Fernando Pessoa: ultimato à razão

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Assistir Maria Bethânia recitando Ultimatum de “Álvaro de Campos” é de dar nó nas tripas.

Porque não é exatamente um ato majestoso de emprestar sua bela voz a um poeta genial (se bem que não é nada que causa espanto em quem manja o qualé da turma da MPB do dendê).

Pra começo de conversa, essa não é uma poesia genial do pluri-egocêntrico Fernando Pessoa.

Seu ultimato é nitidamente nietzschista. Quase uma caricatura; e seria, se o original fosse mais que isso.

Nietzsche é aquele que aplaudiu o massacre covarde da Comuna de Paris pelas tropas prussianas a pedido de Thiers, que havia acabado de perder a guerra para a mesma Prússia e ainda coroou Guilherme I como Imperador no Palácio de Versalhes. Um punhado de fatos que lançou a outrora revolucionária França na indelével latrina das grandes e irremediáveis ignomínias da história.

Pior que a burguesia francesa se oferecendo de capacho ao seu vencedor e solicitar sua ajuda para chacinar aqueles que lutaram ao seu lado, só mesmo um saxão nanico exaltando as “virtudes heróicas” dos que trucidaram os “bárbaros socialistas franceses”. Um elogio não muito original vindo de um acadêmico do lado-de-lá do Reno, que cultiva taras acerca da própria impotência e realiza sua Vontade alemã ao se oferecer como capacho do capacho.

E o que dizer de seu pimpolho lusitano, que brada contra “vós [socialistas] que confundis o humano com o popular”, para terminar seu manifesto afirmando: “Eu da raça dos navegadores, /…/ eu da raça dos descobridores, /…/ proclamo isso bem alto, saudando abstratamente o infinito”?

(“Saudando abstratamente o infinito”: parece bonito, parece profundo, mas é apenas raso, idiota e brega. Porque não basta saudar o infinito; é preciso fazê-lo de forma abstrata, ou seja, sem saudá-lo de verdade, até porque o infinito é coisa nenhuma. O que se adequa perfeitamente ao que Fernando Pessoa havia acabado de usar para falar de si mesmo: a expressão pomposinha “raça dos descobridores” – com o que ele se vangloria de ser um… português. Ora pois, não é qualquer um que tem pedigree e bigodinho de marinheiro.)

As declarações de desprezo pelo socialismo não provém de nenhuma particularidade pessoal de “Álvaro de Campos”. Poucos anos depois, Fernando Pessoa itself se permitiu demonstrar como e por que um banqueiro é um homem que luta pela emancipação da humanidade ao angariar seus lucros privados, rejeitando as “falsas convenções da sociedade” e obedecendo apenas ao egoísmo “natural” da “espécie humana” (cf.: Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia).

É engraçado notar como o irracionalismo segue uma rota rigorosamente coerente, rumo ao profundo âmago do umbigo filosofante. Tal como seu muso inspirador de fanfarronices, Fernando Persona finalmente se imagina “pura dinamite”, demiurgo do “novo”, abraçando o Atlântico. É o revolucionário de um mundo particular e totalmente privê.

Nada disso é casual. Quando os ideólogos da burguesia, a partir dos eventos históricos que varreram a Europa em 1848, admitiram sua derrota ideológica no campo da razão, lhes restou combater o socialismo com a elegância da abstração, a saudação vazia ao nonsense, o pronunciamento orgulhoso do mundo como mero absurdo e, enfim, a adoração religiosa do magnânimo “Eu”, que rompe todos os grilhões existentes na realidade por meio de bazófias saídas do porão da fantasia, fingindo iconoclastia e esbanjando adulação aos seus “heróis da humanidade”, à “raça” dos que têm pedigree no bolso.

“Álvaro de Campos” é apenas mais uma pessoa dentre tais ideólogos. Não como filósofo, porque é mais fácil vender irracionalismo sob forma de poesia que de filosofia – já que não pretende dizer nenhuma verdade ao dizer que a verdade não existe; donde a poesia ser ruim pretendendo ser poesia filosófica, enquanto a filosofia já foi usada até mesmo pelos cristãos… ou por Nietzsche, “O Anticristo” da filosofia poética que escandalizou o próprio Satã.

E no Brasil, last and least, coube e cabe à música popular (tanto a baiana quanto as congêneres) declamar a crítica à razão com a aura da rebeldia própria da academia. Arte que faz “pensar”. Quem viu Bethânia proferi-la não pode desvê-la, e talvez nem deva tentar.

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Nietzsche
filosofia do “para mim”
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Uma nota acerca da bandeira do “combate à corrupção”

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O combate à corrupção parece ser, aos olhos de muitos, a principal tarefa a se cumprir para transformar o Brasil em um país melhor.

Entretanto, essa pauta tem apenas um lado: o da “moralização” da arena política, ou seja, dos políticos; mas isso não é apenas uma disneylândica utopia, é uma escamoteação do verdadeiro problema desde a sua superfície.

Pois supõe que tudo se reduz ao ato imoral do político corrupto. De início, ignora ou despreza que trata-se de uma relação – e que nela temos também os corruptores, o que se perde na medida mesma em que o protagonismo preponderante é deles, para lançar o foco apenas nos corrompidos; donde só resta presumir que a questão é individual e moral. Daqui para a propositura de que tal problema só pode ser enfrentado por uma “política ética”, isto é, por “novos políticos”, é menos de um passo.

Ou seja: sob os parâmetros de um entendimento subjetivista e irrealista (e, portanto, moralista), sobra à prática se estreitar na miserável via da busca de uma “nova” política – tão quimérica quanto o que só pode brotar da ignorância quanto à raiz econômica da politicidade, e tão “nova” quanto pode ser a política que compartilha das mesmas vistas grossas que são feitas sobre os corruptores, vulgo “financiadores” e lobbistas.

Eis aqui, nas palavras de meu amigo Hugo Vargas, o que deve ser ponto central da agenda de uma esquerda que pretende fazer jus ao seu posicionamento, isto é, que não almeja simplesmente permanecer iludindo a si mesma e aos trabalhadores quanto à seu “empoderamento” no cassino burguês do poder de Estado:

– “A Vale acaba com um rio no sudeste. Comete um crime ambiental gravíssimo. Compra parlamentares. Foi comprada a preço de banana numa maracutaia da era FHC.

A Ambev paulatinamente monopoliza o mercado de bebidas nacional. Enfia milho transgênico na cerveja. Compra parlamentares. Sem mencionar dívidas com o fisco.

Itaú e Bradesco oligopolizam o mercado bancário. Compram parlamentares. Muito provavelmente cometem fraudes no sistema financeiro a serem reveladas talvez na Lava Jato.

Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez são entidades cuja podridão ninguém ousaria contestar. Compram sua bancada de representantes também.

JBS e BRF Alimentos são comprovadamente entidades nocivas que também oligopolizam o mercado dos frigoríficos e fazem o diabo no país.

A Oi também é fruto de maracutaia da era FHC. Sugou bilhões do fundo público.

Mas qual a pauta perante tudo isso? Eleger o Lula? Eleições diretas?
Urgente seria expropriar todos esses empreendimentos. Não há momento mais oportuno, mais evidente. Todos eles devem bilhões e cometeram crimes incontáveis. São aviltantes até mesmo para a normalidade de uma democracia burguesa.

Se o PT fosse de esquerda, ele e suas entidades já estariam pautando isso pra ontem. Por ora, a situação é tão grave que falar disso, que é apenas uma reforma pontual radicalizada, nos faz parecer algum cosplay de comunista caricato”.

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políticos escrachados e empresários idolatrados
Renato “Cinco” Athayde Silva, PSOL-RJ

Impeachment: golpe ou política democrática?

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Dizem por aí que a política brasileira é uma farsa. Que não dá mais pra acreditar nela. Que o partido popular enganou o povo. Que as elites deram um golpe e que o golpe ainda está acontecendo. Que a Constituição foi rasgada e democracia acabou. Etc.

A política brasileira é uma farsa? O que ela devia ser, senão… política?

Política não é igreja, é guerra.

Aos crentes da política celestial dos anjinhos, cabe dizer algumas coisas.

Pra começar, a Dilma não precisa se preocupar. O Collor, quem diria? e sendo quem é, conseguiu se eleger senador depois de sofrer um “golpe” muito pior. E também porque o PT não enganou ninguém. Os desiludidos é que nutriram esperanças e ilusões ingênuas sobre ele (e agora por coisas piores). Mas vamos ao que interessa.

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O PT não foi apeado do poder por meio de um golpe.

Não houve ruptura institucional, a Constituição não foi rasgada e a democracia não acabou.

Ao contrário, estamos em plena e puríssima vigência da democracia do Estado de Direito burguês, e a Constituição continua firme e forte a serviço do capital. Não houve golpe, mas sim uma manobra política – no sentido mais íntegro da palavra, ainda que seu conteúdo não o possa ser.

Todas as medidas “golpistas” do atual governo, bem como sua própria entronização, passam por sobre um tapete vermelho no Congresso eleito pelo povo e “para o povo” – onde, aliás, o PT permanece enquanto oposição e, tal como no caso do próprio PMDB na ditadura militar, contribui para legitimá-lo.

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É claro que há quem ache estranho, imoral e inadmissível – por achar que se trata de uma legitimação do impeachment – que eu diga que o tal golpe “contra a democracia” nada mais foi que pura política operando em perfeitos marcos democráticos.

Eu não legitimo política alguma, e política alguma requer minha aprovação. Me interessa é dizer o que as coisas são, tais como elas são.

O tal golpe “contra o Estado Democrático de Direito”, muito antes pelo contrário, em nada atentou contra esse mesmo Estado.

Aliás, pondo os pingos nos is, tal manobra política não passou da mera demissão do PT do cargo de serviçal da burguesia.

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Longe de querer enfraquecer as lutas contra o governo Temer, a minha preocupação é justamente chamar a atenção para o efeito prático desmobilizador do uso do termo.

Quando o PT vende a tese do “golpe” e todo um varejo passa a distribuí-la, nada mais fácil para a direita que contra-golpear essa tese lembrando duas ou três coisas:

1) o “golpe” em questão está previsto na Constituição, e todas as instituições democráticas, longe de serem ameaçadas por tal “golpe”, o referendaram. O TCU rejeitou as contas, a Câmara dos Deputados autorizou a instauração do processo, o Senado admitiu sua abertura, o STF barrou todos os recursos impetrados pelo Governo, a OAB recomendou, etc. Quem podia dizer que era expediente ilegítimo, pois que engolfava o jurídico no político, o fez: José Eduardo Cardoso participou de todos os trâmites, apresentou impecável defesa de Dilma, e perdeu em todas as instâncias. Decerto, não se esqueceu que o que seria o “jurídico” estava sujeito a voto em todas elas. Mas, se isso é golpe, por que legitimou, de cabo a rabo, todo o processo?

A propósito, quem fala em “politização do judiciário” e “judicialização da política” parece se esquecer que o primeiro é (ainda que circunscrito às bolhas tribais da magistratura) perfeita e integralmente político, e a segunda é que elabora as leis (mesmo quando absurdamente ilegítimas).

2) é preciso explicar (e convencer) por que o impeachment de Collor (apoiado pelo PT) não foi golpe. O que era crime nesse caso e no caso atual é objeto de análise e decisão do Senado, e em ambos os casos o Senado concluiu pelo impeachment.

3) é absurdo forçar a aproximação do que há de comum entre Dilma e Jango, quando as diferenças são gritantes; em outras palavras, o que a palavra de ordem petista faz é esticar o conceito de golpe até o ponto em que se possa encaixotar o impeachment da Dilma dentro dele. No entanto, com isso se abre uma “jurisprudência” para se qualificar de golpe uma enormidade de ações políticas triviais, e de se perder de vista exatamente a especificidade daquilo que, até então, não era nada trivial, mas sim um golpe.

A partir desses argumentos, nada impede a direita de dizer que essa é apenas mais uma tentativa do PT em enganar o povo, que já anda bastante escaldado.

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A militância e sub-militância petistas, por sua vez, insistem no brado contra o “golpe”

1) ao confiarem na sofistaria que avaliza a idéia de que a democracia está em disputa, quer dizer, que ela pode ser conquistada, melhorada, aperfeiçoada ou até mesmo se tornar “de esquerda” (resta saber de quem seria essa proposta, já que o PT só é democrata da boca pra fora). Em consequência, se lançam a essa disputa de convencimento afirmando que ela, a democracia, e não o PT, é quem foi derrotada pelo “golpe” (apesar do PT ter seguido e legitimado o processo até o fim e toda a vida política brasileira, em todos os aspectos, permanecer tal como antes).

2) ao acreditarem que a política é uma prática que pode se harmonizar com os interesses dos trabalhadores (para não dizer: com os interesses humanos, na medida em que o interesse humano por valorizar capital é um interesse totalmente estranhado e alienado), donde resvalarem na crença da “ética na política” e na fantasia da “boa política”, comandada por heróis e salvadores da pátria, etc. (pura mitologia política, mais velha que o governo de Péricles). Por tudo isso, insistem em manter o foco das lutas e das críticas no âmbito do Estado, campo de batalha da direita por essência e excelência.

No entanto, essas crenças resultam, na prática, em impotência política e na chorumela da falsa crítica do ressentimento.

É preciso assumir que o PT vacilou, dançou e rodou na arena da política. E que a tentativa de angariar força por meio de uma tese equivocada como essa (se é que não passa de um marketing político feito às pressas) não resultará em uma força política que há de contar com a adesão da força de um entendimento claro e honesto.

Se bem que, ao menos, reuniu em sua defesa um bocado daquelas esquerdas que sempre desprezou.

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Agora, vejamos o outro lado.

Reconhecer que não houve golpe é reconhecer a verdadeira fisionomia da democracia burguesa, do Estado e da política em geral.

Este é um momento histórico propício, como raríssimas vezes se tem na história a oportunidade de se viver, para abrirmos os olhos a este fato.

É reconhecer que a democracia nada mais é que a forma que os interesses particulares, ou melhor, os capitais privados (reunidos em grupos ao redor de permanentes ou eventuais pontos comuns) disputam a tribuna da qual irão se proclamar interesses gerais, “da nação”, “do povo”, “do Brasil” etc.

Como se trata de uma arena onde combatem interesses particulares, ocasionalmente se apresentarão os que falarão em nome do trabalhador, sempre por ele, nem sempre para ele – e se tornarão aptos a servirem de jantar para as demais hienas.

Mas quem alega haver crise de representatividade na política apenas compartilha a mesma ilusão dos que denunciam agora o “golpe”. Desde quando a política visa representar o povo, ó cidadão da Disneylândia?

O poder político não emana de nenhuma forma de misticismo, tal como a “soberania” popular, e sim do poder material, econômico, o qual está muito bem representado na democracia.

Aliás, é o fato de haver tal poder econômico, ou seja, dominação social e secção da sociedade em classes, que explica a existência, a necessidade e os fins da política.

E é sobre a sociedade de classes que se ergue o Estado, a comunidade política dos cidadãos.

A cidadania é o resgate da comunidade perdida no mar burguês da competição universalizada, mas tudo nela é abstrato. O indivíduo se torna aí um punhado de números, por meio dos quais se decreta a igualdade de todos perante o Estado (escamoteando as diferenças sociais que vigoram na realidade cotidiana); e é assim que a expressão de sua sociabilidade na ética se degrada em códigos do Direito. A cidadania é, pois, o laço da comunhão de uma moral heterônoma, estatal, política, um “contrato social” imposto ao indivíduo; e o Estado jamais deixa de tutelar, pela lei e pela polícia, os membros dessa comunidade fantasmagórica, com o que não logra introjetar valores morais na formação dos princípios éticos de pessoa alguma, senão o medo.

O Direito é anti-ético. Tal como a moral, trata-se de um conjunto de normas que regula as relações sociais; porém, ao contrário dela, não emerge a partir de interações comunais e nem se afirma pelo reconhecimento de sua validade mesma, mas se impõe aos indivíduos em mútuo estranhamento de um ponto exterior e acima deles, se fazendo valer pela ameaça da sanção e, por tudo isso, evidenciando um caráter heterônomo, pueril, imputador, jamais permitindo e estimulando a autonomia, liberdade e responsabilidade dos indivíduos. O Direito é, assim, a expressão perfeita da hostilidade e da alienação que impera na sociabilidade anti-social da concorrência de todos contra todos.

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Muitos et ceteras caberiam listar aqui, mas o que foi dito acima já é suficiente para uma conclusão.

Os termos da alternativa são os seguintes: ou os trabalhadores se levantam contra a democracia burguesa, isto é, contra o Estado, isto é, contra o Direito, isto é, contra a cidadania, isto é, contra a política, ou vão continuar catando cascalho nas rebarbas da historieta tupiniquim. Donde não caber aos trabalhadores a defesa da democracia, mas sim a agudização das contradições da sociabilidade burguesa que ela possibilitou que aflorassem, visando e forçando a resolução de tais contradições – algo que democracia nenhuma pode permitir ou realizar.

Comecemos por uma greve geral, já!

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a-forca-do-voto-na-democracia

O Último Tango em Brasília, ou: as 80 horas da CNI, hora da revanche burguesa

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“Em todos os períodos revolucionários da história é possível encontrar duas etapas sucessivas, estreitamente ligadas uma à outra.

Primeiro, há um movimento ‘espontâneo’ das massas, que toma o adversário de surpresa e arranca dele sérias concessões, ou pelo menos promessas; depois disso, as classes dominantes, sentindo ameaçadas as bases de sua dominação, preparam sua revanche.
 
As massas semi-vitoriosas manifestam impaciência. Os chefes tradicionais de ‘esquerda’, apanhados de surpresa pelo movimento, da mesma forma que os adversários, esperam salvar a situação com a ajuda da eloquência conciliadora e, ao fim das contas, perdem sua influência. As massas entram na nova luta quase sem direção, sem programa claro e sem compreensão das dificuldades próximas”.
 
– Leon Trotsky

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Arrefecidos os momentos mais recentes dos vagalhões de Junho de 2013, a burguesia brasileira faz os cálculos de seus prejuízos e manda o garçom entregar a conta ao povo.

É assim que Robson Braga de Andrade, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), se sentiu à vontade neste 08 de julho de 2016 para “dar um toque” na próstata do temerário Interino do Brasil, digo, exigir que o governo federal se empenhe para que o país “adote iniciativas” (lindas palavras!) para impôr “mudanças duras” na Previdência Social e nas leis trabalhistas – a exemplo das que o vanguardista Hollande empurrou reto adentro nos trabalhadores franceses.

 
O patriótico burguês está preocupado com a economia brasileira, que em sua cabeça – aliás, na realidade – significa “meu bolso”, e quer leis que permitam uma carga horária de trabalho de nada menos que 80 horas semanais, o que dá 12 horas diárias, se incluir os dias inúteis do sabbath judaico e do dominus cristão.
 
No caso de se trabalhar eight days a week, serão apenas dez horas diárias, restando oito pro descanso e seis para o lazer no ônibus e metrô. Afinal, qualquer um tem hoje um celular que, além de ser repleto de opções de entretenimento, agigantou a produtividade do ócio, de modo que isto não tem mais porquê consumir oito horas diárias. Senão, o trabalhador ainda tem outra opção: dormir menos.
 
Andrade disse: “É claro que a iniciativa privada está ansiosa para ver medidas duras, difíceis de serem apresentadas. Por exemplo, a questão da Previdência Social. Tem de haver mudanças na Previdência Social. Caso contrário, não teremos no Brasil um futuro promissor”.
 
Leia-se: “é claro” que meu lucro está sequioso do sangue dos trabalhadores, etc. Tem de haver jeito de foder com eles. Caso contrário, não terei um promissor usufruto privado da riqueza social por eles produzida.
 
E é aí que o nosso patrão aponta para o exemplar estupro trabalhista de Hollande, que se justificaria porque “a França” perdeu competitividade na atividade industrial: “Agora, ela está revertendo e revendo suas medidas para criar competitividade. O mundo é assim e temos de estar abertos para fazer essas mudanças”.
 
O mundo é assim! Alguém tem de reverter o pato, né?
 
“Temos de estar abertos para fazer essas mudanças” – entenda-se: temos de abrir as nádegas e o terceiro olho do trabalhador para o ferro entrar fundo, até sair pela boca.
 
E desta vez, sem Mantega. O último tango em Brasília é um batuque feito com panelas.
 
Por fim, e seguindo de perto a cartilha da canalhice clássica da direita, “somos totalmente contra qualquer aumento de imposto. O Brasil tem muito espaço para reduzir custos e ganhar eficiência”.
 
“O Brasil” que quer reduzir custos com direitos trabalhistas tem sobrenome: Andrade.
 

Quanto a ganhar eficiência, isso significa que, ao invés de matar um leão por dia, agora o trabalhador deve ser jogado aos leões. A pobreza fará a produtividade pular!

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carro do patrão
empreendedorismo para trabalhadores

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar, ou: a esquerda deve se unir?

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Muita gente de boa-fé acha incompreensível, ilógica e até mesmo imoral a permanente desunião da esquerda. Fica indignada e põe na conta da esquerda a culpa pelo fato do Estado burguês estar sempre nas mãos da burguesia; o que indica que esperam alguma mudança na condução dos descaminhos da “res publica” por meio da política, para além da mera troca de seus vampiros.

Acontece que “a esquerda”, pra começar pelo óbvio, é um balaio enorme dos mais diversos grupos, entendimentos e interesses.

Além disso, mesmo que um interesse (supostamente) comum una todos eles – a superação da sociabilidade estranhada do capital -, tais grupos estão sujeitos a todo tipo de pressões, vindas não apenas do lado dos trabalhadores (aqueles que a esquerda representa ou deveria representar, e que ainda assim estão igualmente dispersos numa variedade de interesses ou sub-interesses por vezes contraditórios e noções confusas), mas também da pequena burguesia e da burguesia, interessadas em cooptá-los e/ou desqualificá-los, quando não esmagá-los.

Daí que muitos na esquerda enxergam na adesão aos aparatos, à burocracia, aos joguetes políticos, ao financiamento pela burguesia, etc e etc. uma possibilidade de atingir aquilo que seria o objetivo principal, enquanto outros percebem que a cooptação é o caminho do “empoderamento” na completa perdição.

Além disso, mesmo uma frente de esquerda inevitavelmente se constitui a partir de uma disputa política entre seus componentes.

Se essa frente contar com o PT, de longe o partido mais forte, inevitavelmente ela gravitará ao redor de seus objetivos. Não será uma frente de esquerda, mas uma frente petista.

Frente a tudo isso, “a esquerda” não tem como ou porque se unir. E, aliás, nem deve; exceto, as circunstâncias hão de saber, num contexto revolucionário, de ampla crise da sociabilidade – quando a ilusão da “política de esquerda” institucional, do “poder político popular”, há de se desfazer junto do próprio jogo político.

Ainda assim, muitos irão se agarrar aos destroços e servir à contra-revolução, possivelmente a maioria dos que se apresentam hoje como “de esquerda”. Mas não é preciso esperar uma situação dessas para ver as máscaras caírem. Muitas destas já são frouxas o suficiente para mostrar a todos quem é quem.

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar…

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nem direita nem esquerda
pra frente, Brazew!

Direita e Liberalismo: política e ideologia pequeno-burguesas

A direita não é burguesa.

O liberalismo (desde o marginalismo e o keynesianismo – sic! – até suas mais novas variações, o que chamam de “libertarismo”) não é uma ideologia burguesa.

Apesar de a direita e o liberalismo defenderem a burguesia com tórrida paixão – sentimento escaldante por aquilo que não possuem, por aquilo que não são e, principalmente, por aquilo que não podem ser e nem podem possuir.

Direita e liberalismo são, respectivamente, posição política e ideologia pequeno-burguesas.

A burguesia não está interessada em ideologia, teoria, pensamento político ou social. Tudo isso tem para ela apenas o valor e importância de uma curiosidade metafísica. Enquanto isso, ela financia os atores da política e mantém o Estado refém de seus papéis de dívida pública – paga eternamente usando o dinheiro dos trabalhadores – e não se apoquenta com social-democratas se esfaqueando para assumirem cargos de lambedores de rabos burgueses.

Ou seja: a burguesia não é de direita, senão na medida de seu oportunismo. E muito menos é “liberal-platonista”, em busca do capitalismo “ideal” (que só existe na especulação sub-academicista dos economíticos), mas sim “liberal-realista”, ou seja, tão “liberal” quanto o seu pragmatismo imediatista demanda, convém e pode ser, ainda que isso se mostre o mais completo contrário do liberalismo (nada mais recorrente e trivial na história); donde o Estado realmente “ideal” para a burguesia, a medida “excelente” da intervenção estatal no mercado e de sua plena liberdade, ser aquilo que garante a ela o lucro, não importa se os pé-rapados da intelligentsia do capitalismo elaboram em seus think-tanks de esquina uns tantos termos pirracentos pra resmungarem contra este “Estado ideal” verdadeiramente existente e possível de existir, tais como “totalitarismo”, socialismo (!) ou qualquer outro rótulo insignificante.

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Enquanto isso, o dono da padaria, sua prole de dondocos e coleguinhas assumem a frente da defesa ideológica e política do capitalismo, imaginando que capitalismo é abrir uma padaria, trabalhar no caixa e vigiar os trabalhadores preguiçosos (pois é isso que os faz não serem patrões), sonegar impostos, lavar dinheiro trocado e reclamar de taxas, fiscalização e burocracia (essas coisas comunistas e desagradáveis).

Imaginam que capitalismo é esse negócio de trocar coisa por dinheiro e dinheiro por coisa. Simples assim. Pra que Estado? Só pra fazer tudo ficar complicado, e também pra estimular o marasmo dos trabalhadores e sustentar vagabundos nos hotéis presidiários.

O Estado é que define o que é direito à propriedade, este que, por sua vez e em sua efetividade, permite existir o campo da sacrossanta “liberdade” burguesa – por meio do “jus utendi et abutendi” – e ainda estabelece as condições mínimas para haver alguma concorrência, mercado e o “respeito” a essas mesmas condições (o que não cabe à moral, mas à polícia, etc., assegurar); do que se conclui que capitalismo sem Estado é tão plausível quanto a vida na selva, tão livre quanto as relações entre leões e gazelas.

Apesar disso, o Estado é acusado de “roubar” o pequeno-burguês por meio de seus tributos injustos, sendo assim um ladrão por natureza. Mas é como se o roubo, enquanto violação da propriedade, não pressupusesse o direito à propriedade outorgado pelo próprio Estado; aliás, “roubo” é uma categoria jurídica. Sem o Estado, a propriedade só poderia ser um direito e uma realidade, e permitir existir o roubo, se a musculatura do braço e a firmeza dos punhos fechados pudessem servir-lhe de fundamentação. E também de moeda nos “mercados livres”, é claro.

(Estado também serve pra financiar a propriedade privada. Mas, antes de acusarmos nosso proprietário de máquina registradora de cuspir no prato em que burguês come, notemos o seguinte: o Estado financia a propriedade burguesa, e não quitandas de feira hippie. Pequenos-burgueses não são burgueses, são apenas trabalhadores que brincam de imitar a burguesia e de fazer competição de tiro-ao-pé.)

Vamos ver este “roubo” mais de perto. Dizem os capitalistas nanicos que direitos trabalhistas oneram a produção e afetam seus lucros, ou melhor, os saqueiam; mas dizem outra coisa além disso: que este problema devia ser preocupação dos consumidores (ou seja: de ~todos~. “Somos os representantes universais da sociedade!”), pois nosso caixa de padaria repassa os custos dos direitos trabalhistas pro consumidor.

Como se o consumidor não fosse, antes de mais nada, trabalhador. Como se o trabalhador estivesse protegido de virar escravo por algo mais que tais direitos (muitos, ainda que “com direitos”, viram). Como se todo custo de produção não fosse incidir no preço final.

Mas o que é a concorrência, senão aquilo que fará o pequeno-burguês apelar pra todas as formas de produzir mais barato, formas para além ou aquém da lei que o nivela aos seus concorrentes?

Se o trabalhador puder sustentar alguns custos, e se a ideologia justifica isso – é para o que ela serve, afinal -, então que eles paguem tais custos, principalmente porque o indivíduo que importa é “o cliente”. Tudo por ele! E deste tudo, o máximo do trabalhador.

Se o trabalhador não quiser, tudo bem. Ele é livre para trabalhar em outra padaria. Há muitas.

Eis o que é capitalismo, na visão do pequeno-burguês; segundo a qual banqueiros são comunistas, pois financiam a política, enquanto o pequeno-burguês é quem sustenta no lombo o Estado…