O comunismo hobbesiano da direita

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Na cabeça da direita subplatônica (i.é., cristã), que sonha com o capitalismo “ideal”, “verdadeiro”, “condizente com o conceito”, o comunismo é a repetição do absolutismo.
 
Ainda que, veritácia est mui buena, o comunismo se identifique, ao contrário, com a superação da política e, portanto, almeje o desmonte de sua carne estatal (nessas horas até calha chamar Freud de cientista, apesar de que, quanto ao resto, sua maestria da suspeita não atende às exigências burguesas do filósofo da ciência falsificada).
 
Detalhe: que isso demande uma atuação por meio do próprio Estado – pois o Estado detém suficiente poder material pra se colocar acima dos indivíduos burgueses (e o faz no interesse da classe burguesa), e não ficará desocupado e encostado num canto enquanto os trabalhadores se organizam para se apropriarem dos meios de seu trabalho (vulgo “propriedade privada”, apropriação do trabalho alheio pelos que não trabalham) -, é coisa que passa longe da atenção de anticomunistas, pois exige mais de um ou dois neurônios e estropia qualquer liberal candidato a ideólogo.
 
Ao somarem tais esforços intelectualistas à fantasia de uma completa desvinculação entre propriedade privada e Estado, a nanoburguesia (*) pavimenta a auto-estrada da sua crítica ao comunismo – usando o piche elaborado com os restos de chicletes que o “empreendedor” do carrinho de balas vende na rua do prostíbulo acadêmico de Economia.
 
Também convém esquecer que a História é feita por indivíduos vivos, de carne e osso – assim como nós -, e a partir disso, vender a crença inocente naquela metafísica que proclama haver uma tal mecânica teleológica das “idéias que movem o mundo”: daí que, se as idéias não fazem ou fizeram a realidade concreta emergir em sempre renovada materialidade, é porque são falsas; verbos que não abastecem açougues.
 
Pois é das trevas que deus fez a luz, natura ex nihilo. A “verdade” brota vaidosa da ignorância, métrica da racionalidade do discurso azulinho da pobre apologia à libertinagem do lucro sobre todas as coisas.
 
Ou seja, e fechando o volteio: danem-se os fatos. Hobbes foi um proto-marxista e ponto final.
 
Aliás, Luís XIV foi o Stálin original e, assim, Stálin foi uma cópia meio mais ou menos do “Estado em um só indivíduo”.
 
De modo que a França foi a URSS em perfeito estado de pureza primígena (não, não estão falando da Comuna de Paris); e se for ver bem, ainda é um bocado comunista. Mas é melhor fingir que Cuba ou a Venezuela é que são os modelos exemplares do “sistema” vermelho.
 
A propósito, o vermelho da bandeira comunista de fato se refere à fraternidade da bandeira francesa. Porém, é mais conveniente dizer que se refere ao sangue que foi e ainda promete ser derramado pela violência estatal.
 
Agora dá pra entender como os neoliberais terminam afirmando que há uma conspiração mundial, cujo processo se encontra, com toda “evidência”, em vias de estabelecer o apocalipse comunista no vale de lágrimas – e tudo isso por meio de uma aliança com a grande burguesia (donde o PT ser exemplar)! Basta juntar as peças: rei burguês, Estado francês, Stálin, benevolência vermelha, sangue – e outras que não citei aqui, mas têm tudo a ver, como Kátia Abreu, Satã, papa bonzinho e, pra não me alongar mais, a supra-seiva das motivações direitistas: o franco desprezo que os burgueses têm por assentos sanitários que falam – e, pior, falam em seu nome.
 
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todo mundo é socialista quando vc é de extrema direita
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Um comentário sobre “O comunismo hobbesiano da direita

  1. Uma experiência minha com anarco-capitalistas:

    Eu entrei em um grupo de economia no Telegram e só via as pessoas discutirem BITCOIN. Diziam “revolução do Bitcoin”, “fim do Estado”, coisas assim. Apontei que essa titica só serve pra especular, aí um cara com nome e sobrenome de economista disse que NÃO, que as pessoas usam na SILK ROAD pra comprar droga na dEeP wEb. Eu lembrei ao sujeito que a Silk Road foi fechada pelo FBI (ele parecia não saber…), e perguntei se era só esse o mercado a Bitcoin. Pois se era, tinha acabado há alguns anos.

    Depois de tentar argumentar que fatores externos não interferem na economia, que ninguém podia prever, que isso não conta, ele inverteu a lógica e disse que, como eu sei que as pessoas continuam comprando drogas, o mercado da Bitcoin estava apenas DISTRIBUÍDO, e que essa é a principal vantagem, pois não tem como exterminar. Eu falei que as pessoas não necessariamente precisariam comprar drogas com a droga do bitcoin, poderiam usar outro esquema. Não tive mais resposta, daí saí do grupo.

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