Alienação: fenômeno objetivo social

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Um tema antigo em filosofia, ao qual foi dada relevante atenção no pensamento contemporâneo a partir de Hegel e seus seguidores, e especialmente graças às reflexões de Marx (em seus Manuscritos de 1844) acerca da situação dos indivíduos na sociedade dominada pelo capital, é aquele da alienação.

O que vem a ser “alienação”? Pretende-se, neste escrito, distinguir o sentido que comumente se atribui ao termo (e que é imputado como sendo de lavra marxiana) do sentido que o próprio Marx deu a ele.

No primeiro caso, as noções que adentraram largamente o senso comum – graças às hordas “críticas” que atuavam (e ainda atuam) ideologicamente na academia e sobre os chamados movimentos populares e seus partidos – são condizentes ou bem próximas ao sentido dominante em filosofia, segundo o qual alienação aponta para um fenômeno de consciência, ou seja, próprio da apreensão mental da realidade. O enigma se situa para além do psicológico e adentra o domínio gnosiológico ou epistemológico, mas nunca abandona a órbita em torno da subjetividade; para ser mais direto e preciso, é simplesmente uma nova roupagem para o carcomido ceticismo.

Pois a alienação seria uma forma de distorção da consciência, um turvamento forçado por um agente externo; além disso, como desgraça pouca é ninharia, eventualmente essa perturbação ainda seria cultivada pelo próprio sujeito, configurando assim uma fisionomia mental esdrúxula, situada entre a ignorância, a deficiência cognitiva, a tara e a doença, no limite do flerte com a loucura.

O patógeno desencadeador deste processo é identificado como um poder imaterial, a “ideologia”, cuja forma de operação teria sido também desvendada por Marx.

Por meio de uma leitura cuidadosa (e que não tome as tradicionais “interpretações” feitas a respeito como referência) do escrito inacabado em que o filósofo versa sobre “A Ideologia Alemã”, torna-se fácil desmentir a tradicional versão que atribui a Marx uma preocupação com a “falsa consciência” disseminada entre os indivíduos, bem como uma análise de seu intrincado mecanismo ideológico de produção. Na verdade, ele identifica essa tese do “domínio das falsas idéias sobre os homens” como a teoria própria dos neo-hegelianos, e a combate sarcasticamente como sendo, ela própria, a reles ideologia alemã.

Senão, basta umas poucas linhas do prefácio da obra pra desmentir a imputação:

Até o momento, os homens sempre fizeram representações falsas de si mesmos, daquilo que eles são ou devem ser. Eles organizaram suas relações de acordo com suas representações de Deus, do homem normal e assim por diante. Os produtos de sua cabeça tornaram-se independentes. Eles, os criadores, curvaram-se diante de suas criaturas. Libertemo-los de suas quimeras, das ideias, dos dogmas, dos seres imaginários, sob o jugo dos quais eles definham. Rebelemo-nos contra esse império dos pensamentos. Ensinemos-lhes a trocar essas imaginações por pensamentos que correspondam à essência do homem, diz Um, a se comportar criticamente para com elas, diz o Outro, a arrancá-las da cabeça, diz o Terceiro, e… a realidade existente haverá de desmoronar.

Essas fantasias inocentes e infantis formam o cerne da nova filosofia dos jovens hegelianos /…/.

Certa vez, um nobre homem imaginou que os seres humanos se afogavam na água apenas porque estavam possuídos pela ideia da gravidade. Se afastassem essa representação da cabeça, por exemplo esclarecendo-a como uma representação supersticiosa, religiosa, eles estariam livres de todo e qualquer perigo de afogamento. Durante toda a sua vida combateu a ilusão da gravidade, de cujas danosas consequências todas as estatísticas lhe forneciam novas e numerosas provas. Aquele nobre homem era do tipo dos novos filósofos revolucionários alemães.

Todos os críticos filosóficos alemães afirmam que as ideias, as representações, os conceitos até agora dominaram e determinaram os homens reais, que o mundo real é um produto do mundo ideal. Isso se deu até o presente momento, mas a partir de agora deve mudar. Eles se diferenciam pela maneira como pretendem libertar o mundo humano, que, na visão deles, tanto padece sob o poder de seus próprios pensamentos fixos; diferenciam-se por aquilo que consideram como pensamentos fixos; concordam na crença nessa dominação dos pensamentos; concordam na crença de que seu ato de pensar crítico há de provocar a derrocada do existente, seja porque consideram suficiente sua atividade isolada de pensar, seja porque querem conquistar a consciência universal.

Desnorteados pelo mundo hegeliano dos pensamentos, os filósofos alemães protestam contra a dominação dos pensamentos, ideias, representações que até então, segundo pensam, quer dizer, segundo a ilusão de Hegel, produziram, determinaram e dominaram o mundo real. Fazem seu protesto e morrem […].

O mesmo é feito em relação à tese da alienação enquanto fenômeno de consciência, que enfim é a instância ao redor da qual giram as filosofias idealistas em geral e as neo-hegelianas em particular.

Entretanto, é essa a tese atribuída a Marx, ainda quando o que ele afirma se refere à produção material e a condição do indivíduo nesta produção (pois “o ser determina a consciência”, portanto o problema se enraíza no primeiro). Como exemplo, observemos a charge de Robert Thaves reproduzida abaixo – na qual um operário diz a outro que vai se aposentar e caminhar até o fim da linha de montagem para descobrir o que, afinal, fabricava. O que a charge sugere é que a alienação é uma mera falta de noção do que o trabalhador está fazendo, quer dizer, uma fragmentação de seu saber quanto ao produto final, o que remete antes a um fenômeno subjetivo do que à divisão social do trabalho que causa, entre outras coisas, tal fragmentação.

Frank e Ernest - alienação b

Em seus escritos, é possível perceber Marx apontando, ao contrário, para um fenômeno da objetividade social. O cerne do problema está na produção material capitalista, que reduz o trabalhador à mercadoria “força de trabalho”, posta à venda no mercado de trabalho para produzir outras mercadorias, que são produtos que visam, antes de seu uso, a troca. Ou seja, o trabalhador transfere a outro – aliena – a decisão acerca da finalidade, da duração, da intensidade do empenho de sua própria capacidade de trabalho, que não é outra senão a capacidade por meio da qual o indivíduo se humaniza. Que isso, naturalmente, incida sobre sua consciência depois, é um efeito da alienação, e não a alienação mesma.

Assim, o desacordo entre o pensamento marxiano e a tradição marxista é completo. Voltemos à charge: conhecer toda a linha de montagem faria o operário, finalmente aposentado, ficar livre da alienação? O que é que afinal o liberta, conhecer o produto pronto, ou a aposentadoria? Ambas as alternativas são simplesmente ridículas. Se o fenômeno da alienação se reduzisse à questão do conhecimento, então deveríamos pressupor que o trabalhador de uma manufatura, que conhecia todo o processo de fabricação de seus produtos, não seria um trabalhador alienado, apesar de depender de um mercado onde conseguisse vender sua mercadoria para poder, em troca, comprar seu pão com manteiga.

O mesmo acontece no caso de um cientista que faz a crítica e desvenda todo o modo de funcionamento do sistema. Basta ver o exemplo do próprio Marx, que amargou todo tipo de problemas e infortúnios até mesmo ao se candidatar a sub-empregos. Por fim, ele declarou que “nunca ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro não tendo nenhum”. Em poucas palavras, alienação é isso: dependência de dinheiro [*]. Esse é o sentido da expressão que Marx usará décadas depois em O Capital: “fetichismo da mercadoria”. Fetiche é o objeto dotado de força sobre os homens, uma força estranhada e autônoma, diante do qual ajoelham-se. Trata-se da relação social entre os indivíduos tornada uma relação automatizada, exterior, alheia, independente e hostil, estabelecida por força de uma relação superior, posta entre as próprias mercadorias (na qual os homens se encontram como seus meros portadores), como se fossem os verdadeiros sujeitos sociais, ativos, controladores, se trocando por si mesmas. Donde a imagem do mercado como um deus, um sujeito pairando acima da sociedade, dotado de humores, desconfianças, razão e mãos invisíveis.

Tomar consciência de tudo isso é condição necessária, mas nunca suficiente, para superar tal estado de coisas, e por isso mesmo não torna o indivíduo menos sujeito à alienação, pois ele ainda tem de se vender no mercado de trabalho para poder pagar a manutenção de sua vida – reduzida à sobrevivência.

De te fabula narratur!

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[Leia também: Alienação: fenômeno objetivo social – 2]

[*] Por vezes se encontra ainda hoje, ecoando por aí, certa crítica romântica ao capitalismo, que afirma ser o poder do dinheiro derivado de uma “crença” em seu valor. Mais uma vez, dilui-se a objetividade de um fenômeno social em um subjetivismo desavergonhado. Certamente são “críticos” que nada conhecem de economia e atribuição de valor ao que quer que seja, mas que, ainda assim, não se dispõem a dar o exemplo (àqueles a quem pregam seus edificantes sermões) abrindo mão de seus cofrinhos.

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6 comentários sobre “Alienação: fenômeno objetivo social

  1. Bom texto! Eu o seguia no facebook quando ainda andava por lá. Agora posso acompanhar seus textos aqui. Dei uma olhada na sua dissertação e me interessei. Apesar de certa descrença quanto a minha capacidade de entendê-la, vou me esforçar para isso.

    Continue firme!

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