Violência: fenômeno moral ou social?

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Dialogar com um policial federal pode ser bem interessante. Porque não se trata de gambé, mas de um sujeito alfabetizado.
 
Ou seja, alguém que pensa que pensa. E o que ele pensa… você já imagina.
 
É notável que o indivíduo com quem conversei procura defender a maioria dos policiais da acusação de serem violentos e corruptos e, logo em seguida, justifica a violência e corrupção da polícia (cf. a imagem abaixo).
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Jean Schmidt - Policial Federal
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Ele explica:
 
– “Tá cheio de gente para achar que o criminoso é vítima de tudo, menos da falta de vergonha e valores morais dele próprio. Punir o homicida mostra para a sociedade e para aquele que pense em cometer este crime que será punido. De outro lado, deixar o homicida livre, além de estimular a reincidência, é uma cuspida na cara da família e de todos aqueles que foram afetados pelo crime”.
 
Como se vê, é a remastigação da velha alfafa moralista, cristã, que reduz o fenômeno social objetivo da violência à subjetividade do indivíduo, o “vagabundo”.
 
Isso escamoteia o fato óbvio da produção social da violência em escala industrial, o que só pode resultar em propostas que pioram ainda mais o problema. Enquanto isso, ele brinca de bang-bang com os “vagabundos”. Afinal, este é o nicho da divisão social do trabalho que lhe restou. Os ricos agradecem seu sacrifício.
 
– “Não brinco de bang-bang, faço POLÍCIA, que significa pegar quem comete crimes, seja rico ou pobre, preto ou branco, hetero ou homo, comunista, capitalista, budista ou qualquer outro “ista” e apresentar para a JUSTIÇA! Lá ele chore suas mágoas”.
 
Pois é. “Pegar” quem comete crimes, seja rico ou pobre etc. e apresentar para a “justiça” é, muitas vezes, arriscar sua vida para levar um criminoso a uma punição que raramente repara o crime.
 
Ou será que um homicida na cadeia faz o morto voltar à vida? E um moleque preso com um baseado: adquire vergonha na cara no presídio ou vira membro do PCC?
 
E o Rafael Braga? Por que a “justiça” o puniu?
 
O criminoso é tão vítima da atual sociabilidade quanto sua vítima, e tanto quanto todos somos. Ainda mais vítima é a vítima do crime e quem perde a vida combatendo o crime. Entretanto, punição nenhuma resgata isso. E por acaso a criminalidade abaixou com o aumento da população carcerária? Ou com a pena de morte nos países que a adotam?
 
Ou será que roubo, ganância, violência doméstica, abandono, inveja, estupro, homicídio etc. são da “natureza humana”? E, se forem, qual é o sentido de se combater a natureza?
 
Se não se admite que o problema da violência, da maldade, da falta de vergonha e do crime possuem raízes na forma atual que rege as relações sociais (inclusive porque a moral é produto social; não existe moral particular, assim como não existe linguagem privada), resta ter de explicar a razão de se prender e matar dez “vagabundos” hoje e, amanhã, aparecerem cem novos no lugar, e mais cem, e mais e mais e mais sempre.
 
De modo que a reincidência no crime não vem de outro lugar que o da origem mesma do crime, algo que a punição não combate e nem serve como exemplo pra ninguém. Senão, haveria diminuição, e não aumento da criminalidade.
 
Em outras palavras: por que a moral de tantos indivíduos é corrupta? Essa pergunta só é possível de ser respondida se lançarmos os olhos para o corruptor da moral.
 
O punitivismo cristão não produz justiça, nem repara ou previne a injustiça, “seja ela cometida por pobres ou ricos” – e eis que o policial afirma haver aqui uma divisão social, sem perceber que ela é, além de um problema em si mesma, o próprio cerne do dilema da violência. Pois quando dizemos que a questão é social, não estamos nos referindo a uma abstração etérea chamada “a sociedade”, “da qual o criminoso é vítima”, mas estamos falando de uma sociedade historicamente bem determinada, uma sociedade cindida em classes, tal como a nossa sociedade atual é e se reproduz cotidianamente em meio e graças à vida prática dos indivíduos, cisão esta que faz com que uns poucos indivíduos se situem acima dos outros – não por mérito, mas por posse de capital. Em suma, enquanto perdurar a apropriação privada do trabalho da maioria, não adianta nada fazer pregações morais contra “vagabundos” (portadores de armas ou não); pois, como resultado do cisma social, a própria sociabilidade se instaura e se desdobra de forma violenta.
 
Negar que o capitalismo é a causa primeira da violência – ao objetificar a sociabilidade, a ponto de parecer aos indivíduos ser um “sistema” acima de suas cabeças e hostil a eles (p.ex. quando alguém peida na bolsa de valores de Tóquio e isso faz o desemprego se alastrar no Brasil) – é apenas mentir para si mesmo. Certamente uma opção mais fácil do que lidar realisticamente com a questão, e que até serve como consolo diante dela; mas nem um pouco efetiva ou inteligente. Resta perpetuar o bang-bang, a roleta russa social que selecionará as próximas vítimas.
 
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moral libertária
O que pode ser a moral quando isolada umbigo adentro.

Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia

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Fernando Pessoa expõe, em seu conto “O Banqueiro Anarquista” (PDF para download), uma argumentação consistente para identificar o anarquismo enquanto uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa (também chamada de “libertarianismo” e demais variantes), em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas.

Observem estes trechos. No primeiro, ele fundamenta a ideologia sobre uma antropologia filosófica – o egoísmo enquanto “natureza humana” (ah, como a natureza é conveniente!…):

– “Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, por que cargas d’água defenderia o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta“.

No segundo, ele justifica a corrupção geral da sociabilidade burguesa (o que Hobbes chamava de “guerra de todos contra todos” na selva onde “o homem é o lobo do homem”) sem nenhum pudor:

– “Não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta; e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter a compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso… E veja você.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o fato que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro. Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo – confesso-lhe, meu amigo, que empreguei tudo quanto há – o açambarcamento [roubo], o sofisma [fraude] financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?!

Fernando Pessoa é honesto em seu cinismo auto-complacente. Mas por que eu disse que isso é “uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa, em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas”?

Porque acredita na fantasia do “enriquecimento às custas do próprio esforço” (ainda que esse “mérito” seja resultado de toda sorte de meios ilegais e imorais – afinal, F. Pessoa condena a moral e o Direito como “não-naturais”, donde serem “ficções”) – como se o trabalhador partisse de uma situação desprovida de pré-condições, de uma linha de largada em que toda a concorrência entre os indivíduos estivesse equilibrada, e a partir da qual é que se instauraria pra valer.

Essa fantasia não enriquece trabalhador nenhum, mas serve como uma luva na hora de defender “quem chegou lá“, ou melhor, quem já estava lá por meio de herança de capital e de força política.

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pessoa

Ateísmo vs. Agnosticismo

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Facebucking pela rede (anti-)social afora, acabei entrando numa página de ateus e esbarrando numa conversa recheada de comparações entre o “ateísmo gnóstico” – ou ateísmo “forte”, que seria a afirmação da certeza da inexistência de deus – e o “teísmo gnóstico” – ou, simplesmente, : afirmação da certeza da existência de deus.

Os argumentos diziam que estas “certezas” são meras crenças, pois não há como provar cientificamente nem a existência, nem a inexistência de deus.

Postos nesses termos, até que faz o debate parecer ter sentido.

(Vejam que, portanto, o ateu “forte”, o ateu pra valer, é um crente.)

Contra o gnóstico, seja ateu ou crente, se ergue vaidosamente a figura do humilde agnóstico: trata-se do ateu ou crente que afirma sua dúvida acerca de sua capacidade de conhecimento e de qualquer possibilidade de se obter certezas, ao menos nesse assunto.

(E, assim, fica no ar a conclusão de que o crente “fraco”, ou teísta cético, é um ateu.)

Como se pode notar, tudo aqui gira em torno dos sujeitos e da capacidade humana de conhecimento das coisas.

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Sejamos audaciosos: vamos procurar ver como a questão pode ser apreendida do ponto de vista das próprias coisas, ou melhor, da realidade das coisas, que é ou deve ser a mesma realidade dos sujeitos.

Antes disso, devemos lembrar que a pergunta acerca da existência – de deus e de tudo o mais – não pertence ao âmbito de nenhuma ciência, mas sim da ontologia. Nenhum químico, nenhum geógrafo, nenhum matemático coloca em questão o que seja a realidade, pois não se trata de assunto da química, da geografia ou da matemática, etc. Cientistas têm mais o que fazer.

Nosso assunto aqui é filosófico.

Para ser breve como um post de facebook: por definição, o que existe é objetivo, efetivo e repleto de determinações (i.é., concreto), donde possuir aquelas pelas quais se faz sentir. P.ex.: o raio X, tal como o ar, é invisível, mas é possível detectar sua existência através de sua ação, seja por meio da impressão de chapas, seja por observar seus efeitos no desenvolvimento de tumores. Em outras palavras, ele apela aos nossos sentidos, ainda que nossa limitada visão não capte senão os indícios de sua existência.

Nota bene: não estou entrando em nenhuma problemática gnosiológica, mas apontando para a ocorrência de uma relação objetiva que se instaura entre a coisa e o nosso próprio ser (a partir da qual, e somente então, se põe a questão da possibilidade de conhecê-la).

Em outras palavras, a objetividade daquilo que existe está justamente nesse potencial (e na efetivação deste) em constituir uma relação com as outras coisas e conosco também. Ora, isso é algo que se impõe a nós; ou seja, não depende de nenhuma subjetividade para existir e se estabelecer. Portanto, não se trata de uma questão de (limites do) conhecimento.

Alguém pode, e vai, perguntar: é possível tratar do ser sem, ao mesmo tempo (ou antes), tratar do conhecimento do ser?

Eis que entra em cena a filosofia moderna ou, se se quiser, burguesa. A partir da questão acima, ela põe a subjetividade como determinante da objetividade (“ego cogito, ergo sum qui sum” – semelhanças com a Bíblia podem ser apenas coincidências), quer dizer, subordina a questão ontológica à gnosiologia/epistemologia ou simplesmente a deixa de lado.

Assim é que o ateísmo passa a ser um agnosticismo, isto é, que se funde e se confunde com a problemática gnosiológica.

Em outras palavras, o que era questão de bom senso materialista, fincado na objetividade da própria vida humana em sua prática cotidiana, se torna especulação idealista acerca do acesso ou da barreira postos ao pensamento sobre a realidade.

O agnóstico tem dúvidas acerca da realidade porque tem uma crença inabalável na idéia de que a consciência é o ponto de partida para a verdade. O último resquício de sanidade de Descartes, as idéias adventícias, é ultra-remastigado até virar solipsismo em Berkeley, ceticismo em Hume, bolha de fenômenos em Kant e positivismo depois. O mundo girando em torno do umbigo do idealismo.

Isso não é senão o abandono do ateísmo mesmo.

Se ainda existe ateísmo, é graças ao materialismo francês e seus herdeiros; pero no hay chances de entrar em detalhes sobre essa história aqui.

Interessa é notar que hoje o ateísmo, ateísmo in iure et facto, se divide em dois: um que chega e estaciona em Darwin, julgando a sociedade humana como uma extensão da natureza (that’s the World WILD Web, e dá-lhe biologismo por todos os lados – via de regra, é o ateísmo que se manifesta ideologicamente no interior do espectro político de direita); enquanto o outro vai até Marx e trata a sociedade humana como uma nova forma de ser, uma emergência inédita de nova realidade em meio à natureza, sem se confundir com ela.

Graças ao seu materialismo grosseiro, ignorante e inconseqüente, a primeira forma de ateísmo coqueteia livre e serelepe com o idealismo, donde frequentemente se desfazer em agnosticismo.

Enquanto isso, a outra forma – pode parecer surpreendente – não visa destruir o teísmo, mas compreender sua gênese e razão sociais de ser; quando muito, lutar contra seu aspecto ideológico na arena da política, i.é., combater a idéia ali onde ela se faz ação. Pois ele entende que o teísmo, a consciência mítica, a religião e o idealismo não se auto-sustentam, mas existem por conta de uma determinada forma de sociabilidade em que o estranhamento se coloca na relação dos indivíduos com a natureza e especialmente entre si próprios.

De modo que, em verdade vos digo, não é tanto um contrassenso almejar, e até conseguir, provar a não-existência de deus, desde que tal prova tenha caráter ontológico, e não científico. Entretanto, a idéia de que o mundo muda a partir da crítica – seja lá ao que for – é ingênua. Não é o ateísmo, a ontologia ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas, visto que essa consciência provém do mundo em que elas vivem; afinal, “a consciência” nada mais é que a consciência que temos do mundo. Ora, o mundo atual demanda a todos nós que anestesiemos nossa sensibilidade, e isso se consegue não apenas com química, mas também com mitologia (e ambas rendem muito dinheiro, na medida que muitos são os que atendem a essa carência de auto-castração, a esse desejo de desdesejamento, visando satisfazer as suas próprias necessidades humanas cortando estas em sua raiz). Deus é, portanto, antes de tudo um produto e um problema sociais.

Pois o mundo atual é o mundo da sociabilidade do capital ladeira (ou abismo) abaixo, rumo à autodestruição. Isso é o que explica porque, apesar de tanto desenvolvimento científico alcançado, estamos regredindo cada vez mais em termos sociais e ideológicos, ou melhor, em termos humanos.

Este entendimento, como se pode notar, termina por ultrapassar o próprio ateísmo e se torna entendimento histórico – “ciência da história”, nos termos de Marx; no senso comum acadêmico, marxismo (um termo que se torna tão popular quanto maior a ignorância a seu respeito).

(Confira os textos “Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé” e “A importância do Materialismo para a práxis de esquerda“.)

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Enfim: o ateísmo não é a crença na inexistência de deus, derivada de uma crença na possibilidade de se provar (ainda mais por meio da “ciência” – qual delas?) que deus não existe. Ao contrário, ele simplesmente descarta tal “hipótese” como fantasia infantil.

E não é exatamente da mesma forma que qualquer um lidaria com o “problema” da existência de outros tantos “seres imaginários”, tais como duendes? Mas se o agnóstico alegar que esta seria uma “falácia da falsa analogia”, uma vez que duendes são idéias “materiais” (i.é., originados numa composição elaborada pela imaginação de figuras extraídas da experiência sensível, como as de anões, orelhas pontudas, cor verde etc.), enquanto Yahweh é metafísico, resultante de nossas “falhas cognitivas” e de nossa “necessidade de respostas”: tanto pior pra Yahweh e quaisquer outras “entidades metafísicas”, por tudo isso ainda mais absurdas que duendes.

(Para discutirmos o que é isso, a idéia de deus, e como se fabrica tal idéia, confira também: “Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro“, “Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa“, e ainda “Ciência e Religião: Diádocos da Alienação“).

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Para fechar o post, transcrevo e debulho um trecho do comentário de um dos debatedores – que procurava distinguir, mas também relacionar, ateísmo e agnosticismo, e justificar ambas as posições. O sublinhado é meu:

– “Não sei da existência de algum deus (agnóstico) ao mesmo tempo em que não vejo motivos pra acreditar que algum exista (ateu)“.

Perfeito. Justamente porque “não vejo motivos pra acreditar que algum deus exista” (e isso decorre do fato de a posição ateísta partir da realidade na qual, por meio da qual e com a qual nós existimos; e somente esse, é evidente, pode ser um ponto de partida racional), não faz nenhum sentido se indagar acerca das possibilidades de saber da existência de algum deus – tal como faz a posição agnóstica, idealista que é, ao abstrair a realidade e a vida do próprio especulador de idéias.

Donde o agnosticismo, ao acreditar que a questão se dilui na “incapacidade humana” de provar isso ou aquilo, não se põe exatamente “em cima do muro” entre ateus e crentes, mas sim na pocilga da tibieza – lugar próprio de toda sorte e azar de covardes, conciliadores, sicofantas e demais “apartidários” -, o que é pior que estar entre ateus de direita; pois lhe apraz roçar a cachola no lamaçal ridículo dos pseudoproblemas de um pensamento isolado da prática.

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cardápio do ateísmo agnóstico
Eis aí o cardápio eleitoral da gnosiologia: escolha seu pastor.

O homem é um animal político?

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Os filósofos e cientistas politólatras curtem atribuir a Aristóteles a expressão “o homem é um animal político”.

(Sabe como é: se Aristóteles o disse, então devemos todos virar arendtianos – com o bonus track disso ser muito melhor que seguir a “aristotélica” Ayn Rand, se bem que a bactéria não faz da pulga um gigante.)

Pena que não costumam acompanhar a letra e o raciocínio do estagirita, que poucas linhas depois da famosa “ἄνθρωπος φύσει πολιτικòν ζῷον”, vai afirmar: “bem mais que as abelhas”.

Das duas, uma: ou Aristóteles não entende “πολιτικòν” no sentido moderno e está dizendo que o ser humano é um ser gregário, i.é, social, ou então que a colméia é o aparelho estatal da política monarquista das abelhas, cuja cidadania é rigorosamente hierarquizada por instituições públicas que garantem a produção de mel.

Melhor ainda se Aristóteles falasse das formigas, cuja pólis conta ainda com um aparato repressivo militarizado pra manter a ordem.

Quer apostar que tem gente com cara de pau suficiente pra defender a existência de repúblicas entre os himenópteros? O que indica bem o quão humanizado é esse negócio de Estado, e também o que o entendimento político considera ser humanização. Pois não há nada mais politicamente conveniente que degringolar ladeira abaixo pela antropologia filosófica de Maquiavel e Hobbes, segundo os quais somos todos bestas ferozes (uma idéia procedente da pura empiria: eles simplesmente estavam observando a sociedade burguesa se estabelecer sobre a dissolução das formas comunitárias em que os homens viviam antes de se tornarem “lobos do homem”) e, por questão de sobrevivência, devemos assinar o pacto “social” com que o Leviatã irá nos adestrar na civilização – de civis, o termo latino para o grego pólis, donde que as palavras cidadania, política, polícia e formigueiro têm algo a ver umas com as outras.

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Sou amigo do Platão dessa empresa!

“Eu”: a ilusão de uma singularidade absoluta

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A questão ou conjunto de questões que nos leva ao misticismo, à religião, à feira hippie, ao veganismo, ao liberalismo e ao psiquiatra (a ordem dos fatores não altera o autoflagelo) não é a constatação assombrada de cada um de nós existir – nesse exato instante, irrepetível na história do universo -, saber que vai morrer, saber que possui ou é um Eu totalmente próprio, mas sim:
 
Por que eu sou esse eu aqui?
 
Centrado aqui, surgido de repente do nada e tendo a sensação de que sou um eu diferente do eu dos outros (pois só este eu sou eu)?
 
Por que aqui, nesse tempo? Por que não sou outra pessoa?
 
Alguém outro que vivesse tudo que eu vivi e reagisse da mesma forma que fiz: seria eu?
 
Fosse outro o espermatozóide… fosse outro o pai, apesar de ninguém saber – eu seria ainda esse eu aqui?
 
Tivesse vivido e feito outras coisas: eu não continuaria me identificando como eu, ainda que minha pessoa fosse melhor em umas, pior em outras coisas, poucas ou muitas?
 
Mas é óbvio que isso parece a nós um evento extraordinário no mundo – donde, aliás, deus “necessariamente” ter de existir; pois, se há alguma coisa que dá a deus uma razão de ser, essa coisa sou eu, além do fato de meu eu ter surgido do nada pra cá e nesse tempo. O que não pode jamais ser algo infundado, mas tem um propósito, ainda que eu seja um babaca.
 
(Deus me dá uma mãozinha e eu garanto sua existência. Descartes já havia cantado essa pedra e MC Escher desenhou depois.)
 
Fechando o parêntese, o fato é que colocamos tais questões partindo de nós mesmos, isto é, de tudo aquilo que constitui nossa subjetividade; portanto, de nossa memória, de nossos afetos etc.
 
É preciso ter cuidado ao cutucar, com perguntas assombradas, o próprio afeto (se bem que cuidado nenhum preenche a falta de juízo), essa força biológica e culturalmente determinada (especialmente pela emergência da individualidade na era moderna) e que é um verdadeiro barco de Caronte esperando para nos levar pro fundo da consciência natural, rústica, infantil, irracional, sentimental e apaixonada da bolha mitológica, com a devida “tempestade e ímpeto” que lhe cabe.
 
(Quando essa merda vira massa de manobra na política, a tendência é afundar toda a população na barbárie com orgulho. Fé em deus! Deixa a vida me levar, etc. Jamais antes de 1848 e das guerras do século XX poderia haver algo como o existencialismo, a filosofia do egoísmo e do abandono.)
 
Daí a aparência de que há um eu por baixo de minha pessoa e minha história, a servir-lhes de fundamento e fornecendo a elas a certeza de haver aí a minha “essência” – cuja existência transcende a banalidade da vida gratuita e trivial que vivemos (“transcendência” que qualquer sorvete de chocolate faz melhor) e possui uma natureza metafísica, cósmica, “à imagem e semelhança” do Absoluto e todo tipo de fantasias mais que a cabeça filosofante é capaz de elucubrar, por sobre o próprio umbigo e acerca da exuberância de seus “mistérios”.
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Dialética: motor das “etapas da história” no marxismo vulgar

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O capitalismo é o último e mais avançado tipo de sociabilidade reproduzida por homens que “o fazem, mas não o sabem”, donde a aparência de uma forma social que emergiu naturalmente, tal como as anteriores, semeando nas imaginações adubadas com esterco religioso a idéia de um mecanismo ou um deus que dirige a história do alto de sua dimensão etérea e atemporal.

O marxismo vulgar reproduz tal idéia com um esquematismo que chama de “dialética”, sobre o qual elabora o chamado “etapismo”, decreto que certifica a chegada do comunismo (“próxima etapa da história”) como um evento tão absolutamente certo e necessário quanto o retorno do cara que fazia vinho com a água da cumbuca.

Imaginam os etapistas que o comunismo, a economia finalmente tornada atividade social e racional, virá pela mesma atividade de homens que “o fazem, mas não o sabem” que instaurou a degradação universal de nossos dias.

É “dialético”: do lodo nasce o lótus, e da ignorância de tais sub-marxistas nascerá o “novo homem”, tão novo quanto um australopiteco, verdadeira possibilidade de realização natural de um pós-capitalismo.

Daí que o diálogo com estes praticistas é tão producente quanto o que se pode ter com crentes, coxinhas etc. A Bíblia, Ovalo de Carlhavo e Stálin pensam por eles; o que lhes cabe é fazer panfletagem de santinho em meio ao populacho inocente.

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Marxismo para os Homers Simpson

Nada mais natural que um pobre de direita

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Parece uma contradição. Mas não é. É natural que os “pobres” gravitem ao redor do pensamento de direita. Claro que isso vale igualmente para a “classe média” (e o que dizer dos “ricos”?). E não há nada mais sobrenatural (sim, esse é um bom termo) que pobres, classe-médias e principalmente ricos de esquerda.

Antes que pensem que sou um naturalista maluco, quero dizer que não me refiro à nenhuma naturalidade biológica, mas sim à vida humana que se vive de maneira espontânea no dia-a-dia da atual forma social moderna.

É interessante notar que a galera “politizada” fica estupefata em constatar que o povão vota na direita e sustenta bandeiras as mais toscas e brutais, até mesmo contra seus próprios interesses – supondo que os indivíduos tenham alguma noção mínima de quais sejam estes, ou melhor, que não façam a velha confusão entre seus mais baixos e imediatos instintos burgueses e a consciência de si mesmos enquanto indivíduos sociais, o que demanda uma boa dose de reflexão.

Ser de direita é algo natural para quem nasce e vive trivialmente na sociedade capitalista; ora, não se pode esperar que o pensamento não acompanhe a forma de vida do indivíduo, e a forma de vida no capitalismo é aquela que coloca todos em concorrência e isolamento uns contra os outros. Vida selvagem, pensamento idem.

pobre de direita é um vagabundo

É preciso ter alguma sensibilidade (inata ou provocada, não vem ao caso) pra notar que essa forma de vida não é, digamos assim, tão orgânica quanto a naturalidade haveria de ser, e que poderia ser bem diferente e melhor, para então poder se lançar a um verdadeiro processo de educação dos sentidos e do pensamento, e iniciar e superação da naturalidade social posta para cada indivíduo desde seu nascimento (cf. este discurso do índio Zé Elétrico, em Árido Movie), de modo a desenvolver a crítica e, por fim, se tornar de esquerda.

Tudo se educa em nós, mas educar-se é uma questão que passa por uma necessidade que o indivíduo pode sofrer ou não. Além disso, este processo pode ser mais ou menos lento, doloroso e sempre contraditório, uma vez que a individualidade deixa de corresponder (ainda que tal correspondência seja brutal) à sociabilidade vigente, o que pode não ser muito confortável. E a vida na selva de pedra já é dura demais para ainda suportá-la sem as flores das ilusões e do autoengano, que encobrem e enfeitam os grilhões! O indivíduo pode facilmente preferir embotar a sensibilidade e sabotar o pensamento, gozar e acreditar no próprio cinismo e se dar por satisfeito, ou melhor, por adaptado e convencido de sua escolha.

Daí que não há nada de estranho no pobre que é de direita. Extraordinário seria o contrário.

Aliás, nem é estranho que, ainda que assuma uma posição crítica consciente, muitas vezes o indivíduo vacile e pense ou aja de forma machista, autoritária, possessiva, egoísta, fazendo piadinhas “politicamente incorretas” contra os mais fracos etc. Pois é preciso lutar contra o fascista que mora dentro, nascido na naturalidade social burguesa, e matá-lo no paredão da autocrítica: vencer-se a si mesmo cotidianamente, dado que a sociabilidade cotidiana é determinante da individualidade, de um modo ou de outro.

Isso é só o começo da longa e tortuosa trilha rumo à superação da atual forma de vida, trilha que só pode ser escalada em meio às mais complexas interações com outras individualidades dispostas à luta e a maioria contrária a ela. Pois o próprio indivíduo é, em si mesmo, um complexo, universal e contraditório nódulo na imensa rede humana tecida social e historicamente, em meio a toda sorte de outras tantas contradições que perfazem na vida prática a essência e existência humanas.

Superar as velhas contradições e alcançar o patamar de uma nova humanidade, tanto mais autônoma quanto mais se desgarra da heteronomia natural, e abrir os horizontes de uma vida autêntica: a mais radical, profunda, desejável e razoável tarefa humana. Eis aí a razão de ser da esquerda – mudar o mundo que criamos e recriamos o tempo todo e em sociedade.

Não se trata de esperar que os que virão façam isso, quando nós mesmos estamos vivos aqui e agora. Essa é a tarefa histórica que dá propósito e sentido para a vida. E o que poderia ser mais radical do que estar vivo?

“Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por natureza, desenvolverá sua verdadeira natureza no seio da sociedade humana” – Marx.

 

capitalista pobre