Ontologia da ciência e da arte: complexos da atividade humana

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A realidade é um complexo de complexos. Para saber dela e lidar com ela, a atividade humana se torna mais e mais multifacetada.

No entanto, meu propósito aqui é falar apenas (…) de duas grandes classes dessa atividade, elas mesmas complexos de complexos: ciência e arte.

Ciência é descobrir a coisa. Arte é construí-la. Senão, vejamos.

Ciência é desantropomorfização da natureza [*], ou seja, um contínuo ultrapassar de nossos limites corporais e culturais de apreensão da realidade. É ver o invisível, é fazer do olho humano um olho racional, teórico, sobrenatural.

É captar a coisa tal como ela é, em um árduo exercício de assimilação objetiva, movida e parametrada pela coisa mesma que se quer conhecer.

Ciência é descoberta – mas não um desvelar completo do objeto. Não existe um estágio final de conhecimento absoluto de tudo ou, ao menos, de algo.

Porque trata-se de descobrir uma “coisa” que não é uma coisa estática, mas é um processo, cujo dinamismo consiste num desencolher da coisa ao longo do tempo; e o que a ciência faz é correr atrás e comer poeira, por mais rápidos que sejam os cientistas em descortiná-la.

A realidade é sempre mais rica que o pensamento, pois ela é concreta e ele é abstrato, e tudo está em movimento.

Há progresso? Sim. Tanto no que se revela como saber, quanto no que se abre de perspectiva de nossa ignorância. E só podemos dizer isso na medida em que sabemos da coisa e vemos o que a coisa indica como ainda por se investigar e conhecer. Ora, essa visão da fronteira entre saber e ignorância só é possível a partir de algum conhecimento daquilo que era, até então, total ignorância. Donde até mesmo o ampliar de tal horizonte ser um saber.

A singularidade da coisa e a ignorância do sujeito implicam no seguinte: não existe um método científico que não seja história. Ou melhor, a ciência é a história da ciência.

Seu método é uma herança e uma novidade ao mesmo tempo: o conhecimento do que a realidade é, de acordo consigo mesma, se dá na base do que já sabemos, isto é, na analogia e comparação do objeto com o que temos de bagagem e classificações científicas; de tudo isso, partimos para a tentativa e erro frente ao que não sabemos e para a elaboração de propostas que possam servir como um fósforo no breu do desconhecido; coletamos indícios, pistas, encaixamos peças e, por fim, not least, entregamos os resultados (sempre provisórios, senão na medida que já atendem aos nossos bem-intencionados e singelos interesses) à crítica pública de outros cientistas, de leigos e da própria história. O método científico é uma prática social.

A partir do momento em que a teoria traduz a realidade por-si – supondo que ela nos permita isso ou alguma coisa – e torna nossa ação e intervenção sobre ela efetivas, surge a possibilidade de uma materialização do espírito: a exteriorização do pensamento sob forma de nova objetividade, nova coisa, concreção do que existia apenas enquanto idéia (p.ex., tecnologia).

[*] Quanto a isto, alguém me respondeu o segte.: “ciência não pode ser desantropomorfização da natureza, porque ela não é antropomorfa em primeiro lugar”. Correto. Mas minha análise parte da atividade humana. E a primeira forma socialmente organizada de consciência humana acerca da natureza é antropomórfica e produz mitologia. De resto, trata-se aqui de uma desantropomorfização “de nossos limites corporais e culturais de apreensão”, quer dizer, do corpo humano, dos olhos e demais sentidos naturais, da consciência natural, e ainda um afastamento (ao limite da ruptura completa) de traços culturais antropocêntricos; em uma palavra, desantropomorfização da “natureza” humana.

Mas a realidade não é apenas a realidade objetiva, de acordo consigo mesma. O mundo humano possui também um aspecto subjetivo: a realidade de acordo conosco. E é aqui que entra a arte.

Arte é antropomorfização da natureza, condensação do ânimo humano na matéria natural sob a forma de uma síntese significativa, o que transforma a natureza em uma natureza humanizada, sensível e espiritualmente. É nutrir o olho natural com humanismo concreto, multiforme, prático.

Arte não é filosofia e nem ciência. Ela não tem a obrigação de fazer pensar e nem demanda uma intervenção teórica do sujeito que escava um objeto de conhecimento e propõe hipóteses para compreendê-lo.

Arte que faz crítica ou ironia, arte que faz mistério de seu suposto conteúdo, arte conceitual ou abstrata, acadêmica ou tecnicista etc. é arte umbilical ou idiota, decadente ou morta, decorativa ou modista, matéria de pura especulação mercantil e indulgência para a adoração cega de religiosos da anestesia: estetismo da não-estética.

Arte não quer dizer; arte diz. E diz na cara, à flor da nossa pele, relando qual brita em nosso nariz, com a mais explícita e solar claridade e apelo à sensibilidade, educando o espírito na exaltação da riqueza de sua densa síntese de significação humana, tendo em vista a humanização da natureza e do mundo social.

É o domínio da realidade para-nós. Na medida em que a sensibilidade demanda expressão, põe em movimento uma atividade de cunho estético que almeja tornar o mundo um habitat à imagem e semelhança da familiaridade e dos afetos humanos, permitindo a emergência empírica de uma espiritualização da matéria: a subjetivação da natureza sob forma de novo ambiente e nova interioridade, a impregnação de idéias e de feeling na concreção espacial e mental, a realização humana de uma citerioridade mundana e pessoal.

Pois bem. Esses dois e todos os demais modos da atividade humana reincidem juntos – ou alienados uns dos outros, como ocorre hoje sob o anti-humanismo da sociedade anti-social e mercantil – sobre natureza e homem, organismo e pensamento, ambiente material e cultura, e tornam o ser humano e seu mundo cada vez menos naturais e cada vez mais auto-produzidos.

É exatamente no que consiste o que chamamos de história, a própria dimensão do tempo tornada humana – ainda que vivamos o nosso triste hoje como quem galopa uma besta em disparada e desprovida de quaisquer rédeas.

 

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