Ecletismo: Suicídio da Teoria

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Na academia e demais prostíbulos pequeno-burgueses da filosofia e da ciência (bares copo-sujo, cafés parisienses, tabernas nazistas, facebook etc.) se cultiva, com o zelo dos mais rudes, uma ficção chamada ECLETISMO.
 
Trata-se de uma concepção e um procedimento de “produção teórica” tão já difundido no senso comum quanto mais inócuo e vácuo é o que produz.
 
O ecletismo imagina que teorias podem ser desmontadas e remontadas em novas combinações e misturas, pois seus enunciados seriam auto-sustentados, portadores em si mesmos de seu mais pleno sentido – donde seria perfeitamente possível, legítimo e consistente separá-los e depois encaixá-los nos que se isolam de outras teorias, sempre sob a suposição (ou inocência) que a textura significativa de cada um deles jamais apresentaria qualquer discrepância capaz de tornar o resultado final irregular e desarmônico.
 
Assim é que o ecletismo oferece uma fórmula universal para se criar “teorias” novas e adequadas à particularidade do mau-gosto pessoal do originalíssimo “pensador” local.
 
Democraticamente, o método eclético permite a todos e a qualquer um tornar-se um “intelectual”. Conceber teorias é como produzir vinhos: o versátil acadêmico não apenas ensina a misturar num Bordeaux um pacotinho de Tang uva (se se preferir, o pó pode ser previamente dissolvido na cachaça de tonel de alumínio que Dom Fulano produz em sua garagem), mas ainda garante que essa soma bizarra é melhor que o vinho tal como era antes.
 
É uma “contribuição” à produção do vinho. Eis que nosso teorista inscreveu seu nome na História.
 
Mas a História é, segundo pensa o ecletismo, uma reles coleção de causos curiosos. A modernidade dos nossos tempos estabelece que o passado só interessa se puder ser reelaborado, e que tal manufatura é tudo que pode gerar algo original – acima disso, eis aí algo que ela exige de tudo e todos: que sejam singularíssimos, ainda que não ofereçam mais que a originalidade, novidade e frescor de uma reles patranha imbecil.
 
Já se pode perceber aqui que, para justificar essa culinária idealista de secreção de gosma, é preciso uma ligeira overdose de subjetivismo que lhe sirva de base. O ecletismo só é possível porque se ampara no éter do solipsismo e na areia movediça do puro voluntarismo, elegendo o egoísmo como referencial, elevando o relativismo ao absoluto, afirmando o agnosticismo em ontologia e, portanto, decretando que a realidade não existe para além do umbigo e que teorias são apenas um estilo de literatura – ou melhor, um entretenimento. Deste modo, dispensam a necessidade de serem justificadas, pois se situam abaixo de qualquer possibilidade de serem avaliadas e não podem ser julgadas de nenhum modo, uma vez que os critérios de verdade, qualidade, utilidade, importância etc. são postulados a priori como subjetivos.
 
Enfim, trata-se de uma brincadeira sofística de crianças solitárias. Mas o teorista eclético não o faz por diversão, e sim por não perceber a completa idiotia à qual dedica seus não muito dispendiosos esforços intelectuais, esbanja seu generoso tempo e modela na presunção o seu caráter moral.
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apenas uma teoria
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6 comentários sobre “Ecletismo: Suicídio da Teoria

  1. Olá Erik,

    acompanho os textos do blog e eles são muito elucidativos. Ajudam-me a refletir rigorosamente sobre a obra de Marx e também contribuem para minhas reflexões sobre a sociedade, o individualismo, o capitalismo e a produção social material e ideológica que constitui o homem enquanto ser consciente e histórico. Considero o marxismo como a teoria mais potente, crítica e reflexiva já produzida e me empenho em compreendê-lo em suas bases, ou seja, a partir de Marx e de suas obras com Engels. Seus alicerces materialistas inserem o trabalho da consciência no rumo da lucidez à medida em que elucidam o modo como o ser humano produz e se autoproduz em sociedade, o que leva, em meu ponto de vista à crítica total da sociabilidade produzida pelo capitalismo, que insere a sociedade atual, a consciência dos indivíduos e as relações sociais numa condição absoluta de barbarismo.

    Um de seus enfoques mais interessantes em minha opinião é a crítica ao idealismo e ao subjetivismo, tendência que faz derivar o mundo e as relações objetivas da especulação e da força das abstrações. Bem, o subjetivismo é uma força difícil de ser dilapidada, dado o trabalho histórico intenso e longo das tradições idealistas e irracionalistas da religião, da família e da sociedade burguesa (e da sociedade desde sempre), todas elas legitimando fantasmagoricamente a opressão de alguns sobre muitos. Luto constantemente contra essa tendência em minha própria subjetividade e a filosofia de Marx é a maior força teórica disponível para contradizer as frouxas porém tenazes teses idealistas. Enfim, agradeço pelo blog e os textos e espero que continue publicando suas ideias. Posteriormente pretendo compartilhar dúvidas com você a respeito de seus textos, de minhas próprias ideias e de outras fontes de pensamento.

    Abraço,

    Francisco Neto Alves.

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