Coletivismo, estatismo, ateísmo, anti-humanismo, economicismo e historicismo: lendo Marx ao contrário

.

Quando as filosofias e filosofemas penetram o senso comum, viram ideologias ou passam a constituir retalhos delas.

Ideologias podem ser mais ou menos consistentes. O senso comum é um mix delas, além de conter outras idéias não-ideológicas, provindas da prática imediata, do empirismo e de restolhos ideológicos do passado.

É por isso que devemos fazer uma ou outra dissecaçãozinha básica daquelas filosofias (além das mitologias etc). É isso que faz com que tenha importância a crítica a certos autores, mesmo que não passem de imbecis acadêmicos.

Marx não criticou Bruno Bauer, Max Stirner, Proudhon, Say, Mill, Bastiat e tantos outros por esporte ou sadismo, quando talvez apenas Kant, Hegel, Smith, Ricardo etc. mereceriam a sua atenção.

E agora o senso comum, alimentado com esse tipo de capim e suas novas derivações, absorveu certas críticas feitas a Marx que lhe imputam um coletivismo, um estatismo, um ateísmo belicoso, um anti-humanismo, um economicismo e um historicismo, mil outros etc.

São tantos os que afirmam e reproduzem tais idéias que não há como citar nomes. Mas o que importa são aquelas e não estes.

Marx não é um coletivista. Ao contrário, toda a sua obra afirma a necessidade de se emancipar os indivíduos das limitações impostas a eles pelas classes sociais, mercado, divisão do trabalho etc.

Mas o individualismo de Marx não se confunde com o burguês, que isola o indivíduo no egoísmo (como algo próprio de sua “natureza”) e o contrapõe à sociedade. Para Marx, ao contrário, o indivíduo só se realiza e efetiva seus potenciais no interior da sociedade, na ampliação das relações do indivíduo com o mundo.

O mesmo quanto ao humanismo: enquanto aquele que procede da mentalidade burguesa é idealista, utópico, egoísta e reflete o fetichismo mercadológico dos “homens de igual valor” e a tolerância do ecumenismo do dinheiro, o humanismo marxiano afirma a emancipação dos indivíduos em uma sociedade autogerida.

Onde não cabe, evidentemente, nem coletivismo reacionário, nem coletivismo estatal, burguês. Tomar o Estado é necessário simplesmente porque detém poder material, que não ficará sobre o muro no caso de uma revolução. É preciso rachar o Estado e voltar seu poder contra aquilo para o qual ele existe como protetor. Senão, fiquem aí sonhando com suas miseráveis comunidades hippies.

O fim da religião, tal como a conquista ou destruição do Estado, não é o ponto central do processo revolucionário. Marx não faz crítica da religião. Para ele, não interessa a Sagrada Família, mas sim aquilo que faz a família profana se projetar no além: é o aquém da sociabilidade corrompida pela propriedade privada que demanda a ilusão de se superar o “vale de lágrimas” no pós-fim, tanto quanto demanda a força do Estado para manter-se como areia movediça sobre a qual a sociedade se assenta.

Tornado estéril o solo da propriedade privada, e estabelecida a sociedade sobre a propriedade social dos meios do trabalho, a religião e o Estado perdem razão de existir.

Isso acontecerá por força de uma economia entendida como “sistema” (que não é outra senão a imagem do mecanismo do deus-mercado e sua “mão invisível”), ou de uma meta acima da história (tal como ensina a religião) a nos guiar? Se for assim, basta cruzar os braços e esperar a revolução me emancipar e fazer de mim um indivíduo autônomo. Nota-se a coerência dessas idéias com as demais imputações; mas para acreditar nelas é preciso ser pouco mais que um vegetal trancado num cubículo de classe média.

Há muito mais pra ser dito sobre essas coisas, mas não há quem leia dissertações ou livros num blog. Para quem quiser, indico algumas leituras – e trocamos as figurinhas depois.

.

capitalismo e individualidade 2
Pode acreditar nisso, abiguinho
Anúncios

Ateísmo vs. Agnosticismo

.

Facebucking pela rede (anti-)social afora, acabei entrando numa página de ateus e esbarrando numa conversa recheada de comparações entre o “ateísmo gnóstico” – ou ateísmo “forte”, que seria a afirmação da certeza da inexistência de deus – e o “teísmo gnóstico” – ou, simplesmente, : afirmação da certeza da existência de deus.

Os argumentos diziam que estas “certezas” são meras crenças, pois não há como provar cientificamente nem a existência, nem a inexistência de deus.

Postos nesses termos, até que faz o debate parecer ter sentido.

(Vejam que, portanto, o ateu “forte”, o ateu pra valer, é um crente.)

Contra o gnóstico, seja ateu ou crente, se ergue vaidosamente a figura do humilde agnóstico: trata-se do ateu ou crente que afirma sua dúvida acerca de sua capacidade de conhecimento e de qualquer possibilidade de se obter certezas, ao menos nesse assunto.

(E, assim, fica no ar a conclusão de que o crente “fraco”, ou teísta cético, é um ateu.)

Como se pode notar, tudo aqui gira em torno dos sujeitos e da capacidade humana de conhecimento das coisas.

——

Sejamos audaciosos: vamos procurar ver como a questão pode ser apreendida do ponto de vista das próprias coisas, ou melhor, da realidade das coisas, que é ou deve ser a mesma realidade dos sujeitos.

Antes disso, devemos lembrar que a pergunta acerca da existência – de deus e de tudo o mais – não pertence ao âmbito de nenhuma ciência, mas sim da ontologia. Nenhum químico, nenhum geógrafo, nenhum matemático coloca em questão o que seja a realidade, pois não se trata de assunto da química, da geografia ou da matemática, etc. Cientistas têm mais o que fazer.

Nosso assunto aqui é filosófico.

Para ser breve como um post de facebook: por definição, o que existe é objetivo, efetivo e repleto de determinações (i.é., concreto), donde possuir aquelas pelas quais se faz sentir. P.ex.: o raio X, tal como o ar, é invisível, mas é possível detectar sua existência através de sua ação, seja por meio da impressão de chapas, seja por observar seus efeitos no desenvolvimento de tumores. Em outras palavras, ele apela aos nossos sentidos, ainda que nossa limitada visão não capte senão os indícios de sua existência.

Nota bene: não estou entrando em nenhuma problemática gnosiológica, mas apontando para a ocorrência de uma relação objetiva que se instaura entre a coisa e o nosso próprio ser (a partir da qual, e somente então, se põe a questão da possibilidade de conhecê-la).

Em outras palavras, a objetividade daquilo que existe está justamente nesse potencial (e na efetivação deste) em constituir uma relação com as outras coisas e conosco também. Ora, isso é algo que se impõe a nós; ou seja, não depende de nenhuma subjetividade para existir e se estabelecer. Portanto, não se trata de uma questão de (limites do) conhecimento.

Alguém pode, e vai, perguntar: é possível tratar do ser sem, ao mesmo tempo (ou antes), tratar do conhecimento do ser?

Eis que entra em cena a filosofia moderna ou, se se quiser, burguesa. A partir da questão acima, ela põe a subjetividade como determinante da objetividade (“ego cogito, ergo sum qui sum” – semelhanças com a Bíblia podem ser apenas coincidências), quer dizer, subordina a questão ontológica à gnosiologia/epistemologia ou simplesmente a deixa de lado.

Assim é que o ateísmo passa a ser um agnosticismo, isto é, que se funde e se confunde com a problemática gnosiológica.

Em outras palavras, o que era questão de bom senso materialista, fincado na objetividade da própria vida humana em sua prática cotidiana, se torna especulação idealista acerca do acesso ou da barreira postos ao pensamento sobre a realidade.

O agnóstico tem dúvidas acerca da realidade porque tem uma crença inabalável na idéia de que a consciência é o ponto de partida para a verdade. O último resquício de sanidade de Descartes, as idéias adventícias, é ultra-remastigado até virar solipsismo em Berkeley, ceticismo em Hume, bolha de fenômenos em Kant e positivismo depois. O mundo girando em torno do umbigo do idealismo.

Isso não é senão o abandono do ateísmo mesmo.

Se ainda existe ateísmo, é graças ao materialismo francês e seus herdeiros; pero no hay chances de entrar em detalhes sobre essa história aqui.

Interessa é notar que hoje o ateísmo, ateísmo in iure et facto, se divide em dois: um que chega e estaciona em Darwin, julgando a sociedade humana como uma extensão da natureza (that’s the World WILD Web, e dá-lhe biologismo por todos os lados – via de regra, é o ateísmo que se manifesta ideologicamente no interior do espectro político de direita); enquanto o outro vai até Marx e trata a sociedade humana como uma nova forma de ser, uma emergência inédita de nova realidade em meio à natureza, sem se confundir com ela.

Graças ao seu materialismo grosseiro, ignorante e inconseqüente, a primeira forma de ateísmo coqueteia livre e serelepe com o idealismo, donde frequentemente se desfazer em agnosticismo.

Enquanto isso, a outra forma – pode parecer surpreendente – não visa destruir o teísmo, mas compreender sua gênese e razão sociais de ser; quando muito, lutar contra seu aspecto ideológico na arena da política, i.é., combater a idéia ali onde ela se faz ação. Pois ele entende que o teísmo, a consciência mítica, a religião e o idealismo não se auto-sustentam, mas existem por conta de uma determinada forma de sociabilidade em que o estranhamento se coloca na relação dos indivíduos com a natureza e especialmente entre si próprios.

De modo que, em verdade vos digo, não é tanto um contrassenso almejar, e até conseguir, provar a não-existência de deus, desde que tal prova tenha caráter ontológico, e não científico. Entretanto, a idéia de que o mundo muda a partir da crítica – seja lá ao que for – é ingênua. Não é o ateísmo, a ontologia ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas, visto que essa consciência provém do mundo em que elas vivem; afinal, “a consciência” nada mais é que a consciência que temos do mundo. Ora, o mundo atual demanda a todos nós que anestesiemos nossa sensibilidade, e isso se consegue não apenas com química, mas também com mitologia (e ambas rendem muito dinheiro, na medida que muitos são os que atendem a essa carência de auto-castração, a esse desejo de desdesejamento, visando satisfazer as suas próprias necessidades humanas cortando estas em sua raiz). Deus é, portanto, antes de tudo um produto e um problema sociais.

Pois o mundo atual é o mundo da sociabilidade do capital ladeira (ou abismo) abaixo, rumo à autodestruição. Isso é o que explica porque, apesar de tanto desenvolvimento científico alcançado, estamos regredindo cada vez mais em termos sociais e ideológicos, ou melhor, em termos humanos.

Este entendimento, como se pode notar, termina por ultrapassar o próprio ateísmo e se torna entendimento histórico – “ciência da história”, nos termos de Marx; no senso comum acadêmico, marxismo (um termo que se torna tão popular quanto maior a ignorância a seu respeito).

(Confira os textos “Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé” e “A importância do Materialismo para a práxis de esquerda“.)

——

Enfim: o ateísmo não é a crença na inexistência de deus, derivada de uma crença na possibilidade de se provar (ainda mais por meio da “ciência” – qual delas?) que deus não existe. Ao contrário, ele simplesmente descarta tal “hipótese” como fantasia infantil.

E não é exatamente da mesma forma que qualquer um lidaria com o “problema” da existência de outros tantos “seres imaginários”, tais como duendes? Mas se o agnóstico alegar que esta seria uma “falácia da falsa analogia”, uma vez que duendes são idéias “materiais” (i.é., originados numa composição elaborada pela imaginação de figuras extraídas da experiência sensível, como as de anões, orelhas pontudas, cor verde etc.), enquanto Yahweh é metafísico, resultante de nossas “falhas cognitivas” e de nossa “necessidade de respostas”: tanto pior pra Yahweh e quaisquer outras “entidades metafísicas”, por tudo isso ainda mais absurdas que duendes.

(Para discutirmos o que é isso, a idéia de deus, e como se fabrica tal idéia, confira também: “Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro“, “Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa“, e ainda “Ciência e Religião: Diádocos da Alienação“).

——

Para fechar o post, transcrevo e debulho um trecho do comentário de um dos debatedores – que procurava distinguir, mas também relacionar, ateísmo e agnosticismo, e justificar ambas as posições. O sublinhado é meu:

– “Não sei da existência de algum deus (agnóstico) ao mesmo tempo em que não vejo motivos pra acreditar que algum exista (ateu)“.

Perfeito. Justamente porque “não vejo motivos pra acreditar que algum deus exista” (e isso decorre do fato de a posição ateísta partir da realidade na qual, por meio da qual e com a qual nós existimos; e somente esse, é evidente, pode ser um ponto de partida racional), não faz nenhum sentido se indagar acerca das possibilidades de saber da existência de algum deus – tal como faz a posição agnóstica, idealista que é, ao abstrair a realidade e a vida do próprio especulador de idéias.

Donde o agnosticismo, ao acreditar que a questão se dilui na “incapacidade humana” de provar isso ou aquilo, não se põe exatamente “em cima do muro” entre ateus e crentes, mas sim na pocilga da tibieza – lugar próprio de toda sorte e azar de covardes, conciliadores, sicofantas e demais “apartidários” -, o que é pior que estar entre ateus de direita; pois lhe apraz roçar a cachola no lamaçal ridículo dos pseudoproblemas de um pensamento isolado da prática.

.

cardápio do ateísmo agnóstico
Eis aí o cardápio eleitoral da gnosiologia: escolha seu pastor.

“Base materialista para a historiografia”: para muito além das abstrações do marxismo vulgar

.

À Ideologia Alemã é creditada a formulação primígena do “materialismo histórico” de Marx.

Que, no entanto, jamais usou tal expressão.

É comum entendê-lo como parte ou aspecto de uma filosofia da história, um esquema “científico” amalgamado ou apoiado em um sistema filosófico, com direito a enunciar o enquadramento de supostas etapas históricas, suas leis de sucessão e um fim (nos dois sentidos da palavra) da história – algo igualmente estranho ao pensamento marxiano. É o chamado “materialismo dialético”.

A esse respeito, remeto os leitores a dois artigos desse mesmo blog: Dialética: motor das “etapas da história” no marxismo vulgar, e principalmente Marx: o materialismo contra a dialética

Nomes são apenas nomes. Portanto, aceitar o termo “materialismo histórico” é possível se por ele entendermos apenas uma reivindicação por uma “base materialista para a historiografia” – pela qual não se olhará a história através de uma estrutura ou lógica filosófica qualquer, montada a priori em relação aos fatos, mas antes se fará a apreensão dos fatos a partir deles próprios e deles se extrairá a sua lógica específica.

Por outro lado, não se trata de um empirismo “abstrato”, que não avalia os fatos de acordo com a atividade humana e apenas “coleciona fatos mortos”, desarticulados do “cenário de toda a história” – a sociedade, pois uma propriedade comum aos fatos históricos humanos é a sua produção pelos indivíduos. Isso é uma constatação empírica que os filósofos parecem incapazes de fazer.

Marx diz:

É nesse ponto que termina o fraseado oco sobre a consciência e o saber real passa a ocupar o seu lugar. Ao expor a realidade, a filosofia deixa de ter um meio onde possa existir de forma autônoma. Em vez dela poder-se-á considerar, quando muito, uma síntese dos resultados mais gerais que é possível abstrair do estudo do desenvolvimento histórico dos homens. Estas abstrações, tomadas em si, destacadas da história real, não têm qualquer valor. Podem quando muito servir para classificar mais facilmente a matéria, para indicar a sucessão das suas estratificações particulares. Mas não dão, de forma alguma como a filosofia, uma receita, um esquema segundo o qual se possam acomodar as épocas históricas. Pelo contrário, a dificuldade começa precisamente quando se inicia o estudo e a classificação desta matéria, quer se trate de uma época passada ou do tempo presente. A eliminação destas dificuldades depende de premissas que é impossível desenvolver aqui, pois resultam do estudo do processo de vida real e da atuação dos indivíduos de cada época. Destacaremos algumas destas abstrações, ilustradas com exemplos históricos, para contrapô-las à ideologia” (IA).

Ou seja: tais abstrações (como, p.ex., “modo de produção”) apenas servem para classificar, fazer uma aproximação, enquadrar o foco (se é que essa analogia ajuda mais que atrapalha; não tem nada a ver, p.ex., com o modus weberiano de seleção dos fatos), do que se deseja apreender de um dado período histórico; em hipótese nenhuma se trata de elaborar uma fórmula ou um “esquema segundo o qual se possam acomodar as épocas históricas”, como a filosofia da história pretende (por mais “dialética” que se auto-proclame), mas o contrário, criticar tal procedimento, tal como Marx declara ser sua intenção.

O estudo da história não parte destas abstrações, mesmo quando se trata de “abstrações razoáveis”, ou seja, “uma síntese dos resultados mais gerais que é possível abstrair do estudo do desenvolvimento histórico dos homens” – abstrações feitas a partir dos fatos, quer dizer, a posteriori. Este estudo é o “estudo do processo de vida real”, e por isso mesmo compreende vasto material empírico; à banalidade das construções filosóficas sobre a história é que Marx contrapõe a dificuldade da tarefa científica, do saber real, que não se adquire pela reles especulação de gabinete. “É necessário que, em cada caso particular, a observação empírica coloque em relevo, empiricamente e sem qualquer especulação ou mistificação, o elo existente entre a estrutura social e política e a produção” (IA).

Portanto, tais abstrações servem como apenas como referenciais – não para serem “aplicados” na realidade (modo de produção tal, relação social de produção tal, forças produtivas contraditórias a tal, infraestrutura assim, superestrutura assado, logo revolução: nada disso mais é que uma noção radicalmente anti-materialista do que seja e pra que serve uma teoria) ou na circunstância específica de cada país, e sim para delinearmos as coordenadas do mapeamento que precisamos tracejar quando buscamos diagnosticar a situação própria do que pretendemos e necessitamos tornar nosso campo de ação; permitindo ainda reconhecermos em tal conjuntura, articulada com suas linhas de força históricas, as tendências de desdobramento dos fatos atuais, de modo a nos indicar quais devem ser as tarefas práticas a se cumprir para uma intervenção social efetiva.

.

525569_400897316597942_100000330313300_1291356_66190576_n

A humanidade encalhada sobre sua tragédia

.

A primeira forma de objetividade a se apresentar enquanto realidade é a natureza, na qual e sobre a qual se eleva uma segunda, desta vez social: é a partir da natureza que surge o homem, por meio da qual ele vive e ele cria aquela nova objetividade.

O homem é imediatamente ser natural, e portanto material, corpóreo, objetividade sensível e concreta. Fundado na materialidade, ergue o espírito.

Não se trata jamais de um simples fantasma envolto em uma casca carnal, a ele estranha e da qual deveria paulatinamente se livrar. Ao contrário, o fascinante no homem não é que possua espírito, mas que o produza.

Muito antes de supormos haver uma oposição entre nossa natureza corpórea (matéria) e nosso espírito (consciência, linguagem, imaginação e memória etc.), é preciso notarmos que, sem a primeira, é impossível haver o segundo.

O que é demonstrado com toda evidência pela prática.

Por meio dela, e cotidianamente, o ser imediatamente natural se faz mediatamente humano, quer dizer, ser histórico.

Emergência inédita a constituir a realidade a partir e ao lado da natureza, pois não se confunde com ela; ao inverso, o homem desdobra potencialidades presentes em ambos, que a natureza mesma jamais teria a diligência necessária para fazê-lo.

Donde transformar a natureza em cultura, a matéria em espírito, árvores em livros, montanhas em mísseis. O homem é o verdadeiro ser sobrenatural.

Mas o timão que dirige sua entificação histórica não está em suas mãos (e se é verdade que nunca esteve antes, delas se distancia ainda mais na atualidade), senão da mais brutal casualidade.

Se os indivíduos que, por meio de sua prática, sua atividade sensível, seu trabalho, cuidam de produzir e reproduzir cotidianamente a existência do mundo não se organizarem para orientar a nave humana – esta mesma que nos permite recitar o breve capítulo do espírito na longa epopéia material do cosmos -, o mar bravo fechará o horizonte da humanidade à deriva.

Pois a História não é um caminho a se seguir, quando ela é uma trilha a se abrir. No instante que a janela da História se escancara à nossa frente, ela nos impõe decidir por uma escolha: fazer a História – ou sofrê-la, sabe-se lá por quanto tempo.

O ser que se autoproduz por sobre a natureza não possui hoje a dinâmica de conduzir sua autoprodução. Teremos tempo para impedir que ela termine de se tornar a nossa autodestruição? O homem que humaniza a natureza irá, algum dia, humanizar a si mesmo?

Sairemos da heteronomia de nossa pré-história (Marx) e cumpriremos a mais difícil e importante tarefa histórica de toda a nossa História? Revolucionaremos o mundo de modo a engendrar o indivíduo autenticamente humano?

Nada impede que desistamos de nós mesmos e afundemos no chorume de nossos sangue e merda. Já não estamos mergulhados nele até o nariz?

.

554446_508727459138652_925205727_n

O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

940959_756961114447680_1480331524037761059_n.

A imagem que ilustra este texto é uma crítica, ou antes um sarcasmo, a um certo discurso pretensamente emancipador, mas abstrato, subjetivista e especulativo, que circula por aí em movimentos libertários, esquerdistas, identitários etc.

É o discurso do indivíduo isolado cujo umbigo pretende ser parâmetro do que é a realidade. Ou seja, não existe mais verdade objetiva e universal, relativizada e tornada dependente das “narrativas” dos sujeitos.

Porém, ao criticarmos esse discurso “do sujeito”, talvez devêssemos lembrar que há sujeitos oprimidos por trás dele. E também que o discurso de um sujeito, especialmente o de baixa auto-estima, é embrenhado de identificação e afeto (uma vez que certamente ele crê no valor de verdade ou validade do que diz – mesmo quando afirma que “a verdade não existe” etc -; donde, por meio dele, guiar sua prática), o que torna delicada a situação da crítica.

Há ainda que lembrar o estranho costume moderno de se pensar em “autoria” ou propriedade privada de idéias, graças ao qual os indivíduos tratam egocentricamente uma opinião como um filho sob sua posse absoluta, não importa quão “diferente” ou “própria”, quer dizer, torta e errada ela seja; uma corrente umbilical de dura ternura a liga ao baixo ventre do sujeito e a opinião se faz uma extensão discursiva e ao mesmo tempo sensível da pessoa.

De modo que facilmente se confundem nessas imaginações a mensagem e o mensageiro – confusão essa que, aliás, o próprio conteúdo desse discurso trata de afirmar.

Mas será mesmo que deveríamos, por conta de alguma perniciosa condescendência, deixar intocada a barafunda ideológica na cabeça desses sujeitos, cuidando de não ferir seus sentimentos afetuosos por suas bobagens?

Claro que não se trata de cair no mesmo subjetivismo e proceder com desprezo ao indivíduo. Antes disso, cabe reconhecer que cada situação e interlocutor demandam um modo de comunicação que cumpra o objetivo de clareza da mensagem, pois ela é o que importa.

E, então, é preciso mostrar que o pretenso instrumento ideológico relativista de luta dos oprimidos – contra o machismo, o racismo etc. se torna, ao contrário, um meio de reafirmação da opressão.

Pois quando o sujeito é tornado o fundamento da legitimidade e verdade do discurso, todo e qualquer discurso se torna automaticamente legitimado. Aliás, não há mais como se falar em legitimidade. Se cada cultura ou indivíduo é o lugar próprio da justificação e da verdade – e disso resulta uma discordância a mais natural de se esperar -, o que é que pode servir de critério para avaliar qual está certa e possui legitimidade ao reivindicar tal e tal direito?

Se não é possível que discursos contrários ou antagônicos coexistam (pois expressam interesses igualmente contrários ou antagônicos, ainda que o parlador não tenha noção disso e de seus próprios interesses), a questão só pode ser resolvida pela força ante, anti e não-discursiva. As lutas relativistas contra o “eurocentrismo” (eis aí um termo absurdo frente à diversidade cultural dos povos europeus!) dos opressores deságuam, pois, na mais completa afirmação da superioridade da “cultura européia”, do machismo, da heterossexualidade, da raça ariana etc., pois apenas a violência resta como medida de avaliação, quando tudo o mais se relativizou ao ponto subjetivista.

Eis que, mais que apenas em verbo, agora o oprimido acaba por ter de aceitar a “verdade” material do opressor, ainda que o faça manifestando certa desagradável sensação de impotência e de desilusão e resmungue pelos cantos a impressão de ter sido enganado em algum momento dessa história.

Sem uma crítica racional e objetiva não há avanços. E como o pior dos mundos possíveis sempre se torna real, por essa via abre-se todo um campo de oportunidades de cooptação e “desempoderamento” das lutas, justamente o inverso que esse discurso prometia oferecer.

.
.

Marxismo de cátedra: deturpar para “atualizar” Marx

.

Todo aquele que defende um qualquer figurinha marxista ou pós-marxista célebre, do tipo “pensador importante” (leitor/intérprete/comentarista) de Marx [*], frequentemente faz suas apologias usando a noção tosca da cronologia enquanto determinante da veracidade ou utilidade (?) do pensamento, a partir da qual estabelece, por meio do próprio nariz, o momento em que a teoria fundante venceu seu prazo de validade e passou a demandar uma “renovação”. Donde o marketing se apresentar como algo assim: tal ou qual pensador “contribuiu” (com seus dejetos) para “atualizar” a teoria marxista, que por sua própria “dialética” se faz superada (!), bem como pelo fato do capitalismo ter “mudado” (apesar de continuar sendo o capitalismo) dos tempos de Marx pra cá.
 
Sim, hoje o capitalismo esconde Pokemons em telefones celulares, quando o século XIX mal conheceu o telefone fixo. Quanto à dialética, entenda-se a segte. fórmula: algo que está posto é negado, e o que é negado é negado de novo, e então resgata-se algo do algo que foi negado antes e mistura-se com o restolho do que foi negado de sua negação, e por fim tal negação da negação chega à etapa superior da “suprassunção” ou síntese de posição e negação. Agora, basta aplicar esse caixote na realidade (e também na teoria marxiana), e pronto: tudo se enquadra à conveniência da pouca inteligência.
 
Ao contrário dessa teologia mal travestida de materialismo, é preciso notar o seguinte: não há necessidade alguma de “modernizar” (ou pós-modernizar) Marx e escrever “O Capital versão século XXI” – mesmo que sob a pretensão legítima de ultrapassá-lo (se bem que o modus operandi habitual do mercado teorista é costurar calça filosófica de festa junina com retalhos de idéias alheias, selecionadas, arrancadas e rearranjadas na mais perfeita seriedade do puro arbítrio, o que compete no ranking dos best-sellers de ficção sofística com as “novas” teorias que se proclamam substitutas do marxismo) -, mas antes compreendê-lo.
 
Os referenciais filosóficos que Marx elaborou ao fazer a crítica da filosofia, da política e da economia política (isso que hoje se chama de “economia” quando se faz alusão ao aspecto teórico, e “capitalismo” quando se refere ao aspecto prático – eis aí uma mudança significativa…) ofereceriam um ganho de qualidade teórico e ideológico enorme para a esquerda, ao fornecerem parâmetros para análises de casos particulares com a consistência de sua perspectivação no contexto global e de sua avaliação quanto à maior ou menor aproximação do real por meio de constante trânsito crítico entre identificação ideal e prática social.
 
Precisamos, pois, conhecer tais referenciais marxianos, não para “aplicá-los” na realidade (o que nada mais é que uma noção idiota do que seja e pra que serve uma teoria) ou na circunstância específica de cada país, e sim para delinearmos as coordenadas do mapeamento que precisamos tracejar quando buscamos diagnosticar a situação própria do que pretendemos e necessitamos tornar nosso campo de ação; permitindo ainda reconhecermos em tal conjuntura, articulada com suas linhas de força históricas, as tendências de desdobramento dos fatos atuais, de modo a nos indicar quais devem ser as tarefas práticas a se cumprir para uma intervenção social efetiva.
 
Nada disso é preocupação de profissionais da irresponsabilidade ideológica e de fã-clubes da manipulação teórica. Estes não passarão, pois as imposturas afrontam a realidade prática e dela se afastam, só se mantendo em pé enquanto, por meio de pura e simplória soberba, convencem suas platéias de que escrevem certo por linhas tortas e conformadas.


 

* – a lista é infindável e serve de exemplo de como o trabalho teórico, em geral e via de regra (mui especialmente o acadêmico), é produzido com muito mais diletantismo que rigor, intentio recta e honestidade intelectual; afinal, o douto elucubrador tem de ser “original” pra poder ganhar alguma merreca em troca da atividade pensatória, já que esta ocupa um raquítico nicho onanista na divisão do trabalho.

.
serra-e-o-caralho-adorno
Artesanato para decorar sua edição do Capital

Protagonismo e vivência

.

 
Quando o assunto de um debate é FEMINISMO, movimento NEGRO, movimento LGBT ou gira em torno de outros grupos de luta pró-minorias, por vezes a posição e o pensamento discordante (ou não!) de um sujeito – que simpatiza com a causa em questão e a ela se dispõe a somar forças, mas cuja própria individualidade não é identificável cultural, social, sexual, fenomênica ou até mesmo biologicamente (?) com as pessoas que “naturalmente” integram o movimento – são frequentemente desclassificadas e descartadas por meio da desqualificação do próprio sujeito.
 
Quando ainda no nível da argumentação, diz-se que tal indivíduo pretende assumir um protagonismo que lhe é ilegítimo, por não possuir a vivência que os autênticos membros sofreram ou sofrem cotidianamente. A centralidade de tais noções em um discurso, seja quem forem os discursantes, evidencia seu caráter subjetivista.
 
No nível da brutalidade e desonestidade completas, tacha-se um rótulo que decalca no sujeito a figura do “inimigo do movimento” (quando não um hitlerista). Assim, os demais debatedores e leitores não só se dispensam de responder o conteúdo do discurso – pois quem o proferiu foi tornado desprovido de legitimidade, autoridade e, por vezes, capacidade cognitiva ou moral para falar qualquer coisa, ainda que possua razão (de modo tal que sequer precisam continuar a distorcer suas palavras para dar a elas uma aparência de descrédito próprio) -, mas criam também, do ponto de vista gregário, um entretenimento útil e auspicioso, não importa o quão superficial, imediatista e efêmero, para unir a multidão em torno da malhação do “desafeto comum”. É tal como acontece numa torcida de futebol, numa congregação de religiosos, no engajamento em propostas e personas políticas ou também num linchamento de um suposto bandido. Coisas que, ou pessoas com quem, não se discute.
 
Antes de prosseguir, peço que não me acusem de comparar a esculhambação de alguém num debate com o ato de triturar uma pessoa na rua. “Linchamento virtual” é uma expressão mais que ridícula e infame, é puro e pleno desprezo para com todos aqueles que sofreram tamanha injustiça e violência na própria carne. O que pretendo é chamar a atenção para o procedimento aglutinador de bárbaros por meio da manipulação de um mecanismo psicológico chamado “fé” – aquele que angaria adesão tão irracional quanto afetiva e, portanto, disposição à bestialidade.
 
Mas o que me interessa aqui não é falar dos golpes baixos. Interessa discutir a primeira forma de censura, pois ela tem um apelo estético tão sedutor que até parece racional; por isso, convence e arregimenta um bocado de gente de boas intenções.
 
Por que estético? Porque basta imaginar um sujeito branco se colocando como ativista do movimento negro, ou um homem atuando com interesse e disposição propositivos em um grupo feminista, que a ilegitimidade de tais imagens imediatamente é colada em nossos olhos, em nossa pele e sensivelmente em nosso afeto, tamanha a aparência de sua obviedade.
 
Mas os sentidos às vezes nos enganam e o que parece ser óbvio pode não passar de mera ilusão.
 
Em primeiro lugar, é estranho que haja o receio de que alguém “roube o protagonismo” dos “legítimos integrantes” do movimento. Ora, onde está a bandeira da luta pelo reconhecimento do grupo? Se diluiu na disputa da maior medida de importância dos indivíduos? Numa competição pela atenção dos demais? Ou num certame de levantamento de egos?
 
De onde pode surgir a idéia de que alguém adere a uma causa de tamanha dureza interessado em se sobressair frente aos demais? Mas se o termo “protagonista” quiser designar um indivíduo que se lança à linha de frente das batalhas – sem qualquer vaidade de si ou inveja dos companheiros -, tanto pior, pois a rejeição de tal disposição (nem sempre verificável nas pessoas, portanto valorosa) indica um egoísmo ainda mais mesquinho.
 
(Nessas horas, se coloca a questão do protagonismo na luta pelos direitos dos animais, que bem combina com a sua denúncia do “especismo”: seres humanos falando pelos animais e contra si próprios [cf. o texto O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”]).
 
Se esta questão do protagonismo é preocupação que assedia com afinco um movimento qualquer, me parece que em apenas um único sentido ela pode ser genuína: protagonismo enquanto função ou cargo de representação do movimento, como no caso dos indivíduos aos quais se delegam as tarefas de comunicação, de liderança (basta lembrar a presidente do “movimento afro do PSDB”) etc.
 
Mas não é este o sentido do termo que é usado nos debates, e sim aqueles anteriores. Donde o que era pra ser um movimento de luta se perde na inconsistência da egolatria e revela sua fraqueza de meios e propósitos.
 
Ao extremo, mas se atendo ao âmbito dos pensamentos, a recusa da participação de um indivíduo “estranho” é afirmada inclusive para situações práticas em que qualquer pessoa deveria na verdade agir, sob pena de sofrer censura por não fazê-lo. Para citar um exemplo mais ou menos recorrente: certo entendimento que circula (não sei com que grau de adesão) entre as feministas afirma que apenas mulheres podem oferecer ajuda ou defender uma mulher, pois os homens – todos eles – são opressores e serão machistas mesmo se quiserem prestar qualquer auxílio ou socorro, porque isso é manifestação de paternalismo, pretensão de superioridade, subestimação da mulher etc.
 
Tudo isso, repito, se restringe ao puro pensamento, pois no âmbito da vida real, prática e cotidiana, não existe “a mulher” e nem “os homens”. Existe a Maria, existe o João e o José, existe o indivíduo que se distingue de todos os outros por ser ele uma síntese única de muitíssimos atributos, não importa quais e quão comuns sejam. Aliás, quantos atributos possuem em comum a moradora da mansão em bairro nobre e a moradora de rua, além de serem mulheres, falarem “dialetos” socialmente distintos mas intercompreensíveis de uma mesma língua – como acontece com todas as que existem -, e uns outros mais? Quão fundamentais são os atributos que ambas possuem frente aos que não compartilham? O que determina a importância de um ou tantos em um momento, e de outros noutra situação?
 
Portanto, é perfeitamente concebível a idéia de um fulano qualquer, homem, machista inclusive, se deparar repentinamente com uma circunstância envolvendo violência física ou verbal de um homem (ou um outro animal) contra uma mulher e agir para defendê-la, caso ela esteja em desvantagem. Se não o faz, mas permanece indiferente, é cúmplice da covardia do agressor. E por qual razão deveria ela recusar sua ajuda?
 
Há homens machistas e há homens que recusam o machismo, assim como há mulheres de luta e há mulheres não apenas submissas ao machismo, mas que chegam ainda a defendê-lo. A questão do protagonismo deve levar isso em conta, se a intenção não for criar um dogma – e nada melhor que isso para minar o empoderamento de alguém.
 
Aliás, tais noções de protagonismo não são problema a se considerar quando o movimento é coeso, forte e consistente prática e teoricamente. Qualquer prática que aponte para rebaixamentos egóicos pode ser facilmente detectado e desmantelado.
 
E mais: como combater o machismo sem envolver os homens e angariar suas adesões? Não se trata de conseguir fazer o machista combater o machismo?
 
Ou a luta é pela afirmação da mulher enquanto diferença intransitiva frente aos homens? Eles não responderiam: “ora, o machismo afirma exatamente isso, podem largar as bandeiras e assumir a cozinha”?
 
A luta não visa estabelecer uma posição autenticamente humana da mulher na totalidade da sociedade? Ou seja, pela igualdade de direitos entre os diversos indivíduos (é assim que se costuma justificar a luta, mas sem muito rigor, já que a igualdade é uma forma de abstrair até mesmo os atributos cujas diferenças são o cerne de toda a questão)?
 
Se é assim, cabe compreender e reconhecer o significado profundamente humanista do feminismo.
 
Protagonismo não é, pois, um problema, mas sim uma necessidade. É o indivíduo “empoderado” que participa das ações e reflexões, que levanta propostas e incentiva a atuação autônoma e responsável, que age no sentido de fortalecer o movimento de forma honesta para consigo mesmo e os demais, que se dedica à causa e se mostra confiante nos companheiros de luta.
 
Não há porque recusar o protagonismo dos interessados na luta, e muito menos exigir o aval de alguém que efetivamente sofre preconceito e violência. Na verdade, se um indivíduo reconhece o sofrimento dos grupos oprimidos, por que não deveria se sentir na obrigação de atuar em prol de seus direitos? Por que não deveríamos esperar justamente isso de sua parte?
 
Alguém pode estar pensando: finalmente a questão da vivência apareceu, mas como ela entra nisso aí?
 
Vivência é coisa do âmbito privado do indivíduo singular. Entretanto, o que importa é o que há de comum, socialmente determinado, nas vivências de cada indivíduo; e só isso confere importância à vivência.
 
Assim, um negro que sofreu uma afronta racista sabe suficientemente bem qual é a dor de outro negro que lhe conta ter ouvido uma ofensa semelhante, ainda que não seja a mesma coisa, a mesma circunstância, a mesma dor e a mesma reação.
 
Um branco não sabe o que é racismo. Mas sabe o que é ofensa e o que é dor. Se isso lhe basta para aderir ao combate, por que exigir-lhe mais?
 
Insistir na centralidade da vivência é desprezar aquilo que une os indivíduos singulares em torno de uma compreensão e uma causa comuns e atirar tudo para o abismo da singularidade isolada: a vivência é minha, e sequer a linguagem pode te fazer compreendê-la. Ora, o que esperar disso? Um embate na arena política dos direitos? Não, porque cada indivíduo – encerrado em sua vivência única e intransponível umbigo afora – possui algo que a mais ninguém serve de critério e é impossível de ser avaliado. Sem contar que as vivências de um mesmo sujeito podem ser contraditórias entre si, e outros problemas.
 
Aí só resta medir força física bruta contra quem afirmar uma vivência contrária. Basta pensar, por exemplo, no sujeito que defende a redução da maioridade penal alegando que um menor matou um parente querido – uma vivência tão dolorosa e comovente quanto universal e politicamente efetiva, à qual todos estão sujeitos. Mas em que medida o sofrimento torna justa uma reivindicação? Este caso mostra que a dor pode tornar obscuro o entendimento, muito antes de legitimar idéias e ações.
 
Para terminar, uma provocação. Não é interessante notar que esses problemas nunca surgem entre os sem-terra, sem-teto, sem-comida etc.? Se houver adesão às suas lutas por parte de quem tem teto, comida e até mesmo um sitiozinho no interior, tanto melhor. Seus movimentos estão atentos para questões de outra grandeza e importância.
 
A luta contra a opressão de uma parte da humanidade por outra é uma luta que concerne a toda a humanidade, e aí o que importa não é promover expurgos, mas angariar aliados.
.
O indivíduo em luta - na literatura clássica, moderna e pós-moderna