Kant: Copérnico Frankenstein

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Outro dia eu vi um artigo sobre Kant em iorubá na Wikipedia e falei umas boboquices a respeito. Hoje, meu amigo Igor puxou o assunto, e aí eu resolvi escrever essa notícula sobre o moço.

Como é que Kant faz sua copérnica filosofia? Simples: ele pega Platão e deforma o aristocrata até ele virar um burguês.

Na falta de matéria prima autenticamente filosófica – isto é, grega -, Kant tem de se haver com os xing-lings modernos.

Então, pra começar a conversa, ele cata o cogito cartesiano e hipostasia o que já era puro clorofórmio, até lhe caber o termo “transcendental”. Já rola de sentir uma onda-tipo de sintonia com o kósmos.

É o sujeito metafísico. Eu Absoluto, A=A, Representação Mundial, Vontade de Potência, todas essas e demais baboseiras do idealismo alemão se alimentam do “ergo sum” inflacionado em “ego sum qui sum” – e posteriormente efetivado no “eu sou o que sou, e isso é tudo o que eu sou”, no feeling and soul, neither one nor other, “eu sou o marinheiro Popeye”.

Mas Kant não é apenas um Descartes intoxicado de espinafre enlatado. O sagaz relógio de Königsberg também flertava com o despertador empirista de Dùn Èideann (a.k.a. Edinburgh), e é aí que entra Platão: o beato ateu prussiano se inspira na mistura de Parmênides e Heráclito que o destemido Arístocles de Largas Omoplatas realizou em seu doutorado… uma façanha que rendeu a este um puta dum pito da banca na hora da defesa: onde já se viu tamanho ecletismo? Não pode!

Só tem que o nobre ateniense não era nenhum grosseiro, e sambou em plena apologia de sua tese. Demonstrou que suas Idéias eram autênticas crias do lógos efesiano e da alétheias eleata. Movimento e paramento eram fáceis de conciliar: aqui, a razão; lá, a sensibilidade. É o Tcham!

Modernoso, manolo Kant não pode pensar suas próprias idéias do jeito que Platão fez (e Hegel fará depois, ao parir a “superjetividade” alemã – pois acreditava na Bíblia): como realidades anteriores e determinantes da subjetividade. Seguindo Cartesius e Rock Hume (que por sua vez era Francisco Toucinho e João Fechadura levados à sério), nosso herói transcendental mete o lógos na cabeça e faz uma gororoba filosófica deveras audaz, ao consubstanciar o racionalismo gaulês – que vinha com garantia da fábrica de acesso claro e evidente à alétheias – e o ceticismo bretão do empirismo abstrato, que é um proto-positivismo sem as ilusões dos netos do próprio Kant.

Resultou no Frankenstein “revolucionário”, Copérnico de trás pra frente: a subjetividade é uma ilha autônoma e independente (tal como o próprio Cogito, o solipsismo berkeliano ou as homeomerias leibnizianas, assentados no céu do deus matemático cartesiano ou na natureza spinozista, et demais variações), pois a realidade é inacessível. Mas ela existe! E determina, sem deixar indícios, aquilo que os filtros estéticos do sujeito levam para a lógica meter numa fôrma e tals. Em uma palavra, agnosticismo. Sei que nada sei, mas isso é fenomenal e já me basta. Passo importantíssimo para aprofundar ao limite do absurdo o abismo em que Hume já havia se hospedado.

Kant faz isso de forma tão competente que mal dá pra perceber o quão artificial é. Mas Fichte, o oligofrênico, manjou que a parada tava sinistra e foi fazer a barba do Platão burguês com sua Gillette de Ockham: se essa porra de coisa-em-si é incognoscível, pra que ela serve então? Corta.

Houvessem os alemães importado o bom-senso do Renato Cartésio, talvez Fichte tivesse perguntado: como é que pode haver novo conhecimento, se ele é constituído de idéias já presentes em nossas cabeças, ao mesmo tempo que se afirma uma determinação dos fenômenos por uma realidade que não deixa nenhuma impressãozinha digital como pista para nós? Se tem algo a se conhecer nessa história toda, é justamente a coisa-em-si.

Pois, enquanto Kant duvida dessa possibilidade, até mesmo os bois estão ruminando a coisa-em-si no campinho logo ali.

Hegel vai ter de levar esse papo até o seu fim. Valeu, jovem stuttgartiano! Você superou mesmo o dualismo sujeito x objeto com seu “idealismo absoluto”. Já seria um adeus a Kant. Pena que os bastidores da filosofia não se ocupam de nenhum lógos ou alétheias.

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kant óculos

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O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”

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O veganismo diz que comer carne é especismo.
 
Trata-se, com o perdão do trocadilho, de uma espécie de antropocentrismo.
 
Os veganos criticam aqueles a quem chamam de especistas por estes julgarem ser o homem superior às outras espécies, a ponto de pretender tomar e realizar decisões que as envolvam, etc.
 
Especismo é isso: se afirmar enquanto pertencente a uma espécie superior. E isso vale tanto para quem come carne quanto para quem tem um gato pra alimentar.
 
Donde o vegano idealizar um mundo humano totalmente afastado e isolado dos animais. Hein?
 
O pequeno detalhe que parece escapar (na melhor das hipóteses) aos veganos é que, ao se colocarem em defesa dos animais, estão se colocando como superiores a eles (e a quem não for vegano, claro). Pois os bichos carecem de um representante e defensor da causa animal, e este é o vegano, imbuído das tarefas que foram delegadas a ele por ele mesmo, já que animais não são capazes de outorgar tal autoridade.
 
A bem da verdade, o veganismo luta contra uma evidência tão luminosa que os próprios animais conseguem percebê-la, com exceção dos gatos. Os cães que o digam…
 

Portanto, a crítica ao especismo não é crítica, é apenas uma confissão de pequenez que o indivíduo vegano projeta sobre os outros – e não é outra coisa que leva um Schopenhauer a destilar seu desprezo à própria humanidade. Mas, se veganos e filósofos irracionalistas não são ou não se sentem superiores a uma barata, por que afinal crêem que os outros devam concordar com isso? Que vão plantar batatas.

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vegan iludido edt

Humanização para além da ciência

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Alguém respondeu meu texto sobre ciência e arte [aqui] dizendo que “ciência é a desantropomorfização do próprio humano”.
 
Exatamente. E, ao contrário do que sugere, desantropomorfização é humanização.
 
Porque a ciência traz “para nós” aquilo que é “por si”. Traduzindo, a ciência permite a ampliação do domínio humano sobre uma parcela da realidade até então alheia a nós e existindo sem qualquer relação conosco, ou sem que nos déssemos conta da relação que houver.
 
A desantropomorfização do homem é a humanização da natureza, tanto a que se refere ao próprio corpo e subjetividade humanos, quanto a natureza exterior ao corpo, na qual o humano se ambienta, tornada mundo.
 
É claro que aquela expansão do poder humano não depende apenas da ciência, mas também da ação prática, do estágio de maturidade social da cognição do sujeito e também da maturação natural e/ou social do objeto. Nem todo objeto está, em si ou por si mesmo, pronto ou disponível para ser conhecido e transformado, ainda que esteja posto diante nossos narizes e nos relacionemos com ele na trivialidade do cotidiano. E nem sempre a história e a sociedade permitem ao sujeito ultrapassar os limites que elas mesmas põem a ele.
 
São coisas que só o tempo nos permite ver com clareza. Porém, o principal domínio da realidade a ser humanizado não é natureza, e não apenas tem total relação conosco, mas se impõe a nós: a sociabilidade mundial humana, ou seja, as condições universais da formação social da mais singular individualidade.
 
Ciência para isso nós temos mais que o suficiente. Mas, ao inverso de nos encontrarmos mais capazes e próximos de humanizar a sociedade, estamos nos afastando desse dever – absolutamente imperioso, necessário e importante, abarrotado de sentido e valor – em alta velocidade e na disritmia de aviltante aceleração, perigosamente desorientados e sordidamente enfraquecidos, rumo ao pleno humanicídio ou à completa torpeza de uma deterioração total da humanidade ao patamar da selvageria. Qualquer avaliação sobre o que seria pior é problemática.
 
Os que herdarão o mundo – nossos filhos, netos, bisnetos – hão de fruir um legado de privação e desamparo, de medo e tensão, desgraças e muita dor, caso a humanidade siga a atual vida encoleirada a serviço da propriedade privada capitalista. As evidências da decadência do gênero humano são tão saturadas quanto um samba de tamanco salto fino em cima de nossas córneas. Somos obrigados a testemunhar grande parcela da população global ignorando a questão ou se lixando pra ela e, para nosso desgosto maior, ainda sentimos nos tímpanos a gritaria de uma massiva horda de bárbaros em defesa da situação vigente.
 
Por isso mesmo é que uma sociedade e individualidade autenticamente humanas, apuradas em todos os sentidos, gozando de riqueza de corpo e alma, pensamento e ação multifacetados, materialidade e espiritualidade verdadeiramente refinadas e integralmente conciliadas – demanda urgentemente uma revolução social radical, dolorosa, ampla, profunda, morosa e duradoura. A mais difícil tarefa já posta ao homem em toda a sua história e, por isso mesmo, a mais valorosa. Quem renuncia a ela, renuncia a si mesmo e apodrece por baixo da própria carniça; saboreia o cultivo do miasma que preenche sua consciência e a metástase da muxiba que convulsiona em seu peito. Não nos permitamos viver sob o jugo de tais cadáveres insepultos e engravatados.
 
Em suma: a ciência nos humaniza. Mas a humanização do indivíduo, do mundo e da própria ciência não é uma tarefa científica. Trabalhadores de todo mundo, uni-vos!
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la revolucion es ahora
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Ontologia da ciência e da arte: complexos da atividade humana

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A realidade é um complexo de complexos. Para saber dela e lidar com ela, a atividade humana se torna mais e mais multifacetada.

No entanto, meu propósito aqui é falar apenas (…) de duas grandes classes dessa atividade, elas mesmas complexos de complexos: ciência e arte.

Ciência é descobrir a coisa. Arte é construí-la. Senão, vejamos.

Ciência é desantropomorfização da natureza [*], ou seja, um contínuo ultrapassar de nossos limites corporais e culturais de apreensão da realidade. É ver o invisível, é fazer do olho humano um olho racional, teórico, sobrenatural.

É captar a coisa tal como ela é, em um árduo exercício de assimilação objetiva, movida e parametrada pela coisa mesma que se quer conhecer.

Ciência é descoberta – mas não um desvelar completo do objeto. Não existe um estágio final de conhecimento absoluto de tudo ou, ao menos, de algo.

Porque trata-se de descobrir uma “coisa” que não é uma coisa estática, mas é um processo, cujo dinamismo consiste num desencolher da coisa ao longo do tempo; e o que a ciência faz é correr atrás e comer poeira, por mais rápidos que sejam os cientistas em descortiná-la.

A realidade é sempre mais rica que o pensamento, pois ela é concreta e ele é abstrato, e tudo está em movimento.

Há progresso? Sim. Tanto no que se revela como saber, quanto no que se abre de perspectiva de nossa ignorância. E só podemos dizer isso na medida em que sabemos da coisa e vemos o que a coisa indica como ainda por se investigar e conhecer. Ora, essa visão da fronteira entre saber e ignorância só é possível a partir de algum conhecimento daquilo que era, até então, total ignorância. Donde até mesmo o ampliar de tal horizonte ser um saber.

A singularidade da coisa e a ignorância do sujeito implicam no seguinte: não existe um método científico que não seja história. Ou melhor, a ciência é a história da ciência.

Seu método é uma herança e uma novidade ao mesmo tempo: o conhecimento do que a realidade é, de acordo consigo mesma, se dá na base do que já sabemos, isto é, na analogia e comparação do objeto com o que temos de bagagem e classificações científicas; de tudo isso, partimos para a tentativa e erro frente ao que não sabemos e para a elaboração de propostas que possam servir como um fósforo no breu do desconhecido; coletamos indícios, pistas, encaixamos peças e, por fim, not least, entregamos os resultados (sempre provisórios, senão na medida que já atendem aos nossos bem-intencionados e singelos interesses) à crítica pública de outros cientistas, de leigos e da própria história. O método científico é uma prática social.

A partir do momento em que a teoria traduz a realidade por-si – supondo que ela nos permita isso ou alguma coisa – e torna nossa ação e intervenção sobre ela efetivas, surge a possibilidade de uma materialização do espírito: a exteriorização do pensamento sob forma de nova objetividade, nova coisa, concreção do que existia apenas enquanto idéia (p.ex., tecnologia).

[*] Quanto a isto, alguém me respondeu o segte.: “ciência não pode ser desantropomorfização da natureza, porque ela não é antropomorfa em primeiro lugar”. Correto. Mas minha análise parte da atividade humana. E a primeira forma socialmente organizada de consciência humana acerca da natureza é antropomórfica e produz mitologia. De resto, trata-se aqui de uma desantropomorfização “de nossos limites corporais e culturais de apreensão”, quer dizer, do corpo humano, dos olhos e demais sentidos naturais, da consciência natural, e ainda um afastamento (ao limite da ruptura completa) de traços culturais antropocêntricos; em uma palavra, desantropomorfização da “natureza” humana.

Mas a realidade não é apenas a realidade objetiva, de acordo consigo mesma. O mundo humano possui também um aspecto subjetivo: a realidade de acordo conosco. E é aqui que entra a arte.

Arte é antropomorfização da natureza, condensação do ânimo humano na matéria natural sob a forma de uma síntese significativa, o que transforma a natureza em uma natureza humanizada, sensível e espiritualmente. É nutrir o olho natural com humanismo concreto, multiforme, prático.

Arte não é filosofia e nem ciência. Ela não tem a obrigação de fazer pensar e nem demanda uma intervenção teórica do sujeito que escava um objeto de conhecimento e propõe hipóteses para compreendê-lo.

Arte que faz crítica ou ironia, arte que faz mistério de seu suposto conteúdo, arte conceitual ou abstrata, acadêmica ou tecnicista etc. é arte umbilical ou idiota, decadente ou morta, decorativa ou modista, matéria de pura especulação mercantil e indulgência para a adoração cega de religiosos da anestesia: estetismo da não-estética.

Arte não quer dizer; arte diz. E diz na cara, à flor da nossa pele, relando qual brita em nosso nariz, com a mais explícita e solar claridade e apelo à sensibilidade, educando o espírito na exaltação da riqueza de sua densa síntese de significação humana, tendo em vista a humanização da natureza e do mundo social.

É o domínio da realidade para-nós. Na medida em que a sensibilidade demanda expressão, põe em movimento uma atividade de cunho estético que almeja tornar o mundo um habitat à imagem e semelhança da familiaridade e dos afetos humanos, permitindo a emergência empírica de uma espiritualização da matéria: a subjetivação da natureza sob forma de novo ambiente e nova interioridade, a impregnação de idéias e de feeling na concreção espacial e mental, a realização humana de uma citerioridade mundana e pessoal.

Pois bem. Esses dois e todos os demais modos da atividade humana reincidem juntos – ou alienados uns dos outros, como ocorre hoje sob o anti-humanismo da sociedade anti-social e mercantil – sobre natureza e homem, organismo e pensamento, ambiente material e cultura, e tornam o ser humano e seu mundo cada vez menos naturais e cada vez mais auto-produzidos.

É exatamente no que consiste o que chamamos de história, a própria dimensão do tempo tornada humana – ainda que vivamos o nosso triste hoje como quem galopa uma besta em disparada e desprovida de quaisquer rédeas.

 

selfie arte
pegue sua polaroid e faça já a sua selfie com a história

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“Relativismo cultural”: uma frenologia inversa

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Tem uns fisólofos que mergulharam no vórtice de chorume do subjetivismo, do ceticismo e do relativismo absoluto e uns anpotrólogos que os levaram a sério.

E assim surgiu o “relativismo cultural”: coisa de quem gosta de comer cocô. É uma espécie de frenologia inversa.

Mais anti-ontológico que isso, nem mesmo a teologia.

Se vc for se arriscar a ler o festival abstrato de poesia concreta que esse pessoal chama de “trabalho acadêmico”, pule parágrafos, leia de trás pra frente, da direita para a esquerda etc. Não faz diferença. É tudo consistente como o vácuo.

Na verdade, os empoderados autores (normalmente, avalistas da cultura alheia) deviam apresentar seus escritos a um laboratório de exames escatológicos.

Quanto a mim, só aceitaria ler um trabalho desses se escrito em uma linguagem humana, de preferência em português.

Mas eu não faço e não avalio pesquisas em antropologia da cultura bacteriana.

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devagar se vai ao longe, especialmente se o longe estiver perto

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O homem não é um animal racional, ou: o que é Razão?

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Disse Aristóteles: o homem é um animal racional.
 
Mas não, não somos animais racionais. A animalidade é o que é natural, porém a razão não é natural e inata (e pelo andar da carruagem da história, fica claro que ela está há um bocado de tempo sem dar muito as caras).
 
Como então adquirimos a racionalidade, e o que é a razão?
 
Ora, o indivíduo se torna racional quando bem (ou nem tanto) educado nela e para ela. Quanto ao gênero humano, desenvolveu – ou descobriu – a razão ao longo de muitos anos e muita lida prática com a realidade natural e social.
 
A humanidade finalmente chegou a um modo objetivo (isto é, desantropomorfizado) de pensamento na Grécia antiga, a partir de Tales. E, anos depois, Aristóteles sistematizou a lógica, ou ao menos sua forma clássica.
 
A razão não é, pois, uma categoria, uma faculdade ou uma coisa qualquer da mente, como a própria consciência é [*]. A razão é um MODO de pensar.
 
A razão é pensamento ontologicamente orientado; e ainda que ganhe as alturas da mais etérea abstração, como na matemática, é uma forma de organizar e dirigir o pensamento que surge e se exercita continuamente na atividade prática sensível, no cotidiano mais trivial. Se o indivíduo age e pensa com rigor ou não, é outra história.
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*  Confira o texto: Categorias da mente.
 
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sono da razão
Estaria a natureza dormindo?…
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Alienação: fenômeno objetivo social

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Um tema antigo em filosofia, ao qual foi dada relevante atenção no pensamento contemporâneo a partir de Hegel e seus seguidores, e especialmente graças às reflexões de Marx (em seus Manuscritos de 1844) acerca da situação dos indivíduos na sociedade dominada pelo capital, é aquele da alienação.

O que vem a ser “alienação”? Pretende-se, neste escrito, distinguir o sentido que comumente se atribui ao termo (e que é imputado como sendo de lavra marxiana) do sentido que o próprio Marx deu a ele.

No primeiro caso, as noções que adentraram largamente o senso comum – graças às hordas “críticas” que atuavam (e ainda atuam) ideologicamente na academia e sobre os chamados movimentos populares e seus partidos – são condizentes ou bem próximas ao sentido dominante em filosofia, segundo o qual alienação aponta para um fenômeno de consciência, ou seja, próprio da apreensão mental da realidade. O enigma se situa para além do psicológico e adentra o domínio gnosiológico ou epistemológico, mas nunca abandona a órbita em torno da subjetividade; para ser mais direto e preciso, é simplesmente uma nova roupagem para o carcomido ceticismo.

Pois a alienação seria uma forma de distorção da consciência, um turvamento forçado por um agente externo; além disso, como desgraça pouca é ninharia, eventualmente essa perturbação ainda seria cultivada pelo próprio sujeito, configurando assim uma fisionomia mental esdrúxula, situada entre a ignorância, a deficiência cognitiva, a tara e a doença, no limite do flerte com a loucura.

O patógeno desencadeador deste processo é identificado como um poder imaterial, a “ideologia”, cuja forma de operação teria sido também desvendada por Marx.

Por meio de uma leitura cuidadosa (e que não tome as tradicionais “interpretações” feitas a respeito como referência) do escrito inacabado em que o filósofo versa sobre “A Ideologia Alemã”, torna-se fácil desmentir a tradicional versão que atribui a Marx uma preocupação com a “falsa consciência” disseminada entre os indivíduos, bem como uma análise de seu intrincado mecanismo ideológico de produção. Na verdade, ele identifica essa tese do “domínio das falsas idéias sobre os homens” como a teoria própria dos neo-hegelianos, e a combate sarcasticamente como sendo, ela própria, a reles ideologia alemã.

Senão, basta umas poucas linhas do prefácio da obra pra desmentir a imputação:

Até o momento, os homens sempre fizeram representações falsas de si mesmos, daquilo que eles são ou devem ser. Eles organizaram suas relações de acordo com suas representações de Deus, do homem normal e assim por diante. Os produtos de sua cabeça tornaram-se independentes. Eles, os criadores, curvaram-se diante de suas criaturas. Libertemo-los de suas quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o jugo dos quais eles definham. Rebelemo-nos contra esse império dos pensamentos. Ensinemos-lhes a trocar essas imaginações por pensamentos que correspondam à essência do homem, diz Um, a se comportar criticamente para com elas, diz o Outro, a arrancá-las da cabeça, diz o Terceiro, e… a realidade existente haverá de desmoronar.

Essas fantasias inocentes e infantis formam o cerne da nova filosofia dos jovens hegelianos /…/.

Certa vez, um nobre homem imaginou que os seres humanos se afogavam na água apenas porque estavam possuídos pela ideia da gravidade. Se afastassem essa representação da cabeça, por exemplo esclarecendo-a como uma representação supersticiosa, religiosa, eles estariam livres de todo e qualquer perigo de afogamento. Durante toda a sua vida combateu a ilusão da gravidade, de cujas danosas consequências todas as estatísticas lhe forneciam novas e numerosas provas. Aquele nobre homem era do tipo dos novos filósofos revolucionários alemães.

Todos os críticos filosóficos alemães afirmam que as ideias, as representações, os conceitos até agora dominaram e determinaram os homens reais, que o mundo real é um produto do mundo ideal. Isso se deu até o presente momento, mas a partir de agora deve mudar. Eles se diferenciam pela maneira como pretendem libertar o mundo humano, que, na visão deles, tanto padece sob o poder de seus próprios pensamentos fixos; diferenciam-se por aquilo que consideram como pensamentos fixos; concordam na crença nessa dominação dos pensamentos; concordam na crença de que seu ato de pensar crítico há de provocar a derrocada do existente, seja porque consideram suficiente sua atividade isolada de pensar, seja porque querem conquistar a consciência universal.

Desnorteados pelo mundo hegeliano dos pensamentos, os filósofos alemães protestam contra a dominação dos pensamentos, ideias, representações que até então, segundo pensam, quer dizer, segundo a ilusão de Hegel, produziram, determinaram e dominaram o mundo real. Fazem seu protesto e morrem […].

O mesmo é feito em relação à tese da alienação enquanto fenômeno de consciência, que enfim é a instância ao redor da qual giram as filosofias idealistas em geral e as neo-hegelianas em particular.

Entretanto, é essa a tese atribuída a Marx, ainda quando o que ele afirma se refere à produção material e a condição do indivíduo nesta produção (pois “o ser determina a consciência”, portanto o problema se enraíza no primeiro). Como exemplo, observemos a charge de Robert Thaves reproduzida abaixo – na qual um operário diz a outro que vai se aposentar e caminhar até o fim da linha de montagem para descobrir o que, afinal, fabricava. O que a charge sugere é que a alienação é uma mera falta de noção do que o trabalhador está fazendo, quer dizer, uma fragmentação de seu saber quanto ao produto final, o que remete antes a um fenômeno subjetivo do que à divisão social do trabalho que causa, entre outras coisas, tal fragmentação.

Frank e Ernest - alienação b

Em seus escritos, é possível perceber Marx apontando, ao contrário, para um fenômeno da objetividade social. O cerne do problema está na produção material capitalista, que reduz o trabalhador à mercadoria “força de trabalho”, posta à venda no mercado de trabalho para produzir outras mercadorias, que são produtos que visam, antes de seu uso, a troca. Ou seja, o trabalhador transfere a outro – aliena – a decisão acerca da finalidade, da duração, da intensidade do empenho de sua própria capacidade de trabalho, que não é outra senão a capacidade por meio da qual o indivíduo se humaniza. Que isso, naturalmente, incida sobre sua consciência depois, é um efeito da alienação, e não a alienação mesma.

Assim, o desacordo entre o pensamento marxiano e a tradição marxista é completo. Voltemos à charge: conhecer toda a linha de montagem faria o operário, finalmente aposentado, ficar livre da alienação? O que é que afinal o liberta, conhecer o produto pronto, ou a aposentadoria? Ambas as alternativas são simplesmente ridículas. Se o fenômeno da alienação se reduzisse à questão do conhecimento, então deveríamos pressupor que o trabalhador de uma manufatura, que conhecia todo o processo de fabricação de seus produtos, não seria um trabalhador alienado, apesar de depender de um mercado onde conseguisse vender sua mercadoria para poder, em troca, comprar seu pão com manteiga.

O mesmo acontece no caso de um cientista que faz a crítica e desvenda todo o modo de funcionamento do sistema. Basta ver o exemplo do próprio Marx, que amargou todo tipo de problemas e infortúnios até mesmo ao se candidatar a sub-empregos. Por fim, ele declarou que “nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro não tendo nenhum”. Em poucas palavras, alienação é isso: dependência de dinheiro [*]. Esse é o sentido da expressão que Marx usará décadas depois em O Capital: “fetichismo da mercadoria”. Fetiche é o objeto dotado de força sobre os homens, uma força estranhada e autônoma, diante do qual ajoelham-se. Trata-se da relação social entre os indivíduos tornada uma relação automatizada, exterior, alheia, independente e hostil, estabelecida por força de uma relação superior, posta entre as próprias mercadorias (na qual os homens se encontram como seus meros portadores), como se fossem os verdadeiros sujeitos sociais, ativos, controladores, se trocando por si mesmas. Donde a imagem do mercado como um deus, um sujeito pairando acima da sociedade, dotado de humores, desconfianças, razão e mãos invisíveis.

Tomar consciência de tudo isso é condição necessária, mas nunca suficiente, para superar tal estado de coisas, e por isso mesmo não torna o indivíduo menos sujeito à alienação, pois ele ainda tem de se vender no mercado de trabalho para poder pagar a manutenção de sua vida – reduzida à sobrevivência.

De te fabula narratur!

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[Leia também: Alienação: fenômeno objetivo social – 2]

[*] Por vezes se encontra ainda hoje, ecoando por aí, certa crítica romântica ao capitalismo, que afirma ser o poder do dinheiro derivado de uma “crença” em seu valor. Mais uma vez, dilui-se a objetividade de um fenômeno social em um subjetivismo desavergonhado. Certamente são “críticos” que nada conhecem de economia e atribuição de valor ao que quer que seja, mas que, ainda assim, não se dispõem a dar o exemplo (àqueles a quem pregam seus edificantes sermões) abrindo mão de seus cofrinhos.

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