo que lhe é ilegítimo, por não possuir a vivência que os autênticos membros sofreram ou sofrem cotidianamente. A centralidade de tais noções em um discurso, seja quem forem os discursantes, evidencia seu caráter subjetivista.
 
No nível da brutalidade e desonestidade completas, tacha-se um rótulo que decalca no sujeito a figura do “inimigo do movimento” (quando não um hitlerista). Assim, os demais debatedores e leitores não só se dispensam de responder o conteúdo do discurso – pois quem o proferiu foi tornado desprovido de legitimidade, autoridade e, por vezes, capacidade cognitiva ou moral para falar qualquer coisa, ainda que possua razão (de modo tal que sequer precisam continuar a distorcer suas palavras para dar a elas uma aparência de descrédito próprio) -, mas criam também, do ponto de vista gregário, um entretenimento útil e auspicioso, não importa o quão superficial, imediatista e efêmero, para unir a multidão em torno da malhação do “desafeto comum”. É tal como acontece numa torcida de futebol, numa congregação de religiosos, no engajamento em propostas e personas políticas ou também num linchamento de um suposto bandido. Coisas que, ou pessoas com quem, não se discute.
 
Antes de prosseguir, peço que não me acusem de comparar a esculhambação de alguém num debate com o ato de triturar uma pessoa na rua. “Linchamento virtual” é uma expressão mais que ridícula e infame, é puro e pleno desprezo para com todos aqueles que sofreram tamanha injustiça e violência na própria carne. O que pretendo é chamar a atenção para o procedimento aglutinador de bárbaros por meio da manipulação de um mecanismo psicológico chamado “fé” – aquele que angaria adesão tão irracional quanto afetiva e, portanto, disposição à bestialidade.
 
Mas o que me interessa aqui não é falar dos golpes baixos. Interessa discutir a primeira forma de censura, pois ela tem um apelo estético tão sedutor que até parece racional; por isso, convence e arregimenta um bocado de gente de boas intenções.
 
Por que estético? Porque basta imaginar um sujeito branco se colocando como ativista do movimento negro, ou um homem atuando com interesse e disposição propositivos em um grupo feminista, que a ilegitimidade de tais imagens imediatamente é colada em nossos olhos, em nossa pele e sensivelmente em nosso afeto, tamanha a aparência de sua obviedade.
 
Mas os sentidos às vezes nos enganam e o que parece ser óbvio pode não passar de mera ilusão.
 
Em primeiro lugar, é estranho que haja o receio de que alguém “roube o protagonismo” dos “legítimos integrantes” do movimento. Ora, onde está a bandeira da luta pelo reconhecimento do grupo? Se diluiu na disputa da maior medida de importância dos indivíduos? Numa competição pela atenção dos demais? Ou num certame de levantamento de egos?
 
De onde pode surgir a idéia de que alguém adere a uma causa de tamanha dureza interessado em se sobressair frente aos demais? Mas se o termo “protagonista” quiser designar um indivíduo que se lança à linha de frente das batalhas – sem qualquer vaidade de si ou inveja dos companheiros -, tanto pior, pois a rejeição de tal disposição (nem sempre verificável nas pessoas, portanto valorosa) indica um egoísmo ainda mais mesquinho.
 
(Nessas horas, se coloca a questão do protagonismo na luta pelos direitos dos animais, que bem combina com a sua denúncia do “especismo”: seres humanos falando pelos animais e contra si próprios [cf. o texto O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”]).
 
Se esta questão do protagonismo é preocupação que assedia com afinco um movimento qualquer, me parece que em apenas um único sentido ela pode ser genuína: protagonismo enquanto função ou cargo de representação do movimento, como no caso dos indivíduos aos quais se delegam as tarefas de comunicação, de liderança (basta lembrar a presidente do “movimento afro do PSDB”) etc.
 
Mas não é este o sentido do termo que é usado nos debates, e sim aqueles anteriores. Donde o que era pra ser um movimento de luta se perde na inconsistência da egolatria e revela sua fraqueza de meios e propósitos.
 
Ao extremo, mas se atendo ao âmbito dos pensamentos, a recusa da participação de um indivíduo “estranho” é afirmada inclusive para situações práticas em que qualquer pessoa deveria na verdade agir, sob pena de sofrer censura por não fazê-lo. Para citar um exemplo mais ou menos recorrente: certo entendimento que circula (não sei com que grau de adesão) entre as feministas afirma que apenas mulheres podem oferecer ajuda ou defender uma mulher, pois os homens – todos eles – são opressores e serão machistas mesmo se quiserem prestar qualquer auxílio ou socorro, porque isso é manifestação de paternalismo, pretensão de superioridade, subestimação da mulher etc.
 
Tudo isso, repito, se restringe ao puro pensamento, pois no âmbito da vida real, prática e cotidiana, não existe “a mulher” e nem “os homens”. Existe a Maria, existe o João e o José, existe o indivíduo que se distingue de todos os outros por ser ele uma síntese única de muitíssimos atributos, não importa quais e quão comuns sejam. Aliás, quantos atributos possuem em comum a moradora da mansão em bairro nobre e a moradora de rua, além de serem mulheres, falarem “dialetos” socialmente distintos mas intercompreensíveis de uma mesma língua – como acontece com todas as que existem -, e uns outros mais? Quão fundamentais são os atributos que ambas possuem frente aos que não compartilham? O que determina a importância de um ou tantos em um momento, e de outros noutra situação?
 
Portanto, é perfeitamente concebível a idéia de um fulano qualquer, homem, machista inclusive, se deparar repentinamente com uma circunstância envolvendo violência física ou verbal de um homem (ou um outro animal) contra uma mulher e agir para defendê-la, caso ela esteja em desvantagem. Se não o faz, mas permanece indiferente, é cúmplice da covardia do agressor. E por qual razão deveria ela recusar sua ajuda?
 
Há homens machistas e há homens que recusam o machismo, assim como há mulheres de luta e há mulheres não apenas submissas ao machismo, mas que chegam ainda a defendê-lo. A questão do protagonismo deve levar isso em conta, se a intenção não for criar um dogma – e nada melhor que isso para minar o empoderamento de alguém.
 
Aliás, tais noções de protagonismo não são problema a se considerar quando o movimento é coeso, forte e consistente prática e teoricamente. Qualquer prática que aponte para rebaixamentos egóicos pode ser facilmente detectado e desmantelado.
 
E mais: como combater o machismo sem envolver os homens e angariar suas adesões? Não se trata de conseguir fazer o machista combater o machismo?
 
Ou a luta é pela afirmação da mulher enquanto diferença intransitiva frente aos homens? Eles não responderiam: “ora, o machismo afirma exatamente isso, podem largar as bandeiras e assumir a cozinha”?
 
A luta não visa estabelecer uma posição autenticamente humana da mulher na totalidade da sociedade? Ou seja, pela igualdade de direitos entre os diversos indivíduos (é assim que se costuma justificar a luta, mas sem muito rigor, já que a igualdade é uma forma de abstrair até mesmo os atributos cujas diferenças são o cerne de toda a questão)?
 
Se é assim, cabe compreender e reconhecer o significado profundamente humanista do feminismo.
 
Protagonismo não é, pois, um problema, mas sim uma necessidade. É o indivíduo “empoderado” que participa das ações e reflexões, que levanta propostas e incentiva a atuação autônoma e responsável, que age no sentido de fortalecer o movimento de forma honesta para consigo mesmo e os demais, que se dedica à causa e se mostra confiante nos companheiros de luta.
 
Não há porque recusar o protagonismo dos interessados na luta, e muito menos exigir o aval de alguém que efetivamente sofre preconceito e violência. Na verdade, se um indivíduo reconhece o sofrimento dos grupos oprimidos, por que não deveria se sentir na obrigação de atuar em prol de seus direitos? Por que não deveríamos esperar justamente isso de sua parte?
 
Alguém pode estar pensando: finalmente a questão da vivência apareceu, mas como ela entra nisso aí?
 
Vivência é coisa do âmbito privado do indivíduo singular. Entretanto, o que importa é o que há de comum, socialmente determinado, nas vivências de cada indivíduo; e só isso confere importância à vivência.
 
Assim, um negro que sofreu uma afronta racista sabe suficientemente bem qual é a dor de outro negro que lhe conta ter ouvido uma ofensa semelhante, ainda que não seja a mesma coisa, a mesma circunstância, a mesma dor e a mesma reação.
 
Um branco não sabe o que é racismo. Mas sabe o que é ofensa e o que é dor. Se isso lhe basta para aderir ao combate, por que exigir-lhe mais?
 
Insistir na centralidade da vivência é desprezar aquilo que une os indivíduos singulares em torno de uma compreensão e uma causa comuns e atirar tudo para o abismo da singularidade isolada: a vivência é minha, e sequer a linguagem pode te fazer compreendê-la. Ora, o que esperar disso? Um embate na arena política dos direitos? Não, porque cada indivíduo – encerrado em sua vivência única e intransponível umbigo afora – possui algo que a mais ninguém serve de critério e é impossível de ser avaliado. Sem contar que as vivências de um mesmo sujeito podem ser contraditórias entre si, e outros problemas.
 
Aí só resta medir força física bruta contra quem afirmar uma vivência contrária. Basta pensar, por exemplo, no sujeito que defende a redução da maioridade penal alegando que um menor matou um parente querido – uma vivência tão dolorosa e comovente quanto universal e politicamente efetiva, à qual todos estão sujeitos. Mas em que medida o sofrimento torna justa uma reivindicação? Este caso mostra que a dor pode tornar obscuro o entendimento, muito antes de legitimar idéias e ações.
 
Para terminar, uma provocação. Não é interessante notar que esses problemas nunca surgem entre os sem-terra, sem-teto, sem-comida etc.? Se houver adesão às suas lutas por parte de quem tem teto, comida e até mesmo um sitiozinho no interior, tanto melhor. Seus movimentos estão atentos para questões de outra grandeza e importância.
 
A luta contra a opressão de uma parte da humanidade por outra é uma luta que concerne a toda a humanidade, e aí o que importa não é promover expurgos, mas angariar aliados.
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O indivíduo em luta - na literatura clássica, moderna e pós-moderna
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12 comentários sobre “Protagonismo e vivência

  1. Eu tenho uma dúvida forte: você crê que que este tipo de texto, que visa refutar falácias, ajuda de alguma forma a mudar as ideias de quem está sendo desonesto intelectualmente?
    Por exemplo, eu cheguei a me animar a traduzir textos que refutam teorias da conspiração, mas me dei conta de que quem acredita em teorias da conspiração não age com lógica, e portanto argumentação e provas são inúteis, perante a fé de que eu estaria conspirando contra a pessoa com que falo.
    Não aconteceria o mesmo com textos contra feminismo pós-moderno? Você mesmo disse que, segundo os pós-modernos, a subjetividade de cada um impede conexões verbais e isso mina qualquer diálogo.

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  2. Naturalmente seu incômodo se dá justamente porque você é homem, possivelmente branco, e certamente advindo de alguma classe privilegiada, pois senão, fatalmente não seria tão erudito em assuntos “marxianos”. Logo, vê-se que o “marxianismo” ou seja lá o nome da sua corrente de pensamento, é apenas mais uma teoria brotada do racionalismo academicista branco e eurocêntrico. Aliás, a verdade que você cultua, em termos formais não difere de nenhum culto à verdade que vemos nos templos da vida. Logo, meu caro, seus textos evocam uma crítica que só se volta aos outros e demonstram um grande lapso autogenealógico, inclusive em relação ao seu lugar de privilégio, de estudante de filosofia e disciplinas afins, cheio de verdades e sapiências sobre o que fazer do mundo e das relações humanas. Sugiro cultivar mais a abertura de pensamento e menos o sectarismo, mais o entendimento e a absorção da diversidade e dos múltiplos lugares de fala de quem sim, é oprimido muito mais que você, e menos uma metafísica racionalista e branca chamada “filosofia materialista”. Não engulo críticas de acadêmicos. Seu saber é burocrático, institucional, privilegiado, fruto do ócio saqueado do ócio do trabalhador pobre, que você nunca irá conhecer de fato através de meras lentes racionalistas que enxergam de longe. Enfim, boa sorte em seus estudos. Acho que você está é se afundando num lamaçal de conceitos hipotéticos, que são, veja só, sua subjetividade, seu mundo interior, que querendo ou não é excludente e sim, branco, macho e privilegiado. Portanto, peço que reflita sobre sua condição social e sexista antes de problematizar o roubo de protagonismo com tanta empáfia e certeza. Soa ridículo e um tanto quanto irritante.

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    1. Patrícia,

      Obrigado por seu comentário, e permita-me dizer o que cabe a ele: se o ressentimento não nos impedisse de pensar racionalmente, mas apenas intestinalmente (lembrando aqui Aristóteles, que dizia ser o baixo ventre o lugar de emanação dos afetos), deixaríamos totalmente de lado a questão acerca da pessoa que escreve o texto e focaríamos a crítica tão somente a ele.

      Não discuto pessoas, discuto idéias.

      Por fim, se alguém critica a verdade e a pretensão de se dizê-la, é porque não pretende estar a afirmar coisas que dizem respeito a nada, ou seja, pretende não dizer algo que corresponda à um fato, uma coisa, uma idéia ou ao mundo. Portanto, apenas faz má poesia.

      Poupe-me da sua.

      Att.

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  3. Mais uma vez apenas confirma minha tese de que seu pensamento não passa de racionalismo eurocêntrico. Não acredito num saber asséptico que elimina a substância maior que as meras ideias que é aquele que fala e que pensa. Isso é ideologia racionalista, apegada à ideia de que há uma verdade cerebral, ideal, ainda que essa ideia seja destilada pela ontologia. Fique com suas crenças nela ou em qualquer outra maneira de associar a lógica ao mundo. Com Aristóteles, membro da corte de Felipe da Macedônia, você está em muito boa companhia para “dizer a verdade”. Minha crítica é sim dirigida “ao mundo, a ideias, a coisas”, que estão implícitas no seu lugar de fala e em sua teoria, absolutamente ancorada num mundo branco, academicista e eurocêntrico. A minha crítica dirige-se ao cerne do problema: seu lapso autocrítico, sua fala dirigida a um mundo que você não experimentou e que ironicamente vem carregada com o pretenso selo da verdade simplesmente por ser racional, lógica e destilada por meio de uma linguagem e de um saber acadêmico. Perdoe-me, mas o nome disso é racionalismo, prática europeia por excelência e que de revolucionária só possui mesmo a teoria, hermética, barroca, irônica, escarninha e acima de tudo, orgulhosa da própria origem: Europa. Logo, desse mato não sai cachorro, isso é mais um anestésico ou só mais uma ideologia com ares fastasmáticos de libertação.

    Poupe-me da sua.

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    1. Você não acredita em um “saber asséptico”, mas acredita em outra coisa, algo que está muito longe de poder sequer ser chamado de saber e nem asséptico consegue ser.

      Na verdade, você acredita que não existe nenhum saber, que tudo se resume a crenças, “lugares de fala”, mundos particulares, e por isso é que acredita no umbigocentrismo como parâmetro para afirmar suas crenças como as únicas verdades possíveis (apesar de serem apenas crenças) e para negar aquilo que não se encaixota nelas, de modo que você reduz o mundo a uma projeção de suas idiossincrasias, ou seja, a você mesma, supondo, com a máxima malícia a que chega sua cândida ingenuidade, que seus achismos interessem a alguém mais que você, supondo que sua capacidade de crer no que te der na telha faz com que seu discurso de crente, e muito acima dele e de qualquer discurso, principalmente você, “substância maior” (para usar o vocabulário de… Aristóteles), obtenha alguma importância qualquer, graças a qual alcança imaginariamente legitimidade e autoridade para inventar uma forma de se fazer “crítica” que não critica nada, apenas reafirma a última moda em termos de ideologia burguesa, cuja decadência histórica não permite pensar mais que preconceitos tolos e sofismas chulos.

      É assim que cai no ridículo irracionalismo francês de 68, criador dessa “sua” pseudo-crítica ao racionalismo “eurocêntrico”, farsa dedicada a escamotear o fato do racionalismo ser oriundo também da França e a criar o mito da “cultura européia”, que na melhor das hipóteses é uma abstração tão gigante quanto vazia, e que só pode ser levada a sério a partir da ignorância mais absoluta acerca dos povos que habitam a Europa.

      Como perfeita seguidora da seita francesa meia-oito “anti-eurocêntrica”, mas tão européia quanto a França pode ser, que declara não haver verdade e portanto se compraz em enunciar reles lorotas arrogantes, você retrocede ao empirismo mais remastigado da história da filosofia – ao dizer que me dirijo a um mundo que não experimentei -, com a crendice mais disneylândica que consegue confessar ter, acreditando que a experiência legitima alguma coisa; a propósito, o geocentrismo agradece a sua militância no auto-engodo por dar-lhe “razão”.

      O irracionalismo não despreza a razão por pretender ter razão sobre ela, pois sabe que não tem, mas por puro ressentimento quanto à sua esquálida vontade de potência (que fica só na vontade e na amargura de sua impotência) diante do saber, mesmo o mais acadêmico e asséptico que houver, donde se recobre de autocondescendência orgulhosa da própria impostura e má-fé, pretendendo que seu louvor à ignorância e à força bruta (é o que resta após mandar a razão às favas) sirvam pra fazer crítica a qualquer coisa.

      Para os incautos, pode parecer haver sentido em toda essa asneira que você escreveu. Mas você se enganou quanto à candura do alvo de suas chorumelas. Neste espaço aqui, elas colam tão bem quanto araldite com cuspe.

      Recolha-se à sua comunidade religiosa anti-humanista e pequeno-burguesa. Aqui é lugar de se fazer críticas, não de se fazer confissões acerca das próprias taras.

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  4. Erik,

    conceitue, rotule e crie monstros para bater o quanto quiser. Utilize à vontade seu modo luckacsiano de pensar o dito “irracionalismo moderno”, que você associa ao pensamento francês 68. Gosto desse agonismo, gosto da contradição e sobretudo, da diversidade de pontos de vista que fatalmente se digladia ao ultrapassar a mera ilusão do cerebralismo objetivista. Gosto quando o saber sai do córtex e cai no “baixo ventre”. Aí nossos adversários se mostram e dão o soco na mesa, tão típico dos homens e das pessoas que se arrogam verdades e autoridades, aliás tão cultuadas no meio erudito. Os nossos pontos de vista são antagônicos. No entanto, meu argumento vai no cerne do paradoxo: Você me acusa de professar crenças irracionalistas e não percebe que sua verve racionalista e objetivista é também oriunda de um pathos, talvez não “intestinal”, talvez um pathos branco, frio e falocêntrico oriundo de um córtex bem alimentado há gerações tanto por comida quanto por ritos acadêmicos, diplomas, debates, artigos, teses, o que lhe alimenta ainda mais o eu, que por razões históricas você associou ao que considera ser a “inteligência”, objeto maior do desejo de sua vontade de poder e de seu pathos racionalista, tão europeu, tão século XVII. Seu objetivismo brota das entranhas mais profundas do seu “mundo particular”, da sua religião marxiana ateia e humanista, da sua certeza, veja só, da sua crença em verdades objetivas, da sua crença na ligação perfeita entre lógica e mundo. Mundo tétrico o seu, mundo de concreto, mundo feito da secura do trabalho, mundo de engenheiro, mas ressalto: mundo da tirania da razão, mundo da seleção cerebral, conservador e ancorado em tradições senhoriais, excludentes, iniciáticas. Meu mundo é eterna criação, transformação, surpresa, loucura, esperança, angústia, medo, coragem, força, fraqueza, meu mundo é caótico, mundo que a sua Razão tiraniza e que vem com a legitimidade torpe de uma filosofia falocêntrica, branca, temperada, careta, preconceituosa e absolutamente escarninha, cínica e patética. Se você chama isso de inteligência, faça bom proveito. O seu culto à verdade é diferente do meu. Creio em saberes, não num saber único, não numa metafísica objetivista que metaforiza o mundo como trabalho e como relações sociais condicionadas pela história das forças produtivas. Esse que você considera como o saber absoluto e irretocável, sinônimo de perfeição e de verdade, é um ponto de vista no meio do abissal conhecimento humano. Se isso é algo que penso a partir do meu próprio umbigo, ora, sinto e vejo o mundo a partir dele. Você não? ou será que sua subjetividade é um cérebro dissecado e deslocado da sua condição física, moral e social conectado por um fio lógico aos cérebros de todos os trabalhadores ao seu redor? Me parece mais um programa de computador que um pensamento vivo, sanguineo, humano. Humanismo estranho esse que advoga em prol de uma visão tão anatômica, fria e racional. Não faço panegíricos para o racionalismo. Ele cheira a poder e frieza.

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    1. E vc, cara Patrícia, me acusa de professar uma crença porque projeta nos outros seu hábito de pensar de forma mitológica.

      Não interessa e não está em questão, no meu texto, o meu “pathos”, enquanto o que vc escreve é apenas isso, seu umbigo.

      Me acusa de “eurocentrismo”, apesar dessa acusação ser oriunda da “crítica” francesa ao racionalismo.

      Minha “crença” no mundo objetivo não vem de nenhum tipo de doutrina filosófica, mas da mais simples e imediata prática cotidiana. Se vc não “crê” na objetividade, por que espera o carro passar pra só então atravessar a rua?

      Enquanto isso, sua crença subjetivista desemboca em duas coisas: primeiro, em tudo ser diluído em percepções privadas. O mundo é o seu mundo. Ora, para quê mudar o mundo, se ele é seu? Esse seu solipsismo redunda numa posição política e ideológica conservadora.

      Segundo, no discurso ser reduzido a quem o profere. Não mais faz a crítica das idéias, mas apenas a “crítica” de quem as profere. Os outros, na medida que discordam de vc, são os sectários, arrogantes, burros, etc. E vc é a verdade, a luz, a guru libertária. Tudo gira em torno do Eu, eu, eu, o seu.

      Ora: se a verdade é apenas a percepção, ela é uma coisa individual, então tudo é verdade, a minha percepção e a sua também, mesmo sendo contrárias. Mas isso significa que não há nada que possa servir de parâmetro para se avaliar as coisas e as idéias, exceto “eu”, a “minha experiência”. Portanto, não há diálogo, debate, conversa nenhuma com ninguém, já que os parâmetros (inclusive da linguagem) são propriedades particulares de cada indivíduo.

      Quem defende que cada um tem a sua verdade não pode censurar a opinião de nenhuma outra pessoa. Está abolida a crítica, vamos aceitar o que o William Bonner nos diz.

      Portanto, o ato de proferir opiniões é, pra vc, um reles exercício de auto-afirmação; e dane-se o que seja o assunto. Mas por que fazer isso, se cada um tem a sua verdade? A única resposta possível é: porque vc julga que o diálogo é exercício de poder, é ato político, e pretende influenciar a opinião alheia de modo a conquistar “likes”, ou seja, “base eleitoral”, ainda que não tenha sequer o grêmio de sua creche em disputa, apenas o desejo de aplausos na passarela de sua imaginação.

      Logo, e de acordo com sua própria crença pequeno-burguesa sub-nietzscheana, vc age de forma autoritária: pois, ao dizer sua opinião para outra pessoa, pretende que essa pessoa precise de algo mais que o que já pensa a partir de seu próprio pathos.

      E não é assim que seu médico também é autoritário, pois pretende ter autoridade ao receitar um procedimento tal para manter ou recuperar a sua saúde, quando a verdade é a SUA verdade e não a dele? Além de quê, a autoridade que ele pretende possuir vem de um “mundo da tirania da razão, da seleção cerebral, conservador e ancorado em tradições senhoriais, excludentes, iniciáticas, com a legitimidade torpe de uma filosofia falocêntrica, branca, temperada, careta, preconceituosa e absolutamente escarninha, cínica e patética”.

      Não compre um antibiótico quando precisar combater uns micróbios. Remédios são tirânicos. Vá viver na selva, em “harmonia” com a natureza.

      Por fim: se a verdade é aquilo que vc percebe, e o que vc percebe aparece como imagens na sua mente, então tudo que vc sonha é verdade e não há como distinguir sonho e vigília. E agora vc percebe isso assim, mas depois percebe isso assado… A verdade é que vc vive em pura confusão. Se seu mundo é loucura, ninguém pode saber o que esperar de seu comportamento. Portanto, seu lugar é no hospício, onde vc vai ter a oportunidade de conhecer isso que vc romantiza e falsifica como algo libertador.

      Passar bem.

      Curtido por 1 pessoa

  5. De fato é um tanto quanto absurdo associar o mundo e as relações objetivas à crença individual. Isso denota confusão e atabalhoamento noológico, processo que faz derivar os fenômenos objetivos de puros espectros mentais – espirituais. Para combater esses desvios ou curtos-circuitos do pensamento, é necessário que as ideias e a atividade da consciência sejam afiadas constantemente em linhas materialistas de raciocínio. Digo isso, pois eu, como membro de uma sociedade que produz fantasmagorias em série, todos elas possuindo um rótulo infame onde se lê “verdade”, também fui bastante acometido desde a mais tenra idade pelo subjetivismo: processo que faz derivar o mundo de categorias especulativas e abstrações individuais, derivadas diretamente da consciência imediata e dos sentidos, daí a ideia de pathos, constada no argumento acima. O certo é que o subjetivismo é produto de uma sociabilidade e de uma produção social adoentada pela propriedade privada, constituindo um dos meios espirituais de legitimação da ordem burguesa. Concordo com a argumentação que Erik trouxe à tona e desejo que a sociedade adote meios educacionais centrados no materialismo, no humanismo e no marxismo, que não são “frios” ou constituídos por formas perversas de poder, mas trabalhos teóricos e também práticos rigorosos e intensos, destinados à constituição de bases intelectuais e materiais capazes de produzir coletivamente a desalienação de nossa espécie, erguendo novos alicerces sociais baseados na razão e consequentemente numa sociabilidade sã.

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