Kant: Copérnico Frankenstein

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Outro dia eu vi um artigo sobre Kant em iorubá na Wikipedia e falei umas boboquices a respeito. Hoje, meu amigo Igor puxou o assunto, e aí eu resolvi escrever essa notícula sobre o moço.

Como é que Kant faz sua copérnica filosofia? Simples: ele pega Platão e deforma o aristocrata até ele virar um burguês.

Na falta de matéria prima autenticamente filosófica – isto é, grega -, Kant tem de se haver com os xing-lings modernos.

Então, pra começar a conversa, ele cata o cogito cartesiano e hipostasia o que já era puro clorofórmio, até lhe caber o termo “transcendental”. Já rola de sentir uma onda-tipo de sintonia com o kósmos.

É o sujeito metafísico. Eu Absoluto, A=A, Representação Mundial, Vontade de Potência, todas essas e demais baboseiras do idealismo alemão se alimentam do “ergo sum” inflacionado em “ego sum qui sum” – e posteriormente efetivado no “eu sou o que sou, e isso é tudo o que eu sou”, no feeling and soul, neither one nor other, “eu sou o marinheiro Popeye”.

Mas Kant não é apenas um Descartes intoxicado de espinafre enlatado. O sagaz relógio de Königsberg também flertava com o despertador empirista de Dùn Èideann (a.k.a. Edinburgh), e é aí que entra Platão: o beato ateu prussiano se inspira na mistura de Parmênides e Heráclito que o destemido Arístocles de Largas Omoplatas realizou em seu doutorado… uma façanha que rendeu a este um puta dum pito da banca na hora da defesa: onde já se viu tamanho ecletismo? Não pode!

Só tem que o nobre ateniense não era nenhum grosseiro, e sambou em plena apologia de sua tese. Demonstrou que suas Idéias eram autênticas crias do lógos efesiano e da alétheias eleata. Movimento e paramento eram fáceis de conciliar: aqui, a razão; lá, a sensibilidade. É o Tcham!

Modernoso, manolo Kant não pode pensar suas próprias idéias do jeito que Platão fez (e Hegel fará depois, ao parir a “superjetividade” alemã – pois acreditava na Bíblia): como realidades anteriores e determinantes da subjetividade. Seguindo Cartesius e Rock Hume (que por sua vez era Francisco Toucinho e João Fechadura levados à sério), nosso herói transcendental mete o lógos na cabeça e faz uma gororoba filosófica deveras audaz, ao consubstanciar o racionalismo gaulês – que vinha com garantia da fábrica de acesso claro e evidente à alétheias – e o ceticismo bretão do empirismo abstrato, que é um proto-positivismo sem as ilusões dos netos do próprio Kant.

Resultou no Frankenstein “revolucionário”, Copérnico de trás pra frente: a subjetividade é uma ilha autônoma e independente (tal como o próprio Cogito, o solipsismo berkeliano ou as homeomerias leibnizianas, assentados no céu do deus matemático cartesiano ou na natureza spinozista, et demais variações), pois a realidade é inacessível. Mas ela existe! E determina, sem deixar indícios, aquilo que os filtros estéticos do sujeito levam para a lógica meter numa fôrma e tals. Em uma palavra, agnosticismo. Sei que nada sei, mas isso é fenomenal e já me basta. Passo importantíssimo para aprofundar ao limite do absurdo o abismo em que Hume já havia se hospedado.

Kant faz isso de forma tão competente que mal dá pra perceber o quão artificial é. Mas Fichte, o oligofrênico, manjou que a parada tava sinistra e foi fazer a barba do Platão burguês com sua Gillette de Ockham: se essa porra de coisa-em-si é incognoscível, pra que ela serve então? Corta.

Houvessem os alemães importado o bom-senso do Renato Cartésio, talvez Fichte tivesse perguntado: como é que pode haver novo conhecimento, se ele é constituído de idéias já presentes em nossas cabeças, ao mesmo tempo que se afirma uma determinação dos fenômenos por uma realidade que não deixa nenhuma impressãozinha digital como pista para nós? Se tem algo a se conhecer nessa história toda, é justamente a coisa-em-si.

Pois, enquanto Kant duvida dessa possibilidade, até mesmo os bois estão ruminando a coisa-em-si no campinho logo ali.

Hegel vai ter de levar esse papo até o seu fim. Valeu, jovem stuttgartiano! Você superou mesmo o dualismo sujeito x objeto com seu “idealismo absoluto”. Já seria um adeus a Kant. Pena que os bastidores da filosofia não se ocupam de nenhum lógos ou alétheias.

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kant óculos

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