Categorias da mente

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Um amigo me perguntou o que é consciência. Não sou psicólogo e não revirei os dicionários, mas curto arriscar elucubrações – mesmo quando o pitaco é um surfe no tsunami da minha ignorância. Eis o rabisco para a férula de vossas críticas:

Antes de tudo, consciência é, digamos assim, uma categoria da mente. É uma central de apreensão de informações trazidas do exterior pelos sentidos, ou que chegam do interior por outras categorias e pela sensibilidade interna.

O importante, portanto, é a mente. Ela é um sistema operacional que o cérebro executa por meio de suas sinapses. Este sistema constitui a subjetividade, conjunto de todas as categorias mentais, quer dizer, “eu”. Vejamos algumas delas.

A mente opera ou manifesta a memória, constituída por imagens e idéias (conteúdo linguístico, não-imagético) que acessamos pela consciência; mas a maior parte de seu conteúdo fica guardada no que alguns chamam de inconsciente.

(Imediatamente se vê por este conteúdo que a atividade mental, apesar de ocorrer por sobre um sistema nervoso configurado em torno de certas rotinas de disparo neuronal, se determina essencialmente pelas diversas instâncias interativas de caráter social, nas quais vamos nos formando desde as primeiras experiências relacionais com objetos, sujeitos e processos humanos ou humanamente mediados.)

Ao lado de tal conteúdo temos a imaginação, responsável por processar as informações da consciência e da memória e produzir novas imagens e idéias. Donde o pensamento ser ato da imaginação sobre o conteúdo da memória e se dar de forma consciente, ou na consciência.

Mas nem toda produção mental se dá por meio da vontade, que é uma categoria ativa da mente.

Sonhar também é ato da imaginação sobre a memória, mas a consciência está, nesse caso, totalmente voltada para si mesma e não recebe as informações do exterior que chegam à mente pelos sentidos. Além disso, o inconsciente sorve quase toda a produção da imaginação, tão logo ela passa pela consciência.

As emoções ou sentimentos também são categorias da mente e se manifestam na interseção da memória, imaginação, consciência e inconsciente. Para lembrar o termo de Descartes, elas são “idéias adventícias“, cuja produção não é determinada pela vontade.

Quanto à razão, não se trata de uma categoria ou faculdade da mente. A razão é um modo objetivo, desantropomorfizado, ontologicamente orientado de pensamento, produto histórico da atividade prática social. [*]

De resto, o que seria aquilo que chamei de “minha ignorância”? É algo realmente meu, de minha mente, ou é uma falta?

A ignorância possui ao menos três níveis, ou há três tipos de ignorância. Primeiro, ela é aquilo que nos é totalmente alheio e desconhecido, e portanto sequer é inconsciente para nós; em segundo lugar, é aquilo que está no inconsciente e não conseguimos trazer à consciência, ou não aparece a ela, senão, no máximo, fragmentos que uma intuição ou sentimento manifesta de forma tortuosa (Freud grita aqui); por fim, é a consciência de que há algo que não nos é consciente, mas nos dá indícios mais ou menos claros de existir (dentro ou fora da mente), de modo que sabemos que não sabemos desse algo.

Para além de tudo isso, me resta começar a ler alguns bons dicionários.

–+–+–+–

* – Confira o texto: O homem não é um animal racional, ou: o que é Razão?

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mente vazia
não faça de seu cérebro um apêndice do intestino alheio
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