A importância do Materialismo para a práxis de esquerda

.

Não é raro o tipo que se identificava – ou ainda se identifica – com as bandeiras e valores da esquerda, incluindo por vezes o ateísmo, e que de repente se torna um ativista reativo reaça ou liberalóide e crente de uma das mitologias dominantes ou outra qualquer disponível no mercado das auto-ilusões.

Isso se explica pelo fato do sujeito nunca haver abandonado o patamar mais natural e pueril que há em termos de fundamentação do pensamento, o idealismo ontológico. Por falta de noção ontológica materialista (ou de qualquer uma), é inevitável que seus ímpetos e anseios esquerdistas se enredem em um tanto de contradições e apresentem toda sorte de inconsistências com outras tantas idéias, crenças e atitudes mal costuradas, configurando um voluntarismo auto-sustentado que tem tudo pra ruir sobre si mesmo e alimentar um ânimo reativo.

Por isso me parece que, mais importante que começar por estudar os meandros da crítica à economia política de Marx, os indivíduos que simpatizam e adotam a ética de esquerda deviam iniciar a constituição de suas consciências teóricas estudando o materialismo; sem o qual não apenas o marxismo, mas todo o pensamento filosófico e científico se tornam incompreensíveis, fatalmente deformados em alguma sorte de ecletismo, quando não descambam de vez no relativismo, culturalismo e subjetivismo, como acontece no caso do pensamento religioso – donde também o moralismo e outras tantas formas de práticas exclusivistas, incluindo o politicismo e demais oportunismos, acabam por se imiscuir no interior de tamanha monstruosidade conceitual.

democritus

O materialismo – me refiro sempre, não custa lembrar, à posição ontológica delineada desde a filosofia grega antiga e que culmina em Marx – é ponto de partida essencial, reitero, para não apenas a compreensão do pensamento marxiano, mas de todas as formas do pensamento humano (e também o desenvolvimento histórico de cada uma delas) – senso comum, mitologia, religião, filosofia, ciência, ideologia, direito etc. – e ainda, acima de tudo, crucial para guiarmos nossa própria prática com a maior acuidade e discernimento que nos for possível desenvolver por nós mesmos.

Donde ser imprescindível ter clareza a respeito do que é materialismo, pois se trata de alicerce do saber de rigor, fermento da lucidez e ferramenta de amolar a inteligência; sem o qual a mente permanece naturalmente presa ao idealismo, areia movediça abstrata e de cunho metafísico que irá, por menos que sequer desconfiemos disso (e por que o suspeitaríamos, se estamos num grau de anti-reflexão?), nos servir de sabotagem para nosso próprio pensamento. Naturalmente, eu disse, pois a primeira forma da elaboração de idéias pela consciência é a que toma a si mesma como parâmetro daquilo que julga ser uma apreensão da realidade (podemos chamar isso de subjetivismo, egoísmo cognitivo, antropomorfismo etc). O fato é que o idealismo se verifica tanto na infância da humanidade quanto na dos indivíduos, e superar sua rudeza nativa é passo necessário para educarmos a consciência na razão (faculdade que nada tem de natural, como supunha Aristóteles, nem é inata, como quis Descartes e cia.) e para a ação responsável e efetiva.

A própria lida prática cotidiana com o mundo já demanda essa superação e inicia nossa educação no materialismo, mas ela não fornece mais que uma noção, suficiente para a imediaticidade de tal prática, donde se tornar suscetível a se confundir com os entulhos idealistas que continuam por todos os lados a poluir nossa consciência – os quais só o estudo pode remover, permitindo um assentamento ontológico sólido.

——

Para começarmos a compreender o nosso assunto, vejamos como Feuerbach estabelece sua crítica a Hegel – a partir da qual, e em conjunto com o desafio de discutir os “interesses materiais” (Gazeta Renana: “debates sobre os furtos de lenha”), Marx levou o materialismo à maturidade.

Em suas Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia e nos Princípios da Filosofia do Futuro, Feuerbach denuncia a identificação hegeliana entre ser e pensar, pela qual Hegel resolve o dualismo no interior do próprio pensar, tornando o ser predicado do pensamento; frente a isso, Feuerbach promove uma virada ontológica:

– “Em Hegel, o pensamento é o ser; – o pensamento é o sujeito, o ser é o predicado. […] A verdadeira relação entre pensamento e ser é apenas esta: o ser é o sujeito; o pensamento, o predicado. O pensamento provém do ser, mas não o ser [provém] do pensamento. O ser existe a partir de si e por si – o ser só é dado pelo ser. O ser tem o seu fundamento em si mesmo, porque só o ser é sentido, razão, necessidade, verdade, numa palavra, tudo em todas as coisas. […] um ser que não se distingue do pensar, um ser que é apenas um predicado ou uma determinação da razão, é unicamente um ser pensado e abstrato, na verdade, não é ser algum. […] O ser da lógica hegeliana é o ser da antiga metafísica, que se enuncia de todas as coisas sem diferença porque, segundo ela, todos têm em comum o fato de ser. Mas este ser indiferenciado é um pensamento abstrato, um pensamento sem realidade. O ser é tão diferenciado como as coisas que existem. […] Característica da anterior filosofia abstrata é a questão: como é que outros seres, substâncias autônomas e distintas podem agir umas sobre as outras […]? Mas tal questão era para ela insolúvel, porque abstraía da sensibilidade; porque as substâncias, que deveriam agir umas sobre as outras, eram seres abstratos, puros seres do entendimento. O mistério da ação recíproca resolve-se apenas na sensibilidade. Só os seres sensíveis agem uns sobre os outros. […] O entendimento abstrato, porém, isola este ser-para-si como substância, átomo, Eu, Deus – por conseguinte, só pode conectar arbitrariamente o ser para outro. […] Só a determinidade constitui a distinção, a fronteira entre o ser e o nada. Se eu deixo de lado o que é, que pode ser ainda este simples é?” (Teses Provisórias).

Feuerbach, a despeito da lucidez com que apresenta sua crítica à especulação e sua demanda pelo ser sensível, infelizmente é inconseqüente para com elas, não apreendendo todos os desdobramentos possíveis e necessários do reposicionamento ontológico que instaura, e mantendo-se preso à antropologia, pela qual voltará a cair na especulação e na ignorância acerca do ser social.

Ao se voltar contra a especulação par excellence – a filosofia hegeliana, na qual o objeto investigado é subsumido às categorias abstratas da lógica, não captando suas propriedades, mas tão somente o diluindo na generalidade – Marx apresenta, pela primeira vez, o sentido próprio do que chama de “crítica”: compreensão da gênese do objeto investigado, desvelamento de sua razão de ser. Assim, Marx postula energicamente: as categorias devem apreender a lógica específica do objeto específico, pois “uma explicação que não dá a differentia specifica não é uma explicação” (Crítica da Filosofia do Direito de Hegel).

Será a partir da crítica à economia política, primeiramente exposta nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, e contra a desontologização do ser no pensar operada por Hegel que Marx fará claras indicações a respeito das determinações principais do ser social e de seu processo de autoconstituição em meio (e por sobre) a natureza, estabelecendo os lineamentos mais gerais de uma nova posição ontológica. Primeiro, contra a figuração abstrata da consciência ou de uma subjetividade contraposta à objetividade, Marx remete a discussão ao homem real:

– “Quando o homem real, corpóreo, de pé sobre a terra firme e aspirando e expirando todas as forças naturais, assenta suas forças essenciais reais e objetivas como objetos estranhos mediante sua alienação, o ato de assentar não é o sujeito; é a subjetividade de forças essenciais objetivas, cuja ação, por isso, deve ser também objetiva” (Manuscritos Econômico-Filosóficos).

A subjetividade é um atributo da objetividade (enquanto complexo de “forças essenciais objetivas”, ou seja, as faculdades corpóreas e espirituais dos indivíduos humanos); só por isso a ação do sujeito pode criar objetos, ou antes, só por isso a subjetividade pode interagir com a objetividade. Marx irá tratar esta categoria em termos ainda mais amplos:

– “O ser objetivo atua objetivamente e não atuaria objetivamente se a objetividade não estivesse na determinação de seu ser. O ser objetivo cria e assenta apenas objetos, porque ele próprio é posto por objetos, porque é originalmente natureza. O ato de pôr não cai, pois, de sua ‘atividade pura’ em uma criação do objeto, senão que seu produto objetivo apenas confirma sua atividade objetiva, sua atividade como atividade de um ser natural e objetivo” (MEF).

É assim que Marx, não apenas contra Hegel mas toda a filosofia anterior, afirma a relação homem-natureza em primeiro lugar pela objetividade, atributo geral, comum a todo ser. Enquanto que a subjetividade, na realidade, não é anterior à objetividade (deus, lógos, Idéia etc.) e nem flutua no ar, mas é predicado de certas forças objetivas, forças estas do homem enquanto ser objetivo. O sujeito põe, cria, assenta novos objetos, novas exterioridades a partir de sua ação objetiva – e não de uma “atividade pura”, meramente espiritual, uma ação a rolar tão somente no interior da consciência –; produção objetiva que confirma seu ser objetivo. Subjetividade e objetividade não são categorias isoladas, mas aspectos do ser humano em íntima relação transitiva, o que se faz explícito na atividade prática em que o sujeito interioriza o objeto sob forma de pensamento e exterioriza sua subjetividade na criação de novos objetos.

A objetividade se confunde inicialmente com a naturalidade; mas, ao entrar em relação com a subjetividade, se tornará elemento de uma emergência sempre inédita e histórica, uma nova objetividade em relação à natural: a sociedade.

O ponto de partida está no fato do ser humano surgir como ser da natureza. Seu corpo, subjetividade e sociabilidade são imediatamente (i.é., a princípio) naturais, bem como sua objetividade:

– “O homem é imediatamente ser natural. Como ser natural, e como ser natural vivo, está, em parte, dotado de forças naturais, de forças vitais, é um ser natural ativo; estas forças existem nele como disposição e capacidades, como instintos; em parte, como ser natural, corpóreo, sensível, objetivo, é um ser que padece, condicionado e limitado, tal qual o animal e a planta; isto é, os objetos de seus instintos existem exteriormente, como objetos independentes dele; entretanto, esses objetos são objetos de seu carecimento, objetos essenciais, imprescindíveis para a efetuação e confirmação de suas forças essenciais” (MEF).

Marx descreve aqui as categorias mais fundamentais do ser orgânico, mostrando que o homem, enquanto ser vivo, não é meramente espírito, razão, consciência, em suma, subjetividade; além disso, esta se manifesta primeiramente como disposições, capacidades, instintos, carências. A subjetividade carece de objetos exteriores, o que confirma sua própria objetividade.

– “Que o homem seja um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo, efetivo, sensível, objetivo, significa que tem como objeto de seu ser, de sua exteriorização de vida, objetos efetivos, sensíveis, ou que só em objetos reais, sensíveis, pode exteriorizar sua vida. Ser objetivo, natural, sensível e ao mesmo tempo ter fora de si objeto, natureza, sentido, ou inclusive ser objeto, natureza e sentido para um terceiro se equivalem” (MEF).

Contra Hegel, Marx afirma a objetividade como a determinação primeira do homem. Enquanto tal, carece e sofre objetivamente, inclusive como objeto para um outro. Na seqüência do argumento, Marx dá um exemplo de como o caráter objetivo do homem se manifesta na sua carência de objetos exteriores:

– “A fome é um carecimento natural; precisa, pois, uma natureza fora de si, um objeto fora de si, para satisfazer-se, para acalmar-se. A fome é a necessidade confessa que meu corpo tem de um objeto que está fora dele e é indispensável para sua integração e para a sua exteriorização essencial”;

assim como, na natureza,

– “O sol é objeto da planta, um objeto indispensável e assegurador de sua exteriorização da força vivificadora do sol, de sua força essencial e objetiva” (MEF).

Esta passagem é toda uma claríssima e contundente contraposição ontológica, materialista, ao que o entendimento filosófico, cujo representante em tela é Hegel, concebeu a respeito. O ser, segundo Marx, é, antes de tudo, objetividade; entenda-se por isto que o ser é uma malha de relações com outros seres, relações objetivas, sensíveis, efetivas, imediatas, externas – em suma, a objetividade remete ao caráter relacional entre exterioridades. Nessas relações o homem não só padece, mas também é ativo, e nelas exterioriza ou expressa seu ser e não só seu saber (como em Hegel).

Ser é ser objetivo, é ser em relação com outros seres, distintos e efetivos; nestes termos gerais, Marx incisará:

– “Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é um ser natural, não faz parte da essência da natureza. Um ser que não tem nenhum objeto fora de si não é um ser objetivo. Um ser que não é, por sua vez, objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser como objeto seu, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é objetivo. Um ser não objetivo é um não-ser” (MEF).

A objetividade é uma categoria presente em qualquer ser, incluindo o homem, e remete imediatamente a outras categorias fundamentais, como a coexistência, a efetividade, a sensibilidade, a passibilidade (ou padecência) e a concreção. Ou seja, a relação objetiva entre os seres é uma relação de reciprocidade, uma interação objetiva. Um ser se determina pelos seres que são seus objetos e vice-versa; o homem é um ser natural na medida em que tem a natureza como seu objeto (e, em seu processo histórico de apropriação da natureza, a tornará mais e mais humanizada). Caso contrário, como na metafísica e na teologia:

– “Suponha-se um ser que nem é ele próprio objeto nem tem um objeto. Tal ser seria, em primeiro lugar, o único ser, não existiria nenhum ser fora dele, existiria solitário e sozinho. Pois, tão logo haja objetos fora de mim, tão logo não esteja só, sou um outro, uma outra efetividade diferente do objeto fora de mim. Portanto, para o terceiro objeto, eu sou uma outra efetividade distinta dele, isto é, sou seu objeto. Um ser que não é objeto de outro ser supõe, pois, que não existe nenhum ser objetivo . Tão logo eu tenho um objeto, este objeto me tem a mim como objeto. Mas um ser não objetivo é um ser não efetivo, não sensível, somente pensado, isto é, somente imaginado, um ser da abstração. Ser sensível, isto é, ser efetivo, é ser objeto dos sentidos, é ser objeto sensível, e, portanto ter objetos sensíveis fora de si, ter objetos de sua sensibilidade. Ser sensível é padecer” (MEF).

O ser não é a categoria vazia e mais geral da metafísica, o produto mais abstrato do pensamento, a idéia que, como bem viu Feuerbach, “se enuncia de todas as coisas sem diferença”, mas sim uma entificação concreta e singular (e, portanto, como Marx reconhece, entificação essencialmente histórica). Partir da idéia de ser é cair imediatamente na mistificação, pois este “ser” – ou melhor, a sua mera idéia, concebida pelos filósofos como “atributo” dos entes (eis que a existência se torna um predicado da substância e não a substância mesma! O nome disso é: metafísica, a ontologia tornada um cadáver idealista) -, é abstração, ou seja, exatamente o contrário do que se deve pretender atingir. A objetividade é, como Feuerbach também percebeu, a única forma de explicar as relações que os entes singulares mantêm na realidade; é por isso que abstrair a objetividade levou a filosofia a cair em vários pseudoproblemas, uma vez que os entes perdem sua constituição ontológica e só podem ser pensados como certa sorte de epifenômenos do “ser único”. Ora, um “ser não-objetivo” só pode ser uma imagem mental ou um nome; o idealismo se embriaga tanto com a imaginação que se esquece de que seu “ser” é apenas uma idéia.

——

Muitas outras categorias se desdobram na análise marxiana, como a historicidade, sobre a qual apenas aludimos. E daqui decorre todo um entendimento crítico em relação à sociabilidade, à economia, à política, à filosofia, à arte, à ciência etc. Não podemos, no entanto, fazer deste artigo um trabalho exaustivo e seguir em frente. Para nossos propósitos, basta.

(Alguns de nossos textos aqui podem ampliar esta noção. Confira: Marx: o materialismo contra a dialética“Base materialista para a historiografia”: para muito além das abstrações do marxismo vulgarMarxismo de cátedra: deturpar para “atualizar” Marx“O comunismo não funciona”? – ou: As vias irracionalistas do discurso de direitaOntologia da ciência e da arte: complexos da atividade humanaAteísmo vs. Agnosticismo etc.)

Combater a ignorância em relação ao materialismo é uma tarefa atenta à sentença de Lukács: por mais aditivado que seja o combustível de uma ética de esquerda, sem a base materialista os indivíduos pensarão o mundo e a prática por meio de uma epistemologia de direita, o que só pode servir de guia para o lodaçal da confusão e do pessimismo imobilista e anti-humanista. Exemplos não faltam para demonstrar isso, não é mesmo?

Claude_Adrien_Helvétius

A título de conclusão, há que acrescentar uma observação importante aqui. Eu havia falado do ateísmo como bandeira e valor da esquerda, e ainda que o materialismo culmina em Marx. Entretanto, Marx não faz do ateísmo um estandarte de sua militância. O que ele afirma é que, após a crítica dos materialistas ingleses, franceses e alemães à religião, se tornou claro a alguns deles – em especial Helvétius -, que era preciso atentar ao mundo humano e não mais criticar o Reino dos Céus. Marx diz:

– “A crítica da religião desengana o homem a fim de que ele pense, aja, configure a sua realidade como um homem desenganado, que chegou à razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo, em torno de seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo.

Portanto, a tarefa da história, depois de desaparecido o além da verdade, é estabelecer a verdade do aquém. A tarefa imediata da filosofia que está a serviço da história é, depois de desmascarada a forma sagrada da autoalienação humana, desmascarar a autoalienação nas suas formas não sagradas. A crítica do céu transforma-se, assim, na crítica da terra” (Intro. à Crítica do Direito).

E sobre Helvétius:

– “Se o homem forma todos seus conhecimentos, suas sensações etc. do mundo sensível e da experiência dentro desse mundo, o que importa, portanto, é organizar o mundo empírico de tal modo que o homem faça aí a experiência, e assimile aí o hábito daquilo que é humano de verdade, que se experimente a si mesmo enquanto homem. Se o interesse bem-entendido é o princípio de toda moral, o que importa é que o interesse privado do homem coincida com o interesse humano. Se o homem goza de liberdade em sentido materialista, quer dizer, se é livre não pela força negativa de poder evitar isso e aquilo, mas pelo poder positivo de fazer valer sua verdadeira individualidade, os crimes não deverão ser castigados no indivíduo, mas [devem-se] sim destruir as raízes anti-sociais do crime e dar a todos a margem social necessária para exteriorizar de um modo essencial sua vida. Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por natureza, desenvolverá sua verdadeira natureza no seio da sociedade e somente ali, razão pela qual devemos medir o poder de sua natureza não através do poder do indivíduo concreto, mas sim através do poder da sociedade” (Sagrada Família).

Marx, ao contrário do que se afirma, não faz a crítica da religião, mas a considera já feita; sua importância foi trazer, “em gérmen, a crítica do vale de lágrimas”, ou seja, sua capacidade de “[arrancar] as flores imaginárias dos grilhões, não para que o homem suporte grilhões desprovidos de fantasias ou consolo, mas para que se desvencilhe deles e a flor viva desabroche”; isso significa que o que realmente importa é que “a crítica do céu [transforme-se] na crítica da terra, a crítica da religião na crítica do direito, a crítica da teologia na crítica da política” (Intro. à Crítica do Direito) e a crítica da especulação e do idealismo na crítica da economia política e da sociabilidade capitalista.

Por isso, é imperativo se empenhar em chegar a Marx no estudo do materialismo. É ele o autor que desenvolve a ontologia a um estágio que abarca toda a realidade – natureza e sociedade -, deixando para trás o reducionismo, o mecanicismo, a grosseria e a vulgaridade do materialismo naturalista, que chega, ao máximo e na melhor das hipóteses, até Darwin e nele estaciona; é o que constitui a legião de direita formada por agnósticos, céticos e racionalistas que militam, como facção majoritária, nas hostes do ateísmo atual. Trata-se de um materialismo que não faz a “crítica do vale de lágrimas” e se contenta em blasfemar contra mitologias, pois o gérmen não se desenvolveu e se tornou senil em sua própria puerilidade.

É verdade que, no caso histórico específico de países como o Brasil, a crítica da religião se justifica numa crítica política. Mas raramente esta crítica política se amplia numa crítica da própria política, e acaba se mostrando apenas como mais um cântico – o de sua própria impotência.

marx

Pois bem. Eu pretendia elaborar uma bibliografia básica sobre o materialismo, e de repente me lembrei de um trabalho que fiz a respeito há uns dez anos atrás e que talvez mereça uma boa revisão, mas que no geral ainda é de algum proveito. Obviamente, está longe de ser exaustivo, talvez mesmo para servir de ponto de partida; por outro lado, foi feito por sobre alguns dos mais importantes autores no assunto – aqueles que contribuíram diretamente ou estabeleceram definitivamente seu patamar de maturidade -, numa linguagem acessível e não muitas páginas.

Segue no link abaixo.

Natureza, sociedade e atividade sensível na formação do pensamento marxiano

.

Anúncios

Ditadura do Proletariado?

a força do voto na democracia
 
Patrióticos defensores da democracia (ou do que entendem por isso) exercem em portais de internet sua crítica à “ditadura em que o Brasil se encontra”, ou seja, à “ditadura do proletariado” instalada no país pelo PT, um regime político execrável desde já por ser uma ditadura; ainda que, paradoxalmente (ou não), alguns deles tenham defendido a autocracia burguesa nos anos 60-70 e ainda hoje a defendam.
 
A consistência desse criticismo gasoso deriva direta ou indiretamente da noção obscura, de apostila mimeografada, do marxismo de quinta mão que confunde socialismo com estatismo: é o comunismo hobbesiano! Olha lá o Stálin que não deixa dúvidas a ninguém.
 
Ao condenar Dilma por ela ser ela mesma e não um Bolsonaro, mostram que, de fato, a democracia desejada não é tão contrária assim à ditadura; o que importa é que o Estado seja ocupado e mantido pelas forças políticas e ideologias com as quais simpatizam (seja por interesse real ou ilusório).
 
Oposições podem existir, desde que sejam da panelinha alheia, nunca a “nossa”, e sejam inefetivas.
 
Nessa brincadeira, é capaz de alguém dizer que o MDB era a prova de que não houve, de 64 pra cá, ditadura nenhuma no Brasil, exceto após a eleição do Lula. Aposto que já disseram…
 
Ao centralizar toda a questão no embate político, tais críticos agem como religiosos: a minha posição política é a verdadeira posição da nação, enquanto as outras são pagãs, heréticas, falsa idolatria, ditadura, “comunistas” etc. O interessante é notar que este politicismo é compartilhado igualmente pelo adversário: pois este governo é popular, “para todos”, possui “projeto de nação”, apesar de todas as evidências contrárias a ambos.
 
Os dois lados pregam que a democracia é “nossa”, a ditadura é “deles”, e recortam fatos isolados para comprovarem o que dizem. No final das contas, o embate se torna um ranking onde a competição é pelo que rouba menos, quem traiu menos e quem meteu mais a faca e o ferro nas costas e no cu do povo, etc.
 
Ambos financiados pelos mesmos grupos econômicos: olha lá a Vale e a Odebrecht pagando a campanha dos principais candidatos a presidente, governador, prefeito, senador, deputado e vereador.
 
eua e cuba - democracia e ditadura
.
 
Chegamos então no X da questão.
 
A questão NÃO É uma oposição ditadura vs. democracia. A princípio, todo regime de Estado é ditatorial, pois é uma forma de exercício de poder material (seleção de investimentos, monopólio da violência etc.) de uma parte da sociedade sobre o seu conjunto; e a democracia também é um meio pelo qual certa parte irá ditar os caminhos e descaminhos de toda uma sociedade.
 
A questão é: qual parte irá ditar os caminhos e descaminhos da sociedade?
 
A ditadura burguesa em que nos encontramos é a dominação de uma minoria de usurpadores da riqueza produzida pela maioria por sobre esta. É claro que há concorrência no interior da burguesia e, portanto, a impressão de uma democrática “alternância de poder”; mas que jamais põe a soberania do capital sobre o trabalho em xeque.
 
A ditadura do proletariado é radical justamente porque inverte essa equação e visa organizar a sociedade a partir das mãos daqueles que são seus verdadeiros produtores.
 
É radical porque rompe a bolha especulativa da política (em perpétua “crise de representação” – quando não há representação nenhuma senão do capital) e se assenta na própria sociedade.
 
Ainda assim, podemos encontrar em Marx o entendimento de uma ditadura do proletariado enquanto regime autoritário. Mas sua finalidade não é política – no sentido em que visa apenas tornar ineficaz “a oposição” (enquanto mera oposição política) -, e sim social: trata-se de sufocar as forças despóticas do capital como um todo. Nesse sentido, a ditadura do proletariado é o único caminho real, não-utópico, da realização de uma verdadeira democracia, assentada na soberania dos trabalhadores, e esta é a única soberania legítima, uma vez que é calcada nos legítimos produtores do mundo social.
 
Por fim, tal democracia, finalmente determinada como realmente social, termina por dissolver a política, o Estado e os regimes de governo, na medida mesma em que os torna obsoletos, ou seja, caducos.
 
Pois a organização da sociedade por quem a produz e reproduz é precisamente a desintegração das classes sociais, ou seja, da parasitagem exercida por quem não trabalha sobre quem trabalha. Não há mais sustentação real para existir um aparato de dominação e nem o exercício desta.
 
.
Democracy
 
Nas palavras do Manifesto de 48,
 
— “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade”.
 
— “/…/ Vimos acima que a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia”.
 
Eis aí a democracia como fim imediato da ditadura dos trabalhadores. Seu caráter será de autêntica democracia na proporção mesma em que a ditadura for bem sucedida ao investir o poder político contra a propriedade privada que sustenta a dominação burguesa.
 
— “O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas [grifos meus: estamos longe de qualquer hobbesianismo aqui].
 
— Isto naturalmente só poderá realizar-se, a princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”.
 
Por fim, emancipada do arraigado moedor social de carne humana (a propriedade privada), a sociedade pode se expurgar do gigantesco representante oficial do capital (o Estado), e os indivíduos podem abolir o tolhimento que as classes sociais, o mercado, o dinheiro, “a economia” etc. lhes impõem:
 
— “Uma vez desaparecidos os antagonismos de classe no curso do desenvolvimento, e sendo concentrada toda a produção nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe, se se converte por uma revolução em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.
 
— Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação – onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”.
 
.
justiça - o bem mais caro de uma democracia
 
.
Alguém poderia perguntar: “que garantia terei que um governo dos trabalhadores não irá se transformar em uma outra ditadura de novos senhores?”
 
Nenhuma.
 
“Garantia” é uma noção criada pelo e usada para o mercado, nada mais que uma promessa para conquistar consumidores e vencer a concorrência. E nem assim o comércio garante realmente alguma coisa (pra qualquer problema existe a “justiça” do consumidor, na qual o indivíduo será mais um entre milhares a tentar reverter uma situação na qual foi lesado). “Garantia” é, portanto, uma noção mais fictícia que real. Nada que existe é garantido.
 
Mas uma coisa é certa: as galinhas só passam a tomar conta do galinheiro quando este galinheiro está organizado o suficiente para expulsar as raposas que desde sempre o comandaram.
 
Portanto, a ditadura do proletariado pressupõe uma abertura real à participação popular, sem a qual ela não acontece.
 
Não há ditadores na ditadura do proletariado. E sim uma sociedade que se auto-organiza, a ponto de se despir da necessidade de uma esfera acima dela a comandar-lhe.
.

Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa

.

Alguém me apareceu com o surrado “argumento ontológico” de Descartes pra me provar a existência de deus.

Bravo! Eis aí uma forma de discutir sem apelar para as tolices subjetivistas do “para mim”, “minha fé”, “minha vivência” e demais variações.

Diz Descartes que a idéia de um ser perfeito tem como causa um ser perfeito, deus. E que a existência da idéia de deus é exterior a nós, posta em nós, porque esta idéia não pode ser produzida por nós. Por fim, a idéia de um ser perfeito implicava na existência deste ser, pois do contrário não seria a idéia de um ser perfeito; ou seja, a idéia da perfeição implica necessariamente na existência da perfeição, pois se não existisse, a perfeição não seria perfeita.

Muitos foram os filósofos que perceberam que Descartes acreditava tanto em seu argumento fajuto, uma reelaboração do igualmente fajuto “argumento ontológico” medieval, que só o usou em sua metafísica com fins a não queimar na fogueira, enquanto em sua física não falava de deus e nem o pressupunha pra nada. Mas vamos deixar essa suposição de lado e nos ater ao argumento.

1) A idéia de um ser não implica necessariamente na existência desse ser. Basta pensar em um minotauro, p.ex. Mas a idéia da perfeição não seria uma idéia normal. Pois ela não implica necessariamente na existência da perfeição, de modo que o conceito não seja contraditório? Ora, e desde quando há idéias especiais que, em seu conteúdo ideal e abstrato, garantem a existência concreta de algo para além delas mesmas? A perfeição é uma idéia e apenas isso, e enquanto tal não implica na necessária existência de um ser que seria perfeito.

2) A idéia da perfeição nos é facilmente produzida por uma abstração, uma operação intelectual simples, simplesmente inflacionando o que pensamos ser bom, razoável, adequado etc. Basta imaginar: “e se fosse melhor? E ainda melhor? E mais ainda?” até chegar a um ponto em que já não há o que pensar, senão um nome, a idéia vazia de um “melhor último” e rotular esta idéia com o termo “perfeição”. Eis aí o deus!

3) Portanto, a existência de deus é absolutamente desnecessária para se pensar a idéia de perfeição. Ao contrário, por ser ele também uma idéia a que se chega especulativamente, é o pensamento que instaura a sua existência – ENQUANTO IDÉIA. Não existe deus para além da imaginação dos homens, e é lá onde existe igualmente o “reino dos céus”, um reino localizado na memória das ficções fantasiosas elaboradas pela mente humana.

A bem da verdade, como dito no ponto 2, “deus”, “perfeição” e demais hipóstases sequer podem ser chamadas de idéias, mas apenas nomes vazios.

Nada que existe é perfeito, por essência; pois tudo que existe, existe no tempo e em meio a outras coisas e graças a elas. A Natureza não é perfeita. Mas nós criamos a noção de perfeição, assim como outras tantas coisas que produzimos na imaginação, a partir da especulação da consciência que reflete a si mesma, e as desejamos como também o infinito. Anseios de quem sabe que um dia morrerá e até mesmo o universo terá fim. Mas isso fica para outro texto. 

descartes
Bel essai, bonhomme.

Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé

.
Na dolorosa e assustada infância da humanidade, quando o desconhecido estava em cada aspecto da relação dos indivíduos com a natureza estranha e hostil – em meio a qual, entretanto, tinham de viver, habitar, e com ela interagir etc. -, a única forma de vencer o medo foi através de um recurso que advém à consciência naturalmente: projetar sobre os fenômenos naturais, ou por trás deles, a própria subjetividade humana, para então negociar, por meio de rezas e demais rituais mágicos, as mais diversas ilusões afetivas com essa suposta super-subjetividade controladora da natureza. Assim surgiram as mitologias e os deuses, seres antropomórficos porém sobrenaturais, capazes de fazer a realidade agir de acordo com suas vontades e humores, mas também aptos a ouvir e compreender as súplicas humanas quando lhes desse na telha e, quem sabe, atendê-las, mesmo que de formas mui particulares.
 
Grande passo deu Tales de Mileto e seus colegas ao pronunciar que a natureza é ordenada, segue padrões mensuráveis e pode ser conhecida tal como ela é, e não mais simplesmente como desejávamos que fosse. Os físicos gregos abriram a ampla vereda do pensamento desantropomorfizador que constitui a essência da filosofia e da ciência, e as mitologias podiam finalmente se recolher ao baú de um passado para sempre superado. Mas por que elas não se foram?
 
Porque o estranhamento e a hostilidade permanecem até hoje. Não mais diante da natureza, e sim da própria sociedade humana, donde Marx afirmar: ainda vivemos a pré-história da humanidade. Somos determinados pelo meio social, resta determinar o meio social de modo que este assuma um caráter autenticamente humano.
 
evolução de deus
 
 
Entretanto, enquanto isso permanece distante ou mesmo se retira do horizonte histórico da humanidade, se faz patente que, desde que o pensamento racional se torna difundido – a ponto de se fazer presente em todos ou quase todos os aspectos da vida prática cotidiana -, certamente é muito desgastante manter o fluxo de canalização de energia psíquica, o apego, para a fixação das idéias insensatas de que consistem as mitologias.
 
Por isso, o maquinal apelo a abdicar da realidade por meio da devoção fervorosa à própria submissão assume a imagem de um equipamento de guerra: o escudo e a lança da fé.
 
Credo quia absurdum (e nem sou eu que o digo). A consciência mítica não tem problemas com a barbárie, a contradição, o desatino, o preconceito etc. Mas, em sua “golden age” primitiva, e justamente por não ter o parâmetro do que seria racional – pois a razão é um atributo subjetivo histórico e, a bem da verdade, recente -, a consciência sequer concebia o que seria isso, o absurdo.
 
Na atualidade, entretanto, mesmo a razão mais trivial – demandada pela lida do dia-a-dia com o mundo atual – pode se tornar uma ameaça à frágil bolha do pensamento mítico.
 
Exemplos não faltam. Basta lembrar quão profundamente imerso neste glóbulo viscoso de irracionalidade pode se meter aquele que resolve empunhar as armas da fé contra a própria lucidez e se torna um homem-bomba, o piedoso beato que suicida e mata tantas outras pessoas em nome do “amor” de uma divindade e, é claro, também do quimérico salário casto e espiritualista de 72 virgens para desfrutar no além.
.

O que é a morte?

Morres, amigo, também tu.

Por que te lamentas assim?

Morreu antes Pátroclo,

que era muito melhor que ti.

(Ilíada, XXI).

 

O que é a morte?

A morte é o “dexistir” do Eu.

Quando o corpo se desliga e tem início sua decomposição, chega ao fim o processo que chamamos de mente e que decorre do funcionamento do cérebro. Morto o tecido cerebral, não há mais memória; ou seja, o Eu se apaga. Os sentidos se encerram e já não há mais consciência a que pudessem informar acerca do mundo ao redor.

aquiles chora patroclo

E a alma? A alma é coisa distinta da mente? Se for, o destino dela será tão interessante a nós como o destino de nossa carne: se vai virar grama, comida de verme ou éter pairando no nada, é algo completamente indiferente, pois o que importa é a consciência, a memória, o Eu.

Nenhum Eu sobrevive ao fim do cérebro, de modo que morrer nada mais é que abandonar completamente a sociedade e imergir na mais plena harmonia com a natureza.

Contudo, e em um sentido bem determinado e completamente distinto do que normalmente se entende a respeito, o espírito pode continuar vivo, se cultivado pelos indivíduos ao longo das gerações e enquanto durar essa cultura.

O espírito não é uma coisa. O espírito é memória e linguagem. Portanto, não é apenas o resultado da atividade cerebral, mas ainda, e essencialmente, é um produto da sociedade.

Virar puro espírito é passar a existir enquanto memória, sem entretanto haver consciência e identidade de si, quer dizer, memória própria: agora o espírito não mais é subjetivo e a memória se tornou história. Que outros cuidem dela com leveza e graça!

Achille-e-Patroclo

Nada disso é misterioso. O contrário, sim, é obscurantismo puro.

Persiste ainda hoje a força soturna que a mitologia exerce sobre nós. E isso porque ela está ancorada em uma forma estranhada de afeto, que não encontra meios autênticos de se realizar num mundo onde impera o estranhamento entre os próprios indivíduos. Donde a força da mitologia estar na debilidade do afeto, subjugado e dominado pelo medo; e se apresenta como o que resta pensar com paixão – não apenas na medida que a sociabilidade é hostil, mas também à medida em que a própria mitologia rejeita a transformação da sociedade.

Ora, a fé procura se justificar através do medo da morte, para o qual ela traria o apaziguamento de uma esperança anti-ontológica, anti-realista, absurda. Essa é a medida de seu valor: um pretenso bem que se ergue por cima de uma fobia, de um disparate e de uma vida degenerada, os quais cuida de manter no horizonte.

Pois a sociedade estranhada do cada-um-por-si forja uma moral invertida e elege como valor o que é desvalor.

Assim é que a mitologia e a fé encarregam-se de nos manter sob a tutela de uma moral heterônoma, pueril. Mas é preciso considerar as coisas tais como elas são e reconhecer que temer ou se preocupar com a morte é um reles egoísmo. Se há alguma coisa digna de preocupação aqui é, no máximo, a forma como acontecerá; mas, ainda mais importante, com quem vai pagar o enterro.

.

Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro

Você não pode provar que Deus não existe. E nem o Minotauro.

Mas você pode mostrar ao confiante crente que todos os atributos que “definem” o “conceito” de Deus são hipóstases (por isso, as aspas). Ou seja: se Deus é ilimitado, incondicionado, absoluto, infinito, eterno, onisciente, onipresente, onipotente e onipatife, quer dizer, não possui e nem pode possuir limite, determinação, concretude ou efetividade sensível, então não possui tudo aquilo que define o que, em uma palavra, chamamos de realidade. Portanto, Deus é tão existente quanto uma idéia pode ser; mas até uma idéia possui – apesar de sua imaterialidade, seu caráter de abstração – determinações, predicados, atributos, delimitação, sem os quais não passa de mera palavra ou nome.

Deus existe! Porém, mesmo o Minotauro é mais que um nome.

realidade

PS. Foi necessário mastigar a papinha antes de servir à boca de alguns leitores.

Eu sou ateu, mas de modo algum me satisfaço com meras afirmações, tais como “deus não existe e ponto final”. Eu afirmo isso e faço questão de demonstrar o que afirmo.

Quando um crente repete, em resposta ao desafio “prove que deus existe”, a velha patranha que diz “vc também não pode provar que deus não existe”, ele se sente magicamente justificado em sua crença absurda – pois, em sua lógica mitológica, a impossibilidade de se provar que deus não existe equivale a dizer que deus existe. Porém, isso vale igualmente para qualquer outro personagem mitológico ou da ficção, donde eu afirmar: também não se prova a inexistência do Minotauro. Portanto, se isso era pra ser um argumento, então o crente deve levar a sério a possibilidade da existência das coisas mais infantis e insignificantes.

Por outro lado, concedo ao crente que seu deus e seu papai noel existem: mas apenas enquanto palavras, o que não era bem o que ele queria entender de minha concessão. Mas o Minotauro e o papai noel são mais que palavras ou nomes, são personagens cujos atributos são pensáveis, pois têm conteúdo, e assim é que podem ser imaginados, identificados etc.

Deus não tem nenhum conteúdo ideal. É apenas um nome, uma palavra vazia. Agora, se isso existe apenas na mente humana suscetível à alucinações, não vem ao caso aqui. O maior problema está no fato de que uma palavra sem conteúdo nenhum além de outras palavras igualmente vazias – os tais “atributos” de deus – serve, entretanto, como parâmetro de práticas humanas bem reais e concretas, como o proselitismo religioso na moral, na educação, na filosofia, na ciência, na arte, na política, no direito e na guerra.

arte da guerra

Nada mais natural que um pobre de direita

.

Parece uma contradição. Mas não é. É natural que os “pobres” gravitem ao redor do pensamento de direita. Claro que isso vale igualmente para a “classe média” (e o que dizer dos “ricos”?). E não há nada mais sobrenatural (sim, esse é um bom termo) que pobres, classe-médias e principalmente ricos de esquerda.

Antes que pensem que sou um naturalista maluco, quero dizer que não me refiro à nenhuma naturalidade biológica, mas sim à vida humana que se vive de maneira espontânea no dia-a-dia da atual forma social moderna.

É interessante notar que a galera “politizada” fica estupefata em constatar que o povão vota na direita e sustenta bandeiras as mais toscas e brutais, até mesmo contra seus próprios interesses – supondo que os indivíduos tenham alguma noção mínima de quais sejam estes, ou melhor, que não façam a velha confusão entre seus mais baixos e imediatos instintos burgueses e a consciência de si mesmos enquanto indivíduos sociais, o que demanda uma boa dose de reflexão.

Ser de direita é algo natural para quem nasce e vive trivialmente na sociedade capitalista; ora, não se pode esperar que o pensamento não acompanhe a forma de vida do indivíduo, e a forma de vida no capitalismo é aquela que coloca todos em concorrência e isolamento uns contra os outros. Vida selvagem, pensamento idem.

pobre de direita é um vagabundo

É preciso ter alguma sensibilidade (inata ou provocada, não vem ao caso) pra notar que essa forma de vida não é, digamos assim, tão orgânica quanto a naturalidade haveria de ser, e que poderia ser bem diferente e melhor, para então poder se lançar a um verdadeiro processo de educação dos sentidos e do pensamento, e iniciar e superação da naturalidade social posta para cada indivíduo desde seu nascimento (cf. este discurso do índio Zé Elétrico, em Árido Movie), de modo a desenvolver a crítica e, por fim, se tornar de esquerda.

Tudo se educa em nós, mas educar-se é uma questão que passa por uma necessidade que o indivíduo pode sofrer ou não. Além disso, este processo pode ser mais ou menos lento, doloroso e sempre contraditório, uma vez que a individualidade deixa de corresponder (ainda que tal correspondência seja brutal) à sociabilidade vigente, o que pode não ser muito confortável. E a vida na selva de pedra já é dura demais para ainda suportá-la sem as flores das ilusões e do autoengano, que encobrem e enfeitam os grilhões! O indivíduo pode facilmente preferir embotar a sensibilidade e sabotar o pensamento, gozar e acreditar no próprio cinismo e se dar por satisfeito, ou melhor, por adaptado e convencido de sua escolha.

Daí que não há nada de estranho no pobre que é de direita. Extraordinário seria o contrário.

Aliás, nem é estranho que, ainda que assuma uma posição crítica consciente, muitas vezes o indivíduo vacile e pense ou aja de forma machista, autoritária, possessiva, egoísta, fazendo piadinhas “politicamente incorretas” contra os mais fracos etc. Pois é preciso lutar contra o fascista que mora dentro, nascido na naturalidade social burguesa, e matá-lo no paredão da autocrítica: vencer-se a si mesmo cotidianamente, dado que a sociabilidade cotidiana é determinante da individualidade, de um modo ou de outro.

Isso é só o começo da longa e tortuosa trilha rumo à superação da atual forma de vida, trilha que só pode ser escalada em meio às mais complexas interações com outras individualidades dispostas à luta e a maioria contrária a ela. Pois o próprio indivíduo é, em si mesmo, um complexo, universal e contraditório nódulo na imensa rede humana tecida social e historicamente, em meio a toda sorte de outras tantas contradições que perfazem na vida prática a essência e existência humanas.

Superar as velhas contradições e alcançar o patamar de uma nova humanidade, tanto mais autônoma quanto mais se desgarra da heteronomia natural, e abrir os horizontes de uma vida autêntica: a mais radical, profunda, desejável e razoável tarefa humana. Eis aí a razão de ser da esquerda – mudar o mundo que criamos e recriamos o tempo todo e em sociedade.

Não se trata de esperar que os que virão façam isso, quando nós mesmos estamos vivos aqui e agora. Essa é a tarefa histórica que dá propósito e sentido para a vida. E o que poderia ser mais radical do que estar vivo?

“Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por natureza, desenvolverá sua verdadeira natureza no seio da sociedade humana” – Marx.

 

capitalista pobre