Radicalidade: moral e inteligência verdadeiramente humanas

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Porque tantas críticas à esquerda? Será que eu sou lateral-esquerdo do time da direita?

Não.

Fazer crítica à direita é o feijão com arroz, na medida que ela mesma já se autodesqualifica, ainda que a crítica seja necessária quando o óbvio precisa ser mostrado nas fuças dos inocentes (o que tem sido o caso há muito tempo, como viu Brecht).

A crítica à esquerda, na medida que ela pretende ser a representação política da luta pela emancipação dos trabalhadores, mas não faz jus a tal pretensão, deve ser implacável, de rigor e radical – por uma questão de honestidade teórica e prática para com os fins pretendidos; tão implacável, de rigor e radical quanto a crítica ao modo de vida burguês.

Radicalismo não é sectarismo ou dogmatismo, e sim a posição mais coerente e consequente com a verdade da necessidade de vida humana autêntica

Ser radical é ir à raiz das questões. Quem não é, bóia na superfície – e nada é mais conveniente, não só porque é fácil, mas porque as aparências enganam.

Assim como o reconhecimento dos princípios morais não faz necessariamente alguém ser um moralista, afirmar a existência de verdades nem sempre faz de alguém um partidário do dogmatismo.

Aliás, se “dogma” significa “verdade inquestionável”, o reconhecimento da validade de alguns “dogmas” – você pode abstrair estas aspas sem nenhum problema – é simplesmente um dever trivial (intelectual e moral, teórico e prático) de quem possui córtex cerebral.

Por exemplo, contestar algo como a verdade da afirmação “verdades existem” não faz de um sujeito o campeão da crítica, mas sim da pura e sórdida burrice.

Ater-se a princípios morais ou dogmas, na crença de que basta “desdobrá-los” e/ou “aplicá-los” nos fatos concretos para compreendê-los, eis o que produz moralismo e dogmatismo; eis aí a mistificação (do que era razoável) que merece ser alvo da crítica.

Todo crítico é um relativista, mas nem todo relativista é um crítico. A diferença entre eles é que o crítico só é capaz de fazer a crítica porque parte do reconhecimento de um critério, e faz a relação das coisas com ele; já o relativista é aquele que faz “crítica” do critério e, por isso, relativiza tudo, de modo a cair no relativismo absoluto – donde este relativista se mostrar um absolutista, exatamente o que ele imaginava se opor.

Um cético só se faz importante para o saber e para a ação na medida que reconhece verdades das quais ele parte; ceticismo absoluto é dogmatismo.

A propósito: nem todo “ismo” é abstrato, nem toda crítica é concreta. A crítica aos “ismos em geral” é, ela mesma, um… criticismo.

Nem tudo que é simples possui a virtude da clareza; por vezes, possui apenas a pobreza da simploriedade.

Pois a realidade é complexa; mas nem todo pensamento complexo é verdadeiro. Por vezes a dificuldade da idéia reside tão somente em sua falta de conteúdo e de racionalidade.

Tergiversação, rodeios e fanfarronice são formas da falsidade, ou melhor, de travestir esta com a aparência da erudição, a ostentação do acúmulo de “capital cultural”, reles manipulação mercantil de vocábulos e cultivo academicista de erva daninha nos vasos da auto-ilusão.

Donde a honestidade intelectual ser revolucionária. À esquerda jamais caberia edulcorar o discurso para este se tornar palatável, via simploriedade e eufemismos. Mas, enquanto seus fins são políticos e a política não lhe servir apenas enquanto um meio, toda crítica a ela deve ser feita e ainda será pouca. 

A História não absolverá os covardes.

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revolucao

 

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Epistemologia: glacê crítico para decorar ideologias burguesas

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Epistemologia é a área da Filosofia que mais produz asneiras sob a crença de estar pensando de maneira “crítica”.

É o playground predileto dos filósofos da burguesia, de Descartes a Popper et caterva.

Quanto mais absurda e mais enrolada em pseudoproblemas – tais como “de que modo o cérebro, que é uma coisa material, se relaciona com a mente, que é imaterial?”, donde o ceticismo, o relativismo, a negação da razão, a afirmação da Vontade do Führer, a defesa do liberalismo etc. -, mais “crítica” ela se pretende.

Algumas declarações típicas surgiram num debate, e como elas estão adentrando o senso comum, achei que valia a pena rabiscar uns comentários:

– “[É falso] acreditar que o papel da ciência é buscar uma essência ocultada pelas aparências que, se descoberta, proporcionaria um conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”.

Sim, a ciência busca descobrir a essência ou lógica do objeto por sob sua aparência; mas não tem nada a ver com adquirir um “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade” (de fato, um papo estranho). A pessoa que afirma ser a concepção de ~ciência como descoberta~ um “totalitarismo epistemológico” acusa um espantalho; pois pensa que o objeto (seja qual for) a ser descoberto é inerte, donde poderíamos desvelar suas camadas até chegar à sua essência íntima e estável e, então, ter um saber absoluto acerca dele. Ora, isso o “crítico” só pode pensar estacionado à frente da carroça de Parmênides, dizendo amém ao infantilismo ontológico da metafísica. Pois nada que existe está estagnado: tudo está em processo, e quando conhecemos algo da coisa, ela já está adquirindo novas determinações. Ontologicamente, não há como ter “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”. Isso é conversa de sacerdote que imagina possuir o whatsapp de Deus.

– “Há um caráter falseável de toda teoria que almeja a descrição da realidade. Não existe “conhecimento verdadeiro”. O que existe é conhecimento com maior capacidade de sobrevivência a críticas”.

Eis o que pensava Popper. Ele acreditava que teorias não poderiam ser verificadas de forma definitiva, mas acreditava que elas poderiam ser falsificadas assim. Enquanto não fossem falsificadas e fossem resistindo aos testes (e enquanto fossem úteis), ficavam no pódio (ou “paradigma”). O problema dessa conversa definitivista-ao-contrário é que os procedimentos que testam a teoria estão todos embasados em outras teorias, de modo que a falsificação de uma teoria é que pode ser falsa. Em suma, teorias não são verificáveis e nem falseáveis de forma definitiva. Aliás, quem é que está preocupado com isso?

O que mede o caráter “definitivo” do conhecimento não é nenhum laboratório de falsificacionismo, mas sim a necessidade humana e o quanto uma teoria a satisfaz. Por exemplo: a lógica dos agentes infecciosos conhecidos como “vírus” deixou de ser conhecida de modo “definitivo” tão logo o HIV se tornou um problema pandêmico e revelou à ciência que sua lógica era especificamente mais complexa que até então se sabia sobre os vírus. Mesmo assim, tal conhecimento satisfaz a necessidade de combater a maioria deles, e é ele que pode servir de base para decifrarmos a imensa variabilidade genética, o rápido ciclo de replicação e de mutação e demais propriedades específicas do HIV (sobre o qual já se sabe bastante coisa).

– “Todo contato que temos com a realidade já produz um objeto mental construído pelo nosso entendimento, portanto, não é correto afirmar que há uma primazia do objeto em relação ao sujeito”.

Kant regurgitado até virar alfafa sub-idealista. “Todo contato que temos com a realidade ~~produz~~ um objeto mental ~~construído~~ pelo nosso entendimento”. O objeto mental é produzido no contato que temos com a realidade ou ele é construído pelo nosso entendimento? Se é preciso haver contato com a realidade antes de imaginarmos o objeto, é óbvio que há uma primazia da realidade… e lá se vai a tentativa de dizer que a realidade é construída pelo sujeito (uma “crítica” que se desenvolve ainda no maternal).

– “Nossa mente constrói regularidades através de interpretações, não apenas é passiva de uma regularidade dada do objeto”.

Não é “apenas” passiva de uma regularidade dada pelo objeto, mas então reconhece que a regularidade é dada por ele; que, aliás, é o único critério existente pra avaliarmos as interpretações que a mente constrói.

– “A lógica das coisas não é algo dado na realidade, mas sim, construída por uma mente capaz de ‘logicalizar’ [sic] a realidade”.

Uma mente que fornece à realidade a sua lógica! Será que isso é filosofia, ou é religião? Estamos falando de cientistas ou de Deus? De fato, a lógica das coisas não está dada a nós, mas muito menos a construímos. Ela é extraída da realidade (das coisas reais) por meio da investigação, e então é decifrada e, por fim, descoberta. Como disse Marx, se a aparência das coisas correspondesse à sua essência [ou: se a lógica das coisas estivesse naturalmente exposta aos nossos olhos nus], a ciência não seria necessária. Se for pra brincar de “inventar lógicas”, é bem melhor fazer ficção científica que fazer da filosofia e da ciência uma palhaçada que abre alas para o irracionalismo e o anti-humanismo burgueses.

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mas consegue parir Schopenhauer, positivistas etc

O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

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A imagem que ilustra este texto é uma crítica, ou antes um sarcasmo, a um certo discurso pretensamente emancipador, mas abstrato, subjetivista e especulativo, que circula por aí em movimentos libertários, esquerdistas, identitários etc.

É o discurso do indivíduo isolado cujo umbigo pretende ser parâmetro do que é a realidade. Ou seja, não existe mais verdade objetiva e universal, relativizada e tornada dependente das “narrativas” dos sujeitos.

Porém, ao criticarmos esse discurso “do sujeito”, talvez devêssemos lembrar que há sujeitos oprimidos por trás dele. E também que o discurso de um sujeito, especialmente o de baixa auto-estima, é embrenhado de identificação e afeto (uma vez que certamente ele crê no valor de verdade ou validade do que diz – mesmo quando afirma que “a verdade não existe” etc -; donde, por meio dele, guiar sua prática), o que torna delicada a situação da crítica.

Há ainda que lembrar o estranho costume moderno de se pensar em “autoria” ou propriedade privada de idéias, graças ao qual os indivíduos tratam egocentricamente uma opinião como um filho sob sua posse absoluta, não importa quão “diferente” ou “própria”, quer dizer, torta e errada ela seja; uma corrente umbilical de dura ternura a liga ao baixo ventre do sujeito e a opinião se faz uma extensão discursiva e ao mesmo tempo sensível da pessoa.

De modo que facilmente se confundem nessas imaginações a mensagem e o mensageiro – confusão essa que, aliás, o próprio conteúdo desse discurso trata de afirmar.

Mas será mesmo que deveríamos, por conta de alguma perniciosa condescendência, deixar intocada a barafunda ideológica na cabeça desses sujeitos, cuidando de não ferir seus sentimentos afetuosos por suas bobagens?

Claro que não se trata de cair no mesmo subjetivismo e proceder com desprezo ao indivíduo. Antes disso, cabe reconhecer que cada situação e interlocutor demandam um modo de comunicação que cumpra o objetivo de clareza da mensagem, pois ela é o que importa.

E, então, é preciso mostrar que o pretenso instrumento ideológico relativista de luta dos oprimidos – contra o machismo, o racismo etc. se torna, ao contrário, um meio de reafirmação da opressão.

Pois quando o sujeito é tornado o fundamento da legitimidade e verdade do discurso, todo e qualquer discurso se torna automaticamente legitimado. Aliás, não há mais como se falar em legitimidade. Se cada cultura ou indivíduo é o lugar próprio da justificação e da verdade – e disso resulta uma discordância a mais natural de se esperar -, o que é que pode servir de critério para avaliar qual está certa e possui legitimidade ao reivindicar tal e tal direito?

Se não é possível que discursos contrários ou antagônicos coexistam (pois expressam interesses igualmente contrários ou antagônicos, ainda que o parlador não tenha noção disso e de seus próprios interesses), a questão só pode ser resolvida pela força ante, anti e não-discursiva. As lutas relativistas contra o “eurocentrismo” (eis aí um termo absurdo frente à diversidade cultural dos povos europeus!) dos opressores deságuam, pois, na mais completa afirmação da superioridade da “cultura européia”, do machismo, da heterossexualidade, da raça ariana etc., pois apenas a violência resta como medida de avaliação, quando tudo o mais se relativizou ao ponto subjetivista.

Eis que, mais que apenas em verbo, agora o oprimido acaba por ter de aceitar a “verdade” material do opressor, ainda que o faça manifestando certa desagradável sensação de impotência e de desilusão e resmungue pelos cantos a impressão de ter sido enganado em algum momento dessa história.

Sem uma crítica racional e objetiva não há avanços. E como o pior dos mundos possíveis sempre se torna real, por essa via abre-se todo um campo de oportunidades de cooptação e “desempoderamento” das lutas, justamente o inverso que esse discurso prometia oferecer.

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Heidegger versus Marx, ou: de como interpretacionar é cambalhotar as idéias

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É incrível como esta simples afirmação se mantém atual:

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo“.

Você não apenas está careca de saber que foi Marx quem a disse, mas sabe onde, quando, como, porque etc. Né? É. Mais ou menos. Ok.

Aí vem Heidegger e tenta dar rasteira no homem com um “entretanto”: tal enunciado dependeria, antes de tudo, de uma interpretação acerca da filosofia, do mundo etc. e, portanto, não teria legítima autoridade para dizer qual seria “a questão” diante de outras interpretações.

Enquanto Heidegger demonstra, por meio dessa crítica a Marx, que ele mesmo e sua crítica tampouco poderiam possuir legitimidade e autoridade para criticar seja o que for – pois mergulha no interpretacionismo como fundamento do discurso, na dissolução da objetividade num subjetivismo absoluto (“a realidade sou eu”, “ser é perceber” etc) -, Marx não está criticando o ato de se pensar, interpretar e criticar o mundo, mas a idéia de que basta fazer isso para que ele mude.

Ora, quem pensa uma coisa dessas? Não é essa a pergunta, e sim “quem não pensa dessa forma?”.

De fato, por todos os lados, não faltam “críticos da consciência” alheia. Fazem a crítica do que os outros pensam e acham que, se todos pensarem de forma “crítica”, o mundo muda e vira um paraíso.

Ainda assim, as novas idéias assistem o mundo continuar afundando e piorar. Então, o que fazem os interpretacionistas? “Repensam” o mundo, criam eufemismos, espalham aspas e hífens; e o mendigo passa a ter a dignidade de ser, agora, um “morador” de rua. Mude a cabeça, pense positivo, leia a Bíblia, repita “eu sou 100%” diante do espelho, interprete o mundo de maneira “diferente”. Talvez, e ao menos, a “sua” realidade muda. É só ver como acontece com a de quem avança no alzheimer.

Nota bene. A crítica de Marx é a denúncia de um pensamento que faz interpretações e críticas sem qualquer critério na realidade, mas apenas em si mesmo.

O próprio Heidegger jura ser necessário interpretar o mundo de uma forma qualquer – e isso diante de sua desgraça evidente – para dizer que é preciso transformá-lo.

Se Heidegger fosse judeu, poderia ter beneficiado a história do pensamento humano simplesmente por não poder ter pensado e dito nada do que pensou e disse; pois os judeus possuíam critérios para pensarem o mundo, algo do qual dependia a possibilidade de continuarem respirando e, portanto, não apenas era totalmente independente do que pensavam e interpretavam, mas ainda era o que lhes permitia distinguir o que seria uma interpretação razoável do mundo e o que era esse monte de sofismas que Heidegger chamava de “filosofia”.

Só que Heidegger não era judeu, e sim Heidegger, o filósofo que pensava para Hitler. Nada melhor que um interpretacionismo para justificar a barbárie.

E o que aconteceu de lá pra cá? O idealismo que Marx arrasou e que Heidegger reafirmou – como se nada houvesse acontecido e, pior ainda, contra o próprio Marx – venceu a disputa ideológica.

Até o marxismo chega a ser neo-hegeliano: “a ideologia” impede os trabalhadores de se revoltarem, etc. Adeus, materialismo!

Estamos sob um “imperialismo da conscientização”. E quando você ouve falar da “hegemonia do marxismo cultural”, você está escutando o ecos da crítica de Heidegger: “finja (se possível, para si mesmo também) que está criticando Marx, e pronto – Marx está refutado”. Como se “a interpretação marxista” tivesse almejado e conquistado “hegemonia cultural” – e pior: o fez ardilosamente, às custas de privar as consciências da crítica! 

E assim segue a crítica a fazer o que Marx disse ser a atividade dos neo-hegelianos: “crítica da crítica crítica”, ainda que tamanho criticismo se apóie apenas em interpretações, ou seja, pensamentos que possuem lastro em umbigos “críticos”, autodeclarados como parâmetros da realidade (afinal, Heidegger faz uma “ontologia”), da mesma forma que uma religião declara ser a única verdadeira via para a salvação.

Pois bem. Marx pôde constatar o momento histórico em que a imbecilidade se despiu da vergonha e passou a arrogar-se o status de legítimo e demolidor olhar crítico, no início do período da decadência civilizatória burguesa. Certamente ele pressentia o quão fundo na lama o pensamento humano ia atolar, se o capitalismo perdurasse poucas décadas mais. Sua morte o privou do desgosto de ver o quanto tais pressentimentos eram pálidos diante do que surgiria pouco depois – pra não falar do que se pensa e se diz hoje.

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P.S.: vale a pena notar que a relação mundo-indivíduo em Heidegger se mostra tão desconexa que ele é incapaz de enxergar uma possibilidade de superação da alienação – ou, nos termos do pensador nazista, da “derrelição”, “ruína”, “queda” [sic], “inautenticidade” etc. -, e, assim, só lhe resta concebê-la enxertada na própria natureza do “Dasein“. Não por outro motivo que ele pensa o homem como reles “ser para a morte”, desprovido de qualquer sentido, uma vez que a vida humana é inautêntica na medida mesma que é social. Outros problemas que disso advém (ou a isso servem de base) se mostram no dualismo entre ente e ser, na separação entre o âmbito ôntico e o âmbito ontológico, na “denúncia” da razão e da tecnologia (descambando em franco irracionalismo e na apologia do obscurantismo), na recusa do aspecto objetivo da natureza, da sociedade e dos indivíduos, no isolamento da subjetividade, na pretensão de fazer uma crítica ontológica à metafísica que não é mais que pura e explícita metafísica – e que se desdobra em antropologia filosófica, existencialismo e gnosiologia, ainda que ele terminantemente se recusasse a reconhecê-lo -, donde também fazer uma redução da historicidade à temporalidade e promover uma inflação subjetivista na estética; ou ainda, migrar para a hermenêutica como método, e depois para a poesia como lugar da “expressão do ser” (já que a razão não pode exprimir o Dasein – é o impasse que o faz abandonar inacabado o seu “Ser e Tempo”). Heidegger realiza sua mitomania e termina falando de uma necessidade de “abertura ao ser” – como se o fato de sermos materiais, e estarmos em meio à natureza e ao mundo humano materiais, já não nos colocasse em relação imediata com o “ser”, “abertos” a tudo que existe.

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“Relativismo cultural”: uma frenologia inversa

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Tem uns fisólofos que mergulharam no vórtice de chorume do subjetivismo, do ceticismo e do relativismo absoluto e uns anpotrólogos que os levaram a sério.

E assim surgiu o “relativismo cultural”: coisa de quem gosta de comer cocô. É uma espécie de frenologia inversa.

Mais anti-ontológico que isso, nem mesmo a teologia.

Se vc for se arriscar a ler o festival abstrato de poesia concreta que esse pessoal chama de “trabalho acadêmico”, pule parágrafos, leia de trás pra frente, da direita para a esquerda etc. Não faz diferença. É tudo consistente como o vácuo.

Na verdade, os empoderados autores (normalmente, avalistas da cultura alheia) deviam apresentar seus escritos a um laboratório de exames escatológicos.

Quanto a mim, só aceitaria ler um trabalho desses se escrito em uma linguagem humana, de preferência em português.

Mas eu não faço e não avalio pesquisas em antropologia da cultura bacteriana.

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devagar se vai ao longe, especialmente se o longe estiver perto

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Ciência e Religião: Diádocos da Alienação

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Tive uma colega professora de biologia que acreditava no criacionismo.

 
Bizarro? Sim, claro. Mas fácil de entender, e nem vou brincar de explicar essa ninharia de contradição.
 
Era engraçado ver o “espírito científico” dela, ao chamar de “hipótese” a existência de deus, do homem barro, da mulher costela, da cobra falante etc.
 
“Aplicar” Popper em Darwin é científico, mas não em Phil Collins e cia.
 
Deus “existe”: é comprovado – ou, para os mais pirro-cartesianos, é plausível, provável, não-contraditório (essas coisas que não dizem respeito à realidade, mas ao pensamento lógico) – pelo argumento jumentício de que é “impossível refutar a idéia de sua existência empiricamente”.
 
Em outras palavras, o saci Pererê também existe. Uma “hipótese” que resiste à falsificação não por meio de trambiques astrológicos ou ad-hocs, mas sim na medida que seu objeto é imperscrutável, ou seja, dilui toda e qualquer objetividade, e portanto toda racionalidade e possibilidade de conhecimento.
 
Sem querer, taí um porquê de biólogos poderem ser ao mesmo tempo darwinistas e criacionistas. Divisão social do trabalho incidindo sobre a subjetividade e produzindo médicos na vida pública e monstros na água benta da privada.
 
Aí chega o agnóstico, aquele que crê ser ateu, e diz: engano seu, a ciência demonstra empiricamente que deus não existe!
 
Como se um matemático, um geólogo ou um historiador investigassem o que é isso, a existência, e se preocupassem em traduzir tais coisas sob forma de equações, classificações ou interpretações chulas sobre curiosos antigos costumes (algo que a academia certifica e banca), ao contrário de assistir missa nos domingos, como todo bom cidadão de singela inocência e consciência poluída de culpa.
 
Se tem um lampejo de lucidez notável em toda essa comédia de horripilantes trevas, é o do crente – que tira o chão do idólatra da ciência ao retrucar-lhe: a ciência não responde tudo!
 
Se soubesse do que fala, diria mais: a ciência não se ocupa e nem quer saber de discutir questões ontológicas, metafísicas etc. Ela pressupõe que tais coisas já estão resolvidas. Por isso mesmo que a maioria dos cientistas não se difere muito de bêbados perdidos na sarjeta ou adoradores de desenho animado japonês.
 
É preciso dizer a ambos o seguinte:
 
Deus não é uma hipótese, deus é a síntese e a degradação abstrativada daqueles personagens folclóricos das antigas mitologias populares, o resultado do exercício de um processo intelectualista de ampliação do caráter abstrato originário daqueles (pois mesmo o mais naturalista dos deuses era um deus e não um mortal); ou seja, a conclusão da progressiva aplicação de uma inflação especulativa de suas características antropomórficas rumo à hipóstase absoluta, ao “ser” que não tem corpo, aparência, limite, que não se faz sentir, que possui vontades e pratica ações cujas razões nos são “misteriosas” e “insondáveis” etc – de modo que nada possui de tudo aquilo que define o que existe.
 
Portanto, ninguém precisa da ciência para descartar a “hipótese” da existência do Papai Noel absoluto. Vai discutir ciência no chat do UOL!
 
Por outro lado, se o ceticismo de algum rigoroso cientista o leva a pensar na possibilidade do contrário, não devemos levá-lo a sério, e sim chamar um psiquiatra.
 
Quem convoca a ciência para “demonstrar científica e empiricamente” a afirmação ou refutação de seja o que for, procura uma palavra última de absoluta certeza no terreno do que é, ao contrário disso (e para azar dos bêbados, nerds, agnósticos e economistas austríacos), pura crítica. A propósito, é por isso mesmo que a ciência jamais teria saído das cavernas se levasse Popper a sério.
 
Algum espertinho pode me jogar na cara um grave problema que sua experiência sensível apreende em minha argumentação: por que você diz que a ciência empírica não pode afirmar certezas, enquanto sua ontologia autoritária pode?
 
Eu não disse que a ciência empírica não pode afirmar certezas, eu disse que ela não tem o que dizer sobre o que é âmbito da ontologia.
 
E quando a ciência acerta, muito pouco de seu mérito deve se atribuir ao seu empirismo. Ao contrário, a experiência sensível – sobre a qual a ciência empírica, apesar das crenças fisolóficas e epistemo-burguesas dos cientistas, NÃO se baseia – é uma fonte inesgotável de erros e ilusões. O geocentrismo é perfeitamente empírico: basta lançar os olhos ao céu – é ver pra crer, não é assim? – para constatar a sua “verdade”, enquanto o heliocentrismo é a negação da empiria.
 
Enquanto isso, a ontologia se fundamenta na prática, na lida cotidiana dos indivíduos uns com os outros, incluindo os céticos mais empedernidos e os teoricistas mais alienados (sempre bem dispostos a imaginar a prática isolada da teoria e vice-versa), e todos com a natureza – portanto, exatamente com tudo aquilo que chamamos de realidade e que pensamos ser um âmbito da obviedade, mas que possui camadas e mais camadas de efetivas determinações quase que totalmente despercebidas pela nossa experiência sensível (e é exatamente por isso que o academicismo enxerga nele os mesmos insondáveis mistérios que motivam deus a ser um misericordioso sádico etc., donde o ceticismo se tornar uma tara agarrada no tecido adiposo cerebral do subjetivíssimo empirista, uma idéia fixa que rivotril nenhum retira e nem própolis na língua resolve). Significa que a ontologia se constitui na dimensão daquilo que exige e tece o que chamamos de razão: compreensão das coisas tais como elas são – e isso é uma questão de sobrevivência do nosso próprio corpo -, e não das coisas tais como a nossa miopia pinta em nossas cabeças.
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2 igual a 1
Ah, a ironia…

Ecletismo: Suicídio da Teoria

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Na academia e demais prostíbulos pequeno-burgueses da filosofia e da ciência (bares copo-sujo, cafés parisienses, tabernas nazistas, facebook etc.) se cultiva, com o zelo dos mais rudes, uma ficção chamada ECLETISMO.
 
Trata-se de uma concepção e um procedimento de “produção teórica” tão já difundido no senso comum quanto mais inócuo e vácuo é o que produz.
 
O ecletismo imagina que teorias podem ser desmontadas e remontadas em novas combinações e misturas, pois seus enunciados seriam auto-sustentados, portadores em si mesmos de seu mais pleno sentido – donde seria perfeitamente possível, legítimo e consistente separá-los e depois encaixá-los nos que se isolam de outras teorias, sempre sob a suposição (ou inocência) que a textura significativa de cada um deles jamais apresentaria qualquer discrepância capaz de tornar o resultado final irregular e desarmônico.
 
Assim é que o ecletismo oferece uma fórmula universal para se criar “teorias” novas e adequadas à particularidade do mau-gosto pessoal do originalíssimo “pensador” local.
 
Democraticamente, o método eclético permite a todos e a qualquer um tornar-se um “intelectual”. Conceber teorias é como produzir vinhos: o versátil acadêmico não apenas ensina a misturar num Bordeaux um pacotinho de Tang uva (se se preferir, o pó pode ser previamente dissolvido na cachaça de tonel de alumínio que Dom Fulano produz em sua garagem), mas ainda garante que essa soma bizarra é melhor que o vinho tal como era antes.
 
É uma “contribuição” à produção do vinho. Eis que nosso teorista inscreveu seu nome na História.
 
Mas a História é, segundo pensa o ecletismo, uma reles coleção de causos curiosos. A modernidade dos nossos tempos estabelece que o passado só interessa se puder ser reelaborado, e que tal manufatura é tudo que pode gerar algo original – acima disso, eis aí algo que ela exige de tudo e todos: que sejam singularíssimos, ainda que não ofereçam mais que a originalidade, novidade e frescor de uma reles patranha imbecil.
 
Já se pode perceber aqui que, para justificar essa culinária idealista de secreção de gosma, é preciso uma ligeira overdose de subjetivismo que lhe sirva de base. O ecletismo só é possível porque se ampara no éter do solipsismo e na areia movediça do puro voluntarismo, elegendo o egoísmo como referencial, elevando o relativismo ao absoluto, afirmando o agnosticismo em ontologia e, portanto, decretando que a realidade não existe para além do umbigo e que teorias são apenas um estilo de literatura – ou melhor, um entretenimento. Deste modo, dispensam a necessidade de serem justificadas, pois se situam abaixo de qualquer possibilidade de serem avaliadas e não podem ser julgadas de nenhum modo, uma vez que os critérios de verdade, qualidade, utilidade, importância etc. são postulados a priori como subjetivos.
 
Enfim, trata-se de uma brincadeira sofística de crianças solitárias. Mas o teorista eclético não o faz por diversão, e sim por não perceber a completa idiotia à qual dedica seus não muito dispendiosos esforços intelectuais, esbanja seu generoso tempo e modela na presunção o seu caráter moral.
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apenas uma teoria