O que é a morte?

Morres, amigo, também tu.

Por que te lamentas assim?

Morreu antes Pátroclo,

que era muito melhor que ti.

(Ilíada, XXI).

 

O que é a morte?

A morte é o “dexistir” do Eu.

Quando o corpo se desliga e tem início sua decomposição, chega ao fim o processo que chamamos de mente e que decorre do funcionamento do cérebro. Morto o tecido cerebral, não há mais memória; ou seja, o Eu se apaga. Os sentidos se encerram e já não há mais consciência a que pudessem informar acerca do mundo ao redor.

aquiles chora patroclo

E a alma? A alma é coisa distinta da mente? Se for, o destino dela será tão interessante a nós como o destino de nossa carne: se vai virar grama, comida de verme ou éter pairando no nada, é algo completamente indiferente, pois o que importa é a consciência, a memória, o Eu.

Nenhum Eu sobrevive ao fim do cérebro, de modo que morrer nada mais é que abandonar completamente a sociedade e imergir na mais plena harmonia com a natureza.

Contudo, e em um sentido bem determinado e completamente distinto do que normalmente se entende a respeito, o espírito pode continuar vivo, se cultivado pelos indivíduos ao longo das gerações e enquanto durar essa cultura.

O espírito não é uma coisa. O espírito é memória e linguagem. Portanto, não é apenas o resultado da atividade cerebral, mas ainda, e essencialmente, é um produto da sociedade.

Virar puro espírito é passar a existir enquanto memória, sem entretanto haver consciência e identidade de si, quer dizer, memória própria: agora o espírito não mais é subjetivo e a memória se tornou história. Que outros cuidem dela com leveza e graça!

Achille-e-Patroclo

Nada disso é misterioso. O contrário, sim, é obscurantismo puro.

Persiste ainda hoje a força soturna que a mitologia exerce sobre nós. E isso porque ela está ancorada em uma forma estranhada de afeto, que não encontra meios autênticos de se realizar num mundo onde impera o estranhamento entre os próprios indivíduos. Donde a força da mitologia estar na debilidade do afeto, subjugado e dominado pelo medo; e se apresenta como o que resta pensar com paixão – não apenas na medida que a sociabilidade é hostil, mas também à medida em que a própria mitologia rejeita a transformação da sociedade.

Ora, a fé procura se justificar através do medo da morte, para o qual ela traria o apaziguamento de uma esperança anti-ontológica, anti-realista, absurda. Essa é a medida de seu valor: um pretenso bem que se ergue por cima de uma fobia, de um disparate e de uma vida degenerada, os quais cuida de manter no horizonte.

Pois a sociedade estranhada do cada-um-por-si forja uma moral invertida e elege como valor o que é desvalor.

Assim é que a mitologia e a fé encarregam-se de nos manter sob a tutela de uma moral heterônoma, pueril. Mas é preciso considerar as coisas tais como elas são e reconhecer que temer ou se preocupar com a morte é um reles egoísmo. Se há alguma coisa digna de preocupação aqui é, no máximo, a forma como acontecerá; mas, ainda mais importante, com quem vai pagar o enterro.

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Um comentário sobre “O que é a morte?

  1. “Se há alguma coisa digna de preocupação aqui é, no máximo, a forma como acontecerá”
    É… Ou se vai acontecer mesmo inteiramente. Ficar fortemente sequelado a ponto de não conseguir se matar parece pior do que morrer!

    Curtir

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