Radicalidade: moral e inteligência verdadeiramente humanas

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Porque tantas críticas à esquerda? Será que eu sou lateral-esquerdo do time da direita?

Não.

Fazer crítica à direita é o feijão com arroz, na medida que ela mesma já se autodesqualifica, ainda que a crítica seja necessária quando o óbvio precisa ser mostrado nas fuças dos inocentes (o que tem sido o caso há muito tempo, como viu Brecht).

A crítica à esquerda, na medida que ela pretende ser a representação política da luta pela emancipação dos trabalhadores, mas não faz jus a tal pretensão, deve ser implacável, de rigor e radical – por uma questão de honestidade teórica e prática para com os fins pretendidos; tão implacável, de rigor e radical quanto a crítica ao modo de vida burguês.

Radicalismo não é sectarismo ou dogmatismo, e sim a posição mais coerente e consequente com a verdade da necessidade de vida humana autêntica

Ser radical é ir à raiz das questões. Quem não é, bóia na superfície – e nada é mais conveniente, não só porque é fácil, mas porque as aparências enganam.

Assim como o reconhecimento dos princípios morais não faz necessariamente alguém ser um moralista, afirmar a existência de verdades nem sempre faz de alguém um partidário do dogmatismo.

Aliás, se “dogma” significa “verdade inquestionável”, o reconhecimento da validade de alguns “dogmas” – você pode abstrair estas aspas sem nenhum problema – é simplesmente um dever trivial (intelectual e moral, teórico e prático) de quem possui córtex cerebral.

Por exemplo, contestar algo como a verdade da afirmação “verdades existem” não faz de um sujeito o campeão da crítica, mas sim da pura e sórdida burrice.

Ater-se a princípios morais ou dogmas, na crença de que basta “desdobrá-los” e/ou “aplicá-los” nos fatos concretos para compreendê-los, eis o que produz moralismo e dogmatismo; eis aí a mistificação (do que era razoável) que merece ser alvo da crítica.

Todo crítico é um relativista, mas nem todo relativista é um crítico. A diferença entre eles é que o crítico só é capaz de fazer a crítica porque parte do reconhecimento de um critério, e faz a relação das coisas com ele; já o relativista é aquele que faz “crítica” do critério e, por isso, relativiza tudo, de modo a cair no relativismo absoluto – donde este relativista se mostrar um absolutista, exatamente o que ele imaginava se opor.

Um cético só se faz importante para o saber e para a ação na medida que reconhece verdades das quais ele parte; ceticismo absoluto é dogmatismo.

A propósito: nem todo “ismo” é abstrato, nem toda crítica é concreta. A crítica aos “ismos em geral” é, ela mesma, um… criticismo.

Nem tudo que é simples possui a virtude da clareza; por vezes, possui apenas a pobreza da simploriedade.

Pois a realidade é complexa; mas nem todo pensamento complexo é verdadeiro. Por vezes a dificuldade da idéia reside tão somente em sua falta de conteúdo e de racionalidade.

Tergiversação, rodeios e fanfarronice são formas da falsidade, ou melhor, de travestir esta com a aparência da erudição, a ostentação do acúmulo de “capital cultural”, reles manipulação mercantil de vocábulos e cultivo academicista de erva daninha nos vasos da auto-ilusão.

Donde a honestidade intelectual ser revolucionária. À esquerda jamais caberia edulcorar o discurso para este se tornar palatável, via simploriedade e eufemismos. Mas, enquanto seus fins são políticos e a política não lhe servir apenas enquanto um meio, toda crítica a ela deve ser feita e ainda será pouca. 

A História não absolverá os covardes.

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O que é COMUNISMO, afinal? – Para além do senso comum

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Em homenagem aos 200 anos de Karl Marx

 

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Comunismo NÃO É um sistema.

Comunismo é uma forma de sociabilidade que há de ser vivida sobre o pressuposto da produção e reprodução (dos indivíduos e da sociedade) calcada numa forma de propriedade (apropriação dos meios e fins do trabalho) de caráter social, donde o comunismo ser um socialismo.

Por esse mesmo motivo, o comunismo não é e não pode ser falho, pois sociabilidade não possui função.

Quando alguém acredita que o comunismo “não funciona”, é porque tem uma noção bem fantasiosa do que seja a sociedade: é uma coisa, ou melhor, uma outra coisa que os indivíduos associados – uma sociedade existente independente dos indivíduos, um “sistema” pairando sobre eles. Durkheim merecia ver isso!

Comunismo e capitalismo não são coisas, não são “modelos”, “sistemas”, esquemas, planejamentos de engenharia social ou anti-social, mas sim formas distintas de associação entre indivíduos, modos herdados e posteriormente reproduzidos por eles para organizarem entre si – no intuito de, simplesmente e antes de tudo o mais, sobreviverem – suas relações com a natureza; ou seja, o trabalho, a divisão do trabalho, a divisão dos produtos do trabalho etc.

Portanto, comunismo e capitalismo não são máquinas – que funcionam ou não, pois não são algo distinto dos indivíduos, um algo que “tem de funcionar”.

Também não estamos falando de formas de Estado, de regime político, governos etc. – aliás, assuntos que só os puros de alma crêem que devam ser pensados em termos funcionais, se é que funcionam de qualquer jeito. Quer dizer, funcionam: especialmente quando parece o contrário.

Estamos falando de pessoas vivendo suas vidas e o tempo todo em relação umas com as outras. Será que uma pessoa deve ser avaliada na medida em que “funciona”?

Trata-se de formas de sociabilidade, de um fazer-se cotidiano e entre todos os demais (Marx fala da vida prática de homens vivos e ativos); daí que a avaliação de uma forma social só pode ser realizada com seriedade se levar em conta a sua história, sua localização geográfica, suas relações econômicas e políticas internas e com as demais sociedades etc. 

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Não nos preocupemos, por exemplo, em virar uma “nova Venezuela” ou Cuba. Isso só seria possível apagando tudo que faz o Brasil, a Venezuela e Cuba serem exatamente o que são – Brasil, Venezuela e Cuba. Nem um jogador de WAR pensa de maneira tão rasa.

Se as tentativas (supondo que realmente foram) dos países ditos socialistas do século XX em transformar a sociedade naufragaram, não é porque os planos de Marx estavam errados. Primeiro, porque Marx não tinha tais planos; e depois, porque esses países existiam na realidade e não na fantasia.

Ao contrário do que reza o empirismo trivial dos “críticos dos sistemas”, a realidade é muito mais que aquilo que está estampado em nossas retinas. É assim que Tomé virou crente: olhou o céu e viu o Sol girar em torno da Terra. E depois viu a Terra girar em torno de seus olhos.

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Se alguma “ciência” social qualquer considera socialismo e capitalismo como “sistemas sócio-econômicos”, é porque, antes de tudo, além de estar descompromissada com a verdade, está compromissada com seus financiadores. A razão crítica lhe é socialmente vedada.

O relacionamento cotidiano entre indivíduos, a partir do que herdam das gerações passadas (história), em meio a determinados espaços geográficos, onde organizam o trabalho (relações econômicas) e dividem os papéis na produção e os direitos no consumo (política) nada tem de sistemático, muito menos é um modelito social. Estamos falando da prática viva de indivíduos vivos.

E quanto ao aspecto teórico: a ideologia comunista não é um TED ou um stand-up de esquemas e propostas. É uma crítica à forma atual do indivíduo viver em meio a outros indivíduos, no interior da qual se vislumbra uma saída da monstruosidade moderna. 

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Comunismo não é uma “nova política” para aplicar por sobre o capitalismo (a noção mesma de aplicação de teorias, modelos etc. já denuncia a tremenda falta de sentido ontológico que dá consistência ao mingau produtor das sinapses críticas). Por pensar assim que os austrólogos imaginam refutar Marx por meio de problemas que só fazem sentido numa economia capitalista (como, p.ex., o “cálculo econômico” – que o capitalismo não parece saber fazer muito bem, se é que pretende). Projetam no comunismo o que não ultrapassa a caixinha que encerra seus pensamentos.

Comunismo não é alternativa de organização econômica, política ou ideológica do mercado. Não é produção para a troca. Comunismo é sociedade de consumo. Produção para atender as necessidades de consumo dos indivíduos. Ao contrário disso, e do que circula no senso comum, capitalismo é o exato oposto de uma sociedade de consumo; é sociedade mercantil. No capitalismo o consumo dos indivíduos e os próprios indivíduos simplesmente não interessam; importa unicamente valorizar o capital, custe a humanidade e a natureza se preciso for.

Comunismo não é quando o trabalhador tem propriedade dos frutos de seu próprio trabalho; a partir da qual, troca seu produto por outro que necessita mas não produz.

Não se trata de ter posse privada nenhuma do que se produz, com fins a usar o produto como capital ou dinheiro, pois do contrário estaríamos na situação da troca enquanto escambo. Ora, no comunismo não há troca ou produção para o mercado, e antes de tudo porque, nele, ambos são dispensáveis. Uma produção que visa o consumo não mede os produtos entre si, ou seja, prescinde da existência do valor. O que determina a economia  são as necessidades do indivíduo, e elas não são condicionadas por suas capacidades manuais e intelectuais de produção. A satisfação das carências do indivíduo não se subordinam ao que ele pode e consegue produzir.

A economia comunista é baseada no compartilhamento dos produtos de trabalhos que se desenvolvem de acordo com as necessidades, os interesses e gostos dos produtores. Tal compartilhamento é social, e não coletivo. Não há mesmo a necessidade de qualquer contato físico entre os indivíduos que disponibilizam os produtos. Estamos falando de uma sociabilidade pós-capitalista, e não tribal.

O compartilhamento social é uma utopia ou já se entrevê na realidade?

Assim como meio de produção não se confunde com o produto final, tão logo o indivíduo se apropria de um bem designado ao seu consumo pessoal (pois, no comunismo, todo produto se destina ao consumo, ao contrário do que ocorre na sociedade mercantil moderna), não há porque contestar seu direito de posse e usufruto sobre ele. Aliás, conceber o questionamento de tal direito se torna puro nonsense.

Nota bene: não se trata de dizer que “se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”; pois o que é isso, uma classe social, a quem tudo pertenceria? Como poderia uma classe social ser proprietária de quaisquer bens, como uma classe social poderia usufruir deles? Por outro lado: como a produção seria propriedade de cada indivíduo da classe trabalhadora? Como se determinaria a distribuição da parte de cada um no interior da classe trabalhadora sem reduzir o indivíduo ao mero dispêndio de sua força em certa quantidade de tempo trabalhado – ou haveria outra medida do que poderia ser seu direito? Pois essa redução configura a determinação comum aos indivíduos da classe. Essa redução é a redução dos indivíduos à classe, sua abstração enquanto apenas trabalhadores, meros “proprietários” ou provedores de mera força de trabalho. E toda essa questão quando o que interessa é acabar com as classes sociais!

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Comunismo não é uma forma diferente de Estado, é a destruição ou a caducidade do Estado.

“Ora, mas e a ditadura do proletariado?…”

No Manifesto Comunista de 1848 – este que foi o divisor de águas da história moderna, o ano que uma revolução proletária varreu toda a Europa, tornando reacionária e mesquinha a até então iluminista e esclarecida classe burguesa, marcando o início da decadência da sociabilidade do capital –, Marx diz:

— “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade.

/…/ a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas [grifos meus: estamos longe de qualquer hobbesianismo aqui].

Isto naturalmente só poderá realizar-se, a princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”.

Eis aí a democracia como o próprio modo de exercício da ditadura dos trabalhadores. Seu caráter será de autêntica democracia na proporção mesma em que essa ditadura for bem sucedida no que interessa, sua finalidade sine qua non, que lhe dá seu tom próprio e específico: investir o poder político contra a propriedade privada que sustenta a dominação burguesa.

Por fim, emancipada do arraigado moedor social de carne humana, a propriedade privada, os indivíduos podem abolir o tolhimento que as classes sociais, o mercado, o dinheiro, “a economia” etc. lhes impõem, e a sociedade pode se expurgar do gigantesco representante oficial do capital, o Estado:

— “Uma vez desaparecidos os antagonismos de classe no curso do desenvolvimento, e sendo concentrada toda a produção nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe, se se converte por uma revolução em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação – onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”.

É preciso atentar para algo essencial: estamos falando de revolução.

Não há revolução sem que seja preciso tomar o poder material do Estado, porque do contrário, o Estado irá sufocar a revolução, tal como faz com a mais ínfima greve. O Estado sufoca greves porque o Estado é a antítese da revolução, e uma greve é o pré-vestibular desta.

De fato, se não houver o contexto de uma revolução dos trabalhadores, tomar o poder é o mesmo que manter o poder, pois ele apenas muda de mãos. Ora, mas aí a ditadura “do proletariado” não seria ditadura do proletariado, seria ditadura de um grupo em torno de um ditador.

A finalidade da ditadura do proletariado, ao contrário (isto é, no contexto de uma revolução), não é política – no sentido em que visa apenas tornar ineficaz “a oposição” (enquanto mera oposição política) –, e sim social: trata-se, imediatamente, de tornar ineficaz a contra-revolução; mas, acima de tudo, trata-se de sufocar as forças despóticas do capital como um todo. Daí ser o único caminho real, não-utópico, da realização de uma verdadeira democracia, assentada na soberania dos trabalhadores; e esta é a única soberania legítima, uma vez que é calcada nos legítimos produtores do mundo social.

Isso é a revolução, da qual a ditadura do proletariado é apenas um meio. A finalidade imediata da ditadura do proletariado não é política, senão enquanto visa acabar com a própria política. O que pressupõe sua finalidade maior, condição necessária daquela, a socialização da propriedade privada (e eis aqui o que é o essencial, onde está posta a diferença entre comunismo e anarquismo; pois este mira a copa estatal como determinante da raiz social, quando não simplesmente ignora esta – e não é por outra razão que o anarquismo é apropriado pela direita e vira proposta de um capitalismo à là Somália).

Donde a democracia realmente social deve finalmente terminar dissolvendo a si mesma, última forma de Estado e regime de governo, na medida em que o fim da propriedade privada (e portanto das classes sociais) os torna obsoletos, caducos.

Pois a organização da sociedade por quem a produz e reproduz é precisamente a desintegração das classes sociais, ou seja, da parasitagem exercida por quem não trabalha sobre quem trabalha. Não há mais sustentação real para existir um aparato de dominação e nem o exercício desta.

O fim da propriedade privada é não apenas a finalidade, mas também o fim da ditadura do proletariado. E a revolução social é o meio para tornar social a apropriação dos meios e fins da produção. E não haverá outro. 

Sem revolução, nada feito.

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Alguém pode perguntar: “que garantia terei que um governo dos trabalhadores não irá se transformar em uma outra ditadura de novos senhores?”

Nenhuma.

“Garantia” é uma noção criada pelo e usada para o mercado, nada mais que uma promessa para conquistar consumidores e vencer a concorrência. E nem assim o comércio garante realmente alguma coisa (pra qualquer problema existe a “justiça” do consumidor, na qual o indivíduo será mais um entre milhares a tentar reverter uma situação na qual foi lesado). “Garantia” é, portanto, uma noção mais fictícia que real. Nada que existe é garantido.

Mas uma coisa é certa: as galinhas só passam a tomar conta do galinheiro quando este galinheiro está organizado o suficiente para expulsar as raposas que desde sempre o comandaram.

Portanto, a ditadura do proletariado pressupõe uma abertura real à participação popular, sem a qual ela não acontece. E isso não é nada, mas menos ainda é pouco.

Não há ditadores na ditadura do proletariado. A revolução é que orienta o processo: trata-se da sociedade se auto-organizar, a ponto de se despir da necessidade de uma esfera acima dela a comandar-lhe.

Eis a tarefa histórica que devemos a nós mesmos e às futuras gerações. Herdamos esta dívida, e ela só tem crescido, enquanto o prazo se esgota. Pelo que estamos aqui, senão pela humanidade?

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Marx e Engels na tipografia do Manifesto de 1848

Djamila Ribeiro: uma definição institucionalista e anti-histórica do racismo

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Djamila Ribeiro nega a existência do “racismo reverso” afirmando o segte.:

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– “Racismo é um sistema de opressão que nos nega direitos, e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas.

Opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro.

Brancos não são mortos por serem brancos, pois o grupo racial a que fazem parte é o grupo que está no poder. Um negro pode ser morto por ser negro.

Muitas vezes o que pode ocorrer é um modo de defesa: algumas pessoas negras, cansadas de sofrer racismo, agem de modo a rejeitar de modo direto a branquitude, mas isso é uma reação à opressão e também não configura racismo: que poder social essa atitude tem?

Agora, ser xingada por ser negra é mais um elemento do racismo instituído que, além de me ofender, me nega espaço e limita minhas escolhas. Vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores, a maioria não quer”.

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De fato, o racismo é arraigado na cultura brasileira.

O problema da argumentação está em afirmar que ele se constitui por meio de “relações de poder institucional” entre “grupos raciais”.

É pior que isso. O racismo é anterior ao “poder institucional”. Está embrenhado na sociabilidade e determina o acesso dos negros às instituições e tudo o mais.

Nos casos em que indivíduos negros, assim como mulheres, assumem postos-chave deste “poder institucional” – vamos assumir aqui que isso não se limita ao poder político (Estado), mas abarca qualquer outra instituição pública e qualquer domínio privado (poder econômico) -, a opressão não necessariamente diminui, mas pode se fortalecer ainda mais.

Ou seja: brancos não são mortos por serem brancos, mas isso não se deve ao fato de pertencerem a um “grupo racial” que está no poder; assim como negros são mortos por serem negros, mas não porque não possuem “poder institucional”.

É claro que uma maior ocupação do “poder institucional” por negros pode ter efeitos sobre a sociabilidade e atenuar o racismo. O problema é que a opressão ultrapassa o caráter racial: o grupo detentor de privilégios não é dominante por sua branquitude, mas por sua classe social.

Há opressão racial sistemática contra os negros, mas isso não significa necessariamente que os brancos desfrutam de um privilégio racial, ou então, que tal privilégio possua qualquer importância e caracterize um opressor – a menos que seja um privilégio não sofrer prejuízo, ainda que não haja qualquer “outro” favorecimento; donde se concluiria que um mendigo, desgraçado por tudo exceto sua cor branca, possui diante do negro mais realizado um privilégio (ou “poder institucional”) que o torna opressor deste.

Ao contrário, o prejuízo dos negros independe do favorecimento dos brancos. Só há privilégio racial quando se obtém vantagem sobre outro por conta da diferença das cores de pele entre ambos.

Certamente o branco não sofre opressão por ser branco, e o negro sofre por ser negro. Mas o branco e o negro são oprimidos por muitas outras coisas comuns a ambos. Não existe indivíduo cujo único atributo seja a cor da pele. “O branco” é também mulher, pobre, deficiente físico, etc. E “o negro” não é homem, rico, poderoso e opressor simplesmente apesar de ser negro.

Um fato histórico, cujo conhecimento é (ou devia ser) trivial, explica a opressão e a negação de direitos e acessos dos negros no Brasil. O fim da escravidão significou o abandono à própria sorte de uma multidão de negros, desprovidos de terra e meios de produção, o que resultou na ampla maioria dos pobres e miseráveis da sociedade. Somado à história e cultura do Brasil colonial, esse fato explica todas as formas de opressão que os negros sofrem ainda hoje.

Mas o identitarismo – do qual Djamila é ideóloga no Brasil -, ao negligenciar ou simplesmente falsificar a história, contribui para produzir os “modos de defesa” que consistem em rejeitar e atacar diretamente a branquitude, numa forma de reação reducionista e impotente contra a opressão. Que poder social essa atitude tem? Nada menos que empoderar a opressão, na ilusão de estar combatendo-a.

Por isso, e por criar e cultivar idéias absurdas quanto ao “protagonismo” nas lutas etc., é que o identitarismo afasta os brancos de “vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores”, do que os negros, a um só e mesmo tempo, reclamam e rechaçam.

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CONFIRA TAMBÉM:

O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

Protagonismo e vivência

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Você é um privilegiado

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Seguir as instruções corretas é um dever do opressor

O capitalismo funciona?

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Olhamos pros lados e contemplamos por toda parte, com nossos olhos e nossa pele, a violência, o abandono, a miséria, a degradação física, moral, cognitiva e estética dos indivíduos e a depredação do ambiente natural e humano a um ponto de completa desgraça sem retorno, e tendemos a pensar, se é que pensamos, que o capitalismo “não deu certo”, ou pior, que a humanidade se transformou na metástase do planeta Terra.

Sim, é nisso que nos transformamos, apesar da ampla maioria da humanidade ser vítima e não agente dessa autoputrefação.

Tudo a ver com o capitalismo. É preciso admitir: na verdade – se é que podemos falar que uma forma de vida de indivíduos em associação uns com os outros “funciona” ou não -, o capitalismo deu certo, sim.

Isso que temos ao nosso redor e faz com que sejamos tão preciosos quanto merda de barata é o sinal mais claro e brilhante de que o capitalismo funciona com máxima perfeição.

Isso é capitalismo.

Azar o seu e o meu se ele foi e continua sendo um “sucesso”.

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Cf. também: “O comunismo não funciona”? – ou: As vias irracionalistas do discurso de direita

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Você é um privilegiado

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Você é um privilegiado.

Reconheça:

Você nasceu, quando tanta gente sequer existe, e a maioria daquilo tudo que existe é pedra.

Você nasceu no Brasil, não na Somália.

Você é um bípede sem penas, quando há tantas vidas por aí que sofrem a condição de serem monocelulares.

Você é pobre, mas é branco; você é negro, mas é homem; você é mulher, mas usa roupa de griffe.

Haja visto que, segundo nosso revolucionário aplicativo (para Android) medidor do índice de Q.O. (Quoeficiente de Opressão) dos indivíduos, você é um babaca: reúne categorias gerais o suficiente para ser acusado como um inimigo, ainda que apresente várias outras categorias (além de uma coisa chamada personalidade) que o inocentariam como amigo. E não, não há bug quando o homem é negro e a mulher é branca. Por acaso você nunca ouviu falar de porcentagem, ô vitimista auto-condescendente de zona sul?

Seus pais deviam admitir o erro de gerar uma pessoa como você, que – enquanto indivíduo singular ou pessoa – foi desprezivelmente preferida pelo acaso e pela natureza. Nascido para oprimir. Está no seu DNA, na sua biologia, em sua melanina, na música que você ouve. Seu merda.

Então, fica combinado o seguinte: você, seus pais, Adão e Eva, a natureza e a contingência vão agora confessar seus privilégios e vão ajoelhar no milho e pedir perdão por existirem.

Pois, a tal ponto chega esse papo de denunciar “privilégios” que até o fato de você ainda respirar é um privilégio frente aos oprimidos pela morte.

(Será assim, inflando sua auto-rejeição e culpa – por não ser um completo desgraçado -, e elegendo a política e o moralismo de Poliana como autêntica atuação revolucionária e emancipadora, que construiremos uma nova e autêntica realidade humana, livre da propriedade privada, das classes sociais, da divisão social do trabalho, do mercado, do dinheiro, do Estado, do egoísmo, da ganância, da concorrência universalizada, da “bellum omnium contra omnes” – todas essas tais entificações sociais produtoras de opressão e frente às quais você é um cego no tiroteio?)

Ah, não se esqueça. Você vai reconhecer o caráter opressor que a natureza te legou e do qual você é moralmente responsável. Você vai dar um jeito de se desconstruir até a medula dos ossos. Mas você fará isso calado. Pois agora você vai experimentar – digo, “vivenciar” – o lugar do oprimido como quem indubitavelmente merece virar montaria. Não ouse soltar um pio sequer em favor das minorias, a menos que, além de opressor por natureza, queira ainda ser escrachado como ladrão do “lugar de fala” que apenas os oprimidos natos podem ter a regalia de possuir. E nem pense em “problematizar” isso, larápio do privilégio alheio!

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Quando você critica o identitário por este afirmar que ser “homem”, “branco”, “hétero cis etc.” é possuir ~privilégios~, e pior, é ser ~opressor~, ele trata de te responder dizendo, na melhor das hipóteses, que você está negando existir opressão sob forma de racismo, machismo, homofobia etc.

Ele se esforça para te convencer que, se você está um centímetro acima da desgraça alheia por não se encaixar em uma ou mais dessas categorias oprimidas, isso te torna privilegiado e opressor, por pior que seja a vida que você insiste em suportar.

Você é um oprimido, mas agora é um verme que devia assumir seu caráter de parasita dos oprimidos. Você aí: sem saber, você queima bruxas, veste o capuz da KKK, espanca gays na rua e ainda manifesta orgulho de ter feito o que não fez e de ser o que o acaso fez de você.

Uma verdade que nem a pílula vermelha de Matrix poderia arregaçar tanto as pupilas!

Ou então, é um discurso moralista e religioso que só serve pra nos esconder os verdadeiros privilegiados da sociedade e, de brinde, para jogar em nossas costas a culpa pela desgraça dos outros.

Se isso é o que temos para guiar as lutas, melhor vestir um pijama e ficar assistindo vídeos de gatinhos no facebook.

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Como funciona o pensamento dos identitários?

Suponhamos que você faz críticas ao subjetivismo. Como resposta, não ouve nenhum desmentido; ao contrário, a confirmação vaidosa do que foi exatamente a sua crítica.

Assim: se você fala de subjetivismo no identitarismo negro, a sua pessoa se torna a pauta da discussão e você é tachado de racista. No identitarismo feminista, você é chamado de machista. No LGBT, você é homofóbico. Etc.

Isso não apenas quando nada que você disse permite tais acusações, mas ainda quando as pessoas te conhecem bem e sabem que você, conscientemente, não é nada disso (e se esforça para não sê-lo nunca); muito antes pelo contrário, simpatiza com a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia etc.

Elas também aproveitam a oportunidade pra tentar te desqualificar com os termos “esquerda”, “marxista”, “acadêmico” e, pasmem, “assalariado” (essa foi recente e conseguiu me surpreender, apesar de saber que podia esperar as coisas mais incríveis). Com o que se despem de seus últimos vestígios de boa-fé e camaradagem em torno da luta pela superação do capitalismo.

Não acho mau. Prefiro não ter essas pessoas por perto. Que se mandem pro harém de George Soros e se deliciem em sugar suas bolas longe daqui.

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O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”

Djamila Ribeiro e a crítica ao “racismo reverso” (facebook)

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O privilégio do moribundo

O Estado prejudica a livre concorrência?

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Nobres e perpétuos candidatos a ideólogos e carpetes da burguesia costumam rezar o mantra do combate ao intervencionismo estatal sobre o mercado, pretendendo que isso torne “livre” a concorrência (vamos fingir no momento que isso não é um oxímoro) – a partir do que chegaremos ao auge da História, o “verdadeiro capitalismo”… que acabará com a pobreza e transformará todo trabalhador em “empreendedor”.
 
Em primeiro lugar, esse lumpesinato intelectual não sabe o que é capitalismo. Sonham com um mar em que os peixinhos irão nadar “livremente” com os tubarões, disputando meras provas de velocidade pelo prazer do esporte.
 
Que trabalhadores e capitalistas são igualmente proprietários de mercadorias que se trocam por meio de contratos livremente acordados, assim como leões e gazelas celebram suas relações sem nenhuma intervenção desleal a favor dos invejosos e preguiçosos.
 
Que, em suma, a concorrência parte de uma circunstância de igualdade, e é a ética do trabalho que irá alçar aqueles que se tornarão não-trabalhadores.
 
Que o resultado da concorrência não será o contínuo fortalecimento dos vencedores, e portanto a diminuição de seu contingente, mas sim que essa acumulação cada vez mais ampliada significará um maior acesso dos trabalhadores aos “recursos escassos” e aos bens produzidos.
 
É como colocar o Mike Tyson pra lutar com o Popó e querer te convencer que ambos vão ganhar, e que vc deve apostar no Popó.
 
Por fim, esses neo-economistas de horóscopo austríaco não compreendem que o intervencionismo do Estado não se opõe à concorrência no mercado.
 
Pois o Estado, como tudo mais, se compra e se vende. Ele é apenas um meio de incrementar o ganho dos negócios particulares, da mesma forma que a maior organização do trabalho, o aumento da produtividade, o arrocho salarial, a sonegação, a publicidade etc.
 
Portanto, esse papo de que é preciso privatizar os serviços públicos, eliminar impostos, eleger “administradores” no lugar dos políticos etc. nada mais é que chorumela de quem entrou no ringue e perdeu os dentes no primeiro assalto.
 
Neoliberais, ancaps e libertários acreditam, assim, que se o capitalismo não foi benevolente diante de suas incompetências e incapacidades mentais, é porque ele está sob efeito da “doutrinação” de falsos ídolos.
 
Eis como o Santander pôde ser chamado de banco “comunista”.
 
A solução? Acabar com o Estado e proteger a propriedade privada com as próprias unhas.
 
Vai dar serto çim, abiguínio.
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direitista varou noite defendendo o capitalismo

Violência: fenômeno moral ou social?

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Dialogar com um policial federal pode ser bem interessante. Porque não se trata de gambé, mas de um sujeito alfabetizado.
 
Ou seja, alguém que pensa que pensa. E o que ele pensa… você já imagina.
 
É notável que o indivíduo com quem conversei procura defender a maioria dos policiais da acusação de serem violentos e corruptos e, logo em seguida, justifica a violência e corrupção da polícia (cf. a imagem abaixo).
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Jean Schmidt - Policial Federal
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Ele explica:
 
– “Tá cheio de gente para achar que o criminoso é vítima de tudo, menos da falta de vergonha e valores morais dele próprio. Punir o homicida mostra para a sociedade e para aquele que pense em cometer este crime que será punido. De outro lado, deixar o homicida livre, além de estimular a reincidência, é uma cuspida na cara da família e de todos aqueles que foram afetados pelo crime”.
 
Como se vê, é a remastigação da velha alfafa moralista, cristã, que reduz o fenômeno social objetivo da violência à subjetividade do indivíduo, o “vagabundo”.
 
Isso escamoteia o fato óbvio da produção social da violência em escala industrial, o que só pode resultar em propostas que pioram ainda mais o problema. Enquanto isso, ele brinca de bang-bang com os “vagabundos”. Afinal, este é o nicho da divisão social do trabalho que lhe restou. Os ricos agradecem seu sacrifício.
 
– “Não brinco de bang-bang, faço POLÍCIA, que significa pegar quem comete crimes, seja rico ou pobre, preto ou branco, hetero ou homo, comunista, capitalista, budista ou qualquer outro “ista” e apresentar para a JUSTIÇA! Lá ele chore suas mágoas”.
 
Pois é. “Pegar” quem comete crimes, seja rico ou pobre etc. e apresentar para a “justiça” é, muitas vezes, arriscar sua vida para levar um criminoso a uma punição que raramente repara o crime.
 
Ou será que um homicida na cadeia faz o morto voltar à vida? E um moleque preso com um baseado: adquire vergonha na cara no presídio ou vira membro do PCC?
 
E o Rafael Braga? Por que a “justiça” o puniu?
 
O criminoso é tão vítima da atual sociabilidade quanto sua vítima, e tanto quanto todos somos. Ainda mais vítima é a vítima do crime e quem perde a vida combatendo o crime. Entretanto, punição nenhuma resgata isso. E por acaso a criminalidade abaixou com o aumento da população carcerária? Ou com a pena de morte nos países que a adotam?
 
Ou será que roubo, ganância, violência doméstica, abandono, inveja, estupro, homicídio etc. são da “natureza humana”? E, se forem, qual é o sentido de se combater a natureza?
 
Se não se admite que o problema da violência, da maldade, da falta de vergonha e do crime possuem raízes na forma atual que rege as relações sociais (inclusive porque a moral é produto social; não existe moral particular, assim como não existe linguagem privada), resta ter de explicar a razão de se prender e matar dez “vagabundos” hoje e, amanhã, aparecerem cem novos no lugar, e mais cem, e mais e mais e mais sempre.
 
De modo que a reincidência no crime não vem de outro lugar que o da origem mesma do crime, algo que a punição não combate e nem serve como exemplo pra ninguém. Senão, haveria diminuição, e não aumento da criminalidade.
 
Em outras palavras: por que a moral de tantos indivíduos é corrupta? Essa pergunta só é possível de ser respondida se lançarmos os olhos para o corruptor da moral.
 
O punitivismo cristão não produz justiça, nem repara ou previne a injustiça, “seja ela cometida por pobres ou ricos” – e eis que o policial afirma haver aqui uma divisão social, sem perceber que ela é, além de um problema em si mesma, o próprio cerne do dilema da violência. Pois quando dizemos que a questão é social, não estamos nos referindo a uma abstração etérea chamada “a sociedade”, “da qual o criminoso é vítima”, mas estamos falando de uma sociedade historicamente bem determinada, uma sociedade cindida em classes, tal como a nossa sociedade atual é e se reproduz cotidianamente em meio e graças à vida prática dos indivíduos, cisão esta que faz com que uns poucos indivíduos se situem acima dos outros – não por mérito, mas por posse de capital. Em suma, enquanto perdurar a apropriação privada do trabalho da maioria, não adianta nada fazer pregações morais contra “vagabundos” (portadores de armas ou não); pois, como resultado do cisma social, a própria sociabilidade se instaura e se desdobra de forma violenta.
 
Negar que o capitalismo é a causa primeira da violência – ao objetificar a sociabilidade, a ponto de parecer aos indivíduos ser um “sistema” acima de suas cabeças e hostil a eles (p.ex. quando alguém peida na bolsa de valores de Tóquio e isso faz o desemprego se alastrar no Brasil) – é apenas mentir para si mesmo. Certamente uma opção mais fácil do que lidar realisticamente com a questão, e que até serve como consolo diante dela; mas nem um pouco efetiva ou inteligente. Resta perpetuar o bang-bang, a roleta russa social que selecionará as próximas vítimas.
 
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moral libertária
O que pode ser a moral quando isolada umbigo adentro.