“A Otimização da Limitação”: fábula da ciência a serviço da propriedade privada

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Esta é uma adaptação minha de uma estorinha folclórica.

Um fazendeiro chama um engenheiro, um físico e um matemático e dá a cada um deles um pedaço de arame farpado. Pede-lhes, então, que encontrem um jeito de cercar o máximo possível de terra com o mínimo possível de arame.

O engenheiro dispõe a cerca numa circunferência e declara: “não há jeito mais eficiente de cercar o máximo possível de área”.

O problema é que a área era tão máxima quanto mínimo era o arame.

O físico estica a cerca como sendo uma linha reta e explica: “podemos supor que esse segmento de reta segue nos dois sentidos até tocarem os extremos e, assim, cercamos metade do planeta Terra”.

Mas, para aquém da suposição do físico, não havia arame para dar a volta no planeta.

O matemático pega o pedacinho de arame e enrola nele o próprio corpo. E diz: “eu estou do lado de fora”.

O matemático ganha do fazendeiro um biscoito como prêmio pela descoberta, enquanto a propriedade privada revela seu verdadeiro significado: privação de todos os não-fazendeiros de qualquer propriedade.

a-cerca

 

MORAL da estorieta: a ciência se torna estúpida quando a serviço das cercas.

 

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Uma nota acerca do MEDO ESQUERDISTA da revolução

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manifesto comunista - star wars

Certas ditas esquerdas têm pavor da revolução.

A maioria delas não apenas expurgou a revolução de seus horizontes – donde o uso que fazem do termo “socialismo” (comunismo??? nem pensar) não remeter a nada mais que a velha socialdemocracia e suas ilusões idiotas de reformar isso e aquilo -, mas nega peremptoriamente qualquer possibilidade de haver uma e, acima disso, rejeita e execra qualquer circunstância que possa descambar em algo do tipo.

No teorismo sub-vulgar dessas esquerdas – em que coabitam os retalhos ideológicos mais inconsistentes o possível de serem concebidos (em separado, donde só mesmo seus geniais ideólogos podem costurá-los) -, há a concepção fundamentalíssima de um “etapismo” utópico que seria necessário para a revolução, sem o qual qualquer agitação das massas só pode ser desqualificada como uma espécie de “invasão bárbara” das ruas por hordas de usuários de pijamas.

Para que pudesse haver uma “autêntica” revolução, pensam os esquerdistas do Reino dos Céus, é necessário antes haver “consciência de classe”, e essa “consciência de classe” é uma “consciência política”; para haver essa “consciência política”, é preciso haver politização e educação, quer dizer, “educação crítica”; e essas coisas, politização e “educação crítica”, só podem ser desenvolvidas numa democracia.

a system error

Mas se a democracia atual não permite ou favorece nem uma coisa nem outra – ao contrário, tudo indica que nela temos a atrofia de ambas -, então é preciso “fortalecer” e, é claro, “aperfeiçoar” a democracia, antes de tudo.

Ficam, assim, nessa etapa inicial para sempre. Chamam essa vergonhosa realpolitik de “realismo”. Deixam a revolução para o eterno futuro, ou seja, tornam o que era um meio para se chegar a ela o seu fim último.

Entretanto, se as ruas insistem em negar que a revolução seja uma utopia e são tomadas por multidões perdidas em ignorância e desespero, tais esquerdas se lançam à tarefa suicida de menosprezá-las, reprová-las e contê-las, considerando-as como massa acéfala de manobra dos dominantes ou firmes batalhões de uma contra-revolução sem revolução.

organizar a revolução

Algumas dessas esquerdas, a minoria, percebem que não podem evitar considerar, por força das circunstâncias, haver a possibilidade da revolução; mas é necessário que a revolução seja a que trazem pronta em seus programas. Tais “esquerdas revolucionárias” começam e terminam por pensar que a revolução é sempre uma revolução planejada – tem data pra iniciar e acabar e traz de antemão, carimbado na testa dos indivíduos, o selo da “consciência de classe” (desenvolvida por meio da panfletagem do partido revolucionário na porta das manufaturas): pois uma revolução só pode ser, a priori, uma revolução “de esquerda”.

Jamais põem em conta que não é nenhuma “democracia crítica” ou atividade microlocalizada de marketing ideológico que “politiza” ou educa as massas na “consciência de classe”, mas sim a revolução mesma que permite fazê-los com alguma efetividade, ao longo de um doloroso, contraditório, sem datas e absolutamente incerto percurso – em que as esquerdas deveriam disputar as consciências, e não jogá-las imediatamente no lixo da política.

É assim que, antes mesmo de buscar de alguma vitória, entram na luta já derrotadas.

A História passará o rodo nelas. Façamos a História! Pois a revolução a princípio é sempre impossível, até o momento em que se torna inevitável, seja lá qual for o caminho que irá seguir – algo que depende totalmente das forças que a disputarão, donde ser absolutamente imprescindível uma esquerda disposta a agarrar o touro pelos cornos.

sobre a viatura da polícia