Ateísmo de direita: um culto à alienação

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Quando os religiosos criticam o ateísmo como um tipo de crença, uma “religião sem deus” (e não é saudável que sempre percebam de forma negativa essas coisas de dogmas, doutrinação, superstição e religião?… ainda que apenas as dos outros, é claro), não estão simplesmente dizendo que a calvície também é um tipo de penteado.

Porque o ateísmo de direita, burguês ou pequeno-burguês, é isso mesmo. Mistureba de biologicismo e agnosticismo em torno de uma mitologia e ritualística da fé na “ciência”, mistificação da razão, prática proselitista e reafirmação de uma “natureza pecadora” da humanidade – o egoísmo, do qual não busca salvação, mas dele se envaidece e faz apologia.

Alguns crentes associam isso ao satanismo. Estão equivocados. O satanismo é, ou seria, um paganismo – mais imaginário que histórico, é vero. Mesmo assim, enquanto os pagãos glorificam a vida, o ateísmo de direita leva o nojo que o cristão alimenta diante da vida às últimas consequências e celebra o mais agudo anti-humanismo, em adoração à mão invisível de Mamon.

Satã não passa de um querubim largado ao chão diante do Deus ateu, o único verdadeiramente Universal, perante o qual todos se ajoelham e rezam o cântico ecumênico da alienação – ainda que sua Omnipresença seja bastante exclusiva, casual e por vezes temperamental, oscilante ao cintilar na particularidade dos eleitos, dentre os quais hão de emergir seu Filho e sua seleta caterva de Iscariotes.

O que não impede, mas antes providencia, a religiosidade atéia: bendito é o dinheiro, mesmo que eu não tenha nenhum; louvado é o capital, apesar de eu ser mercadoria; sagrada é a propriedade privada, a qual me priva de toda propriedade. Jesus? Tem valor sim, enquanto empreendimento.

Weber chamou o protestantismo de “espírito do capitalismo”. Ele foi bem otimista, ou outra coisa. Antes dele, Marx já havia dito que “a religião é o espírito de um mundo sem espírito”. Pois bem: o ateísmo de direita não apenas afirma a inexistência de autenticidade humana, mas ainda repele a idéia da mera possibilidade de haver qualquer uma. Não quer um mundo espirituoso e não critica o vale de lágrimas; ao contrário, dá razão a elas, por meio de uma religião sem além e contra o espírito.

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Mammon
A propriedade privada nos tornou tão estúpidos e unilaterais que um objeto só é nosso quando é imediatamente possuído. Em lugar do todos os sentidos físicos e espirituais, fez surgir o estranhamento de todos eles: o ter. (Marx)
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Você é um privilegiado

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Você é um privilegiado.

Reconheça:

Você nasceu, quando tanta gente sequer existe, e a maioria daquilo tudo que existe é pedra.

Você nasceu no Brasil, não na Somália.

Você é um bípede sem penas, quando há tantas vidas por aí que sofrem a condição de serem monocelulares.

Você é pobre, mas é branco; você é negro, mas é homem; você é mulher, mas usa roupa de griffe.

Haja visto que, segundo nosso revolucionário aplicativo (para Android) medidor do índice de Q.O. (Quoeficiente de Opressão) dos indivíduos, você é um babaca: reúne categorias gerais o suficiente para ser acusado como um inimigo, ainda que apresente várias outras categorias (além de uma coisa chamada personalidade) que o inocentariam como amigo. E não, não há bug quando o homem é negro e a mulher é branca. Por acaso você nunca ouviu falar de porcentagem, ô vitimista auto-condescendente de zona sul?

Seus pais deviam admitir o erro de gerar uma pessoa como você, que – enquanto indivíduo singular ou pessoa – foi desprezivelmente preferida pelo acaso e pela natureza. Nascido para oprimir. Está no seu DNA, na sua biologia, em sua melanina, na música que você ouve. Seu merda.

Então, fica combinado o seguinte: você, seus pais, Adão e Eva, a natureza e a contingência vão agora confessar seus privilégios e vão ajoelhar no milho e pedir perdão por existirem.

Pois, a tal ponto chega esse papo de denunciar “privilégios” que até o fato de você ainda respirar é um privilégio frente aos oprimidos pela morte.

(Será assim, inflando sua auto-rejeição e culpa – por não ser um completo desgraçado -, e elegendo a política e o moralismo de Poliana como autêntica atuação revolucionária e emancipadora, que construiremos uma nova e autêntica realidade humana, livre da propriedade privada, das classes sociais, da divisão social do trabalho, do mercado, do dinheiro, do Estado, do egoísmo, da ganância, da concorrência universalizada, da “bellum omnium contra omnes” – todas essas tais entificações sociais produtoras de opressão e frente às quais você é um cego no tiroteio?)

Ah, não se esqueça. Você vai reconhecer o caráter opressor que a natureza te legou e do qual você é moralmente responsável. Você vai dar um jeito de se desconstruir até a medula dos ossos. Mas você fará isso calado. Pois agora você vai experimentar – digo, “vivenciar” – o lugar do oprimido como quem indubitavelmente merece virar montaria. Não ouse soltar um pio sequer em favor das minorias, a menos que, além de opressor por natureza, queira ainda ser escrachado como ladrão do “lugar de fala” que apenas os oprimidos natos podem ter a regalia de possuir. E nem pense em “problematizar” isso, larápio do privilégio alheio!

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Quando você critica o identitário por este afirmar que ser “homem”, “branco”, “hétero cis etc.” é possuir ~privilégios~, e pior, é ser ~opressor~, ele trata de te responder dizendo, na melhor das hipóteses, que você está negando existir opressão sob forma de racismo, machismo, homofobia etc.

Ele se esforça para te convencer que, se você está um centímetro acima da desgraça alheia por não se encaixar em uma ou mais dessas categorias oprimidas, isso te torna privilegiado e opressor, por pior que seja a vida que você insiste em suportar.

Você é um oprimido, mas agora é um verme que devia assumir seu caráter de parasita dos oprimidos. Você aí: sem saber, você queima bruxas, veste o capuz da KKK, espanca gays na rua e ainda manifesta orgulho de ter feito o que não fez e de ser o que o acaso fez de você.

Uma verdade que nem a pílula vermelha de Matrix poderia arregaçar tanto as pupilas!

Ou então, é um discurso moralista e religioso que só serve pra nos esconder os verdadeiros privilegiados da sociedade e, de brinde, para jogar em nossas costas a culpa pela desgraça dos outros.

Se isso é o que temos para guiar as lutas, melhor vestir um pijama e ficar assistindo vídeos de gatinhos no facebook.

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Como funciona o pensamento dos identitários?

Suponhamos que você faz críticas ao subjetivismo. Como resposta, não ouve nenhum desmentido; ao contrário, a confirmação vaidosa do que foi exatamente a sua crítica.

Assim: se você fala de subjetivismo no identitarismo negro, a sua pessoa se torna a pauta da discussão e você é tachado de racista. No identitarismo feminista, você é chamado de machista. No LGBT, você é homofóbico. Etc.

Isso não apenas quando nada que você disse permite tais acusações, mas ainda quando as pessoas te conhecem bem e sabem que você, conscientemente, não é nada disso (e se esforça para não sê-lo nunca); muito antes pelo contrário, simpatiza com a luta contra o racismo, o machismo, a homofobia etc.

Elas também aproveitam a oportunidade pra tentar te desqualificar com os termos “esquerda”, “marxista”, “acadêmico” e, pasmem, “assalariado” (essa foi recente e conseguiu me surpreender, apesar de saber que podia esperar as coisas mais incríveis). Com o que se despem de seus últimos vestígios de boa-fé e camaradagem em torno da luta pela superação do capitalismo.

Não acho mau. Prefiro não ter essas pessoas por perto. Que se mandem pro harém de George Soros e se deliciem em sugar suas bolas longe daqui.

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CONFIRA TAMBÉM:

O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

Protagonismo e vivência

A fantasia do capitalismo enquanto produto cultural “eurocêntrico”

O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”

Djamila Ribeiro e a crítica ao “racismo reverso” (facebook)

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E-toda-manhã-pense-no-privilégio-que-é-estar-vivo.
O privilégio do moribundo

Fernando Pessoa: ultimato à razão

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Assistir Maria Bethânia recitando Ultimatum de “Álvaro de Campos” é de dar nó nas tripas.

Porque não é exatamente um ato majestoso de emprestar sua bela voz a um poeta genial (se bem que não é nada que causa espanto em quem manja o qualé da turma da MPB do dendê).

Pra começo de conversa, essa não é uma poesia genial do pluri-egocêntrico Fernando Pessoa.

Seu ultimato é nitidamente nietzschista. Quase uma caricatura; e seria, se o original fosse mais que isso.

Nietzsche é aquele que aplaudiu o massacre covarde da Comuna de Paris pelas tropas prussianas a pedido de Thiers, que havia acabado de perder a guerra para a mesma Prússia e ainda coroou Guilherme I como Imperador no Palácio de Versalhes. Um punhado de fatos que lançou a outrora revolucionária França na indelével latrina das grandes e irremediáveis ignomínias da história.

Pior que a burguesia francesa se oferecendo de capacho ao seu vencedor e solicitar sua ajuda para chacinar aqueles que lutaram ao seu lado, só mesmo um saxão nanico exaltando as “virtudes heróicas” dos que trucidaram os “bárbaros socialistas franceses”. Um elogio não muito original vindo de um acadêmico do lado-de-lá do Reno, que cultiva taras acerca da própria impotência e realiza sua Vontade alemã ao se oferecer como capacho do capacho.

E o que dizer de seu pimpolho lusitano, que brada contra “vós [socialistas] que confundis o humano com o popular”, para terminar seu manifesto afirmando: “Eu da raça dos navegadores, /…/ eu da raça dos descobridores, /…/ proclamo isso bem alto, saudando abstratamente o infinito”?

(“Saudando abstratamente o infinito”: parece bonito, parece profundo, mas é apenas raso, idiota e brega. Porque não basta saudar o infinito; é preciso fazê-lo de forma abstrata, ou seja, sem saudá-lo de verdade, até porque o infinito é coisa nenhuma. O que se adequa perfeitamente ao que Fernando Pessoa havia acabado de usar para falar de si mesmo: a expressão pomposinha “raça dos descobridores” – com o que ele se vangloria de ser um… português. Ora pois, não é qualquer um que tem pedigree e bigodinho de marinheiro.)

As declarações de desprezo pelo socialismo não provém de nenhuma particularidade pessoal de “Álvaro de Campos”. Poucos anos depois, Fernando Pessoa itself se permitiu demonstrar como e por que um banqueiro é um homem que luta pela emancipação da humanidade ao angariar seus lucros privados, rejeitando as “falsas convenções da sociedade” e obedecendo apenas ao egoísmo “natural” da “espécie humana” (cf.: Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia).

É engraçado notar como o irracionalismo segue uma rota rigorosamente coerente, rumo ao profundo âmago do umbigo filosofante. Tal como seu muso inspirador de fanfarronices, Fernando Persona finalmente se imagina “pura dinamite”, demiurgo do “novo”, abraçando o Atlântico. É o revolucionário de um mundo particular e totalmente privê.

Nada disso é casual. Quando os ideólogos da burguesia, a partir dos eventos históricos que varreram a Europa em 1848, admitiram sua derrota ideológica no campo da razão, lhes restou combater o socialismo com a elegância da abstração, a saudação vazia ao nonsense, o pronunciamento orgulhoso do mundo como mero absurdo e, enfim, a adoração religiosa do magnânimo “Eu”, que rompe todos os grilhões existentes na realidade por meio de bazófias saídas do porão da fantasia, fingindo iconoclastia e esbanjando adulação aos seus “heróis da humanidade”, à “raça” dos que têm pedigree no bolso.

“Álvaro de Campos” é apenas mais uma pessoa dentre tais ideólogos. Não como filósofo, porque é mais fácil vender irracionalismo sob forma de poesia que de filosofia – já que não pretende dizer nenhuma verdade ao dizer que a verdade não existe; donde a poesia ser ruim pretendendo ser poesia filosófica, enquanto a filosofia já foi usada até mesmo pelos cristãos… ou por Nietzsche, “O Anticristo” da filosofia poética que escandalizou o próprio Satã.

E no Brasil, last and least, coube e cabe à música popular (tanto a baiana quanto as congêneres) declamar a crítica à razão com a aura da rebeldia própria da academia. Arte que faz “pensar”. Quem viu Bethânia proferi-la não pode desvê-la, e talvez nem deva tentar.

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Nietzsche
filosofia do “para mim”

Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia

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Fernando Pessoa expõe, em seu conto “O Banqueiro Anarquista” (PDF para download), uma argumentação consistente para identificar o anarquismo enquanto uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa (também chamada de “libertarianismo” e demais variantes), em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas.

Observem estes trechos. No primeiro, ele fundamenta a ideologia sobre uma antropologia filosófica – o egoísmo enquanto “natureza humana” (ah, como a natureza é conveniente!…):

– “Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, por que cargas d’água defenderia o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta“.

No segundo, ele justifica a corrupção geral da sociabilidade burguesa (o que Hobbes chamava de “guerra de todos contra todos” na selva onde “o homem é o lobo do homem”) sem nenhum pudor:

– “Não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta; e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter a compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso… E veja você.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o fato que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro. Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo – confesso-lhe, meu amigo, que empreguei tudo quanto há – o açambarcamento [roubo], o sofisma [fraude] financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?!

Fernando Pessoa é honesto em seu cinismo auto-complacente. Mas por que eu disse que isso é “uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa, em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas”?

Porque acredita na fantasia do “enriquecimento às custas do próprio esforço” (ainda que esse “mérito” seja resultado de toda sorte de meios ilegais e imorais – afinal, F. Pessoa condena a moral e o Direito como “não-naturais”, donde serem “ficções”) – como se o trabalhador partisse de uma situação desprovida de pré-condições, de uma linha de largada em que toda a concorrência entre os indivíduos estivesse equilibrada, e a partir da qual é que se instauraria pra valer.

Essa fantasia não enriquece trabalhador nenhum, mas serve como uma luva na hora de defender “quem chegou lá“, ou melhor, quem já estava lá por meio de herança de capital e de força política.

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Coletivismo, estatismo, ateísmo, anti-humanismo, economicismo e historicismo: lendo Marx ao contrário

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Quando as filosofias e filosofemas penetram o senso comum, viram ideologias ou passam a constituir retalhos delas.

Ideologias podem ser mais ou menos consistentes. O senso comum é um mix delas, além de conter outras idéias não-ideológicas, provindas da prática imediata, do empirismo e de restolhos ideológicos do passado.

É por isso que devemos fazer uma ou outra dissecaçãozinha básica daquelas filosofias (além das mitologias etc). É isso que faz com que tenha importância a crítica a certos autores, mesmo que não passem de imbecis acadêmicos.

Marx não criticou Bruno Bauer, Max Stirner, Proudhon, Say, Mill, Bastiat e tantos outros por esporte ou sadismo, quando talvez apenas Kant, Hegel, Smith, Ricardo etc. mereceriam a sua atenção.

E agora o senso comum, alimentado com esse tipo de capim e suas novas derivações, absorveu certas críticas feitas a Marx que lhe imputam um coletivismo, um estatismo, um ateísmo belicoso, um anti-humanismo, um economicismo e um historicismo, mil outros etc.

São tantos os que afirmam e reproduzem tais idéias que não há como citar nomes. Mas o que importa são aquelas e não estes.

Marx não é um coletivista. Ao contrário, toda a sua obra afirma a necessidade de se emancipar os indivíduos das limitações impostas a eles pelas classes sociais, mercado, divisão do trabalho etc.

Mas o individualismo de Marx não se confunde com o burguês, que isola o indivíduo no egoísmo (como algo próprio de sua “natureza”) e o contrapõe à sociedade. Para Marx, ao contrário, o indivíduo só se realiza e efetiva seus potenciais no interior da sociedade, na ampliação das relações do indivíduo com o mundo.

O mesmo quanto ao humanismo: enquanto aquele que procede da mentalidade burguesa é idealista, utópico, egoísta e reflete o fetichismo mercadológico dos “homens de igual valor” e a tolerância do ecumenismo do dinheiro, o humanismo marxiano afirma a emancipação dos indivíduos em uma sociedade autogerida.

Onde não cabe, evidentemente, nem coletivismo reacionário, nem coletivismo estatal, burguês. Tomar o Estado é necessário simplesmente porque detém poder material, que não ficará sobre o muro no caso de uma revolução. É preciso rachar o Estado e voltar seu poder contra aquilo para o qual ele existe como protetor. Senão, fiquem aí sonhando com suas miseráveis comunidades hippies.

O fim da religião, tal como a conquista ou destruição do Estado, não é o ponto central do processo revolucionário. Marx não faz crítica da religião. Para ele, não interessa a Sagrada Família, mas sim aquilo que faz a família profana se projetar no além: é o aquém da sociabilidade corrompida pela propriedade privada que demanda a ilusão de se superar o “vale de lágrimas” no pós-fim, tanto quanto demanda a força do Estado para manter-se como areia movediça sobre a qual a sociedade se assenta.

Tornado estéril o solo da propriedade privada, e estabelecida a sociedade sobre a propriedade social dos meios do trabalho, a religião e o Estado perdem razão de existir.

Isso acontecerá por força de uma economia entendida como “sistema” (que não é outra senão a imagem do mecanismo do deus-mercado e sua “mão invisível”), ou de uma meta acima da história (tal como ensina a religião) a nos guiar? Se for assim, basta cruzar os braços e esperar a revolução me emancipar e fazer de mim um indivíduo autônomo. Nota-se a coerência dessas idéias com as demais imputações; mas para acreditar nelas é preciso ser pouco mais que um vegetal trancado num cubículo de classe média.

Há muito mais pra ser dito sobre essas coisas, mas não há quem leia dissertações ou livros num blog. Para quem quiser, indico algumas leituras – e trocamos as figurinhas depois.

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capitalismo e individualidade 2
Pode acreditar nisso, abiguinho

O fascismo colore o Brasil: a esquerda “classe média” pira!

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“Tenho 5000 amigos nesta rede. A maior parte, de esquerda. Desses, a maioria parece estar vivenciando algum tipo de luto. Uns ficam choramingando pelos cantos, decantando a falta de esperança, pranteando os tempos idos. Outros deliram, sem peias. Passam os dias e noites a conversar com um coxinha imaginário. Riem do coxinha imaginário, apontam o dedo pro coxinha imaginário, berram: “BATERAM PANELAS? AGORA AGUENTA!”. Os verdadeiros coxinhas, quando não foram eliminados da timeline dessas pessoas em algum momento entre 2013 e o ano passado, estão plácidos, contentes, a compartilhar fotos de gatos, cachorro, comida. Eles não ligam. Isso me assusta, pois é um sintoma, eu reconheço sintomas.
 
Esse post gigante e algo confessional é para dizer que aquela sombra [da depressão], minha velha conhecida, está rondando muitos de vocês. Vocês precisam se cuidar. Ou vocês dão o seu jeito de irem lixando, pouco a pouco, as diversas camadas de cinza, ou deveriam procurar tratamento adequado. Saiam dessa espiral de lágrimas, luto, negação, está começando a ficar preocupante. Luto não era verbo? Pois então”.
 

 Pedro Munhoz 

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Eis aí uma observação arguta do Pedro Munhoz, à qual eu gostaria de acrescentar um rabisco.

A respeito do “avanço e proliferação do fascismo no Brasil”, que draga as energias psíquicas de tantos esquerdistas por aí, eu havia dito, em março (cá e lá no facebook), algo que vale a pena redizer:

Essa tese de um “crescimento do fascismo no país” é: empirista, impressionista, falsa, derivada da coleta de casos em jornais e “fundamentada” no marketing político do medo, no reginoduartismo difundido pelo PT em apuros e por suas rêmoras (p.ex., Guilherme Boulos e sua “crescente onda conservadora no Brasil”).

É preciso lembrar que o fascismo é pequeno-burguês, e isso é normalíssimo. E que a “classe média” não apita. Late mas não abocanha.

O que a manadinha fascista queria era a queda do PT. Já bastava a ela. Depois que o PT caiu, ela continuou a fazer seus atos? Bateu em comunistas na rua, quando ficou claro que os problemas do país não eram o PT no poder e a esquerda em geral? 

Não. Depois que o PT caiu, os fascistas vestiram o pijama. Pra eles era isso que estava em questão, algo totalmente independente dos problemas econômicos e políticos e seus desdobramentos, pois em suas fantasias o único problema era vencer o que não passa de um mito: “o partido e a política comunista em ação no Brasil”. E eis que estão dispensados de ter qualquer clareza sobre qualquer coisa.

O fascismo, portanto, não cresceu e nem se expandiu: esteve aí desde sempre, ainda que deitado eternamente em berço esplêndido, amando a Pátria em seus sonhos, mas eclodindo quando chamado pelo MBL a salvar da morte vermelha o lábaro da liberdade.

Engraçado é reconhecer que, quanto à determinação social do fascismo, a Marilena Chaui não estava de todo errada. A pequena burguesia (que ela chama de “classe média”, com a precisão de um hipopótamo) sempre foi fascista. Se agora “o gigante acordou”, se de repente o fascismo resolve dar as caras e mostra sua cabeça monstruosa, daqui a pouco ele dorme de novo.

Nada disso seria qualquer problema se a maior parte da esquerda brasileira não insistisse em dormir ao seu lado. 

O sono da esquerda produz monstros.

Quanto a isso, recentemente eu falei da “classe média autocrítica” – ou crítica de uma “outra” classe média -, que constitui um bom bocado do eleitorado e da militância das esquerdas light, essas que querem conquistar a pequena-burguesia para um socialismo de reformas do capitalismo, feitas através da política (p.ex., o próprio PT, seu pet amestrado PCdoB e seu filho adolescente rebelde PSOL).

Centram foco na disputa pela “classe média”, da qual falam tanto quanto o pastor fala do diabo, num bizarro exercício de narcisismo.

Deixam de disputar os trabalhadores porque são socialistas cuja perspectiva social é pequeno-burguesa, donde se vêem engalfinhados em um vórtice de obscurantismo teórico e prático que os lança em perdição e ceticismo e depois os cospe na direção da religião, do cinismo e do liberalismo.

Pois que tratem de se livrar dessa idéia fixa peçonhenta em atacar a pequena-burguesia que colore seus pesadelos, e mirem esforços para a organização dos trabalhadores, a única classe que pode ter interesses em mudar a sociedade.

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“Escola Sem Partido”: doutrinação e partidarismo

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Quem se põe a favor da Escola Sem Partido usa como argumento uma simetria falaciosa, forrada de noções igualmente falsas: “se vc é contra a ESP, tem de ser contra a separação entre Estado e Igreja”, pois escola que toma partido é igual Estado com religião oficial.
 
São tantas asneiras condensadas num só chorume que fica difícil saber por onde começar.
 
Que seja em primeiro lugar o segte: a ESP não se volta contra as escolas, mas sim contra os professores – de humanas, que são “todos marxistas”.
 
Donde, em segundo lugar, ser mentira que a ESP não tem partido, pois se coloca em combate político-ideológico contra o que chamam de “doutrinação partidária” e, portanto, tomam partido.
 
Se uma coisa não é igual à outra, então resta explicar porque há (mais de um) partido político defendendo a ESP no Congresso e no MEC.
 
Fato é, e está esfregado na nossa cara, que o sentido do termo “partido” que a ESP combate tem muito mais a ver com o de posição político-ideológica que o de agremiação política.
 
É também notável o uso do termo “doutrinação”: pois ao redor da ESP gravitam pessoas e instituições que tomam partido de bandeiras religiosas.
 
Numa coisa eles estão corretos: doutrinação “de verdade” é a deles.
 
Entrementes, o melhor Estado para os religiosos é o Estado laico. Quem quiser adquirir ou trocar de religião pode escolher nas gôndolas do mercado da fé se vai virar evangélico, católico, espírita, hippie de butique ou astrólogo em Virgínia; e quem é empresário do ramo de indulgências não pode admitir um Estado que monopoliza o comércio religioso e dita qual é a única doutrinação oficial – a menos que seja a sua, claro.
 
Mas isso é uma questão de concorrência. Quanto mais o capital acumula, menos democracia e liberdade de venda e compra.
 
Pois bem, a ESP não quer uma escola laica, democrática e livre. Ela é, aliás, um sintoma da super-acumulação do capital religioso.
 
Ao contrário desse nivelador de pensamento, aquele que toma partido de uma posição político-ideológica (algo diferente de vender o peixe de um partido político) se põe a participar de um debate, onde coloca argumentações, faz e ouve críticas. Doutrinação é coisa de religião, e aí nada se discute.
 
Outra (e aqui temos a simetria explícita do argumento): escola não é Estado. Não se escolhe viver sob este como se escolhe aquela (pra citar uma única diferença, suficientemente gritante). E ainda tem que as escolas sempre tomaram partido político, ideológico e religioso, principalmente se são escolas “livres”, ou seja, privadas. Ao menos em tese, as escolas públicas são laicas e prezam pela diversidade. Ora, a ESP também toma partido pela privatização da educação.
 
Além disso, impedir que o professor tome partido é pretender um educador que não assume o que pensa e se coloca sobre o muro a respeito de questões que exigem uma posição, inclusive por uma questão moral (p.ex., será realmente imparcial, desejável, saudável e ética a posição que se pretenda neutra frente ao fato histórico da escravidão no Brasil?), ao mesmo tempo que imagina uma classe de alunos totalmente passivos e vulneráveis ao seu discurso.
 
Por fim, traçar uma analogia entre um professor sem partido e um Estado sem Igreja, i.é., sem partido em termos de religião, pressupõe uma identidade entre aparato estatal (que pretende se situar acima dos indivíduos e seus interesses particulares) e indivíduo, como se um professor devesse ser um “representante universal” da sociedade e o próprio conhecimento não fosse um campo de luta ideológica; e mais, basta intercambiar os termos da equação para se constatar o absurdo de se pensar um Estado que não toma partido em termos de política, paralelamente a um professor que deva se colocar acima – e que possa se manter ileso – à religião. Mas, na prática, o Estado toma partido religioso, tal como a sociedade faz, enquanto a ESP deseja e age politicamente em prol da doutrinação religiosa de professores e alunos. Ambos atuam em prol de uma exigência societária do capital, pela qual religião e política são postas, impostas e repostas como canga na moleira dos indivíduos.
 
Pois não há religião que não seja política, assim como a política é religiosa.
 
Em suma: a ESP é o projeto de uma educação política, religiosa e capitalista – a seguir à risca tudo aquilo que a educação burguesa é, e que a educação como formação humana não deve ser.
 
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Alguém pode pensar que defendo uma escola sem partido. Sim, defendo. Por isso mesmo é que tomo partido contra a ESP, e julgo ser nosso dever tomar partido em todas as questões pertinentes à cisão da sociedade em classes – sob determinação do capital, mantida por seu Estado político e aterrada pelas bençãos da religião.
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isto não é uma religião - mas serve bem a uma
isto não é uma religião, mas serve bem a uma