Djamila Ribeiro: uma definição institucionalista e anti-histórica do racismo

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Djamila Ribeiro nega a existência do “racismo reverso” afirmando o segte.:

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– “Racismo é um sistema de opressão que nos nega direitos, e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas.

Opressão é quando um grupo detém privilégios em detrimento de outro.

Brancos não são mortos por serem brancos, pois o grupo racial a que fazem parte é o grupo que está no poder. Um negro pode ser morto por ser negro.

Muitas vezes o que pode ocorrer é um modo de defesa: algumas pessoas negras, cansadas de sofrer racismo, agem de modo a rejeitar de modo direto a branquitude, mas isso é uma reação à opressão e também não configura racismo: que poder social essa atitude tem?

Agora, ser xingada por ser negra é mais um elemento do racismo instituído que, além de me ofender, me nega espaço e limita minhas escolhas. Vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores, a maioria não quer”.

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De fato, o racismo é arraigado na cultura brasileira.

O problema da argumentação está em afirmar que ele se constitui por meio de “relações de poder institucional” entre “grupos raciais”.

É pior que isso. O racismo é anterior ao “poder institucional”. Está embrenhado na sociabilidade e determina o acesso dos negros às instituições e tudo o mais.

Nos casos em que indivíduos negros, assim como mulheres, assumem postos-chave deste “poder institucional” – vamos assumir aqui que isso não se limita ao poder político (Estado), mas abarca qualquer outra instituição pública e qualquer domínio privado (poder econômico) -, a opressão não necessariamente diminui, mas pode se fortalecer ainda mais.

Ou seja: brancos não são mortos por serem brancos, mas isso não se deve ao fato de pertencerem a um “grupo racial” que está no poder; assim como negros são mortos por serem negros, mas não porque não possuem “poder institucional”.

É claro que uma maior ocupação do “poder institucional” por negros pode ter efeitos sobre a sociabilidade e atenuar o racismo. O problema é que a opressão ultrapassa o caráter racial: o grupo detentor de privilégios não é dominante por sua branquitude, mas por sua classe social.

Há opressão racial sistemática contra os negros, mas isso não significa necessariamente que os brancos desfrutam de um privilégio racial, ou então, que tal privilégio possua qualquer importância e caracterize um opressor – a menos que seja um privilégio não sofrer prejuízo, ainda que não haja qualquer “outro” favorecimento; donde se concluiria que um mendigo, desgraçado por tudo exceto sua cor branca, possui diante do negro mais realizado um privilégio (ou “poder institucional”) que o torna opressor deste.

Ao contrário, o prejuízo dos negros independe do favorecimento dos brancos. Só há privilégio racial quando se obtém vantagem sobre outro por conta da diferença das cores de pele entre ambos.

Certamente o branco não sofre opressão por ser branco, e o negro sofre por ser negro. Mas o branco e o negro são oprimidos por muitas outras coisas comuns a ambos. Não existe indivíduo cujo único atributo seja a cor da pele. “O branco” é também mulher, pobre, deficiente físico, etc. E “o negro” não é homem, rico, poderoso e opressor simplesmente apesar de ser negro.

Um fato histórico, cujo conhecimento é (ou devia ser) trivial, explica a opressão e a negação de direitos e acessos dos negros no Brasil. O fim da escravidão significou o abandono à própria sorte de uma multidão de negros, desprovidos de terra e meios de produção, o que resultou na ampla maioria dos pobres e miseráveis da sociedade. Somado à história e cultura do Brasil colonial, esse fato explica todas as formas de opressão que os negros sofrem ainda hoje.

Mas o identitarismo – do qual Djamila é ideóloga no Brasil -, ao negligenciar ou simplesmente falsificar a história, contribui para produzir os “modos de defesa” que consistem em rejeitar e atacar diretamente a branquitude, numa forma de reação reducionista e impotente contra a opressão. Que poder social essa atitude tem? Nada menos que empoderar a opressão, na ilusão de estar combatendo-a.

Por isso, e por criar e cultivar idéias absurdas quanto ao “protagonismo” nas lutas etc., é que o identitarismo afasta os brancos de “vestir nossa pele e ter empatia por nossas dores”, do que os negros, a um só e mesmo tempo, reclamam e rechaçam.

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CONFIRA TAMBÉM:

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A fantasia do capitalismo enquanto produto cultural “eurocêntrico”

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Seguir as instruções corretas é um dever do opressor
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Um diálogo maiêutico sobre eurocentrismo e epistemologia com uma acadêmica pós-mod

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Típica figura acadêmica veio me dizer que iria participar de um evento sobre “epistemologia do sul”.

Perguntei: o que é uma “epistemologia do sul”?

Ela respondeu: “em princípio, são críticas às narrativas do colonialismo eurocêntrico”.

– E o que é eurocentrismo?

– “Eurocentrismo é a centralização da ideia de pensamento tal qual ele se forma e se faz na Europa, é o pensamento enquanto centralidade, o chamado pensamento único, dominante, hegemônico”.

– Vamos com calma. Qual idéia de pensamento???

– “A de dominador”.

– Onde isso aparece na epistemologia?

– “Na epistemologia funciona pelo conceito de natureza e no que pode o homem sobre a natureza”.

– Bom, primeiro temos de ver se essa epistemologia eurocêntrica é realmente um constructo cultural de um continente com enormes diferenças culturais em seus tantos povos distintos, se ela é “interesseira” (política) ou não. Daí veremos o que é a tal “crítica ao eurocentrismo” e quão crítica ela é.

– “A crítica ao eurocentrismo passa pela filosofia da natureza, pelo romantismo, pela hermenêutica…”.

– Pra começar, natureza em epistemologia não é a natureza que também chamamos de universo; natureza aqui significa essência, um grupo de atributos fundamentais pra constituir o conceito de um objeto. Nada tem de dominação nisso.

– “O que é essência? Tempão que não ouço isso”.

– Essência: grupo de atributos fundamentais pra constituir o conceito de um objeto.

– “Fundamentais”.

– Sim.

– “Qual o prazo de validade disso?”

– O dia que não mais houver lembrança do objeto nas culturas. Mas deixe-me dar um exemplo: o que é uma mesa? A cor da mesa é um atributo necessário para definir o que uma mesa é? Dizer o que é uma mesa, de modo que o seu ouvinte não confunde isso com uma cadeira ou uma cama, é dizer com precisão o conceito de mesa, que expressa o grupo de atributos fundamentais pra dizer o que é mesa. A cor não é um deles.

– “Vou ver a definição no google e como dizer isso”.

– Eu fui ao Aurélio procurar saber o que é mesa, mas a definição é horrível… então eu mesmo fiz o conceito aqui. Traz aí a do google e depois eu digo a minha.

– “Eu diria que o google traz o contrário do que diriam os antropólogos… móvel composto de um tampo horizontal, que se destina a fins utilitários: refeições, jogos, escrita, costura, apoio etc”.

– Definição ruim, mas melhor que a do Aurélio. Eu digo que mesa é um móvel de superfície plana, material sólido consistente, geralmente sustentado por um ou mais pés (mas tb pendurado por linhas na parede ou teto), cuja função é sitiar refeições, reuniões, estudos etc.

– “É mais uma metáfora do que uma metonímia… os antropólogos dizem que a mesa é um lugar de conversar, que as refeições foram colocadas à mesa pela sociedade ocidental”.

/…/

PS. Talvez alguém diga que eu não expressei o conceito de mesa com precisão, pois eu disse que é um móvel “~geralmente~ sustentado por um ou mais pés (mas tb pendurado por linhas na parede ou teto), cuja função é sitiar refeições, reuniões, estudos ~etc~”.

Há mesas em forma de cubo ou tocos de árvore, sem pés nem penduradas, com fins ritualísticos, necrológicos ou orgiáticos, entre muitos mais.

Mas o que mede a precisão do conceito não é um rol dos tantos atributos que se pode auferir do que existe e do que irá se inventar, bem como dos tantos usos conhecidos, costumeiros, inéditos e imaginários, e sim do tipo e lugar de conversa e do interlocutor em que se comunica o conceito.

Nada disso é pós-modernismo, mas sim uma formulação baseada na ontoprática, na observação da cotidianeidade das regras de uso da linguagem. Isso é o último Wittgenstein, mas já aparece antes em Marx.

 

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O indivíduo em luta - na literatura clássica, moderna e pós-moderna
progresso do estranhamento

A fantasia do capitalismo enquanto produto cultural “eurocêntrico”

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Tem sido difundida a idéia de que o capitalismo é “eurocêntrico”, produto cultural de toda a Europa – e/ou americano, com o que se diz que os EUA são um país “europeu”, na medida que sua “cultura” é capitalista.

Em primeiro lugar, falar de “eurocentrismo” é dar uns bons bofetões na história e nas culturas de cada país europeu. É falar para um basco que ele é espanhol e ainda mais que isso, pois seu país e a Espanha são igualmente “europeus”; é afirmar a supressão das diferenças entre os sérvios e os bósnios; etc.

Quanto a igualar EUA e Europa, é pior que dizer que um texano e um novaiorquino são idênticos.

O capitalismo surgiu na Europa, é fato; mas ele se fez “pelas costas” dos indivíduos e suas culturas. Tanto é que ele começa na Itália, mas definha aí quando Portugal dobra o Cabo da Boa Esperança e traça uma nova rota de comércio com a China e a Índia.

O capitalismo entra em sua fase madura com a Revolução Industrial na Inglaterra, o que deixa para muito atrás o mercantilismo, e dá um gigantesco salto em seu processo de globalização.

Isso não ocorre com o capitalismo se adequando às diferentes nações e culturas, mas adequando estas a ele.

Basta ver, p.ex., como o Japão se tornou “ocidental” depois da Segunda Guerra.

O capitalismo nunca foi, pois, italiano, português, inglês ou americano; nunca foi, em nenhum sentido, nacional, e muito menos uma cultura. Ao contrário, submeteu todas as nações e culturas a ele e aos seus aparatos estatais, o que até hoje resulta em tragédias, tais como a dos sérvios ou dos bascos.

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cultivando a esterilidade

A humanidade encalhada sobre sua tragédia

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A primeira forma de objetividade a se apresentar enquanto realidade é a natureza, na qual e sobre a qual se eleva uma segunda, desta vez social: é a partir da natureza que surge o homem, por meio da qual ele vive e ele cria aquela nova objetividade.

O homem é imediatamente ser natural, e portanto material, corpóreo, objetividade sensível e concreta. Fundado na materialidade, ergue o espírito.

Não se trata jamais de um simples fantasma envolto em uma casca carnal, a ele estranha e da qual deveria paulatinamente se livrar. Ao contrário, o fascinante no homem não é que possua espírito, mas que o produza.

Muito antes de supormos haver uma oposição entre nossa natureza corpórea (matéria) e nosso espírito (consciência, linguagem, imaginação e memória etc.), é preciso notarmos que, sem a primeira, é impossível haver o segundo.

O que é demonstrado com toda evidência pela prática.

Por meio dela, e cotidianamente, o ser imediatamente natural se faz mediatamente humano, quer dizer, ser histórico.

Emergência inédita a constituir a realidade a partir e ao lado da natureza, pois não se confunde com ela; ao inverso, o homem desdobra potencialidades presentes em ambos, que a natureza mesma jamais teria a diligência necessária para fazê-lo.

Donde transformar a natureza em cultura, a matéria em espírito, árvores em livros, montanhas em mísseis. O homem é o verdadeiro ser sobrenatural.

Mas o timão que dirige sua entificação histórica não está em suas mãos (e se é verdade que nunca esteve antes, delas se distancia ainda mais na atualidade), senão da mais brutal casualidade.

Se os indivíduos que, por meio de sua prática, sua atividade sensível, seu trabalho, cuidam de produzir e reproduzir cotidianamente a existência do mundo não se organizarem para orientar a nave humana – esta mesma que nos permite recitar o breve capítulo do espírito na longa epopéia material do cosmos -, o mar bravo fechará o horizonte da humanidade à deriva.

Pois a História não é um caminho a se seguir, quando ela é uma trilha a se abrir. No instante que a janela da História se escancara à nossa frente, ela nos impõe decidir por uma escolha: fazer a História – ou sofrê-la, sabe-se lá por quanto tempo.

O ser que se autoproduz por sobre a natureza não possui hoje a dinâmica de conduzir sua autoprodução. Teremos tempo para impedir que ela termine de se tornar a nossa autodestruição? O homem que humaniza a natureza irá, algum dia, humanizar a si mesmo?

Sairemos da heteronomia de nossa pré-história (Marx) e cumpriremos a mais difícil e importante tarefa histórica de toda a nossa História? Revolucionaremos o mundo de modo a engendrar o indivíduo autenticamente humano?

Nada impede que desistamos de nós mesmos e afundemos no chorume de nossos sangue e merda. Já não estamos mergulhados nele até o nariz?

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A subjetividade dos valores em Marx e na Áustria

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Segundo diz a “economia” austrológica, Marx nega o caráter subjetivo do valor.

Ao contrário disso, é óbvio para Marx que apenas sujeitos podem reconhecer e atribuir todo tipo de valor a qualquer coisa.

Objetos, coisas, animais etc. não reconhecem valores. Neste sentido, valores são subjetivos.

PORÉM os valores só são valores porque ultrapassam a subjetividade individual e se estabelecem enquanto objetividade social.

Isso não ocorre apenas por meio de relações intersubjetivas, mas também, e principalmente, objetivas; não apenas com outros sujeitos, mas também com objetos produzidos pelo trabalho ou coisas da natureza com que nos defrontamos.

Por exemplo, e pra falar de valores bem “subjetivos” ou “intersubjetivos”, o ato de produzir gratuita ou interesseiramente uma lesão física em alguém é reconhecido na dimensão dos chamados “valores morais” pelo nome de “violência”, e é identificado como um ato censurável, dada sua qualidade má, deletéria, donde ser proibido em qualquer código moral de qualquer cultura que houver (ou, ao menos, naquelas que os indivíduos são reconhecidos como membros de uma mesma coletividade). Por que? Tal semelhança é pura coincidência entre sujeitos e culturas, ou o valor decorre de relações objetivas, envolvendo um corpo físico e um instrumento físico, bem como indivíduos realmente existentes enquanto membros de um grupo social realmente existente, relações essas que explicam tal “coincidência”?

Em suma, e de acordo com Marx, valores são produtos ONTOLÓGICOS da atividade social.

Os austrólogos, no entanto, pensam ser o valor um fenômeno psicológico. Ou seja, o que pensam ser assunto da economia é o que se leva a consultórios de psicologia.

Ora: uma coisa qualquer, cujo valor próprio não é próprio (pois eu simplesmente estimo, por minha própria conta e risco, que ele possua tal valor) não tem, a princípio, nenhuma possibilidade de fazer valer suas qualidades perante outros sujeitos, donde não servir pra nada. Exceto se não atribuo a ele tal valor, de acordo com meu umbigo, mas reconheço nele este valor que lhe é próprio (i.é., decorrente de suas propriedades objetivas) e que se oferece ao demais, ainda que não sejam capazes de reconhecê-lo ou não estejam interessados nele.

Enquanto isso, toda a questão do que é valor (e também do que é preço) se confunde na cabeça neoliberal num subjetivismo só. Pura derivação do querer e das escolhas individuais perante as mercadorias; apenas uma questão de fôro íntimo que nada tem para nos informar de coisa alguma, pois o embate entre os agentes de um mercado de solipsistas pode resultar em qualquer coisa, independente do que foi o mercado passado e seus preços.

É tal como acontece com qualquer proposição subjetivista: cai em total e inútil misticismo.

Mais valeria a leitura prévia de Marx, antes de pretender criticá-lo e formular teorias econômicas; entretanto, ao sudeste da Alemanha nenhum valor também se encontrará, pois o objetivo da austrologia não é mais que balir uma apologia chinfrim do capitalismo.

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PS. Noutro lugar eu havia tratado a questão nos segtes. termos:

O liberalismo austríaco [é] um liberalismo subjetivista. Os aristocratas da ideologia econômica de sala de espera dos consultórios de odontólogos afirmam que o valor das mercadorias provém da percepção que o sujeito tem da utilidade de um bem; isto é, o sujeito ESTIMA o valor do produto a partir de sua necessidade de consumí-lo (ou de se livrar dele).

É a famosa patranha herdada de Böhm-Bawerk: o “valor subjetivo” – aquele que leva comprador e vendedor à mil formas de barganhas, pechinchas, depreciação da mercadoria por quem a quer ou necessita comprar e louvores por parte de quem deseja ou precisa se desvencilhar do trambolho.

É o seu ursinho de estimação como parâmetro do valor ~versus~ o ursinho daquele com quem você deseja traficar mercadorias uma com outra (por exemplo, um bem de uso por dinheiro).

Como o consumidor consegue traduzir sua necessidade em um valor monetário? Quantos reais custa a necessidade? Como ele e o vendedor chegam a um acordo, dado que o vendedor estima o valor da mercadoria por sua necessidade de vendê-la, e como ambos conseguem decidir quanto vale o dinheiro? Eis aí um punhado de questões que não interessam, pois a mão invisível do deus mercado – é o que Marx chamava de fetiche da sociedade mercantil ou “fetichismo da mercadoria” – há de resolver isso.

Pois, se o valor é estimado a partir das necessidades e do querer do sujeito, nada aponta para um consenso entre ambas as partes quanto ao valor; só se pode contar com a vontade de ambos em fazer a troca. Para sorte deles, ninguém questiona o valor que está estampado no dinheiro, pois é preciso haver um valor objetivo (e é isso que pode fazer um valor realmente dotado de validade) pra servir aos indivíduos como critério do que é uma mercadoria barata ou cara.

Ou será que o umbigo de Böhm-Bawerk refutou Marx? Assim:

“Acho que Y vale X” = Y vale X.

Ou: acho que 10 reais valem 100 reais, “LOGO” 10 reais valem 100 reais.

Ora, se a medida do valor é o umbigo do sujeito, não há nenhuma possibilidade de se fazer um “cálculo econômico” (e nem mesmo haver mercado) – exceto se admitir-se que a relação de troca é uma relação de força e o valor é imposto por um dos lados ou por fora da troca mesma.

É completamente anti-ontológico: do subjetivismo PURO é preciso que os economistrólogos saltem para a PURA objetividade do valor, isto é, para a “plena regulagem pela oferta e demanda”. E lá se vai a patranha pelo ralo.

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O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

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A imagem que ilustra este texto é uma crítica, ou antes um sarcasmo, a um certo discurso pretensamente emancipador, mas abstrato, subjetivista e especulativo, que circula por aí em movimentos libertários, esquerdistas, identitários etc.

É o discurso do indivíduo isolado cujo umbigo pretende ser parâmetro do que é a realidade. Ou seja, não existe mais verdade objetiva e universal, relativizada e tornada dependente das “narrativas” dos sujeitos.

Porém, ao criticarmos esse discurso “do sujeito”, talvez devêssemos lembrar que há sujeitos oprimidos por trás dele. E também que o discurso de um sujeito, especialmente o de baixa auto-estima, é embrenhado de identificação e afeto (uma vez que certamente ele crê no valor de verdade ou validade do que diz – mesmo quando afirma que “a verdade não existe” etc -; donde, por meio dele, guiar sua prática), o que torna delicada a situação da crítica.

Há ainda que lembrar o estranho costume moderno de se pensar em “autoria” ou propriedade privada de idéias, graças ao qual os indivíduos tratam egocentricamente uma opinião como um filho sob sua posse absoluta, não importa quão “diferente” ou “própria”, quer dizer, torta e errada ela seja; uma corrente umbilical de dura ternura a liga ao baixo ventre do sujeito e a opinião se faz uma extensão discursiva e ao mesmo tempo sensível da pessoa.

De modo que facilmente se confundem nessas imaginações a mensagem e o mensageiro – confusão essa que, aliás, o próprio conteúdo desse discurso trata de afirmar.

Mas será mesmo que deveríamos, por conta de alguma perniciosa condescendência, deixar intocada a barafunda ideológica na cabeça desses sujeitos, cuidando de não ferir seus sentimentos afetuosos por suas bobagens?

Claro que não se trata de cair no mesmo subjetivismo e proceder com desprezo ao indivíduo. Antes disso, cabe reconhecer que cada situação e interlocutor demandam um modo de comunicação que cumpra o objetivo de clareza da mensagem, pois ela é o que importa.

E, então, é preciso mostrar que o pretenso instrumento ideológico relativista de luta dos oprimidos – contra o machismo, o racismo etc. se torna, ao contrário, um meio de reafirmação da opressão.

Pois quando o sujeito é tornado o fundamento da legitimidade e verdade do discurso, todo e qualquer discurso se torna automaticamente legitimado. Aliás, não há mais como se falar em legitimidade. Se cada cultura ou indivíduo é o lugar próprio da justificação e da verdade – e disso resulta uma discordância a mais natural de se esperar -, o que é que pode servir de critério para avaliar qual está certa e possui legitimidade ao reivindicar tal e tal direito?

Se não é possível que discursos contrários ou antagônicos coexistam (pois expressam interesses igualmente contrários ou antagônicos, ainda que o parlador não tenha noção disso e de seus próprios interesses), a questão só pode ser resolvida pela força ante, anti e não-discursiva. As lutas relativistas contra o “eurocentrismo” (eis aí um termo absurdo frente à diversidade cultural dos povos europeus!) dos opressores deságuam, pois, na mais completa afirmação da superioridade da “cultura européia”, do machismo, da heterossexualidade, da raça ariana etc., pois apenas a violência resta como medida de avaliação, quando tudo o mais se relativizou ao ponto subjetivista.

Eis que, mais que apenas em verbo, agora o oprimido acaba por ter de aceitar a “verdade” material do opressor, ainda que o faça manifestando certa desagradável sensação de impotência e de desilusão e resmungue pelos cantos a impressão de ter sido enganado em algum momento dessa história.

Sem uma crítica racional e objetiva não há avanços. E como o pior dos mundos possíveis sempre se torna real, por essa via abre-se todo um campo de oportunidades de cooptação e “desempoderamento” das lutas, justamente o inverso que esse discurso prometia oferecer.

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Heidegger versus Marx, ou: de como interpretacionar é cambalhotar as idéias

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É incrível como esta simples afirmação se mantém atual:

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo“.

Você não apenas está careca de saber que foi Marx quem a disse, mas sabe onde, quando, como, porque etc. Né? É. Mais ou menos. Ok.

Aí vem Heidegger e tenta dar rasteira no homem com um “entretanto”: tal enunciado dependeria, antes de tudo, de uma interpretação acerca da filosofia, do mundo etc. e, portanto, não teria legítima autoridade para dizer qual seria “a questão” diante de outras interpretações.

Enquanto Heidegger demonstra, por meio dessa crítica a Marx, que ele mesmo e sua crítica tampouco poderiam possuir legitimidade e autoridade para criticar seja o que for – pois mergulha no interpretacionismo como fundamento do discurso, na dissolução da objetividade num subjetivismo absoluto (“a realidade sou eu”, “ser é perceber” etc) -, Marx não está criticando o ato de se pensar, interpretar e criticar o mundo, mas a idéia de que basta fazer isso para que ele mude.

Ora, quem pensa uma coisa dessas? Não é essa a pergunta, e sim “quem não pensa dessa forma?”.

De fato, por todos os lados, não faltam “críticos da consciência” alheia. Fazem a crítica do que os outros pensam e acham que, se todos pensarem de forma “crítica”, o mundo muda e vira um paraíso.

Ainda assim, as novas idéias assistem o mundo continuar afundando e piorar. Então, o que fazem os interpretacionistas? “Repensam” o mundo, criam eufemismos, espalham aspas e hífens; e o mendigo passa a ter a dignidade de ser, agora, um “morador” de rua. Mude a cabeça, pense positivo, leia a Bíblia, repita “eu sou 100%” diante do espelho, interprete o mundo de maneira “diferente”. Talvez, e ao menos, a “sua” realidade muda. É só ver como acontece com a de quem avança no alzheimer.

Nota bene. A crítica de Marx é a denúncia de um pensamento que faz interpretações e críticas sem qualquer critério na realidade, mas apenas em si mesmo.

O próprio Heidegger jura ser necessário interpretar o mundo de uma forma qualquer – e isso diante de sua desgraça evidente – para dizer que é preciso transformá-lo.

Se Heidegger fosse judeu, poderia ter beneficiado a história do pensamento humano simplesmente por não poder ter pensado e dito nada do que pensou e disse; pois os judeus possuíam critérios para pensarem o mundo, algo do qual dependia a possibilidade de continuarem respirando e, portanto, não apenas era totalmente independente do que pensavam e interpretavam, mas ainda era o que lhes permitia distinguir o que seria uma interpretação razoável do mundo e o que era esse monte de sofismas que Heidegger chamava de “filosofia”.

Só que Heidegger não era judeu, e sim Heidegger, o filósofo que pensava para Hitler. Nada melhor que um interpretacionismo para justificar a barbárie.

E o que aconteceu de lá pra cá? O idealismo que Marx arrasou e que Heidegger reafirmou – como se nada houvesse acontecido e, pior ainda, contra o próprio Marx – venceu a disputa ideológica.

Até o marxismo chega a ser neo-hegeliano: “a ideologia” impede os trabalhadores de se revoltarem, etc. Adeus, materialismo!

Estamos sob um “imperialismo da conscientização”. E quando você ouve falar da “hegemonia do marxismo cultural”, você está escutando o ecos da crítica de Heidegger: “finja (se possível, para si mesmo também) que está criticando Marx, e pronto – Marx está refutado”. Como se “a interpretação marxista” tivesse almejado e conquistado “hegemonia cultural” – e pior: o fez ardilosamente, às custas de privar as consciências da crítica! 

E assim segue a crítica a fazer o que Marx disse ser a atividade dos neo-hegelianos: “crítica da crítica crítica”, ainda que tamanho criticismo se apóie apenas em interpretações, ou seja, pensamentos que possuem lastro em umbigos “críticos”, autodeclarados como parâmetros da realidade (afinal, Heidegger faz uma “ontologia”), da mesma forma que uma religião declara ser a única verdadeira via para a salvação.

Pois bem. Marx pôde constatar o momento histórico em que a imbecilidade se despiu da vergonha e passou a arrogar-se o status de legítimo e demolidor olhar crítico, no início do período da decadência civilizatória burguesa. Certamente ele pressentia o quão fundo na lama o pensamento humano ia atolar, se o capitalismo perdurasse poucas décadas mais. Sua morte o privou do desgosto de ver o quanto tais pressentimentos eram pálidos diante do que surgiria pouco depois – pra não falar do que se pensa e se diz hoje.

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P.S.: vale a pena notar que a relação mundo-indivíduo em Heidegger se mostra tão desconexa que ele é incapaz de enxergar uma possibilidade de superação da alienação – ou, nos termos do pensador nazista, da “derrelição”, “ruína”, “queda” [sic], “inautenticidade” etc. -, e, assim, só lhe resta concebê-la enxertada na própria natureza do “Dasein“. Não por outro motivo que ele pensa o homem como reles “ser para a morte”, desprovido de qualquer sentido, uma vez que a vida humana é inautêntica na medida mesma que é social. Outros problemas que disso advém (ou a isso servem de base) se mostram no dualismo entre ente e ser, na separação entre o âmbito ôntico e o âmbito ontológico, na “denúncia” da razão e da tecnologia (descambando em franco irracionalismo e na apologia do obscurantismo), na recusa do aspecto objetivo da natureza, da sociedade e dos indivíduos, no isolamento da subjetividade, na pretensão de fazer uma crítica ontológica à metafísica que não é mais que pura e explícita metafísica – e que se desdobra em antropologia filosófica, existencialismo e gnosiologia, ainda que ele terminantemente se recusasse a reconhecê-lo -, donde também fazer uma redução da historicidade à temporalidade e promover uma inflação subjetivista na estética; ou ainda, migrar para a hermenêutica como método, e depois para a poesia como lugar da “expressão do ser” (já que a razão não pode exprimir o Dasein – é o impasse que o faz abandonar inacabado o seu “Ser e Tempo”). Heidegger realiza sua mitomania e termina falando de uma necessidade de “abertura ao ser” – como se o fato de sermos materiais, e estarmos em meio à natureza e ao mundo humano materiais, já não nos colocasse em relação imediata com o “ser”, “abertos” a tudo que existe.

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