Debates e Debatedores, Opiniões e Razões, Golpe e Materializações

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Tem uma multidão de gente que discorda de mim, e isso é absolutamente normal.
 
Infelizmente, muitas coisas atrapalham o debate, e às vezes fica difícil saber se há uma opinião na roda que seja mais consistente e coerente com o assunto discutido.
 
Acontece ainda do pensamento precisar de tempo para avaliar as idéias, e só conseguir chegar num veredito depois que o debate já acabou.
 
E aí tem vez que a gente vê que nossas idéias não estavam bem assentadas. Pra quê discutir? Pra gente aprender aquilo que achava que já sabia.

 

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Vou citar um exemplo que aconteceu comigo mesmo. (Quem estiver sem muita paciência, pula esse causo e continua no assunto mais abaixo.)
 

Um mês antes da votação na Câmara da abertura do processo do impeachment de Dilma Rousseff, eu estive no mural de um ex-aluno, discutindo veementemente com um outro sujeito e afirmando, contra o que ele dizia, todos os porquês (que eu tinha na cabeça e na minha frente) daquilo ser um golpe.
 

Eu dizia que “as afrontas ao direito” feitas contra o PT – eu citei a divulgação dos grampos e não haver denúncia, investigação ou processo aberto contra Dilma – “feriam os princípios de um Estado Democrático de Direito”. Em suma: “como pode não ser um golpe?”.
 

Um ou dois dias depois, coloquei a cabeça de volta ao lugar e percebi que ele tinha razão, ou eu é que não tinha nenhuma, pois estava apenas boiando na corrente de uma idéia que a ampla maioria da esquerda replicava – com muito mais poder de disseminação que bom senso. Uma tese fundamentada mais na razão da força que na força da razão.
 

Eu estava engolindo a lorota republicana das regras do “Estado Democrático de Direito”; estava caindo na conversa mole da esquerda brasileira – que não lê Marx, e sim Hannah Arendt, e quer “melhorar a democracia”.
 

Descobri, na prática do enfrentamento ideológico, que eu não SABIA o que era o “Estado Democrático de Direito” e suas regras, apenas desconfiava de ambos, como quem intui uma idéia mas ainda não vê como ela se articula.
 

Foi então que as coisas se encaixaram: o Judiciário não estava sendo pollitizado, assim como o Legislativo não estava sendo judicializado. Os três poderes não eram, nunca foram e não são puros, e suas atribuições não se isolam umas diantes das outras. Quem, afinal, julgou o processo? Foi o Senado. Dilma apelou pro Judiciário e perdeu. Legitimou o processo até o fim. Não houve ruptura NENHUMA com a Constituição e com a institucionalidade. Toda a novela foi política; e a marmelada judicial das pedaladas foi apenas o verniz tosco. Mas foi sobre este que a tese do golpe se apoiou: afirmando a ilusão do aspecto jurídico como preponderante, a aparência de um processo que “deveria ser justo” – quando o jurídico e o que seja “justo” é determinado politicamente. E isso porque era o que restava ao PT: transformar a sua derrota política na derrota de todo o “Estado Democrático de Direito”, o que poderia angariar-lhe apoio para resistir ao impeachment. Perdeu duas vezes: na arena política e na arena ideológica.
 

Posteriormente, eu vim a saber que o PSTU também rejeitava o discurso do golpe. Beleza, eu não estava sozinho. Não que eu pense que a quantidade de pessoas e de likes que sustentam uma idéia seja garantia de sua verdade, ou mesmo um mero indício desta. Se eu acreditar na verdade de uma opinião e todo o resto da humanidade me achincalhar, vou apenas lamentar que estejam no erro. Por que então estou dizendo isso? Porque estar no isolamento te faz acreditar que você está errado, e estar na torrente te faz acreditar que está certo. Isso é uma armadilha sofística tribal do pensamento, e é exatamente disso que a mitologia se nutre enquanto mata a razão.
 

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Voltemos ao assunto. Contei o caso acima pra dizer que mudei de idéia, quando a razão me fez reconhecer a fragilidade da opinião anterior, que eu havia comprado pronta na internet, e estruturou de forma sólida a que eu tinha ainda em formação e com peças por articular.
 
Procurei testar meu novo posicionamento e, até agora, ninguém dos muitos com quem discuti a questão me deu bons motivos para achar que devo voltar atrás.
 
Enfim. Não tive e não tenho – e não sei porquê deveria ter – nenhum receio ou vergonha de mudar de opinião. Era apenas uma idéia. Ela não tem a minha cara. Eu não sou proprietário dela. Não é porque abraço uma idéia que afirmo ser ela a melhor, mas porque ela demonstrou ser a melhor que a abracei. E se ela não é boa diante de outra, por que mantê-la?
 
Alguém pode me dizer: ora, uma idéia que eu sustento formata alguma parte de minha pessoa, e certas idéias são mais fundamentais que outras. Wittgenstein disse algo nesse sentido: imagine um indivíduo que passa pela experiência de ser abduzido por ET’s. O que pode restar de consistência na sua forma de ver o mundo, se até então ela se estruturava na coerência de algumas idéias básicas – e dentre elas, a de que um encontro com ET’s é coisa mais remota que ganhar na Megasena?
 
Ok, mas não estamos falando de opiniões sobre coisas extraordinárias. E quando discuto com religiosos, não sou eu que acredito em teologia. Aliás, aposto que um religioso, sim, ficaria completamente absurdado se presenciasse um “milagre” – principalmente por acreditar que está vendo exatamente isso, um “milagre”.
 
(Certa vez, fui numa médium que fazia “materializações”: ela quebrou um ovo cru de galinha na minha frente, e eu vi inflar de dentro dele uma bola engosmada da gema do ovo cozida. Ela cutucou o ovo e me mostrou dois ossos amarrados saindo de repente da bola, que disse ser uma bexiga de sapo. Explicou que o espírito tal foi no cemitério tal e desmanchou o feitiço que fulano fez pra mim. Esqueci de perguntar a ela: Fulano de quê? Depois do assombro, conclui a única coisa razoável acerca do fato: primeiro, explicar uma coisa usando um discurso que apela pro inexplicável, ou melhor, pro absurdo – “o espírito” que tirou a bexiga da terra material com suas mãos imateriais – mostra que, seja lá o que houve ali, a médium também não sabia do que se tratava; segundo, talvez a médium soubesse do que se tratava: qualquer mágico de circo faz você passar por uma “experiência extraordinária” – ou, como diz o outro, um “milagre”. Por fim, a realidade é maior que o pensamento e o conhecimento; por que não admitir nossa ignorância, ao invés de decalcar uma mitologia idiota qualquer por sobre o fenômeno?)
 
Por outro lado: não poderíamos dizer que há algo de minha pessoa numa opinião em que eu acredito? Afinal, agimos de acordo com o que pensamos, investimos afeto em muitas de nossas idéias, etc.
 
Ok, existe certa transitividade entre o sujeito que pensa e aquilo que ele pensa. Mas, se isso fosse não um trânsito, e sim uma unidade, não haveria o que se discutir, não haveria o que se ensinar, não haveria nada para além daquilo que “eu acho”. Abandonar certas opiniões pode ser mais que doloroso: pode ser libertador.
 
Entretanto, há quem subjetiviza as idéias a tal ponto que as trata como uma extensão sensível de sua pessoa. Afirma que o valor de verdade e racionalidade de sua opinião é estimado por si mesmo, e não reconhecido por ele como pertencente à própria idéia. É a sua opinião de pelúcia, seu bichinho de estimação abstrato, sempre acompanhado pela chupeta da fé.
 
Tem uma multidão de gente que discorda de mim, mas o que é lastimável é que uma boa parte dessa multidão tem medo que eu, ou outra pessoa qualquer, pegue suas opiniões e descasque. Como se a opinião fosse uma coisa “sua”.
 
Isso é o que me parece mais estranho: a criatura não bota fé no que acredita, e aí não ousa discutir. Prefere continuar pensando em algo que acredita não ser muito resistente à crítica, ao invés de se permitir descobrir coisa melhor no que pensar e acreditar.
 
Isso é uma forma de vaidade: o cidadão monta sobre os ombros de uma crença equilibrista e acredita que ela é bem mais que uma idéia, é constituinte de sua própria personalidade.
 
Donde a crítica à idéia se tornar, no crânio de quem se percebe tão etéreo como uma idéia é, “crítica” contra sua tão inestimável pessoa. Pois a mensagem é um apêndice do mensageiro.
 
Certamente, trata-se do cúmulo do egocentrismo de baixa autoestima, que nega ao outro o direito de criticar “o ~seu direito~ em acreditar numa asneira”; afinal, mesmo sabendo, ou desconfiando, que sua crença não tem valor de verdade, essa crença se apóia noutra crença: a revelação de que, seja lá a patranha que abrace, mesmo a mais idiota se constitui numa “afirmação” de sua individualidade, pois é “sua”; qualquer delírio possui uma “razão particular” que o justifica, e tudo isso estabelece sua liberdade e autonomia, ainda que sendo a negação de ambas.
 
Compreender como uma subjetividade se faz assim é assunto para muitas letrinhas. Melhor ser breve e apontar o indício, à guisa de conclusão.
 
A sociedade burguesa produz e cultiva diligentemente o egoísmo no qual educa os indivíduos. Ou seja, a subjetividade é formada em meio a uma sociabilidade anti-social, donde todas as referências humanas e naturais que o sujeito pode ter como parâmetros da vida prática e do pensamento se retiram para o interior de sua individualidade isolada, procurando se salvar da guerra de todos contra todos e encontrando solo fértil para o seu próprio apodrecimento e esterilidade. O indivíduo é impelido a reclamar para si o legítimo direito ao egoísmo, e portanto à perversão, à estupidez, etc.; direito que se confunde com privilégio, na medida que o egoísmo jamais se afirma perante os outros sem ostentar a feição de um abuso.
 
Um privilégio que reivindica para si a legitimidade do direito, o direito que a sociedade afirma ser particular, como uma forma de justo privilégio: a prerrogativa de ser Eu Absoluto, parâmetro de todos os critérios, medida de todas as referências, fundamento de todos os princípios, monarca de todos os poderes, rei da realidade, soberano divino da potestade maior – o seu umbigo.
 
É fatal: quem não discute aquilo que pensa, em que acredita e ao qual inclusive se identifica acaba fazendo da misologia a sua profissão de fé e cultivando a autolatria de um ego inchado à vácuo.

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Chiclete com Banana
Autoridade no assunto “EU”

Coletivismo, estatismo, ateísmo, anti-humanismo, economicismo e historicismo: lendo Marx ao contrário

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Quando as filosofias e filosofemas penetram o senso comum, viram ideologias ou passam a constituir retalhos delas.

Ideologias podem ser mais ou menos consistentes. O senso comum é um mix delas, além de conter outras idéias não-ideológicas, provindas da prática imediata, do empirismo e de restolhos ideológicos do passado.

É por isso que devemos fazer uma ou outra dissecaçãozinha básica daquelas filosofias (além das mitologias etc). É isso que faz com que tenha importância a crítica a certos autores, mesmo que não passem de imbecis acadêmicos.

Marx não criticou Bruno Bauer, Max Stirner, Proudhon, Say, Mill, Bastiat e tantos outros por esporte ou sadismo, quando talvez apenas Kant, Hegel, Smith, Ricardo etc. mereceriam a sua atenção.

E agora o senso comum, alimentado com esse tipo de capim e suas novas derivações, absorveu certas críticas feitas a Marx que lhe imputam um coletivismo, um estatismo, um ateísmo belicoso, um anti-humanismo, um economicismo e um historicismo, mil outros etc.

São tantos os que afirmam e reproduzem tais idéias que não há como citar nomes. Mas o que importa são aquelas e não estes.

Marx não é um coletivista. Ao contrário, toda a sua obra afirma a necessidade de se emancipar os indivíduos das limitações impostas a eles pelas classes sociais, mercado, divisão do trabalho etc.

Mas o individualismo de Marx não se confunde com o burguês, que isola o indivíduo no egoísmo (como algo próprio de sua “natureza”) e o contrapõe à sociedade. Para Marx, ao contrário, o indivíduo só se realiza e efetiva seus potenciais no interior da sociedade, na ampliação das relações do indivíduo com o mundo.

O mesmo quanto ao humanismo: enquanto aquele que procede da mentalidade burguesa é idealista, utópico, egoísta e reflete o fetichismo mercadológico dos “homens de igual valor” e a tolerância do ecumenismo do dinheiro, o humanismo marxiano afirma a emancipação dos indivíduos em uma sociedade autogerida.

Onde não cabe, evidentemente, nem coletivismo reacionário, nem coletivismo estatal, burguês. Tomar o Estado é necessário simplesmente porque detém poder material, que não ficará sobre o muro no caso de uma revolução. É preciso rachar o Estado e voltar seu poder contra aquilo para o qual ele existe como protetor. Senão, fiquem aí sonhando com suas miseráveis comunidades hippies.

O fim da religião, tal como a conquista ou destruição do Estado, não é o ponto central do processo revolucionário. Marx não faz crítica da religião. Para ele, não interessa a Sagrada Família, mas sim aquilo que faz a família profana se projetar no além: é o aquém da sociabilidade corrompida pela propriedade privada que demanda a ilusão de se superar o “vale de lágrimas” no pós-fim, tanto quanto demanda a força do Estado para manter-se como areia movediça sobre a qual a sociedade se assenta.

Tornado estéril o solo da propriedade privada, e estabelecida a sociedade sobre a propriedade social dos meios do trabalho, a religião e o Estado perdem razão de existir.

Isso acontecerá por força de uma economia entendida como “sistema” (que não é outra senão a imagem do mecanismo do deus-mercado e sua “mão invisível”), ou de uma meta acima da história (tal como ensina a religião) a nos guiar? Se for assim, basta cruzar os braços e esperar a revolução me emancipar e fazer de mim um indivíduo autônomo. Nota-se a coerência dessas idéias com as demais imputações; mas para acreditar nelas é preciso ser pouco mais que um vegetal trancado num cubículo de classe média.

Há muito mais pra ser dito sobre essas coisas, mas não há quem leia dissertações ou livros num blog. Para quem quiser, indico algumas leituras – e trocamos as figurinhas depois.

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capitalismo e individualidade 2
Pode acreditar nisso, abiguinho

“Interpretar o mundo”: mais interpretação que mundo

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“Interpretar”: eis aí um termo que devia causar menos simpatia e mais suspeita do que o tão difundido inverso.

Interpretação é ganha-pão de sacerdotes, meteorólogos, juristas e demais loroteiros. No latim vulgar, significa tirar do cu.

A princípio, não haveria que se interpretar nada em filosofia e ciência, e muito menos na arte.

Claro que isso se faz necessário na medida que haja algum defeito no objeto teórico ou estético: seja porque foi danificado pelo tempo, seja porque já nasceu assim – afinal, nem Deus foi um autor perfeito.

Em meio às lacunas ou na incompreensibilidade de seu teor, resta ao leitor extrair ele mesmo, “com as ‘suas’ palavras”, o sentido do texto, se houver um. Alguém pode afirmar que isso, senão inevitável, é ao menos interessante e importante do ponto de vista pedagógico (além de ser “democrático”… nesse porralouquismo sub-politicista e nanoburguês, os fetichistas da leitura em-si vão tão longe que chegam a fazer dogma da substituição do conteúdo pelo umbigo do intérprete).

J. Chasin comentou isso em “Superação do Liberalismo” (curso de pós-graduação na UFAL – 1988). Parafraseio: “pedagógico até certo ponto. Melhor é propor o seguinte: diga o que você entendeu do texto usando as palavras, os conceitos e as expressões chaves do texto, porque aquelas expressões foram criadas exatamente para dizer da melhor maneira; ou, ao menos, diga com palavras adequadas. Simplesmente um ‘diga com suas palavras’ é convidar a dizer mal, dizer com palavras piores o que disse o autor”.

Donde que um bom compositor é aquele que aprende a lapidar a escrita para, entre outras coisas, não deixar passar obscuridades que demandem dos leitores o esforço inglório de tapar buracos por si mesmos.

Imperfeições por vezes geram efeitos estéticos interessantes. Mas, como Aristóteles teria dito em sua “Retórica” (III, 1404b), “a virtude da expressão é a clareza”.

Teria dito. A imensa ironia que jaz aqui é que poucos textos são tão confusos quanto os que se atribui ao estagirita. Mas o pensador mais influente da história humana não é, a rigor, simplesmente um completo desconhecido; ele é incognoscível – senão por sua profunda marca no cérebro e na interpretação dos que o ouviam. Sua obra própria desapareceu, e o que chegou a nós e se atribui a ele é apenas um conjunto mal embaralhado das anotações de seus alunos. Como se não bastasse, são traduções de um grego que veio da tradução do árabe que traduzia o grego original.

Certas idéias podem ser, em sua simplicidade, perfeitas, e podem ser repensadas ao longo do tempo sem que os indivíduos sequer saibam tratar-se de reprises – p.ex., a aritmética. Ahora bien: idéias precisam de suportes materiais; mas nada que existe ou pode existir concretamente é perfeito e nem resiste ao tempo. Um pensamento impecável está sujeito à deterioração por conta do destino de suas mídias.

E aí, a interpretação é inescapável?

Se o sujeito tem diante de si um objeto que mantém sua rede ideal – num estado tal de integridade que possibilite deduzir ou, ao menos, dê pistas para nos indicar aquilo que se perdeu ou que é defeituoso de origem -, então ele pode se orientar pelo objeto e compreendê-lo sem ter de recorrer a piruetas hermenéticas. O nome disso não é interpretação, mas leitura imanente, apreensão que respeita a consistência e coerência objetivas que formam a grade significativa do texto em sua inerência peculiar. Isso não é apenas totalmente possível e razoável de se fazer, mas é o que qualquer um faz corriqueiramente em sua própria vida prática diante dos objetos do cotidiano.

Se o objeto está fragmentado de tal modo que se faz necessário imaginar o que pudesse ser sua contextura, não teremos aí um texto compreensível por si mesmo (pois pouco ou quase nada tem a dizer), mas sim o que pode ser matéria-prima para a elaboração de outro objeto. Isso não é interpretação, é criação, poiésis; não é leitura, é produção de texto.

Entre um e outro, resta o debate e a crítica. Seja o que o sujeito possa fazer aqui, é coisa que só pode ter importância no diálogo crítico em comunidade com leitores do mesmo conteúdo e, principalmente, tendo este diante de si o tempo inteiro a servir de parâmetro da interpretação, cuja analítica há de ser matrizada nessa demarcação.

“Configuração esta que em si é autônoma em relação aos modos pelos quais é encarada, de frente ou por vieses, iluminada ou obscurecida no movimento de produção do para nós que é elaborado pelo investigador, já que, no extremo e por absurdo, mesmo se todo observador fosse incapaz de entender o sentido das coisas e dos textos, os nexos ou significados destes não deixariam, por isso, de existir – salvo se admitido, paradoxalmente, que a impotência do sujeito no campo ideal é poder dissolutor no plano real -, donde nexos ou significados efetivos não serem passíveis de dissipação real pelas eventuais incapacidades absolutas ou transitórias dos analistas” (Chasin, “Estatuto Ontológico”).

Buenas. O Aristóteles que conhecemos pode não ser o “verdadeiro” Aristóteles. Mas o que importa é o que foi elaborado a partir de seu pensamento e chegou a nós, e além de não ser pouca coisa, possui razoável integridade. Apesar de tudo, há um objeto. E, afinal, é ele que interessa, e não o que não mais existe – menos ainda o sujeito autor e o sujeito interpretador.

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Um sujeito que deu o que falar

O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

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A imagem que ilustra este texto é uma crítica, ou antes um sarcasmo, a um certo discurso pretensamente emancipador, mas abstrato, subjetivista e especulativo, que circula por aí em movimentos libertários, esquerdistas, identitários etc.

É o discurso do indivíduo isolado cujo umbigo pretende ser parâmetro do que é a realidade. Ou seja, não existe mais verdade objetiva e universal, relativizada e tornada dependente das “narrativas” dos sujeitos.

Porém, ao criticarmos esse discurso “do sujeito”, talvez devêssemos lembrar que há sujeitos oprimidos por trás dele. E também que o discurso de um sujeito, especialmente o de baixa auto-estima, é embrenhado de identificação e afeto (uma vez que certamente ele crê no valor de verdade ou validade do que diz – mesmo quando afirma que “a verdade não existe” etc -; donde, por meio dele, guiar sua prática), o que torna delicada a situação da crítica.

Há ainda que lembrar o estranho costume moderno de se pensar em “autoria” ou propriedade privada de idéias, graças ao qual os indivíduos tratam egocentricamente uma opinião como um filho sob sua posse absoluta, não importa quão “diferente” ou “própria”, quer dizer, torta e errada ela seja; uma corrente umbilical de dura ternura a liga ao baixo ventre do sujeito e a opinião se faz uma extensão discursiva e ao mesmo tempo sensível da pessoa.

De modo que facilmente se confundem nessas imaginações a mensagem e o mensageiro – confusão essa que, aliás, o próprio conteúdo desse discurso trata de afirmar.

Mas será mesmo que deveríamos, por conta de alguma perniciosa condescendência, deixar intocada a barafunda ideológica na cabeça desses sujeitos, cuidando de não ferir seus sentimentos afetuosos por suas bobagens?

Claro que não se trata de cair no mesmo subjetivismo e proceder com desprezo ao indivíduo. Antes disso, cabe reconhecer que cada situação e interlocutor demandam um modo de comunicação que cumpra o objetivo de clareza da mensagem, pois ela é o que importa.

E, então, é preciso mostrar que o pretenso instrumento ideológico relativista de luta dos oprimidos – contra o machismo, o racismo etc. se torna, ao contrário, um meio de reafirmação da opressão.

Pois quando o sujeito é tornado o fundamento da legitimidade e verdade do discurso, todo e qualquer discurso se torna automaticamente legitimado. Aliás, não há mais como se falar em legitimidade. Se cada cultura ou indivíduo é o lugar próprio da justificação e da verdade – e disso resulta uma discordância a mais natural de se esperar -, o que é que pode servir de critério para avaliar qual está certa e possui legitimidade ao reivindicar tal e tal direito?

Se não é possível que discursos contrários ou antagônicos coexistam (pois expressam interesses igualmente contrários ou antagônicos, ainda que o parlador não tenha noção disso e de seus próprios interesses), a questão só pode ser resolvida pela força ante, anti e não-discursiva. As lutas relativistas contra o “eurocentrismo” (eis aí um termo absurdo frente à diversidade cultural dos povos europeus!) dos opressores deságuam, pois, na mais completa afirmação da superioridade da “cultura européia”, do machismo, da heterossexualidade, da raça ariana etc., pois apenas a violência resta como medida de avaliação, quando tudo o mais se relativizou ao ponto subjetivista.

Eis que, mais que apenas em verbo, agora o oprimido acaba por ter de aceitar a “verdade” material do opressor, ainda que o faça manifestando certa desagradável sensação de impotência e de desilusão e resmungue pelos cantos a impressão de ter sido enganado em algum momento dessa história.

Sem uma crítica racional e objetiva não há avanços. E como o pior dos mundos possíveis sempre se torna real, por essa via abre-se todo um campo de oportunidades de cooptação e “desempoderamento” das lutas, justamente o inverso que esse discurso prometia oferecer.

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Marx: o materialismo contra a dialética

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Não existe uma estrada real para a ciência, e
somente aqueles que não temem a fadiga de galgar suas
trilhas escarpadas têm chance de atingir seus cumes
luminosos” (O Capital)
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Certos marxistas gostam de dizer que o marxismo se corrige e se apura ao longo de sua história, através de “contribuições” dos mais díspares autores, cujo marxismo e contributo são garantidos por sua fidelidade ao “método do materialismo dialético”.
 
São incapazes, entretanto, de corrigir ou eliminar essa farsa chamada “dialética marxista”.
 
Há, dentre outros mais, um texto de Marx claríssimo na crítica à dialética. É o capítulo “O Método da Economia Política”, de seu livro “Miséria da Filosofia”, onde mostra que o pensamento dialético está na verdade em Proudhon, de quem Marx critica o procedimento de encaixotar as categorias econômicas em categorias lógicas, produzidas por um ato especulativo que consiste em galgar os graus da abstração até se chegar em um patamar vazio de determinações, donde tais categorias serem “puras”; posteriormente, tais categorias são organizadas logicamente, e pronto: nasce mais um sistema dialético.
 
Falar de um “materialismo dialético” é cair imediatamente em uma contradição nos termos, pois enquanto o materialismo é ontológico – trata “o ser” não como categoria pura comum a tudo que existe (e que, portanto, nada tem a dizer de coisa alguma), mas considera “o ser” como um ser, uma coisa, um objeto, síntese de múltiplas determinações, ou seja, concreto, particular, específico, que apela não apenas ao pensamento mas também aos sentidos (pois dentre sua riqueza singular de predicados estão os que o tornam material) -, a dialética é um logicismo, uma fórmula metafísica dotada de “princípio”, não importa que não seja o ser “positivo, estático, eterno, imutável, infinito, perfeito, uno, em-si, esférico, absoluto” da metafísica tradicional (categorias do tempo, do espaço, da forma, do conteúdo, do ato etc. abstraídas e hipostasiadas ao vácuo total), mas sim o “devir”, o movimento tornado categoria pura, síntese da relação contraditória entre a pura “positividade” e a pura “negatividade” (Hegel inicia a “Ciência da Lógica” com a “análise” abstrativante da relação entre os puríssimos “ser” e “nada”, para fazer pipocar daí o “devir”); e de toda essa construção ideal pura, este “processo de contradições e sínteses que põe tudo (?) em movimento”, pretende alcançar o que é a verdade daquilo que é ontológico, concreto, impuro, que apela ao sensível muito antes de apelar ao pensamento filosófico, o que é verdadeiramente um absurdo e só pode se destinar ao fracasso ridículo, como todo bom sistema metafísico.
 
Donde Marx não partir de nenhuma dialética hegeliana, muito menos enxertando nela “o material” (o que seria um transplante totalmente estranho ao pensamento hegeliano) e retirando dela a “casca” de idéias irracionais do idealismo; algo que, convenhamos, teria sido extremamente banal de se ajeitar e não faria Marx merecer lugar nenhum na história da filosofia e da ciência.
 
O que Marx faz, ao contrário de partir de um método dialético – que só serve para enquadrar as coisas numa lógica -, é buscar “a lógica específica do objeto específico”, entender o objeto a partir de si mesmo, extrair suas diferenças específicas, compreendê-lo em sua especificidade.
 
Daí que não se trata nunca de ficar no âmbito abstrato da “aplicação” de categorias abstratas, tais como modo de produção tal, relação social de produção tal, forças produtivas contraditórias a tal, infraestrutura assim, superestrutura assado, logo revolução. Marx, ao contrário disso, investiga as coisas a fundo, e a tal ponto que desmente uma série enorme de receitas distribuídas pelo marxismo de apostila, como p.ex. a idéia de etapas necessárias no desenvolvimento de uma economia para poder transitar ao comunismo (o etapismo, está claro, é fruto do logicismo, da dialética aplicada do éter teorético do mundo das idéias abstratas sobre a realidade concreta da prática – uma tremenda imbecilidade intelectual).
 
O procedimento de Marx é materialista, crítico-ontológico.

Materialismo não é uma lógica, uma aplicação de métodos ou uma combinação nova de idéias (extraídas, arbitrariamente, do sistema filosófico alheio no qual fazem sentido); como bem viu Lenin, ao proceder ontologicamente, “Marx não nos deu uma Lógica, mas sim a lógica do capital”.

 

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P.S. – Um interlocutor insistiu na existência de uma dialética em Marx, citando o famoso Posfácio à Segunda Edição de O Capital, onde encontramos um rol de elogios a Hegel e à “forma racional e revolucionária” da dialética, que será “enfiada na cabeça dos novos-ricos do novo Sacro Império Prussiano-Germânico” pela vindoura e intensa “crise geral”.

Chamei-lhe a atenção para as palavras que se encontram dez parágrafos antes:

“O Correio Europeu, de São Petersburgo, em um artigo inteiramente dedicado ao método de O Capital (maio de 1872), considera meu método de investigação estritamente realista, mas o modo de exposição, desgraçadamente, dialético-alemão”.

E em meio à resposta de Marx, temos essas linhas:

“Sem dúvida, deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma do modo de investigação. A investigação tem de se apropriar da matéria em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real. Se isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se encontrar diante de uma construção a priori”.

O método dialético de Marx é, pois, um método de exposição.

Mas ainda há uma carta escrita a Engels em 1867, na qual se lê:

“Você tem toda razão a respeito de Hofmann. A propósito, você verá na conclusão do meu capítulo III, onde eu esboço a transformação do mestre-artesão em capitalista – como resultado de mudanças puramente quantitativas – que, no texto, eu cito a descoberta de Hegel sobre a lei de transformação de uma mudança meramente quantitativa em uma mudança qualitativa como sendo atestada pela história e, de forma semelhante, pelas ciências naturais”.

A passagem aludida por Marx está no capítulo “Taxa e Massa de Mais Valia” (O Capital) e diz o seguinte:

“As corporações de ofício da Idade Média procuraram impedir pela força a transformação do mestre-artesão em capitalista, limitando a um máximo muito exíguo o número de trabalhadores que um mestre individual pode empregar. O possuidor do dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente num capitalista quando a quantidade desembolsada para a produção ultrapassa em muito o máximo medieval. Aqui, como na ciência da natureza, mostra-se a exatidão da lei, descoberta por Hegel em sua Lógica, de que alterações meramente quantitativas, tendo atingido um determinado ponto, convertem-se em diferenças qualitativas”.

Quanto a isso, cabe dizer que os princípios da dialética hegeliana se assentavam no que Lukács chamou de “a autêntica ontologia de Hegel” (devidamente tornada falsa por meio do logicismo dialético). E quando Marx aponta tais princípios (ou “leis”) no próprio objeto, não está aplicando a dialética de Hegel nele, mas extraindo do objeto o próprio arrimo da aplicação da dialética como método de exposição. Só por isso, aliás, é que tal aplicação é possível e não-arbitrária.

Mas tais princípios não são a afirmação de uma ontologia dialética, uma dialética da natureza ou da realidade dialética em si mesma. Por exemplo, a contradição: é na investigação da mercadoria que Marx a identifica atravessando sua essência constituída por valor-de-uso e valor. De modo algum a contradição é natural aos produtos do trabalho humano, enquanto simples valores-de-uso, mas é assumida por estes em seu existir concreto no modo de produção capitalista, em sua existência objetiva como mercadoria.

Hegel mesmo era um entusiasta da Economia Política. Não retirou seus princípios dialéticos de nenhuma dialética originária, porém os recobriu com os resultados lógicos – a que chegou por via especulativa – e transformou tais princípios em fundamentos de uma verdadeira metafísica, reduzindo a historicidade a uma teologia, com a qual traduziu filosoficamente a Bíblia: no início temos a Idéia, que então é negada por sua alienação original sob a forma de Natureza, para que, ao fim de todo seu trabalho de resgate de si, atinja o estágio absoluto do Espírito revelado. 

Ao contrário disso, e do que crê o marxismo da dialética marxiana a priori, o método dialético de Marx é totalmente a posteriori. Pois bem, nem todos os marxistas retiraram a “casca irracional” da teologia hegeliana e ainda aguardam o Juízo Final sob o comunismo; mas, dentre aqueles que a descascaram, alguns não perceberam que o “invólucro racional” está por ser descoberto nas coisas mesmas, e insistem na metafísica hegeliana de uma lógica dialética pairando sobre a realidade.

 

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Mais um adendo, em resposta a um interlocutor.

Marx constata um caráter contraditório nas relações categoriais reais da sociabilidade capitalista (como ocorre, p.ex., entre valor de uso e valor). E, ao identificar na dialética hegeliana a exposição de formas GERAIS do movimento da contradição, reconhece aí um mérito, um “caroço racional”, mas situado no patamar da generalidade, fazendo ainda a ressalva de que tal movimento sofre uma mistificação em Hegel.

Marx diz: “Meu método dialético é, em seu fundamento, não apenas diferente do hegeliano, mas oposto direto dele”.

Pois Marx não mistifica a contradição como se esta fosse um “sujeito” que se move na relação antitética entre valor e valor de uso, mas a reconhece como um traço imanente à forma de ser dos produtos realizados pelo trabalho no processo de valorização.

Portanto, Marx não se arrima numa adaptação absurda da lógica idealista em uma concreção materialista, mas se ergue a partir do reconhecimento da objetividade e efetividade de processos, entes e relações, finitos e específicos. A oposição a Hegel é de natureza ontológica, materialista, assentada no que se define como ser, anterior ao – e definidora do – conhecer.

Ao reproduzir tais categorias e relações conceitualmente, Marx não configura uma lógica que permitiria plasmar teoricamente objetos quaisquer. Ao contrário, e prevendo tal impressão (que faz história no marxismo vulgar), afirmou ser necessário ter cuidado para que a forma expressiva e o desenvolvimento da argumentação não tomassem a aparência de uma “pura dialética de conceitos”:

“Será necessário, mais tarde /…/, corrigir o modo idealista da apresentação que produz a aparência de que se trata simplesmente das determinações conceituais e da dialética desses conceitos. Sobretudo, portanto, o clichê: o produto (ou atividade) devém mercadoria; a mercadoria, valor de troca; o valor de troca, dinheiro” (Grundrisse, p. 150, Boitempo).

O que é a dialética vulgar senão isso: a tese devém antítese, que devém síntese, que devém nova antítese etc?

A exposição do desenvolvimento categorial do objeto não é a descrição de uma concatenação lógica mística, mas sim a expressão crítica das conexões das categorias no interior dos complexos examinados, uma explicitação de suas relações reais.

 
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Marx[1]
hay que apreender a lógica específica

Stalinismo: idealismo e praticismo

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Constantemente eu escuto ou leio stalinistas defenderem a falsa idéia de que Marx teria afirmado que a relação entre teoria e prática é de subordinação da primeira à segunda.

Donde a autocomplacência com a própria pequenez intelectual gerar juízos contra o trabalho teórico de rigor, que não passaria de divagações ao vento, puro privilégio burguês.

 
Tanto é verdade que a teoria se subordina à prática quanto o contrário. E quem diz isso não sou eu, e sim Marx (p.ex., na Ideologia Alemã). Ou será que é possível haver prática revolucionária sem teoria revolucionária? Ou qualquer forma de ação sem um pensamento que a oriente?
 
A obviedade da resposta é tal que imediatamente se vê que os stalinistas apenas se autodesqualificam.
 
Ignorar o trânsito entre teoria e prática e postular uma via de mão única é cair em mecanicismo grosseiro: idealismo tacanho e praticismo ordinário. E o que melhor caracteriza o stalinismo em termos de pensamento?
 

Só falta afirmarem que todos os anos que Marx gastou trancado no gabinete da biblioteca foram para fazer privilegiadas divagações burguesas ao vento. Mas, sem isso, não haveria sequer a vulgata que tais sectários sorvem a título de papinha teórica.

 

Meu amigo Frederico Lambertucci explica:

Não podemos esquecer que para estes militantes leitores de cartilha de dez páginas o trabalhador tem sérias deficiências cognitivas, insuperáveis, de tal modo que é necessário vulgarizar o texto o máximo possível para que este seja acessível ao nível no qual eles põem a classe trabalhadora.

Os trabalhadores, por terem essa deficiência cognitiva, são incapazes de se apropriar da riqueza produzida pelo gênero humano, mesmo quando ela está apenas na forma de um texto que não reproduza a divisão sócio-técnica do pensamento e utilize de uma forma mais rebuscada de linguagem“.

 

Foi quando alguém protestou, dizendo: “É incrível como se criam espantalhos pra depois fazer acusações. Aonde tem dizendo que o ‘stalinismo’ despreza a teoria?”

Ele queria uma fonte primária. Pois bem, revirei o DiaMat (Materialismo Dialético e Materialismo Histórico) do próprio Stalin e acabei achando mais coisas.

Comecemos pelos dois primeiros parágrafos:

– “O materialismo dialético é a concepção filosófica do Partido marxista-leninista. Chama-se materialismo dialético, porque o seu modo de abordar os fenômenos da natureza, seu método de estudar esses fenômenos e de concebê-los, é dialético, e sua interpretação dos fenômenos da natureza, seu modo de focalizá-los, sua teoria, é materialista.

O materialismo histórico é a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao estudo da vida social, aos fenômenos da vida da sociedade, ao estudo desta e de sua história“.

Logo de início já se vê uma linearidade entre “abordagem dos fenômenos da natureza” e “estudo da vida social”, ou, para usar o termo de Stalin, a aplicação de uma teoria da natureza sobre os fenômenos da sociedade.

O que ele reafirma pouco depois, ao dizer:

– “Ora, se o mundo é cognoscível e nossos conhecimentos sobre as leis que regem o desenvolvimento da natureza são conhecimentos verdadeiros, que têm valor de verdades objetivas, isto quer dizer que também a vida social, o desenvolvimento da sociedade são suscetíveis de serem conhecidos; e que os dados que a ciência nos proporciona sobre as leis do desenvolvimento social são dados verídicos, que têm valor de verdades objetivas“.

O que vai na contramão da sentença de Marx: “a anatomia do homem é uma chave para se conhecer a anatomia do macaco”, quer dizer, o entendimento do mais simples se pode adquirir por meio do entendimento do mais complexo. Ao contrário, se o ser social se desenvolveu a partir do ser orgânico e este do inorgânico, não será aplicando teorias da física, da química ou da biologia que nos será facultado compreender a sociedade e a subjetividade humanas, e muito menos nos dará qualquer garantia de objetividade do conhecimento.

Mais à frente, Stalin diz que

– “o enlace entre a ciência e a atividade prática, entre a teoria e a prática, sua unidade, deve ser a estrela polar que guia o Partido do proletariado.

Prossigamos. Se a natureza, a existência, o mundo material são o primário, e a consciência, o pensamento, o secundário, o derivado; se o mundo material constitui a realidade objetiva, que existe independentemente da consciência do homem, e a consciência é a imagem refletida dessa realidade objetiva, daí se deduz que a vida material da sociedade, sua existência, é também o primário, e sua vida espiritual, o secundário, o derivado; que a vida material da sociedade é a realidade objetiva, que existe independentemente da vontade dos homens, e a vida espiritual da sociedade, o reflexo dessa realidade objetiva, o reflexo do ser“.

– “Até agora, nos temos referido unicamente à origem das idéias e teorias sociais e das concepções e instituições políticas, a seu nascimento, ao fato de que a vida espiritual da sociedade é o reflexo das condições de sua vida material. No tocante à importância das idéias e teorias sociais e das concepções e instituições políticas, no tocante ao papel que desempenham na história, o materialismo histórico não apenas não nega, mas, ao contrário, salienta a importância do papel e da significação que lhes correspondem na vida e na história da sociedade“.

Mas como ele entende a unidade entre teoria e prática? Qual a importância da teoria?

– “As idéias e teorias sociais não são porém todas iguais. Há idéias e teorias velhas que já cumpriram sua missão e que servem aos interesses de forças sociais caducas. Seu papel consiste em frear o desenvolvimento da sociedade, sua marcha progressiva. E há idéias e teorias novas, avançadas, que servem aos interesses das forças de vanguarda da sociedade. O papel destas consiste em facilitar o desenvolvimento da sociedade, sua marcha progressiva, sendo sua importância tanto maior quanto maior é a exatidão com que correspondam às exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade.

As novas idéias e teorias sociais só surgem depois que o desenvolvimento da vida material da sociedade coloca diante dela novas tarefas. Mas, depois de surgirem, convertem-se em uma força importante que facilita a execução dessas novas tarefas surgidas com o desenvolvimento da vida material da sociedade, facilitando o seu progresso. É aqui, precisamente, onde se evidencia a formidável importância organizadora, mobilizadora e transformadora das novas idéias, das novas teorias e das novas concepções políticas, das novas instituições políticas. Por isso, as novas idéias e teorias sociais surgem a rigor porque são necessárias à sociedade, porque sem seu trabalho organizador, mobilizador o transformador, seria impossível ultimar as tarefas que o desenvolvimento da vida material da sociedade faz surgir, e que já estão em tempo de ser cumpridas. E na base das novas tarefas formuladas pelo desenvolvimento da vida material da sociedade, as novas idéias e teorias sociais surgem e abrem caminho, convertem-se em patrimônio das massas populares, mobilizam e organizam estas contra as forças sociais caducas, facilitando assim a derrocada dessas forças sociais que freiam o desenvolvimento da vida material da sociedade“.

– “A força e a vitalidade do marxismo-leninismo se estribam no fato de se apoiarem numa teoria de vanguarda que reflete fielmente as exigências do desenvolvimento da vida material da sociedade e que coloca a teoria à altura que lhe corresponde e considera seu dever utilizar integralmente sua força de mobilização, de organização e de transformação“.

A princípio, não parece haver nada de errado aí. Mas a linearidade entre natureza e sociedade reaparece entre prática e teoria. Teorias que não acompanham a “marcha progressiva” da prática caducam, e novas teorias surgem para “refletir” fielmente a prática, a serviço das “forças de vanguarda”.

Stalin imagina uma teoria que reproduz “com exatidão” a prática, de acordo com as exigências desta. É assim que, de acordo com Lukács, a teoria se torna “esquematismo escolástico-dogmático no plano formal e praticista no plano do conteúdo”, donde sua relação com a prática se mostra linear ou “causal”.

Em consequência disso, Lukács diagnostica que

– “Só com Stalin é que passou a vigorar o mau costume teórico de “deduzir” toda decisão estratégica ou tática da doutrina marxista-leninista, como se fosse uma consequência logicamente necessária. Com isso, por um lado, os princípios eram mecanicamente adaptados à necessidade do momento e, assim, deformados; por outro, apagou-se a importante diferença entre leis gerais e decisões concretas, válidas apenas uma vez, deixando lugar para um dogmatismo voluntarista-praticista“.

 

Em suma, a teoria se torna utensílio para as conveniências de justificação do oportunismo prático. O próprio caráter tutorial dos textos de Stalin demonstra a concepção da teoria como instrumental de “aplicação” (e este é um termo profundamente revelador) na prática. E como confirmação da análise, nada melhor que ir para além do que se passava na cabeça de Stalin e avaliar a sua própria prática – o que fica pra depois, se for o caso.

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stalin 2
não está aqui quem criticou

Nota crítica a “O Existencialismo é um Humanismo” de J.P. Sartre

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Essa nota não pretende ter a amplitude de uma crítica ao pensamento de Sartre como um todo. 

 

Trata-se apenas de uma glosa sobre o discurso de Sartre publicado com o nome de “O Existencialismo é um Humanismo”, um texto pequeno, por demais superficial, escrito para ser proferido em uma palestra e, por fim, pregresso na obra do autor, que posteriormente chegou a rejeitá-lo. 

 

Por vezes instigante, por vezes confuso, nele encontramos idéias filosóficas interessantes, como a concepção de uma existência pessoal a princípio gratuita, mas que, ao longo de sua própria história, afirma seu sentido na convivência com os outros, na qual também estabelece e fundamenta os parâmetros da interação social. É uma filosofia que se volta contra todo e qualquer determinismo, no que diz respeito à justificação das ações individuais. 

 

No entanto, é aí mesmo que os problemas começam, problemas bem típicos do subjetivismo – que Sartre postulava como princípio filosófico do existencialismo (a propósito, ele declara o Cogito cartesiano como o único ponto de partida seguro para a filosofia, e retira dele uma “demonstração” – que, entretanto, não aparece no texto, quer dizer, ele saca da cartola – da intersubjetividade como desdobramento necessário do Cogito. Isso em meio a outras misturebas e colagens de idéias filosóficas alheias, sem citar nomes). Ora, o idealismo, ao postular a subjetividade como preponderante ou acima da objetividade, abre toda uma tendência de queda no moralismo burguês, aquele que abstrai o indivíduo das circunstâncias de suas escolhas (por exemplo, aquilo que se apresenta a estas como cardápio de possibilidades, que jamais são infinitas e, portanto, desprezíveis) e tomá-lo como único e absoluto determinante da ação; um risco que se mostra tão evidente no texto sartreano que me pergunto se já não está consumado e eu é que estou sendo complacente com o autor.

 

 

De fato, é necessário rejeitar o naturalismo, o determinismo, a heteronomia, e assumir o fato de que a existência humana é anterior e é produtora de sua própria essência, do que resulta a liberdade e a autonomia dos sujeitos. Mas não se deve jogar a criança junto da água suja; rejeitar o determinismo não pode ser o mesmo que rechaçar a existência de determinações. Tanto é verdade que a existência precede a essência, quanto o contrário. Não surgimos no mundo como uma tábula rasa (perante o próprio mundo), e não estamos “condenados à liberdade” de iniciar, a cada nova geração, todo o campo da moral a partir do zero. Mesmo que a índole de um sujeito pudesse se formar a despeito da cultura, das relações que ele tece com os demais etc. (o que seria algo muito estranho: se não provém da sociabilidade, o caráter é inato? Infelizmente, neste texto Sartre não discute isso), seria o caso de se avaliar as possibilidades que fornece o ambiente humano, no qual o indivíduo vive, para este expressar seu temperamento. 

 

Deveríamos ignorar isso ao julgar suas escolhas? Em que medida elas não são uma imagem da sociabilidade que estabelecemos entre todos nós? E que, por sua vez, não resulta da mera vontade de cada indivíduo, pois há uma “essência”, uma determinada forma de se reproduzir a vida e sua respectiva expressão cultural, que é herdada pelo indivíduo, no interior da qual ele deve se situar antes de decidir o que fazer dela e de si mesmo, no que for possível. A partir disso, fica claro que as questões morais devem ser vistas no interior de uma perspectiva crítica da sociabilidade; do contrário, afundamos na indigência do conservadorismo mais tacanho.

 

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PS. Na verdade, Sartre diz que “a escolha é sempre uma escolha numa situação determinada”. Porém, e sintomaticamente, “o homem permanece o mesmo perante situações diversas”; tudo que resta é julgar em que medida ele age de acordo com o conhecimento de sua liberdade e responsabilidade, ou se ele procura se esconder cinicamente sob algum determinismo qualquer. Isso é decorrência de mais um dos tantos momentos nos quais o subjetivismo de Sartre derrapa do “humanismo” pro individualismo, quando a moral – a objetividade social dos valores – simplesmente vai pro espaço, restando apenas “a liberdade” como medida e valor abstratos que estariam por sob os interesses concretos.

 

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Je suis Jean-Paul 😛