Lula vs. PSOL: a política tal como ela é

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A crítica de Lula ao PSOL (em entrevista a José Trajano, jul. 2017), ao contrário do que se resmunga nas redes sociais, não diz mais de um que do outro. Diz muito sobre ambos, e diz coisa ainda mais importante que os dois.

A fala de Lula possui uma qualidade que, ao invés de ser desprezada, devia servir de lição à esquerda; pois ela provém de um senso de realidade absolutamente condizente com a política – tal como ela é.

Por isso mesmo, aliás, é um discurso que exala cinismo e fanfarronice do começo ao fim.

E por não alcançar sequer o mais ingênuo dos realismos é que o PSOL se contenta em defender suas boas intenções e contra-atacar Lula e o PT no campo da moral.

Não que haja qualquer exagero, leviandade ou mentira no elenco dos fatos com que o PSOL demonstra o apodrecimento completo e irreversível do PT e de seu carismático guru do pau oco. Aliás, o PSOL faz muito bem em expô-lo.

O problema é que, por acreditar na mais cândida das ilusões – a “política possível nos marcos da ética”, a ética na política -, o PSOL não tem como ir além da denúncia moral, convenientemente recheada de autoproclamações de seus princípios “inabaláveis”.

Fica assim: “você é fresco” versus “você é degenerado”.

Lula reduz a política à realpolitik? Não, porque não se reduz uma coisa ao que ela de fato é. O que ele e o PT fizeram foi abandonar, há muitos anos atrás, a inocência das “teorias” políticas da “boa vontade”, nas quais muitos petistas e ex-petistas continuam se lambuzando como crianças até hoje. Pois as alternativas que se colocam para uma esquerda que não pretende acabar com a propriedade privada e o Estado, mas apenas administrar o comitê dos negócios do capital de uma forma mais “social” (o famoso perfume sobre a bosta), só podem ser estas: ou exercer o poder político assumindo toda a prostituição geral que lhe é intrínseca, ou não exercer poder nenhum para além da enganação de si mesmo e dos trabalhadores.

Donde ambos, Lula e PSOL, estarem tão certos quanto errados. O PSOL é o PT de fraldas, e o PT é a esquerda cujo politicismo atingiu as últimas e inevitáveis consequências. Ou seja, são a expressão de diferentes momentos de uma mesma esquerda, exatamente aquela – que a burguesia gosta.

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o legítimo esquerda caviar
política de esquerda

Uma nota acerca da bandeira do “combate à corrupção”

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O combate à corrupção parece ser, aos olhos de muitos, a principal tarefa a se cumprir para transformar o Brasil em um país melhor.

Entretanto, essa pauta tem apenas um lado: o da “moralização” da arena política, ou seja, dos políticos; mas isso não é apenas uma disneylândica utopia, é uma escamoteação do verdadeiro problema desde a sua superfície.

Pois supõe que tudo se reduz ao ato imoral do político corrupto. De início, ignora ou despreza que trata-se de uma relação – e que nela temos também os corruptores, o que se perde na medida mesma em que o protagonismo preponderante é deles, para lançar o foco apenas nos corrompidos; donde só resta presumir que a questão é individual e moral. Daqui para a propositura de que tal problema só pode ser enfrentado por uma “política ética”, isto é, por “novos políticos”, é menos de um passo.

Ou seja: sob os parâmetros de um entendimento subjetivista e irrealista (e, portanto, moralista), sobra à prática se estreitar na miserável via da busca de uma “nova” política – tão quimérica quanto o que só pode brotar da ignorância quanto à raiz econômica da politicidade, e tão “nova” quanto pode ser a política que compartilha das mesmas vistas grossas que são feitas sobre os corruptores, vulgo “financiadores” e lobbistas.

Eis aqui, nas palavras de meu amigo Hugo Vargas, o que deve ser ponto central da agenda de uma esquerda que pretende fazer jus ao seu posicionamento, isto é, que não almeja simplesmente permanecer iludindo a si mesma e aos trabalhadores quanto à seu “empoderamento” no cassino burguês do poder de Estado:

– “A Vale acaba com um rio no sudeste. Comete um crime ambiental gravíssimo. Compra parlamentares. Foi comprada a preço de banana numa maracutaia da era FHC.

A Ambev paulatinamente monopoliza o mercado de bebidas nacional. Enfia milho transgênico na cerveja. Compra parlamentares. Sem mencionar dívidas com o fisco.

Itaú e Bradesco oligopolizam o mercado bancário. Compram parlamentares. Muito provavelmente cometem fraudes no sistema financeiro a serem reveladas talvez na Lava Jato.

Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez são entidades cuja podridão ninguém ousaria contestar. Compram sua bancada de representantes também.

JBS e BRF Alimentos são comprovadamente entidades nocivas que também oligopolizam o mercado dos frigoríficos e fazem o diabo no país.

A Oi também é fruto de maracutaia da era FHC. Sugou bilhões do fundo público.

Mas qual a pauta perante tudo isso? Eleger o Lula? Eleições diretas?
Urgente seria expropriar todos esses empreendimentos. Não há momento mais oportuno, mais evidente. Todos eles devem bilhões e cometeram crimes incontáveis. São aviltantes até mesmo para a normalidade de uma democracia burguesa.

Se o PT fosse de esquerda, ele e suas entidades já estariam pautando isso pra ontem. Por ora, a situação é tão grave que falar disso, que é apenas uma reforma pontual radicalizada, nos faz parecer algum cosplay de comunista caricato”.

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políticos escrachados e empresários idolatrados
Renato “Cinco” Athayde Silva, PSOL-RJ

Método dialético de formatação do pensamento marxista vulgar

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Outro dia eu li num grupo virtual de estudos uma declaração impecável sobre a formação teórica dos stalinistas (tanto os assumidos quanto os que se escondem sob o termo “marxistas-leninistas”).

Em resposta às acusações feitas contra a realpolitik dialética por seu rebaixamento intelectual e seu desprezo por Marx, um teórico do praticismo esquerdista formulou o seguinte:

<< “Vulgar isso”, “vulgar aquilo”, mas dificilmente alguém consegue explicar toda essa confusão. O esquema é ler Engels e Marx do mais básico, depois ler Lenin, Stálin, Trotsky, Mao e estudar as experiências dos países do chamado “socialismo real”, desde a economia até a luta de classes que rolou. É muita coisa, mas com um nível desse de briga de torcida o cara não tira nada proveitoso. >>

Primoroso!

(Pena que fumaram o livro verde do Khadafi e rabiscaram o manual didático do King-Kung coreano até ficar ilegível – o que, por outro lado, nada afetou sua inteligibilidade.)

Portanto, o “esquema” é ler “o básico” de Engels e Marx e depois partir pra suas sofisticações.

(E aí deve-se “estudar as experiências” dos países do chamado socialismo real, “desde” a economia “até” a luta de classes. Como se não fossem coisas totalmente imbricadas!)

Assim, para rechaçar a vulgaridade, aplica-se a sofistaria. Mas é aquele dito “básico de Engels e Marx” que nada mais e nada menos constitui o caroço racional da formatação do pensamento militante – para a atuação aguerrida nas bocas de urna do sindicato nacional dos engraxates. Senão, vejamos.

Quando diz haver um “básico de Engels e Marx”, nosso formador de “quadros” quadrados confessa já existir uma determinada seleção dos textos. O que é que circunscreve essa seleção?

Fosse um critério passível de se extrair dos próprios escritos, eles já teriam sido elaborados segundo ele.

Mas não é. O critério é exterior e indiferente ao que Engels e Marx se dedicaram a redigir, certamente não por diversão.

No que é possível de se dialogar com a turma do básico invulgar, não é difícil de se perceber que seleção de textos é essa: primeira e segunda partes do “Manifesto Comunista” (o resto é lorota), o rascunho sobre Feuerbach da “Ideologia Alemã” (sequer desconfiam que o livro tem mais 400 páginas), o posfácio à segunda edição de “O Capital” (que resume miraculosamente os 3 livros da obra) e um punhado de pequenos textos de Engels – especialmente aqueles em que o “segundo violino” se lança à carreira solo e se arrisca a tocar intervalos para substituir o insubstituível, fazendo harmônicos soarem como guinchos e arrebentando umas cordas: por exemplo, o ensaio do “macaco que vira homem” e os capítulos do “socialismo de laboratório” e da “metafísica dialética” retirados do “Anti-Duhring”.

Este é o básico. Mas nosso revolucionário intelectual nem pretende tanto; segundo ele, o “esquema” de leitura do ainda “mais básico” já é suficiente para se conhecer Marx e Engels. Quem quiser avançar para o marxismo hard level e “suprassumir” o estágio rústico dos autores básicos pode simplesmente despejar por cima de suas singelas noções as contribuições profundamente grosseiras de Stálin e congêneres.

Eis aí como se faz o Frankenstein “marxista-leninista”. Nada de ler o que realmente importa, bastam as sinopses e o que é redigido depois para servir a elas como notas de pé de página.

É o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, versão sub-proletária.

Ou antes, é o tradicionalíssimo marxismo mimeografista das agremiações estudantis de creches municipais. Além de servir pra deixar a esquerda ainda mais burra, faz com que os trabalhadores acreditem que as “críticas” da direita a ele são “refutações demolidoras” contra Marx.


PS.: Alguém pode me acusar de estar batendo num espantalho, ao criticar o discurso de uma caricatura. Ora, as caricaturas ideais acentuam os traços de um pensamento tanto quanto acontece no caso dos desenhos: os aspectos positivos e negativos se ressaltam, e sua difusão no senso comum é maior. Não é por outra razão que Marx combate Stirner, Proudhon, Bastiat etc. Ainda assim, quem quiser conferir uma análise do pensamento do próprio Stálin, eis o link: Stalinismo: idealismo e praticismo.

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marx_simpson
marxismo simpsoniano

Uma nota sobre o misticismo da noção de “ideologia” no marxismo vulgar

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Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim“.

Marx: Prefácio de 59 (grifos meus)
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Por que “o pobre” vota na direita?
 
Por que os trabalhadores não se revoltam contra sua própria condição de dominados?
 
O que faz com que “não percebam” a desigualdade social como injustiça?
 
Essas e outras questões afins são respondidas pelo marxismo vulgar a partir do “conceito de ideologia de Marx”, que explicaria a dominação e hegemonia da classe burguesa.
 
Trata-se de uma tese ela mesma tão dominante e hegemônica no marxismo quanto simplória e idealista:
 
A Ideologia[*] (não é nem uma ideologia, é a maiúscula mesmo) torna os trabalhadores dóceis e escamoteia a exploração ao naturalizar as relações sociais.
 
Mas o mistério começa quando perguntamos: como é que ela “cola” na cabeça deles?
 
(A título de provocação: antes do capitalismo havia também uma “ideologia feudal” que mascarava a servidão dos trabalhadores na corvéia, de modo a impedir que eles não se rebelassem contra ela?)
 
Pois a tese da dominação por meio da “ideologia” – de lavra neo-hegeliana e combatida por Marx em “A Ideologia Alemã” (um dos livros mais ignorados entre os marxistas em geral) – não tem uma palavra sequer a dizer quanto à chantagem do assalariamento, ou melhor, à separação de trabalhadores e meios de produção. Por isso mesmo é que ela possui esse aura místico e nas brumas deste se mantém.
 
E o pior é ver isso sendo vendido como marxista – quando o marxismo busca, ao contrário, compreender as produções ideais a partir das relações sociais de produção, donde jamais admitir a idéia de uma fantasmagoria flanando sobre os indivíduos e determinando suas ações de forma descolada de suas vidas materiais ou decalcada em seus cérebros.
 
Ao mandar o materialismo às favas, o marxismo vulgar não perde apenas a total capacidade de compreensão do que sejam as ideologias, mas também a possibilidade de simplesmente identificá-las enquanto ideologias. Daí pra frente, tudo se torna gato pardo na noite escura: a práxis se torna praticismo mecânico e realpolitik oportunista, e o próprio marxismo vira um Frankenstein teorético qualquer.
 
Exemplos não faltam, né?
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* A propósito da tradicional idéia de uma “ideologia dominante” na sociedade capitalista, a “ideologia burguesa”:

Não existe “a ideologia burguesa”, e sim várias ideologias burguesas. Qual delas é a dominante?

Ao meu ver, é difícil dizê-lo. Principalmente porque o “senso comum” está impregnado de muitas ideologias (inclusive não-burguesas), porém nenhuma delas está presente nele por inteiro, senão em pedaços. Poucas pessoas procuram estudar as ideologias e conhecê-las integralmente.

De modo que talvez pudéssemos dizer que o dominante no senso comum são retalhos ideais de procedência burguesa, mas isso não significa que sejam partes de uma mesma ideologia. Por exemplo, encontramos nele um bocado de idéias realistas, mas pragmáticas (derivadas das relações práticas mais imediatas, empíricas, da sociabilidade mercantil), ao lado dos idealismos mais místicos; ou então, idéias que fazem apologia direta do mundo atual ao lado das que fazem outra forma dessa apologia, por via “crítica”, negando o paraíso da primeira forma ao mesmo tempo que toda via de superar tal mundo; cientificismos e subjetivismos; positivismos e pós-modernismos; flower-power e punk; ateísmo e agnosticismo; Keynes e Mises; etc. 

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PS. Marx não fala em lugar algum que “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”, mas sim que

As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão submetidas em média as idéias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As idéias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, ou seja, as idéias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante também têm, entre outras coisas, consciência e, portanto, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda a sua extensão, e consequentemente, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, e regulam a produção e a distribuição de idéias do seu tempo; donde as suas idéias são as idéias dominantes da época“.

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[Confira este outro texto, em que relaciono ideologia, alienação e fetichismo: Alienação: fenômeno objetivo social, e também este aqui, a respeito da relação consciência – vida cotidiana: Nada mais natural que um pobre de direita]
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O fascismo colore o Brasil: a esquerda “classe média” pira!

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“Tenho 5000 amigos nesta rede. A maior parte, de esquerda. Desses, a maioria parece estar vivenciando algum tipo de luto. Uns ficam choramingando pelos cantos, decantando a falta de esperança, pranteando os tempos idos. Outros deliram, sem peias. Passam os dias e noites a conversar com um coxinha imaginário. Riem do coxinha imaginário, apontam o dedo pro coxinha imaginário, berram: “BATERAM PANELAS? AGORA AGUENTA!”. Os verdadeiros coxinhas, quando não foram eliminados da timeline dessas pessoas em algum momento entre 2013 e o ano passado, estão plácidos, contentes, a compartilhar fotos de gatos, cachorro, comida. Eles não ligam. Isso me assusta, pois é um sintoma, eu reconheço sintomas.
 
Esse post gigante e algo confessional é para dizer que aquela sombra [da depressão], minha velha conhecida, está rondando muitos de vocês. Vocês precisam se cuidar. Ou vocês dão o seu jeito de irem lixando, pouco a pouco, as diversas camadas de cinza, ou deveriam procurar tratamento adequado. Saiam dessa espiral de lágrimas, luto, negação, está começando a ficar preocupante. Luto não era verbo? Pois então”.
 

 Pedro Munhoz 

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Eis aí uma observação arguta do Pedro Munhoz, à qual eu gostaria de acrescentar um rabisco.

A respeito do “avanço e proliferação do fascismo no Brasil”, que draga as energias psíquicas de tantos esquerdistas por aí, eu havia dito, em março (cá e lá no facebook), algo que vale a pena redizer:

Essa tese de um “crescimento do fascismo no país” é: empirista, impressionista, falsa, derivada da coleta de casos em jornais e “fundamentada” no marketing político do medo, no reginoduartismo difundido pelo PT em apuros e por suas rêmoras (p.ex., Guilherme Boulos e sua “crescente onda conservadora no Brasil”).

É preciso lembrar que o fascismo é pequeno-burguês, e isso é normalíssimo. E que a “classe média” não apita. Late mas não abocanha.

O que a manadinha fascista queria era a queda do PT. Já bastava a ela. Depois que o PT caiu, ela continuou a fazer seus atos? Bateu em comunistas na rua, quando ficou claro que os problemas do país não eram o PT no poder e a esquerda em geral? 

Não. Depois que o PT caiu, os fascistas vestiram o pijama. Pra eles era isso que estava em questão, algo totalmente independente dos problemas econômicos e políticos e seus desdobramentos, pois em suas fantasias o único problema era vencer o que não passa de um mito: “o partido e a política comunista em ação no Brasil”. E eis que estão dispensados de ter qualquer clareza sobre qualquer coisa.

O fascismo, portanto, não cresceu e nem se expandiu: esteve aí desde sempre, ainda que deitado eternamente em berço esplêndido, amando a Pátria em seus sonhos, mas eclodindo quando chamado pelo MBL a salvar da morte vermelha o lábaro da liberdade.

Engraçado é reconhecer que, quanto à determinação social do fascismo, a Marilena Chaui não estava de todo errada. A pequena burguesia (que ela chama de “classe média”, com a precisão de um hipopótamo) sempre foi fascista. Se agora “o gigante acordou”, se de repente o fascismo resolve dar as caras e mostra sua cabeça monstruosa, daqui a pouco ele dorme de novo.

Nada disso seria qualquer problema se a maior parte da esquerda brasileira não insistisse em dormir ao seu lado. 

O sono da esquerda produz monstros.

Quanto a isso, recentemente eu falei da “classe média autocrítica” – ou crítica de uma “outra” classe média -, que constitui um bom bocado do eleitorado e da militância das esquerdas light, essas que querem conquistar a pequena-burguesia para um socialismo de reformas do capitalismo, feitas através da política (p.ex., o próprio PT, seu pet amestrado PCdoB e seu filho adolescente rebelde PSOL).

Centram foco na disputa pela “classe média”, da qual falam tanto quanto o pastor fala do diabo, num bizarro exercício de narcisismo.

Deixam de disputar os trabalhadores porque são socialistas cuja perspectiva social é pequeno-burguesa, donde se vêem engalfinhados em um vórtice de obscurantismo teórico e prático que os lança em perdição e ceticismo e depois os cospe na direção da religião, do cinismo e do liberalismo.

Pois que tratem de se livrar dessa idéia fixa peçonhenta em atacar a pequena-burguesia que colore seus pesadelos, e mirem esforços para a organização dos trabalhadores, a única classe que pode ter interesses em mudar a sociedade.

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Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar, ou: a esquerda deve se unir?

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Muita gente de boa-fé acha incompreensível, ilógica e até mesmo imoral a permanente desunião da esquerda. Fica indignada e põe na conta da esquerda a culpa pelo fato do Estado burguês estar sempre nas mãos da burguesia (o que indica que esperam alguma mudança na condução dos descaminhos da “res publica” por meio da política, para além da mera troca de seus vampiros).

Acontece que “a esquerda”, pra começar pelo óbvio, é um balaio enorme dos mais diversos grupos, entendimentos e interesses.

Além disso, mesmo que um interesse (supostamente) comum una todos eles – a superação da sociabilidade estranhada do capital -, tais grupos estão sujeitos a todo tipo de pressões, vindas não apenas do lado dos trabalhadores (aqueles que a esquerda representa ou deveria representar, e que ainda assim estão igualmente dispersos numa variedade de interesses ou sub-interesses por vezes contraditórios e noções confusas), mas também da pequena burguesia e da burguesia, interessadas em cooptá-los e/ou desqualificá-los, quando não esmagá-los.

Daí que muitos na esquerda enxergam na adesão aos aparatos, à burocracia, aos joguetes políticos, ao financiamento pela burguesia, etc e etc. uma possibilidade de atingir aquilo que seria o objetivo principal, enquanto outros percebem que a cooptação é o caminho do empoderamento na completa perdição.

Frente a tudo isso, “a esquerda” talvez não tenha como se unir mesmo. E, aliás, talvez nem deva. Exceto, as circunstâncias hão de saber, num contexto revolucionário, de ampla crise da sociabilidade – quando a ilusão da “política de esquerda” institucional, do “poder político popular”, se desfaça junto do próprio jogo político.

Ainda assim, muitos irão se agarrar aos destroços e servir à contra-revolução, possivelmente a maioria dos que se apresentam hoje como “de esquerda”. Mas não é preciso esperar uma situação dessas para ver as máscaras caírem. Muitas destas já são frouxas o suficiente para mostrar a todos quem é quem.

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar…

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nem direita nem esquerda
pra frente, Brazew!

Uma nota acerca do MEDO ESQUERDISTA da revolução

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manifesto comunista - star wars

Certas ditas esquerdas têm pavor da revolução.

A maioria delas não apenas expurgou a revolução de seus horizontes – donde o uso que fazem do termo “socialismo” (comunismo??? nem pensar) não remeter a nada mais que a velha socialdemocracia e suas ilusões idiotas de reformar isso e aquilo -, mas nega peremptoriamente qualquer possibilidade de haver uma e, acima disso, rejeita e execra qualquer circunstância que possa descambar em algo do tipo.

No teorismo sub-vulgar dessas esquerdas – em que coabitam os retalhos ideológicos mais inconsistentes o possível de serem concebidos (em separado, donde só mesmo seus geniais ideólogos podem costurá-los) -, há a concepção fundamentalíssima de um “etapismo” utópico que seria necessário para a revolução, sem o qual qualquer agitação das massas só pode ser desqualificada como uma espécie de “invasão bárbara” das ruas por hordas de usuários de pijamas.

Para que pudesse haver uma “autêntica” revolução, pensam os esquerdistas do Reino dos Céus, é necessário antes haver “consciência de classe”, e essa “consciência de classe” é uma “consciência política”; para haver essa “consciência política”, é preciso haver politização e educação, quer dizer, “educação crítica”; e essas coisas, politização e “educação crítica”, só podem ser desenvolvidas numa democracia.

a system error

Mas se a democracia atual não permite ou favorece nem uma coisa nem outra – ao contrário, tudo indica que nela temos a atrofia de ambas -, então é preciso “fortalecer” e, é claro, “aperfeiçoar” a democracia, antes de tudo.

Ficam, assim, nessa etapa inicial para sempre. Chamam essa vergonhosa realpolitik de “realismo”. Deixam a revolução para o eterno futuro, ou seja, tornam o que era um meio para se chegar a ela o seu fim último.

Entretanto, se as ruas insistem em negar que a revolução seja uma utopia e são tomadas por multidões perdidas em ignorância e desespero, tais esquerdas se lançam à tarefa suicida de menosprezá-las, reprová-las e contê-las, considerando-as como massa acéfala de manobra dos dominantes ou firmes batalhões de uma contra-revolução sem revolução.

organizar a revolução

Algumas dessas esquerdas, a minoria, percebem que não podem evitar considerar, por força das circunstâncias, haver a possibilidade da revolução; mas é necessário que a revolução seja a que trazem pronta em seus programas. Tais “esquerdas revolucionárias” começam e terminam por pensar que a revolução é sempre uma revolução planejada – tem data pra iniciar e acabar e traz de antemão, carimbado na testa dos indivíduos, o selo da “consciência de classe” (desenvolvida por meio da panfletagem do partido revolucionário na porta das manufaturas): pois uma revolução só pode ser, a priori, uma revolução “de esquerda”.

Jamais põem em conta que não é nenhuma “democracia crítica” ou atividade microlocalizada de marketing ideológico que “politiza” ou educa as massas na “consciência de classe”, mas sim a revolução mesma que permite fazê-los com alguma efetividade, ao longo de um doloroso, contraditório, sem datas e absolutamente incerto percurso – em que as esquerdas deveriam disputar as consciências, e não jogá-las imediatamente no lixo da política.

É assim que, antes mesmo de buscar de alguma vitória, entram na luta já derrotadas.

A História passará o rodo nelas. Façamos a História! Pois a revolução a princípio é sempre impossível, até o momento em que se torna inevitável, seja lá qual for o caminho que irá seguir – algo que depende totalmente das forças que a disputarão, donde ser absolutamente imprescindível uma esquerda disposta a agarrar o touro pelos cornos.

sobre a viatura da polícia