Ateísmo vs. Agnosticismo

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Facebucking pela rede (anti-)social afora, acabei entrando numa página de ateus e esbarrando numa conversa recheada de comparações entre o “ateísmo gnóstico” – ou ateísmo “forte”, que seria a afirmação da certeza da inexistência de deus – e o “teísmo gnóstico” – ou, simplesmente, : afirmação da certeza da existência de deus.

Os argumentos diziam que estas “certezas” são meras crenças, pois não há como provar cientificamente nem a existência, nem a inexistência de deus.

Postos nesses termos, até que faz o debate parecer ter sentido.

(Vejam que, portanto, o ateu “forte”, o ateu pra valer, é um crente.)

Contra o gnóstico, seja ateu ou crente, se ergue vaidosamente a figura do humilde agnóstico: trata-se do ateu ou crente que afirma sua dúvida acerca de sua capacidade de conhecimento e de qualquer possibilidade de se obter certezas, ao menos nesse assunto.

(E, assim, fica no ar a conclusão de que o crente “fraco”, ou teísta cético, é um ateu.)

Como se pode notar, tudo aqui gira em torno dos sujeitos e da capacidade humana de conhecimento das coisas.

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Sejamos audaciosos: vamos procurar ver como a questão pode ser apreendida do ponto de vista das próprias coisas, ou melhor, da realidade das coisas, que é ou deve ser a mesma realidade dos sujeitos.

Antes disso, devemos lembrar que a pergunta acerca da existência – de deus e de tudo o mais – não pertence ao âmbito de nenhuma ciência, mas sim da ontologia. Nenhum químico, nenhum geógrafo, nenhum matemático coloca em questão o que seja a realidade, pois não se trata de assunto da química, da geografia ou da matemática, etc. Cientistas têm mais o que fazer.

Nosso assunto aqui é filosófico.

Para ser breve como um post de facebook: por definição, o que existe é objetivo, efetivo e repleto de determinações (i.é., concreto), donde possuir aquelas pelas quais se faz sentir. P.ex.: o raio X, tal como o ar, é invisível, mas é possível detectar sua existência através de sua ação, seja por meio da impressão de chapas, seja por observar seus efeitos no desenvolvimento de tumores. Em outras palavras, ele apela aos nossos sentidos, ainda que nossa limitada visão não capte senão os indícios de sua existência.

Nota bene: não estou entrando em nenhuma problemática gnosiológica, mas apontando para a ocorrência de uma relação objetiva que se instaura entre a coisa e o nosso próprio ser (a partir da qual, e somente então, se põe a questão da possibilidade de conhecê-la).

Em outras palavras, a objetividade daquilo que existe está justamente nesse potencial (e na efetivação deste) em constituir uma relação com as outras coisas e conosco também. Ora, isso é algo que se impõe a nós; ou seja, não depende de nenhuma subjetividade para existir e se estabelecer. Portanto, não se trata de uma questão de (limites do) conhecimento.

Alguém pode, e vai, perguntar: é possível tratar do ser sem, ao mesmo tempo (ou antes), tratar do conhecimento do ser?

Eis que entra em cena a filosofia moderna ou, se se quiser, burguesa. A partir da questão acima, ela põe a subjetividade como determinante da objetividade (“ego cogito, ergo sum qui sum” – semelhanças com a Bíblia podem ser apenas coincidências), quer dizer, subordina a questão ontológica à gnosiologia/epistemologia ou simplesmente a deixa de lado.

Assim é que o ateísmo passa a ser um agnosticismo, isto é, que se funde e se confunde com a problemática gnosiológica.

Em outras palavras, o que era questão de bom senso materialista, fincado na objetividade da própria vida humana em sua prática cotidiana, se torna especulação idealista acerca do acesso ou da barreira postos ao pensamento sobre a realidade.

O agnóstico tem dúvidas acerca da realidade porque tem uma crença inabalável na idéia de que a consciência é o ponto de partida para a verdade. O último resquício de sanidade de Descartes, as idéias adventícias, é ultra-remastigado até virar solipsismo em Berkeley, ceticismo em Hume, bolha de fenômenos em Kant e positivismo depois. O mundo girando em torno do umbigo do idealismo.

Isso não é senão o abandono do ateísmo mesmo.

Se ainda existe ateísmo, é graças ao materialismo francês e seus herdeiros; pero no hay chances de entrar em detalhes sobre essa história aqui.

Interessa é notar que hoje o ateísmo, ateísmo in iure et facto, se divide em dois: um que chega e estaciona em Darwin, julgando a sociedade humana como uma extensão da natureza (that’s the World WILD Web, e dá-lhe biologismo por todos os lados – via de regra, é o ateísmo que se manifesta ideologicamente no interior do espectro político de direita); enquanto o outro vai até Marx e trata a sociedade humana como uma nova forma de ser, uma emergência inédita de nova realidade em meio à natureza, sem se confundir com ela.

Graças ao seu materialismo grosseiro, ignorante e inconseqüente, a primeira forma de ateísmo coqueteia livre e serelepe com o idealismo, donde frequentemente se desfazer em agnosticismo.

Enquanto isso, a outra forma – pode parecer surpreendente – não visa destruir o teísmo, mas compreender sua gênese e razão sociais de ser; quando muito, lutar contra seu aspecto ideológico na arena da política, i.é., combater a idéia ali onde ela se faz ação. Pois ele entende que o teísmo, a consciência mítica, a religião e o idealismo não se auto-sustentam, mas existem por conta de uma determinada forma de sociabilidade em que o estranhamento se coloca na relação dos indivíduos com a natureza e especialmente entre si próprios.

De modo que, em verdade vos digo, não é tanto um contrassenso almejar, e até conseguir, provar a não-existência de deus, desde que tal prova tenha caráter ontológico, e não científico. Entretanto, a idéia de que o mundo muda a partir da crítica – seja lá ao que for – é ingênua. Não é o ateísmo, a ontologia ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas, visto que essa consciência provém do mundo em que elas vivem; afinal, “a consciência” nada mais é que a consciência que temos do mundo. Ora, o mundo atual demanda a todos nós que anestesiemos nossa sensibilidade, e isso se consegue não apenas com química, mas também com mitologia (e ambas rendem muito dinheiro, na medida que muitos são os que atendem a essa carência de auto-castração, a esse desejo de desdesejamento, visando satisfazer as suas próprias necessidades humanas cortando estas em sua raiz). Deus é, portanto, antes de tudo um produto e um problema sociais.

Pois o mundo atual é o mundo da sociabilidade do capital ladeira (ou abismo) abaixo, rumo à autodestruição. Isso é o que explica porque, apesar de tanto desenvolvimento científico alcançado, estamos regredindo cada vez mais em termos sociais e ideológicos, ou melhor, em termos humanos.

Este entendimento, como se pode notar, termina por ultrapassar o próprio ateísmo e se torna entendimento histórico – “ciência da história”, nos termos de Marx; no senso comum acadêmico, marxismo (um termo que se torna tão popular quanto maior a ignorância a seu respeito).

(Confira os textos “Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé” e “A importância do Materialismo para a práxis de esquerda“.)

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Enfim: o ateísmo não é a crença na inexistência de deus, derivada de uma crença na possibilidade de se provar (ainda mais por meio da “ciência” – qual delas?) que deus não existe. Ao contrário, ele simplesmente descarta tal “hipótese” como fantasia infantil.

E não é exatamente da mesma forma que qualquer um lidaria com o “problema” da existência de outros tantos “seres imaginários”, tais como duendes? Mas se o agnóstico alegar que esta seria uma “falácia da falsa analogia”, uma vez que duendes são idéias “materiais” (i.é., originados numa composição elaborada pela imaginação de figuras extraídas da experiência sensível, como as de anões, orelhas pontudas, cor verde etc.), enquanto Yahweh é metafísico, resultante de nossas “falhas cognitivas” e de nossa “necessidade de respostas”: tanto pior pra Yahweh e quaisquer outras “entidades metafísicas”, por tudo isso ainda mais absurdas que duendes.

(Para discutirmos o que é isso, a idéia de deus, e como se fabrica tal idéia, confira também: “Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro“, “Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa“, e ainda “Ciência e Religião: Diádocos da Alienação“).

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Para fechar o post, transcrevo e debulho um trecho do comentário de um dos debatedores – que procurava distinguir, mas também relacionar, ateísmo e agnosticismo, e justificar ambas as posições. O sublinhado é meu:

– “Não sei da existência de algum deus (agnóstico) ao mesmo tempo em que não vejo motivos pra acreditar que algum exista (ateu)“.

Perfeito. Justamente porque “não vejo motivos pra acreditar que algum deus exista” (e isso decorre do fato de a posição ateísta partir da realidade na qual, por meio da qual e com a qual nós existimos; e somente esse, é evidente, pode ser um ponto de partida racional), não faz nenhum sentido se indagar acerca das possibilidades de saber da existência de algum deus – tal como faz a posição agnóstica, idealista que é, ao abstrair a realidade e a vida do próprio especulador de idéias.

Donde o agnosticismo, ao acreditar que a questão se dilui na “incapacidade humana” de provar isso ou aquilo, não se põe exatamente “em cima do muro” entre ateus e crentes, mas sim na pocilga da tibieza – lugar próprio de toda sorte e azar de covardes, conciliadores, sicofantas e demais “apartidários” -, o que é pior que estar entre ateus de direita; pois lhe apraz roçar a cachola no lamaçal ridículo dos pseudoproblemas de um pensamento isolado da prática.

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cardápio do ateísmo agnóstico
Eis aí o cardápio eleitoral da gnosiologia: escolha seu pastor.

Uma nota sobre o misticismo da noção de “ideologia” no marxismo vulgar

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Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim“.

Marx: Prefácio de 59 (grifos meus)
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Por que “o pobre” vota na direita?
 
Por que os trabalhadores não se revoltam contra sua própria condição de dominados?
 
O que faz com que “não percebam” a desigualdade social como injustiça?
 
Essas e outras questões afins são respondidas pelo marxismo vulgar a partir do “conceito de ideologia de Marx”, que explicaria a dominação e hegemonia da classe burguesa.
 
Trata-se de uma tese ela mesma tão dominante e hegemônica no marxismo quanto simplória e idealista:
 
A Ideologia[*] (não é nem uma ideologia, é a maiúscula mesmo) torna os trabalhadores dóceis e escamoteia a exploração ao naturalizar as relações sociais.
 
Mas o mistério começa quando perguntamos: como é que ela “cola” na cabeça deles?
 
(A título de provocação: antes do capitalismo havia também uma “ideologia feudal” que mascarava a servidão dos trabalhadores na corvéia, de modo a impedir que eles não se rebelassem contra ela?)
 
Pois a tese da dominação por meio da “ideologia” – de lavra neo-hegeliana e combatida por Marx em “A Ideologia Alemã” (um dos livros mais ignorados entre os marxistas em geral) – não tem uma palavra sequer a dizer quanto à chantagem do assalariamento, ou melhor, à separação de trabalhadores e meios de produção. Por isso mesmo é que ela possui esse aura místico e nas brumas deste se mantém.
 
E o pior é ver isso sendo vendido como marxista – quando o marxismo busca, ao contrário, compreender as produções ideais a partir das relações sociais de produção, donde jamais admitir a idéia de uma fantasmagoria flanando sobre os indivíduos e determinando suas ações de forma descolada de suas vidas materiais ou decalcada em seus cérebros.
 
Ao mandar o materialismo às favas, o marxismo vulgar não perde apenas a total capacidade de compreensão do que sejam as ideologias, mas também a possibilidade de simplesmente identificá-las enquanto ideologias. Daí pra frente, tudo se torna gato pardo na noite escura: a práxis se torna praticismo mecânico e realpolitik oportunista, e o próprio marxismo vira um Frankenstein teorético qualquer.
 
Exemplos não faltam, né?
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* A propósito da tradicional idéia de uma “ideologia dominante” na sociedade capitalista, a “ideologia burguesa”:

Não existe “a ideologia burguesa”, e sim várias ideologias burguesas. Qual delas é a dominante?

Ao meu ver, é difícil dizê-lo. Principalmente porque o “senso comum” está impregnado de muitas ideologias (inclusive não-burguesas), porém nenhuma delas está presente nele por inteiro, senão em pedaços. Poucas pessoas procuram estudar as ideologias e conhecê-las integralmente.

De modo que talvez pudéssemos dizer que o dominante no senso comum são retalhos ideais de procedência burguesa, mas isso não significa que sejam partes de uma mesma ideologia. Por exemplo, encontramos nele um bocado de idéias realistas, mas pragmáticas (derivadas das relações práticas mais imediatas, empíricas, da sociabilidade mercantil), ao lado dos idealismos mais místicos; ou então, idéias que fazem apologia direta do mundo atual ao lado das que fazem outra forma dessa apologia, por via “crítica”, negando o paraíso da primeira forma ao mesmo tempo que toda via de superar tal mundo; cientificismos e subjetivismos; positivismos e pós-modernismos; flower-power e punk; ateísmo e agnosticismo; Keynes e Mises; etc. 

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PS. Marx não fala em lugar algum que “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”, mas sim que

As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão submetidas em média as idéias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As idéias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, ou seja, as idéias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante também têm, entre outras coisas, consciência e, portanto, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda a sua extensão, e consequentemente, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, e regulam a produção e a distribuição de idéias do seu tempo; donde as suas idéias são as idéias dominantes da época“.

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[Confira este outro texto, em que relaciono ideologia, alienação e fetichismo: Alienação: fenômeno objetivo social, e também este aqui, a respeito da relação consciência – vida cotidiana: Nada mais natural que um pobre de direita]
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Heidegger versus Marx, ou: de como interpretacionar é cambalhotar as idéias

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É incrível como esta simples afirmação se mantém atual:

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo“.

Você não apenas está careca de saber que foi Marx quem a disse, mas sabe onde, quando, como, porque etc. Né? É. Mais ou menos. Ok.

Aí vem Heidegger e tenta dar rasteira no homem com um “entretanto”: tal enunciado dependeria, antes de tudo, de uma interpretação acerca da filosofia, do mundo etc. e, portanto, não teria legítima autoridade para dizer qual seria “a questão” diante de outras interpretações.

Enquanto Heidegger demonstra, por meio dessa crítica a Marx, que ele mesmo e sua crítica tampouco poderiam possuir legitimidade e autoridade para criticar seja o que for – pois mergulha no interpretacionismo como fundamento do discurso, na dissolução da objetividade num subjetivismo absoluto (“a realidade sou eu”, “ser é perceber” etc) -, Marx não está criticando o ato de se pensar, interpretar e criticar o mundo, mas a idéia de que basta fazer isso para que ele mude.

Ora, quem pensa uma coisa dessas? Não é essa a pergunta, e sim “quem não pensa dessa forma?”.

De fato, por todos os lados, não faltam “críticos da consciência” alheia. Fazem a crítica do que os outros pensam e acham que, se todos pensarem de forma “crítica”, o mundo muda e vira um paraíso.

Ainda assim, as novas idéias assistem o mundo continuar afundando e piorar. Então, o que fazem os interpretacionistas? “Repensam” o mundo, criam eufemismos, espalham aspas e hífens; e o mendigo passa a ter a dignidade de ser, agora, um “morador” de rua. Mude a cabeça, pense positivo, leia a Bíblia, repita “eu sou 100%” diante do espelho, interprete o mundo de maneira “diferente”. Talvez, e ao menos, a “sua” realidade muda. É só ver como acontece com a de quem avança no alzheimer.

Nota bene. A crítica de Marx é a denúncia de um pensamento que faz interpretações e críticas sem qualquer critério na realidade, mas apenas em si mesmo.

O próprio Heidegger jura ser necessário interpretar o mundo de uma forma qualquer – e isso diante de sua desgraça evidente – para dizer que é preciso transformá-lo.

Se Heidegger fosse judeu, poderia ter beneficiado a história do pensamento humano simplesmente por não poder ter pensado e dito nada do que pensou e disse; pois os judeus possuíam critérios para pensarem o mundo, algo do qual dependia a possibilidade de continuarem respirando e, portanto, não apenas era totalmente independente do que pensavam e interpretavam, mas ainda era o que lhes permitia distinguir o que seria uma interpretação razoável do mundo e o que era esse monte de sofismas que Heidegger chamava de “filosofia”.

Só que Heidegger não era judeu, e sim Heidegger, o filósofo que pensava para Hitler. Nada melhor que um interpretacionismo para justificar a barbárie.

E o que aconteceu de lá pra cá? O idealismo que Marx arrasou e que Heidegger reafirmou – como se nada houvesse acontecido e, pior ainda, contra o próprio Marx – venceu a disputa ideológica.

Até o marxismo chega a ser neo-hegeliano: “a ideologia” impede os trabalhadores de se revoltarem, etc. Adeus, materialismo!

Estamos sob um “imperialismo da conscientização”. E quando você ouve falar da “hegemonia do marxismo cultural”, você está escutando o ecos da crítica de Heidegger: “finja (se possível, para si mesmo também) que está criticando Marx, e pronto – Marx está refutado”. Como se “a interpretação marxista” tivesse almejado e conquistado “hegemonia cultural” – e pior: o fez ardilosamente, às custas de privar as consciências da crítica! 

E assim segue a crítica a fazer o que Marx disse ser a atividade dos neo-hegelianos: “crítica da crítica crítica”, ainda que tamanho criticismo se apóie apenas em interpretações, ou seja, pensamentos que possuem lastro em umbigos “críticos”, autodeclarados como parâmetros da realidade (afinal, Heidegger faz uma “ontologia”), da mesma forma que uma religião declara ser a única verdadeira via para a salvação.

Pois bem. Marx pôde constatar o momento histórico em que a imbecilidade se despiu da vergonha e passou a arrogar-se o status de legítimo e demolidor olhar crítico, no início do período da decadência civilizatória burguesa. Certamente ele pressentia o quão fundo na lama o pensamento humano ia atolar, se o capitalismo perdurasse poucas décadas mais. Sua morte o privou do desgosto de ver o quanto tais pressentimentos eram pálidos diante do que surgiria pouco depois – pra não falar do que se pensa e se diz hoje.

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P.S.: vale a pena notar que a relação mundo-indivíduo em Heidegger se mostra tão desconexa que ele é incapaz de enxergar uma possibilidade de superação da alienação – ou, nos termos do pensador nazista, da “derrelição”, “ruína”, “queda” [sic], “inautenticidade” etc. -, e, assim, só lhe resta concebê-la enxertada na própria natureza do “Dasein“. Não por outro motivo que ele pensa o homem como reles “ser para a morte”, desprovido de qualquer sentido, uma vez que a vida humana é inautêntica na medida mesma que é social. Outros problemas que disso advém (ou a isso servem de base) se mostram no dualismo entre ente e ser, na separação entre o âmbito ôntico e o âmbito ontológico, na “denúncia” da razão e da tecnologia (descambando em franco irracionalismo e na apologia do obscurantismo), na recusa do aspecto objetivo da natureza, da sociedade e dos indivíduos, no isolamento da subjetividade, na pretensão de fazer uma crítica ontológica à metafísica que não é mais que pura e explícita metafísica – e que se desdobra em antropologia filosófica, existencialismo e gnosiologia, ainda que ele terminantemente se recusasse a reconhecê-lo -, donde também fazer uma redução da historicidade à temporalidade e promover uma inflação subjetivista na estética; ou ainda, migrar para a hermenêutica como método, e depois para a poesia como lugar da “expressão do ser” (já que a razão não pode exprimir o Dasein – é o impasse que o faz abandonar inacabado o seu “Ser e Tempo”). Heidegger realiza sua mitomania e termina falando de uma necessidade de “abertura ao ser” – como se o fato de sermos materiais, e estarmos em meio à natureza e ao mundo humano materiais, já não nos colocasse em relação imediata com o “ser”, “abertos” a tudo que existe.

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heidegger

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Dialética: motor das “etapas da história” no marxismo vulgar

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O capitalismo é o último e mais avançado tipo de sociabilidade reproduzida por homens que “o fazem, mas não o sabem”, donde a aparência de uma forma social que emergiu naturalmente, tal como as anteriores, semeando nas imaginações adubadas com esterco religioso a idéia de um mecanismo ou um deus que dirige a história do alto de sua dimensão etérea e atemporal.

O marxismo vulgar reproduz tal idéia com um esquematismo que chama de “dialética”, sobre o qual elabora o chamado “etapismo”, decreto que certifica a chegada do comunismo (“próxima etapa da história”) como um evento tão absolutamente certo e necessário quanto o retorno do cara que fazia vinho com a água da cumbuca.

Imaginam os etapistas que o comunismo, a economia finalmente tornada atividade social e racional, virá pela mesma atividade de homens que “o fazem, mas não o sabem” que instaurou a degradação universal de nossos dias.

É “dialético”: do lodo nasce o lótus, e da ignorância de tais sub-marxistas nascerá o “novo homem”, tão novo quanto um australopiteco, verdadeira possibilidade de realização natural de um pós-capitalismo.

Daí que o diálogo com estes praticistas é tão producente quanto o que se pode ter com crentes, coxinhas etc. A Bíblia, Ovalo de Carlhavo e Stálin pensam por eles; o que lhes cabe é fazer panfletagem de santinho em meio ao populacho inocente.

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Marxismo para os Homers Simpson

Marx: o materialismo contra a dialética

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Não existe uma estrada real para a ciência, e
somente aqueles que não temem a fadiga de galgar suas
trilhas escarpadas têm chance de atingir seus cumes
luminosos” (O Capital)
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Certos marxistas gostam de dizer que o marxismo se corrige e se apura ao longo de sua história, através de “contribuições” dos mais díspares autores, cujo marxismo e contributo são garantidos por sua fidelidade ao “método do materialismo dialético”.
 
São incapazes, entretanto, de corrigir ou eliminar essa farsa chamada “dialética marxista”.
 
Há, dentre outros mais, um texto de Marx claríssimo na crítica à dialética. É o capítulo “O Método da Economia Política”, de seu livro “Miséria da Filosofia”, onde mostra que o pensamento dialético está na verdade em Proudhon, de quem Marx critica o procedimento de encaixotar as categorias econômicas em categorias lógicas, produzidas por um ato especulativo que consiste em galgar os graus da abstração até se chegar em um patamar vazio de determinações, donde tais categorias serem “puras”; posteriormente, tais categorias são organizadas logicamente, e pronto: nasce mais um sistema dialético.
 
Falar de um “materialismo dialético” é cair imediatamente em uma contradição nos termos, pois enquanto o materialismo é ontológico – trata “o ser” não como categoria pura comum a tudo que existe (e que, portanto, nada tem a dizer de coisa alguma), mas considera “o ser” como um ser, uma coisa, um objeto, síntese de múltiplas determinações, ou seja, concreto, particular, específico, que apela não apenas ao pensamento mas também aos sentidos (pois dentre sua riqueza singular de predicados estão os que o tornam material) -, a dialética é um logicismo, uma fórmula metafísica dotada de “princípio”, não importa que não seja o ser “positivo, estático, eterno, imutável, infinito, perfeito, uno, em-si, esférico, absoluto” da metafísica tradicional (categorias do tempo, do espaço, da forma, do conteúdo, do ato etc. abstraídas e hipostasiadas ao vácuo total), mas sim o “devir”, o movimento tornado categoria pura, síntese da relação contraditória entre a pura “positividade” e a pura “negatividade” (Hegel inicia a “Ciência da Lógica” com a “análise” abstrativante da relação entre os puríssimos “ser” e “nada”, para fazer pipocar daí o “devir”); e de toda essa construção ideal pura, este “processo de contradições e sínteses que põe tudo (?) em movimento”, pretende alcançar o que é a verdade daquilo que é ontológico, concreto, impuro, que apela ao sensível muito antes de apelar ao pensamento filosófico, o que é verdadeiramente um absurdo e só pode se destinar ao fracasso ridículo, como todo bom sistema metafísico.
 
Donde Marx não partir de nenhuma dialética hegeliana, muito menos enxertando nela “o material” (o que seria um transplante totalmente estranho ao pensamento hegeliano) e retirando dela a “casca” de idéias irracionais do idealismo; algo que, convenhamos, teria sido extremamente banal de se ajeitar e não faria Marx merecer lugar nenhum na história da filosofia e da ciência.
 
O que Marx faz, ao contrário de partir de um método dialético – que só serve para enquadrar as coisas numa lógica -, é buscar “a lógica específica do objeto específico”, entender o objeto a partir de si mesmo, extrair suas diferenças específicas, compreendê-lo em sua especificidade.
 
Daí que não se trata nunca de ficar no âmbito abstrato da “aplicação” de categorias abstratas, tais como modo de produção tal, relação social de produção tal, forças produtivas contraditórias a tal, infraestrutura assim, superestrutura assado, logo revolução. Marx, ao contrário disso, investiga as coisas a fundo, e a tal ponto que desmente uma série enorme de receitas distribuídas pelo marxismo de apostila, como p.ex. a idéia de etapas necessárias no desenvolvimento de uma economia para poder transitar ao comunismo (o etapismo, está claro, é fruto do logicismo, da dialética aplicada do éter teorético do mundo das idéias abstratas sobre a realidade concreta da prática – uma tremenda imbecilidade intelectual).
 
O procedimento de Marx é materialista, crítico-ontológico.

Materialismo não é uma lógica, uma aplicação de métodos ou uma combinação nova de idéias (extraídas, arbitrariamente, do sistema filosófico alheio no qual fazem sentido); como bem viu Lenin, ao proceder ontologicamente, “Marx não nos deu uma Lógica, mas sim a lógica do capital”.

 

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P.S. – Um interlocutor insistiu na existência de uma dialética em Marx, citando o famoso Posfácio à Segunda Edição de O Capital, onde encontramos um rol de elogios a Hegel e à “forma racional e revolucionária” da dialética, que será “enfiada na cabeça dos novos-ricos do novo Sacro Império Prussiano-Germânico” pela vindoura e intensa “crise geral”.

Chamei-lhe a atenção para as palavras que se encontram dez parágrafos antes:

“O Correio Europeu, de São Petersburgo, em um artigo inteiramente dedicado ao método de O Capital (maio de 1872), considera meu método de investigação estritamente realista, mas o modo de exposição, desgraçadamente, dialético-alemão”.

E em meio à resposta de Marx, temos essas linhas:

“Sem dúvida, deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma do modo de investigação. A investigação tem de se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Se isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se encontrar diante de uma construção a priori”.

O método dialético de Marx é, pois, um método de exposição.

Mas ainda há uma carta escrita a Engels em 1867, na qual se lê:

“Você tem toda razão a respeito de Hofmann. A propósito, você verá na conclusão do meu capítulo III, onde eu esboço a transformação do mestre-artesão em capitalista – como resultado de mudanças puramente quantitativas – que, no texto, eu cito a descoberta de Hegel sobre a lei de transformação de uma mudança meramente quantitativa em uma mudança qualitativa como sendo atestada pela história e, de forma semelhante, pelas ciências naturais”.

A passagem aludida por Marx está no capítulo “Taxa e Massa de Mais Valia” (O Capital) e diz o seguinte:

“As corporações de ofício da Idade Média procuraram impedir pela força a transformação do mestre-artesão em capitalista, limitando a um máximo muito exíguo o número de trabalhadores que um mestre individual pode empregar. O possuidor do dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente num capitalista quando a quantidade desembolsada para a produção ultrapassa em muito o máximo medieval. Aqui, como na ciência da natureza, mostra-se a exatidão da lei, descoberta por Hegel em sua Lógica, de que alterações meramente quantitativas, tendo atingido um determinado ponto, convertem-se em diferenças qualitativas”.

Quanto a isso, cabe dizer que os princípios da dialética hegeliana se assentavam no que Lukács chamou de “a autêntica ontologia de Hegel” (devidamente tornada falsa por meio do logicismo dialético). E quando Marx aponta tais princípios (ou “leis”) no próprio objeto, não está aplicando a dialética de Hegel nele, mas extraindo do objeto o próprio arrimo da aplicação da dialética como método de exposição. Só por isso, aliás, é que tal aplicação é possível e não-arbitrária.

Mas tais princípios não são a afirmação de uma ontologia dialética, uma dialética da natureza ou da realidade dialética em si mesma. Por exemplo, a contradição: é na investigação da mercadoria que Marx a identifica atravessando sua essência constituída por valor-de-uso e valor. De modo algum a contradição é natural aos produtos do trabalho humano, enquanto simples valores-de-uso, mas é assumida por estes em seu existir concreto no modo de produção capitalista, em sua existência objetiva como mercadoria.

Hegel mesmo era um entusiasta da Economia Política. Não retirou seus princípios dialéticos de nenhuma dialética originária, porém os recobriu com os resultados lógicos – a que chegou por via especulativa – e transformou tais princípios em fundamentos de uma verdadeira metafísica, reduzindo a historicidade a uma teologia, com a qual traduziu filosoficamente a Bíblia: no início temos a Idéia, que então é negada por sua alienação original sob a forma de Natureza, para que, ao fim de todo seu trabalho de resgate de si, atinja o estágio absoluto do Espírito revelado. 

Ao contrário disso, e do que crê o marxismo da dialética marxiana a priori, o método dialético de Marx é totalmente a posteriori. Pois bem, nem todos os marxistas retiraram a “casca irracional” da teologia hegeliana e ainda aguardam o Juízo Final sob o comunismo; mas, dentre aqueles que a descascaram, alguns não perceberam que o “invólucro racional” está por ser descoberto nas coisas mesmas, e insistem na metafísica hegeliana de uma lógica dialética pairando sobre a realidade.

 

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Mais um adendo, em resposta a um interlocutor.

Marx constata um caráter contraditório nas relações categoriais reais da sociabilidade capitalista (como ocorre, p.ex., entre valor de uso e valor). E, ao identificar na dialética hegeliana a exposição de formas GERAIS do movimento da contradição, reconhece aí um mérito, um “caroço racional”, mas situado no patamar da generalidade, fazendo ainda a ressalva de que tal movimento sofre uma mistificação em Hegel.

Marx diz: “Meu método dialético é, em seu fundamento, não apenas diferente do hegeliano, mas oposto direto dele”.

Pois Marx não mistifica a contradição como se esta fosse um “sujeito” que se move na relação antitética entre valor e valor de uso, mas a reconhece como um traço imanente à forma de ser dos produtos realizados pelo trabalho no processo de valorização.

Portanto, Marx não se arrima numa adaptação absurda da lógica idealista em uma concreção materialista, mas se ergue a partir do reconhecimento da objetividade e efetividade de processos, entes e relações, finitos e específicos. A oposição a Hegel é de natureza ontológica, materialista, assentada no que se define como ser, anterior ao – e definidora do – conhecer.

Ao reproduzir tais categorias e relações conceitualmente, Marx não configura uma lógica que permitiria plasmar teoricamente objetos quaisquer. Ao contrário, e prevendo tal impressão (que faz história no marxismo vulgar), afirmou ser necessário ter cuidado para que a forma expressiva e o desenvolvimento da argumentação não tomassem a aparência de uma “pura dialética de conceitos”:

“Será necessário, mais tarde /…/, corrigir o modo idealista da apresentação que produz a aparência de que se trata simplesmente das determinações conceituais e da dialética desses conceitos. Sobretudo, portanto, o clichê: o produto (ou atividade) devém mercadoria; a mercadoria, valor de troca; o valor de troca, dinheiro” (Grundrisse, p. 150, Boitempo).

O que é a dialética vulgar senão isso: a tese devém antítese, que devém síntese, que devém nova antítese etc?

A exposição do desenvolvimento categorial do objeto não é a descrição de uma concatenação lógica mística, mas sim a expressão crítica das conexões das categorias no interior dos complexos examinados, uma explicitação de suas relações reais.

 
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Marx[1]
hay que apreender a lógica específica

Capitalistas malvados e o ódio entre as classes

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É recorrente a acusação jocosa contra o marxismo de promover ódio entre as classes e taxar os empresários de malvados.

O tanto que essa difamação tem de ignorância já começa no fato de admitir e aceitar, sem a menor problematização, a existência de classes, que não é outra coisa que justamente o foco da crítica de Marx.

Seu modus operandi é o mesmo do mais simplório moralismo: primeiro, ela abstrai o indivíduo da sociedade; assim, ao torná-lo entidade auto-sustentada, isolada e independente de tudo mais, conclui: o empresário é apenas alguém que se deu bem, e a crítica ao capitalismo é pura inveja de quem não se esforçou [sobre isso, confira o texto: Inveja esquerdista contra os bem-sucedidos?].

Mas o marxismo percebe que os indivíduos situados na classe dominante, além de não terem escolhido nascer enquanto tais, devem jogar o jogo que o capital põe para eles, sob pena de quebrarem, ou seja, falirem. Desse modo, eles estão também subjugados ao capital, como todos os demais.

Da alienação do indivíduo capitalista, Marx disse: “seu gozo é apenas coisa secundária, repouso, gozo subordinado à produção e, portanto, mais calculado, e mesmo mais econômico, pois o capitalista soma seu gozo aos custos do capital e, por isso, aquele deve custar-lhe apenas uma quantia tal que o que foi esbanjado seja restituído pela reprodução do capital mais o lucro. O gozo é subordinado ao capital e o indivíduo que goza é subordinado àquele que capitaliza, enquanto antes sucedia o contrário” (MEF).

Por conta disso, adquirem traços morais próprios de quem conta centavos. É a vida que levam e a “profissão” que exercem que demandam tal caráter. 

Então, o indivíduo capitalista é moralmente repulsivo? Sim. Mas o alvo do marxismo não é o indivíduo, e sim as classes sociais que, ao lado da divisão social do trabalho, o determinam; e tem em vista justamente emancipar o indivíduo delas, inclusive os burgueses, cuja alienação – submissão ao mercado – é sem dúvida menos embrutecedora que a que se manifesta na classe pequeno-burguesa e na classe trabalhadora; entretanto, nem por isso deixa de sê-lo também.

Ao contrário do que ocorre no marxismo, é na própria ciência econômica burguesa que mais se vê moralismo. Sobre isso, diz Marx:

A economia política, esta ciência da riqueza, é assim também a ciência da renúncia, da privação, da poupança, e chega realmente a poupar ao homem a necessidade de ar puro e movimento físico. Esta ciência da maravilhosa indústria é ao mesmo tempo a ciência do ascetismo, e seu verdadeiro ideal é o avaro ascético, mas usurário, e o escravo ascético, mas produtivo. Seu ideal moral é o trabalhador que leva à caixa econômica uma parte de seu salário. Por isso, a economia política, apesar de sua aparência mundana e prazerosa, é uma verdadeira ciência moral. A mais moral das ciências. A auto-renúncia, a renúncia à vida e a todo carecimento humano é seu dogma fundamental. Quanto menos comas e bebas, quanto menos livros compres, quanto menos vás ao teatro, ao baile, à taverna, quanto menos penses, ames, teorizes, cantes, pintes, esgrimes etc., tanto mais poupas, tanto maior se torna teu tesouro, que nem traças nem poeira devoram, teu capital. Quanto menos és, quanto menos exteriorizas tua vida, tanto mais tens, tanto maior é tua vida alienada e tanto mais armazenas da tua essência estranha. Tudo  o que o economista tira-te em vida e em humanidade, tudo isso ele te restitui em dinheiro e riqueza, e tudo o que não podes, pode-o teu dinheiro. Ele pode comer, beber, e ir ao teatro e ao baile; conhece a arte, a erudição, as curiosidades históricas, o poder político; pode viajar, pode fazer-te dono de tudo isto, pode comprar tudo isto; é a verdadeira fortuna. Mas sendo tudo isto, o dinheiro não pode mais que criar-se a si mesmo, comprar-se a si mesmo, pois tudo o mais é seu escravo, e quando eu tenho o senhor, tenho o servo e não preciso dele. Todas as paixões e toda atividade devem, pois, se afundar na avareza. O trabalhador só deve ter o suficiente para viver e só deve querer viver para ter” (MEF).

A questão moral está absolutamente fora de questão para o marxismo – que, muito antes de pregar qualquer discórdia entre ricos e pobres, apenas a constata, e ainda a explica. Comunistas não precisam promovê-la, ela já estava aí bem antes.

Mas o mesmo mecanismo de pensamento abstrato leva o acusador antimarxista a crer que a luta de classes “não existe”, “não passa de um bando de petistas e antipetistas se atracando na rua” ou “é invenção do PT para desunir o povo” (linda palavra essa, “o povo”, no interior da qual as diferenças entre um acionista de uma corporação multinacional e o seu Ninguém “morador de rua” desaparecem!). Acontece que a expressão “luta de classes” não surgiu da cabeça de Zé Dirceu ou da de Marx. Ela surgiu na França dos tempos da revolução burguesa, e traduz um fenômeno perfeitamente empírico: a relação inversa entre lucro e salário, donde o antagonismo – radicado na própria essência da sociabilidade – entre os interesses da classe trabalhadora e classe burguesa. Que isso possa tomar as mais diversas formas, incluindo violência e todo tipo de ódios, é apenas uma consequência trivial.

Mas não espere que um moralista entenda qualquer coisa sobre classes sociais: porque isto está para muito além do que a avareza de seus olhos o permitem enxergar.

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luta de classes não existe - seu favelado burro
Para quê responder a mensagem, se eu posso desclassificar o mensageiro?

Marx e as novas esquerdas

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Quem já teve e fez valer a oportunidade de ler um texto qualquer de Karl Marx pôde perceber algumas especificidades, como a contundência implacável e devastadora de sua crítica, um limpa-trilhos que não deixa escapar nada de seu extremo rigor analítico; a fundamentação exaustiva, baseada em um conhecimento profundo dos assuntos abordados e em uma série gigantesca de referências, esmiuçadas em detalhes que chega a parecer preciosismo; o propósito de límpida clareza e franca honestidade, tendo em vista que a intervenção da teoria sobre a prática social e política dos indivíduos só pode ser realmente efetiva sobre estes pressupostos; um estilo literário requintado, sagaz, inclemente e sarcasticamente mordaz ao avaliar a sociabilidade atual e seus mais sumos apologetas; etc.

Estou chamando a atenção para isso porque não é à tôa que Marx coleciona tantos detratores e inimigos, dos mais raros elegantes aos mais abundantes hediondos, desde quando ainda vivia até os dias de hoje, inclusive dentro de certas correntes ditas “de esquerda”. Mas, se é verdade que ele nada teria mais a nos dizer, por que ainda se chuta tanto o que não seria outra coisa que um cachorro morto?

É notável que, nos círculos da suposta esquerda “não-marxista”, as posições, por mais sofisticadas que se apresentem, não apontam para nenhuma superação realista (ou mesmo fantasiosa) da situação humana atual, em livre e acelerado processo de degradação completa e universal. Tudo se resume a críticas pontuais e, ainda que justas, surgem isoladas de uma compreensão e pretensão de totalidade. Ao contrário, trata-se de negar a possibilidade de tal compreensão e de tal pretensão. Com isso, não apontam para além de um reformismo com fins a perfumar o esgoto no qual afogam-se todos.

Exatamente por conta disso, é fácil perceber que essa “esquerda” não-marxista reproduz todos os vícios da subjetividade estranhada e alienada que supostamente visa criticar – até porque só o faz teoricamente, mas não na prática. É como uma espécie de entretenimento acadêmico que não corresponde e nem visa corresponder à vida individual do próprio “esquerdista”, ou seja, é a crítica reduzida a um reles exercício de oratória – no que alguns se esmeram a ponto de enganar muita gente de boa-fé.

Já não nos faltam casos exemplares a confirmar o que poderia não passar de um mero indício – da completa desonestidade, por parte de tais retóricos, ao desprezarem o trabalho de Marx, mesmo quando feito com a complacência de colocá-lo ao lado de outros tantos “autores clássicos do pensamento ocidental”, aliás uma indulgência que só acentua tal desdém. Apenas mais um dentre tantos, portanto, alguém que pode ser nivelado por uma média, alguém que pode ser colocado na prateleira dos “autores de seu tempo”, ao lado dos demais.

No entanto, e não tenho porquê não dizê-lo, Marx é um autor excepcional. Isto em nada significa menosprezar os muitos brilhantes gênios da história da filosofia e da ciência, aos quais não cabe nenhum tipo de desmerecimento, ou ao legado que nos deixaram. Mas, ainda assim, são apenas alguns deles que possuem o direito a um lugar especial na História. Porém, Marx é o único deles cuja obra é absolutamente inescapável, seja como interlocutor ou mesmo adversário, se quisermos discutir a situação histórica atual da humanidade e suas perspectivas de futuro. Qualquer outra forma de tratamento a ele dispensada é digna de justificada desconfiança.

Marx é parâmetro para uma prática emancipatória sincera. Muitos outros escritores podem nos ser valiosos também. Mas, todos eles ou a ampla maioria, como notas de pé de página à obra do velho extraordinário.

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