Heidegger versus Marx, ou: de como interpretacionar é cambalhotar as idéias

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É incrível como esta simples afirmação se mantém atual:

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo“.

Você não apenas está careca de saber que foi Marx quem a disse, mas sabe onde, quando, como, porque etc. Né? É. Mais ou menos. Ok.

Aí vem Heidegger e tenta dar rasteira no homem com um “entretanto”: tal enunciado dependeria, antes de tudo, de uma interpretação acerca da filosofia, do mundo etc. e, portanto, não teria legítima autoridade para dizer qual seria “a questão” diante de outras interpretações.

Enquanto Heidegger demonstra, por meio dessa crítica a Marx, que ele mesmo e sua crítica tampouco poderiam possuir legitimidade e autoridade para criticar seja o que for – pois mergulha no interpretacionismo como fundamento do discurso, na dissolução da objetividade num subjetivismo absoluto (“a realidade sou eu”, “ser é perceber” etc) -, Marx não está criticando o ato de se pensar, interpretar e criticar o mundo, mas a idéia de que basta fazer isso para que ele mude.

Ora, quem pensa uma coisa dessas? Não é essa a pergunta, e sim “quem não pensa dessa forma?”.

De fato, por todos os lados, não faltam “críticos da consciência” alheia. Fazem a crítica do que os outros pensam e acham que, se todos pensarem de forma “crítica”, o mundo muda e vira um paraíso.

Ainda assim, as novas idéias assistem o mundo continuar afundando e piorar. Então, o que fazem os interpretacionistas? “Repensam” o mundo, criam eufemismos, espalham aspas e hífens; e o mendigo passa a ter a dignidade de ser, agora, um “morador” de rua. Mude a cabeça, pense positivo, leia a Bíblia, repita “eu sou 100%” diante do espelho, interprete o mundo de maneira “diferente”. Talvez, e ao menos, a “sua” realidade muda. É só ver como acontece com a de quem avança no alzheimer.

Nota bene. A crítica de Marx é a denúncia de um pensamento que faz interpretações e críticas sem qualquer critério na realidade, mas apenas em si mesmo.

O próprio Heidegger jura ser necessário interpretar o mundo de uma forma qualquer – e isso diante de sua desgraça evidente – para dizer que é preciso transformá-lo.

Se Heidegger fosse judeu, poderia ter beneficiado a história do pensamento humano simplesmente por não poder ter pensado e dito nada do que pensou e disse; pois os judeus possuíam critérios para pensarem o mundo, algo do qual dependia a possibilidade de continuarem respirando e, portanto, não apenas era totalmente independente do que pensavam e interpretavam, mas ainda era o que lhes permitia distinguir o que seria uma interpretação razoável do mundo e o que era esse monte de sofismas que Heidegger chamava de “filosofia”.

Só que Heidegger não era judeu, e sim Heidegger, o filósofo que pensava para Hitler. Nada melhor que um interpretacionismo para justificar a barbárie.

E o que aconteceu de lá pra cá? O idealismo que Marx arrasou e que Heidegger reafirmou – como se nada houvesse acontecido e, pior ainda, contra o próprio Marx – venceu a disputa ideológica.

Até o marxismo chega a ser neo-hegeliano: “a ideologia” impede os trabalhadores de se revoltarem, etc. Adeus, materialismo!

Estamos sob um “imperialismo da conscientização”. E quando você ouve falar da “hegemonia do marxismo cultural”, você está escutando o ecos da crítica de Heidegger: “finja (se possível, para si mesmo também) que está criticando Marx, e pronto – Marx está refutado”. Como se “a interpretação marxista” tivesse almejado e conquistado “hegemonia cultural” – e pior: o fez ardilosamente, às custas de privar as consciências da crítica! 

E assim segue a crítica a fazer o que Marx disse ser a atividade dos neo-hegelianos: “crítica da crítica crítica”, ainda que tamanho criticismo se apóie apenas em interpretações, ou seja, pensamentos que possuem lastro em umbigos “críticos”, autodeclarados como parâmetros da realidade (afinal, Heidegger faz uma “ontologia”), da mesma forma que uma religião declara ser a única verdadeira via para a salvação.

Pois bem. Marx pôde constatar o momento histórico em que a imbecilidade se despiu da vergonha e passou a arrogar-se o status de legítimo e demolidor olhar crítico, no início do período da decadência civilizatória burguesa. Certamente ele pressentia o quão fundo na lama o pensamento humano ia atolar, se o capitalismo perdurasse poucas décadas mais. Sua morte o privou do desgosto de ver o quanto tais pressentimentos eram pálidos diante do que surgiria pouco depois – pra não falar do que se pensa e se diz hoje.

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P.S.: vale a pena notar que a relação mundo-indivíduo em Heidegger se mostra tão desconexa que ele é incapaz de enxergar uma possibilidade de superação da alienação – ou, nos termos do pensador nazista, da “derrelição”, “ruína”, “queda” [sic], “inautenticidade” etc. -, e, assim, só lhe resta concebê-la enxertada na própria natureza do “Dasein“. Não por outro motivo que ele pensa o homem como reles “ser para a morte”, desprovido de qualquer sentido, uma vez que a vida humana é inautêntica na medida mesma que é social. Outros problemas que disso advém (ou a isso servem de base) se mostram no dualismo entre ente e ser, na separação entre o âmbito ôntico e o âmbito ontológico, na “denúncia” da razão e da tecnologia (descambando em franco irracionalismo e na apologia do obscurantismo), na recusa do aspecto objetivo da natureza, da sociedade e dos indivíduos, no isolamento da subjetividade, na pretensão de fazer uma crítica ontológica à metafísica que não é mais que pura e explícita metafísica – e que se desdobra em antropologia filosófica, existencialismo e gnosiologia, ainda que ele terminantemente se recusasse a reconhecê-lo -, donde também fazer uma redução da historicidade à temporalidade e promover uma inflação subjetivista na estética; ou ainda, migrar para a hermenêutica como método, e depois para a poesia como lugar da “expressão do ser” (já que a razão não pode exprimir o Dasein – é o impasse que o faz abandonar inacabado o seu “Ser e Tempo”). Heidegger realiza sua mitomania e termina falando de uma necessidade de “abertura ao ser” – como se o fato de sermos materiais, e estarmos em meio à natureza e ao mundo humano materiais, já não nos colocasse em relação imediata com o “ser”, “abertos” a tudo que existe.

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heidegger

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“Eu”: a ilusão de uma singularidade absoluta

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A questão ou conjunto de questões que nos leva ao misticismo, à religião, à feira hippie, ao veganismo, ao liberalismo e ao psiquiatra (a ordem dos fatores não altera o autoflagelo) não é a constatação assombrada de cada um de nós existir – nesse exato instante, irrepetível na história do universo -, saber que vai morrer, saber que possui ou é um Eu totalmente próprio, mas sim:
 
Por que eu sou esse eu aqui?
 
Centrado aqui, surgido de repente do nada e tendo a sensação de que sou um eu diferente do eu dos outros (pois só este eu sou eu)?
 
Por que aqui, nesse tempo? Por que não sou outra pessoa?
 
Alguém outro que vivesse tudo que eu vivi e reagisse da mesma forma que fiz: seria eu?
 
Fosse outro o espermatozóide… fosse outro o pai, apesar de ninguém saber – eu seria ainda esse eu aqui?
 
Tivesse vivido e feito outras coisas: eu não continuaria me identificando como eu, ainda que minha pessoa fosse melhor em umas, pior em outras coisas, poucas ou muitas?
 
Mas é óbvio que isso parece a nós um evento extraordinário no mundo – donde, aliás, deus “necessariamente” ter de existir; pois, se há alguma coisa que dá a deus uma razão de ser, essa coisa sou eu, além do fato de meu eu ter surgido do nada pra cá e nesse tempo. O que não pode jamais ser algo infundado, mas tem um propósito, ainda que eu seja um babaca.
 
(Deus me dá uma mãozinha e eu garanto sua existência. Descartes já havia cantado essa pedra e MC Escher desenhou depois.)
 
Fechando o parêntese, o fato é que colocamos tais questões partindo de nós mesmos, isto é, de tudo aquilo que constitui nossa subjetividade; portanto, de nossa memória, de nossos afetos etc.
 
É preciso ter cuidado ao cutucar, com perguntas assombradas, o próprio afeto (se bem que cuidado nenhum preenche a falta de juízo), essa força biológica e culturalmente determinada (especialmente pela emergência da individualidade na era moderna) e que é um verdadeiro barco de Caronte esperando para nos levar pro fundo da consciência natural, rústica, infantil, irracional, sentimental e apaixonada da bolha mitológica, com a devida “tempestade e ímpeto” que lhe cabe.
 
(Quando essa merda vira massa de manobra na política, a tendência é afundar toda a população na barbárie com orgulho. Fé em deus! Deixa a vida me levar, etc. Jamais antes de 1848 e das guerras do século XX poderia haver algo como o existencialismo, a filosofia do egoísmo e do abandono.)
 
Daí a aparência de que há um eu por baixo de minha pessoa e minha história, a servir-lhes de fundamento e fornecendo a elas a certeza de haver aí a minha “essência” – cuja existência transcende a banalidade da vida gratuita e trivial que vivemos (“transcendência” que qualquer sorvete de chocolate faz melhor) e possui uma natureza metafísica, cósmica, “à imagem e semelhança” do Absoluto e todo tipo de fantasias mais que a cabeça filosofante é capaz de elucubrar, por sobre o próprio umbigo e acerca da exuberância de seus “mistérios”.
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Categorias da mente

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Um amigo me perguntou o que é consciência. Não sou psicólogo e não revirei os dicionários, mas curto arriscar elucubrações – mesmo quando o pitaco é um surfe no tsunami da minha ignorância. Eis o rabisco para a férula de vossas críticas:

Antes de tudo, consciência é, digamos assim, uma categoria da mente. É uma central de apreensão de informações trazidas do exterior pelos sentidos, ou que chegam do interior por outras categorias e pela sensibilidade interna.

O importante, portanto, é a mente. Ela é um sistema operacional que o cérebro executa por meio de suas sinapses. Este sistema constitui a subjetividade, conjunto de todas as categorias mentais, quer dizer, “eu”. Vejamos algumas delas.

A mente opera ou manifesta a memória, constituída por imagens e idéias (conteúdo linguístico, não-imagético) que acessamos pela consciência; mas a maior parte de seu conteúdo fica guardada no que alguns chamam de inconsciente.

(Imediatamente se vê por este conteúdo que a atividade mental, apesar de ocorrer por sobre um sistema nervoso configurado em torno de certas rotinas de disparo neuronal, se determina essencialmente pelas diversas instâncias interativas de caráter social, nas quais vamos nos formando desde as primeiras experiências relacionais com objetos, sujeitos e processos humanos ou humanamente mediados.)

Ao lado de tal conteúdo temos a imaginação, responsável por processar as informações da consciência e da memória e produzir novas imagens e idéias. Donde o pensamento ser ato da imaginação sobre o conteúdo da memória e se dar de forma consciente, ou na consciência.

Mas nem toda produção mental se dá por meio da vontade, que é uma categoria ativa da mente.

Sonhar também é ato da imaginação sobre a memória, mas a consciência está, nesse caso, totalmente voltada para si mesma e não recebe as informações do exterior que chegam à mente pelos sentidos. Além disso, o inconsciente sorve quase toda a produção da imaginação, tão logo ela passa pela consciência.

As emoções ou sentimentos também são categorias da mente e se manifestam na interseção da memória, imaginação, consciência e inconsciente. Para lembrar o termo de Descartes, elas são “idéias adventícias“, cuja produção não é determinada pela vontade.

Quanto à razão, não se trata de uma categoria ou faculdade da mente. A razão é um modo objetivo, desantropomorfizado, ontologicamente orientado de pensamento, produto histórico da atividade prática social. [*]

De resto, o que seria aquilo que chamei de “minha ignorância”? É algo realmente meu, de minha mente, ou é uma falta?

A ignorância possui ao menos três níveis, ou há três tipos de ignorância. Primeiro, ela é aquilo que nos é totalmente alheio e desconhecido, e portanto sequer é inconsciente para nós; em segundo lugar, é aquilo que está no inconsciente e não conseguimos trazer à consciência, ou não aparece a ela, senão, no máximo, fragmentos que uma intuição ou sentimento manifesta de forma tortuosa (Freud grita aqui); por fim, é a consciência de que há algo que não nos é consciente, mas nos dá indícios mais ou menos claros de existir (dentro ou fora da mente), de modo que sabemos que não sabemos desse algo.

Para além de tudo isso, me resta começar a ler alguns bons dicionários.

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* – Confira o texto: O homem não é um animal racional, ou: o que é Razão?

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mente vazia
não faça de seu cérebro um apêndice do intestino alheio

Kant: Copérnico Frankenstein

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Outro dia eu vi um artigo sobre Kant em iorubá na Wikipedia e falei umas boboquices a respeito. Hoje, meu amigo Igor puxou o assunto, e aí eu resolvi escrever essa notícula sobre o moço.

Como é que Kant faz sua copérnica filosofia? Simples: ele pega Platão e deforma o aristocrata até ele virar um burguês.

Na falta de matéria prima autenticamente filosófica – isto é, grega -, Kant tem de se haver com os xing-lings modernos.

Então, pra começar a conversa, ele cata o cogito cartesiano e hipostasia o que já era puro clorofórmio, até lhe caber o termo “transcendental”. Já rola de sentir uma onda-tipo de sintonia com o kósmos.

É o sujeito metafísico. Eu Absoluto, A=A, Representação Mundial, Vontade de Potência, todas essas e demais baboseiras do idealismo alemão se alimentam do “ergo sum” inflacionado em “ego sum qui sum” – e posteriormente efetivado no “eu sou o que sou, e isso é tudo o que eu sou”, no feeling and soul, neither one nor other, “eu sou o marinheiro Popeye”.

Mas Kant não é apenas um Descartes intoxicado de espinafre enlatado. O sagaz relógio de Königsberg também flertava com o despertador empirista de Dùn Èideann (a.k.a. Edinburgh), e é aí que entra Platão: o beato ateu prussiano se inspira na mistura de Parmênides e Heráclito que o destemido Arístocles de Largas Omoplatas realizou em seu doutorado… uma façanha que rendeu a este um puta dum pito da banca na hora da defesa: onde já se viu tamanho ecletismo? Não pode!

Só tem que o nobre ateniense não era nenhum grosseiro, e sambou em plena apologia de sua tese. Demonstrou que suas Idéias eram autênticas crias do lógos efesiano e da alétheias eleata. Movimento e paramento eram fáceis de conciliar: aqui, a razão; lá, a sensibilidade. É o Tcham!

Modernoso, manolo Kant não pode pensar suas próprias idéias do jeito que Platão fez (e Hegel fará depois, ao parir a “superjetividade” alemã – pois acreditava na Bíblia): como realidades anteriores e determinantes da subjetividade. Seguindo Cartesius e Rock Hume (que por sua vez era Francisco Toucinho e João Fechadura levados à sério), nosso herói transcendental mete o lógos na cabeça e faz uma gororoba filosófica deveras audaz, ao consubstanciar o racionalismo gaulês – que vinha com garantia da fábrica de acesso claro e evidente à alétheias – e o ceticismo bretão do empirismo abstrato, que é um proto-positivismo sem as ilusões dos netos do próprio Kant.

Resultou no Frankenstein “revolucionário”, Copérnico de trás pra frente: a subjetividade é uma ilha autônoma e independente (tal como o próprio Cogito, o solipsismo berkeliano ou as homeomerias leibnizianas, assentados no céu do deus matemático cartesiano ou na natureza spinozista, et demais variações), pois a realidade é inacessível. Mas ela existe! E determina, sem deixar indícios, aquilo que os filtros estéticos do sujeito levam para a lógica meter numa fôrma e tals. Em uma palavra, agnosticismo. Sei que nada sei, mas isso é fenomenal e já me basta. Passo importantíssimo para aprofundar ao limite do absurdo o abismo em que Hume já havia se hospedado.

Kant faz isso de forma tão competente que mal dá pra perceber o quão artificial é. Mas Fichte, o oligofrênico, manjou que a parada tava sinistra e foi fazer a barba do Platão burguês com sua Gillette de Ockham: se essa porra de coisa-em-si é incognoscível, pra que ela serve então? Corta.

Houvessem os alemães importado o bom-senso do Renato Cartésio, talvez Fichte tivesse perguntado: como é que pode haver novo conhecimento, se ele é constituído de idéias já presentes em nossas cabeças, ao mesmo tempo que se afirma uma determinação dos fenômenos por uma realidade que não deixa nenhuma impressãozinha digital como pista para nós? Se tem algo a se conhecer nessa história toda, é justamente a coisa-em-si.

Pois, enquanto Kant duvida dessa possibilidade, até mesmo os bois estão ruminando a coisa-em-si no campinho logo ali.

Hegel vai ter de levar esse papo até o seu fim. Valeu, jovem stuttgartiano! Você superou mesmo o dualismo sujeito x objeto com seu “idealismo absoluto”. Já seria um adeus a Kant. Pena que os bastidores da filosofia não se ocupam de nenhum lógos ou alétheias.

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kant óculos

Ontologia da ciência e da arte: complexos da atividade humana

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A realidade é um complexo de complexos. Para saber dela e lidar com ela, a atividade humana se torna mais e mais multifacetada.

No entanto, meu propósito aqui é falar apenas (…) de duas grandes classes dessa atividade, elas mesmas complexos de complexos: ciência e arte.

Ciência é descobrir a coisa. Arte é construí-la. Senão, vejamos.

Ciência é desantropomorfização da natureza [*], ou seja, um contínuo ultrapassar de nossos limites corporais e culturais de apreensão da realidade. É ver o invisível, é fazer do olho humano um olho racional, teórico, sobrenatural.

É captar a coisa tal como ela é, em um árduo exercício de assimilação objetiva, movida e parametrada pela coisa mesma que se quer conhecer.

Ciência é descoberta – mas não um desvelar completo do objeto. Não existe um estágio final de conhecimento absoluto de tudo ou, ao menos, de algo.

Porque trata-se de descobrir uma “coisa” que não é uma coisa estática, mas é um processo, cujo dinamismo consiste num desencolher da coisa ao longo do tempo; e o que a ciência faz é correr atrás e comer poeira, por mais rápidos que sejam os cientistas em descortiná-la.

A realidade é sempre mais rica que o pensamento, pois ela é concreta e ele é abstrato, e tudo está em movimento.

Há progresso? Sim. Tanto no que se revela como saber, quanto no que se abre de perspectiva de nossa ignorância. E só podemos dizer isso na medida em que sabemos da coisa e vemos o que a coisa indica como ainda por se investigar e conhecer. Ora, essa visão da fronteira entre saber e ignorância só é possível a partir de algum conhecimento daquilo que era, até então, total ignorância. Donde até mesmo o ampliar de tal horizonte ser um saber.

A singularidade da coisa e a ignorância do sujeito implicam no seguinte: não existe um método científico que não seja história. Ou melhor, a ciência é a história da ciência.

Seu método é uma herança e uma novidade ao mesmo tempo: o conhecimento do que a realidade é, de acordo consigo mesma, se dá na base do que já sabemos, isto é, na analogia e comparação do objeto com o que temos de bagagem e classificações científicas; de tudo isso, partimos para a tentativa e erro frente ao que não sabemos e para a elaboração de propostas que possam servir como um fósforo no breu do desconhecido; coletamos indícios, pistas, encaixamos peças e, por fim, not least, entregamos os resultados (sempre provisórios, senão na medida que já atendem aos nossos bem-intencionados e singelos interesses) à crítica pública de outros cientistas, de leigos e da própria história. O método científico é uma prática social.

A partir do momento em que a teoria traduz a realidade por-si – supondo que ela nos permita isso ou alguma coisa – e torna nossa ação e intervenção sobre ela efetivas, surge a possibilidade de uma materialização do espírito: a exteriorização do pensamento sob forma de nova objetividade, nova coisa, concreção do que existia apenas enquanto idéia (p.ex., tecnologia).

[*] Quanto a isto, alguém me respondeu o segte.: “ciência não pode ser desantropomorfização da natureza, porque ela não é antropomorfa em primeiro lugar”. Correto. Mas minha análise parte da atividade humana. E a primeira forma socialmente organizada de consciência humana acerca da natureza é antropomórfica e produz mitologia. De resto, trata-se aqui de uma desantropomorfização “de nossos limites corporais e culturais de apreensão”, quer dizer, do corpo humano, dos olhos e demais sentidos naturais, da consciência natural, e ainda um afastamento (ao limite da ruptura completa) de traços culturais antropocêntricos; em uma palavra, desantropomorfização da “natureza” humana.

Mas a realidade não é apenas a realidade objetiva, de acordo consigo mesma. O mundo humano possui também um aspecto subjetivo: a realidade de acordo conosco. E é aqui que entra a arte.

Arte é antropomorfização da natureza, condensação do ânimo humano na matéria natural sob a forma de uma síntese significativa, o que transforma a natureza em uma natureza humanizada, sensível e espiritualmente. É nutrir o olho natural com humanismo concreto, multiforme, prático.

Arte não é filosofia e nem ciência. Ela não tem a obrigação de fazer pensar e nem demanda uma intervenção teórica do sujeito que escava um objeto de conhecimento e propõe hipóteses para compreendê-lo.

Arte que faz crítica ou ironia, arte que faz mistério de seu suposto conteúdo, arte conceitual ou abstrata, acadêmica ou tecnicista etc. é arte umbilical ou idiota, decadente ou morta, decorativa ou modista, matéria de pura especulação mercantil e indulgência para a adoração cega de religiosos da anestesia: estetismo da não-estética.

Arte não quer dizer; arte diz. E diz na cara, à flor da nossa pele, relando qual brita em nosso nariz, com a mais explícita e solar claridade e apelo à sensibilidade, educando o espírito na exaltação da riqueza de sua densa síntese de significação humana, tendo em vista a humanização da natureza e do mundo social.

É o domínio da realidade para-nós. Na medida em que a sensibilidade demanda expressão, põe em movimento uma atividade de cunho estético que almeja tornar o mundo um habitat à imagem e semelhança da familiaridade e dos afetos humanos, permitindo a emergência empírica de uma espiritualização da matéria: a subjetivação da natureza sob forma de novo ambiente e nova interioridade, a impregnação de idéias e de feeling na concreção espacial e mental, a realização humana de uma citerioridade mundana e pessoal.

Pois bem. Esses dois e todos os demais modos da atividade humana reincidem juntos – ou alienados uns dos outros, como ocorre hoje sob o anti-humanismo da sociedade anti-social e mercantil – sobre natureza e homem, organismo e pensamento, ambiente material e cultura, e tornam o ser humano e seu mundo cada vez menos naturais e cada vez mais auto-produzidos.

É exatamente no que consiste o que chamamos de história, a própria dimensão do tempo tornada humana – ainda que vivamos o nosso triste hoje como quem galopa uma besta em disparada e desprovida de quaisquer rédeas.

 

selfie arte
pegue sua polaroid e faça já a sua selfie com a história

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Alienação: fenômeno objetivo social

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Um tema antigo em filosofia, ao qual foi dada relevante atenção no pensamento contemporâneo a partir de Hegel e seus seguidores, e especialmente graças às reflexões de Marx (em seus Manuscritos de 1844) acerca da situação dos indivíduos na sociedade dominada pelo capital, é aquele da alienação.

O que vem a ser “alienação”? Pretende-se, neste escrito, distinguir o sentido que comumente se atribui ao termo (e que é imputado como sendo de lavra marxiana) do sentido que o próprio Marx deu a ele.

No primeiro caso, as noções que adentraram largamente o senso comum – graças às hordas “críticas” que atuavam (e ainda atuam) ideologicamente na academia e sobre os chamados movimentos populares e seus partidos – são condizentes ou bem próximas ao sentido dominante em filosofia, segundo o qual alienação aponta para um fenômeno de consciência, ou seja, próprio da apreensão mental da realidade. O enigma se situa para além do psicológico e adentra o domínio gnosiológico ou epistemológico, mas nunca abandona a órbita em torno da subjetividade; para ser mais direto e preciso, é simplesmente uma nova roupagem para o carcomido ceticismo.

Pois a alienação seria uma forma de distorção da consciência, um turvamento forçado por um agente externo; além disso, como desgraça pouca é ninharia, eventualmente essa perturbação ainda seria cultivada pelo próprio sujeito, configurando assim uma fisionomia mental esdrúxula, situada entre a ignorância, a deficiência cognitiva, a tara e a doença, no limite do flerte com a loucura.

O patógeno desencadeador deste processo é identificado como um poder imaterial, a “ideologia”, cuja forma de operação teria sido também desvendada por Marx.

Por meio de uma leitura cuidadosa (e que não tome as tradicionais “interpretações” feitas a respeito como referência) do escrito inacabado em que o filósofo versa sobre “A Ideologia Alemã”, torna-se fácil desmentir a tradicional versão que atribui a Marx uma preocupação com a “falsa consciência” disseminada entre os indivíduos, bem como uma análise de seu intrincado mecanismo ideológico de produção. Na verdade, ele identifica essa tese do “domínio das falsas idéias sobre os homens” como a teoria própria dos neo-hegelianos, e a combate sarcasticamente como sendo, ela própria, a reles ideologia alemã.

Senão, basta umas poucas linhas do prefácio da obra pra desmentir a imputação:

Até o momento, os homens sempre fizeram representações falsas de si mesmos, daquilo que eles são ou devem ser. Eles organizaram suas relações de acordo com suas representações de Deus, do homem normal e assim por diante. Os produtos de sua cabeça tornaram-se independentes. Eles, os criadores, curvaram-se diante de suas criaturas. Libertemo-los de suas quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o jugo dos quais eles definham. Rebelemo-nos contra esse império dos pensamentos. Ensinemos-lhes a trocar essas imaginações por pensamentos que correspondam à essência do homem, diz Um, a se comportar criticamente para com elas, diz o Outro, a arrancá-las da cabeça, diz o Terceiro, e… a realidade existente haverá de desmoronar.

Essas fantasias inocentes e infantis formam o cerne da nova filosofia dos jovens hegelianos /…/.

Certa vez, um nobre homem imaginou que os seres humanos se afogavam na água apenas porque estavam possuídos pela ideia da gravidade. Se afastassem essa representação da cabeça, por exemplo esclarecendo-a como uma representação supersticiosa, religiosa, eles estariam livres de todo e qualquer perigo de afogamento. Durante toda a sua vida combateu a ilusão da gravidade, de cujas danosas consequências todas as estatísticas lhe forneciam novas e numerosas provas. Aquele nobre homem era do tipo dos novos filósofos revolucionários alemães.

Todos os críticos filosóficos alemães afirmam que as ideias, as representações, os conceitos até agora dominaram e determinaram os homens reais, que o mundo real é um produto do mundo ideal. Isso se deu até o presente momento, mas a partir de agora deve mudar. Eles se diferenciam pela maneira como pretendem libertar o mundo humano, que, na visão deles, tanto padece sob o poder de seus próprios pensamentos fixos; diferenciam-se por aquilo que consideram como pensamentos fixos; concordam na crença nessa dominação dos pensamentos; concordam na crença de que seu ato de pensar crítico há de provocar a derrocada do existente, seja porque consideram suficiente sua atividade isolada de pensar, seja porque querem conquistar a consciência universal.

Desnorteados pelo mundo hegeliano dos pensamentos, os filósofos alemães protestam contra a dominação dos pensamentos, ideias, representações que até então, segundo pensam, quer dizer, segundo a ilusão de Hegel, produziram, determinaram e dominaram o mundo real. Fazem seu protesto e morrem […].

O mesmo é feito em relação à tese da alienação enquanto fenômeno de consciência, que enfim é a instância ao redor da qual giram as filosofias idealistas em geral e as neo-hegelianas em particular.

Entretanto, é essa a tese atribuída a Marx, ainda quando o que ele afirma se refere à produção material e a condição do indivíduo nesta produção (pois “o ser determina a consciência”, portanto o problema se enraíza no primeiro). Como exemplo, observemos a charge de Robert Thaves reproduzida abaixo – na qual um operário diz a outro que vai se aposentar e caminhar até o fim da linha de montagem para descobrir o que, afinal, fabricava. O que a charge sugere é que a alienação é uma mera falta de noção do que o trabalhador está fazendo, quer dizer, uma fragmentação de seu saber quanto ao produto final, o que remete antes a um fenômeno subjetivo do que à divisão social do trabalho que causa, entre outras coisas, tal fragmentação.

Frank e Ernest - alienação b

Em seus escritos, é possível perceber Marx apontando, ao contrário, para um fenômeno da objetividade social. O cerne do problema está na produção material capitalista, que reduz o trabalhador à mercadoria “força de trabalho”, posta à venda no mercado de trabalho para produzir outras mercadorias, que são produtos que visam, antes de seu uso, a troca. Ou seja, o trabalhador transfere a outro – aliena – a decisão acerca da finalidade, da duração, da intensidade do empenho de sua própria capacidade de trabalho, que não é outra senão a capacidade por meio da qual o indivíduo se humaniza. Que isso, naturalmente, incida sobre sua consciência depois, é um efeito da alienação, e não a alienação mesma.

Assim, o desacordo entre o pensamento marxiano e a tradição marxista é completo. Voltemos à charge: conhecer toda a linha de montagem faria o operário, finalmente aposentado, ficar livre da alienação? O que é que afinal o liberta, conhecer o produto pronto, ou a aposentadoria? Ambas as alternativas são simplesmente ridículas. Se o fenômeno da alienação se reduzisse à questão do conhecimento, então deveríamos pressupor que o trabalhador de uma manufatura, que conhecia todo o processo de fabricação de seus produtos, não seria um trabalhador alienado, apesar de depender de um mercado onde conseguisse vender sua mercadoria para poder, em troca, comprar seu pão com manteiga.

O mesmo acontece no caso de um cientista que faz a crítica e desvenda todo o modo de funcionamento do sistema. Basta ver o exemplo do próprio Marx, que amargou todo tipo de problemas e infortúnios até mesmo ao se candidatar a sub-empregos. Por fim, ele declarou que “nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro não tendo nenhum”. Em poucas palavras, alienação é isso: dependência de dinheiro [*]. Esse é o sentido da expressão que Marx usará décadas depois em O Capital: “fetichismo da mercadoria”. Fetiche é o objeto dotado de força sobre os homens, uma força estranhada e autônoma, diante do qual ajoelham-se. Trata-se da relação social entre os indivíduos tornada uma relação automatizada, exterior, alheia, independente e hostil, estabelecida por força de uma relação superior, posta entre as próprias mercadorias (na qual os homens se encontram como seus meros portadores), como se fossem os verdadeiros sujeitos sociais, ativos, controladores, se trocando por si mesmas. Donde a imagem do mercado como um deus, um sujeito pairando acima da sociedade, dotado de humores, desconfianças, razão e mãos invisíveis.

Tomar consciência de tudo isso é condição necessária, mas nunca suficiente, para superar tal estado de coisas, e por isso mesmo não torna o indivíduo menos sujeito à alienação, pois ele ainda tem de se vender no mercado de trabalho para poder pagar a manutenção de sua vida – reduzida à sobrevivência.

De te fabula narratur!

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[Leia também: Alienação: fenômeno objetivo social – 2]

[*] Por vezes se encontra ainda hoje, ecoando por aí, certa crítica romântica ao capitalismo, que afirma ser o poder do dinheiro derivado de uma “crença” em seu valor. Mais uma vez, dilui-se a objetividade de um fenômeno social em um subjetivismo desavergonhado. Certamente são “críticos” que nada conhecem de economia e atribuição de valor ao que quer que seja, mas que, ainda assim, não se dispõem a dar o exemplo (àqueles a quem pregam seus edificantes sermões) abrindo mão de seus cofrinhos.

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Uma nota acerca do MEDO ESQUERDISTA da revolução

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manifesto comunista - star wars

Certas ditas esquerdas têm pavor da revolução.

A maioria delas não apenas expurgou a revolução de seus horizontes – donde o uso que fazem do termo “socialismo” (comunismo??? nem pensar) não remeter a nada mais que a velha socialdemocracia e suas ilusões idiotas de reformar isso e aquilo -, mas nega peremptoriamente qualquer possibilidade de haver uma e, acima disso, rejeita e execra qualquer circunstância que possa descambar em algo do tipo.

No teorismo sub-vulgar dessas esquerdas – em que coabitam os retalhos ideológicos mais inconsistentes o possível de serem concebidos (em separado, donde só mesmo seus geniais ideólogos podem costurá-los) -, há a concepção fundamentalíssima de um “etapismo” utópico que seria necessário para a revolução, sem o qual qualquer agitação das massas só pode ser desqualificada como uma espécie de “invasão bárbara” das ruas por hordas de usuários de pijamas.

Para que pudesse haver uma “autêntica” revolução, pensam os esquerdistas do Reino dos Céus, é necessário antes haver “consciência de classe”, e essa “consciência de classe” é uma “consciência política”; para haver essa “consciência política”, é preciso haver politização e educação, quer dizer, “educação crítica”; e essas coisas, politização e “educação crítica”, só podem ser desenvolvidas numa democracia.

a system error

Mas se a democracia atual não permite ou favorece nem uma coisa nem outra – ao contrário, tudo indica que nela temos a atrofia de ambas -, então é preciso “fortalecer” e, é claro, “aperfeiçoar” a democracia, antes de tudo.

Ficam, assim, nessa etapa inicial para sempre. Chamam essa vergonhosa realpolitik de “realismo”. Deixam a revolução para o eterno futuro, ou seja, tornam o que era um meio para se chegar a ela o seu fim último.

Entretanto, se as ruas insistem em negar que a revolução seja uma utopia e são tomadas por multidões perdidas em ignorância e desespero, tais esquerdas se lançam à tarefa suicida de menosprezá-las, reprová-las e contê-las, considerando-as como massa acéfala de manobra dos dominantes ou firmes batalhões de uma contra-revolução sem revolução.

organizar a revolução

Algumas dessas esquerdas, a minoria, percebem que não podem evitar considerar, por força das circunstâncias, haver a possibilidade da revolução; mas é necessário que a revolução seja a que trazem pronta em seus programas. Tais “esquerdas revolucionárias” começam e terminam por pensar que a revolução é sempre uma revolução planejada – tem data pra iniciar e acabar e traz de antemão, carimbado na testa dos indivíduos, o selo da “consciência de classe” (desenvolvida por meio da panfletagem do partido revolucionário na porta das manufaturas): pois uma revolução só pode ser, a priori, uma revolução “de esquerda”.

Jamais põem em conta que não é nenhuma “democracia crítica” ou atividade microlocalizada de marketing ideológico que “politiza” ou educa as massas na “consciência de classe”, mas sim a revolução mesma que permite fazê-los com alguma efetividade, ao longo de um doloroso, contraditório, sem datas e absolutamente incerto percurso – em que as esquerdas deveriam disputar as consciências, e não jogá-las imediatamente no lixo da política.

É assim que, antes mesmo de buscar de alguma vitória, entram na luta já derrotadas.

A História passará o rodo nelas. Façamos a História! Pois a revolução a princípio é sempre impossível, até o momento em que se torna inevitável, seja lá qual for o caminho que irá seguir – algo que depende totalmente das forças que a disputarão, donde ser absolutamente imprescindível uma esquerda disposta a agarrar o touro pelos cornos.

sobre a viatura da polícia