Fernando Pessoa: ultimato à razão

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Assistir Maria Bethânia recitando Ultimatum de “Álvaro de Campos” é de dar nó nas tripas.

Porque não é exatamente um ato majestoso de emprestar sua bela voz a um poeta genial (se bem que não é nada que causa espanto em quem manja o qualé da turma da MPB do dendê).

Pra começo de conversa, essa não é uma poesia genial do pluri-egocêntrico Fernando Pessoa.

Seu ultimato é nitidamente nietzschista. Quase uma caricatura; e seria, se o original fosse mais que isso.

Nietzsche é aquele que aplaudiu o massacre covarde da Comuna de Paris pelas tropas prussianas a pedido de Thiers, que havia acabado de perder a guerra para a mesma Prússia e ainda coroou Guilherme I como Imperador no Palácio de Versalhes. Um punhado de fatos que lançou a outrora revolucionária França na indelével latrina das grandes e irremediáveis ignomínias da história.

Pior que a burguesia francesa se oferecendo de capacho ao seu vencedor e solicitar sua ajuda para chacinar aqueles que lutaram ao seu lado, só mesmo um saxão nanico exaltando as “virtudes heróicas” dos que trucidaram os “bárbaros socialistas franceses”. Um elogio não muito original vindo de um acadêmico do lado-de-lá do Reno, que cultiva taras acerca da própria impotência e realiza sua Vontade alemã ao se oferecer como capacho do capacho.

E o que dizer de seu pimpolho lusitano, que brada contra “vós [socialistas] que confundis o humano com o popular”, para terminar seu manifesto afirmando: “Eu da raça dos navegadores, /…/ eu da raça dos descobridores, /…/ proclamo isso bem alto, saudando abstratamente o infinito”?

(“Saudando abstratamente o infinito”: parece bonito, parece profundo, mas é apenas raso, idiota e brega. Porque não basta saudar o infinito; é preciso fazê-lo de forma abstrata, ou seja, sem saudá-lo de verdade, até porque o infinito é coisa nenhuma. O que se adequa perfeitamente ao que Fernando Pessoa havia acabado de usar para falar de si mesmo: a expressão pomposinha “raça dos descobridores” – com o que ele se vangloria de ser um… português. Ora pois, não é qualquer um que tem pedigree e bigodinho de marinheiro.)

As declarações de desprezo pelo socialismo não provém de nenhuma particularidade pessoal de “Álvaro de Campos”. Poucos anos depois, Fernando Pessoa itself se permitiu demonstrar como e por que um banqueiro é um homem que luta pela emancipação da humanidade ao angariar seus lucros privados, rejeitando as “falsas convenções da sociedade” e obedecendo apenas ao egoísmo “natural” da “espécie humana” (cf.: Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia).

É engraçado notar como o irracionalismo segue uma rota rigorosamente coerente, rumo ao profundo âmago do umbigo filosofante. Tal como seu muso inspirador de fanfarronices, Fernando Persona finalmente se imagina “pura dinamite”, demiurgo do “novo”, abraçando o Atlântico. É o revolucionário de um mundo particular e totalmente privê.

Nada disso é casual. Quando os ideólogos da burguesia, a partir dos eventos históricos que varreram a Europa em 1848, admitiram sua derrota ideológica no campo da razão, lhes restou combater o socialismo com a elegância da abstração, a saudação vazia ao nonsense, o pronunciamento orgulhoso do mundo como mero absurdo e, enfim, a adoração religiosa do magnânimo “Eu”, que rompe todos os grilhões existentes na realidade por meio de bazófias saídas do porão da fantasia, fingindo iconoclastia e esbanjando adulação aos seus “heróis da humanidade”, à “raça” dos que têm pedigree no bolso.

“Álvaro de Campos” é apenas mais uma pessoa dentre tais ideólogos. Não como filósofo, porque é mais fácil vender irracionalismo sob forma de poesia que de filosofia – já que não pretende dizer nenhuma verdade ao dizer que a verdade não existe; donde a poesia ser ruim pretendendo ser poesia filosófica, enquanto a filosofia já foi usada até mesmo pelos cristãos… ou por Nietzsche, “O Anticristo” da filosofia poética que escandalizou o próprio Satã.

E no Brasil, last and least, coube e cabe à música popular (tanto a baiana quanto as congêneres) declamar a crítica à razão com a aura da rebeldia própria da academia. Arte que faz “pensar”. Quem viu Bethânia proferi-la não pode desvê-la, e talvez nem deva tentar.

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Nietzsche
filosofia do “para mim”
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Economia – uma ciência que economiza senso de realidade

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A Economia é a “ciência da riqueza”.
 
Entretanto, o pensamento econômico em geral é muito pobre em termos de compreensão ontológica. É claro que, para os que abraçam o materialismo mais imediato da vidinha empírica da sociedade mercantil burguesa, tal compreensão não passaria de um punhado de desprezíveis filigranas especulativas da filosofia – se bem que os economistas raramente desfrutam na realidade da riqueza que desejam, enquanto defendem o fato de serem privados dela.
 
Por isso, e também por seu caráter imediatamente ideológico/político, é quase um milagre encontrar um “cientista econômico” e uma facção teórica que tenham ao menos noção do que seja o objeto da Economia (ao contrário, é fácil ver a montanha de fanfarrões que reivindica para seus horóscopos econométricos a alcunha de “ciência”, como se isso significasse algo verdadeiramente relevante).
 
Vejamos, por exemplo, um pilar conceitual da turminha “marginalista” que hoje se encontra no “mainstream” da teoria econômica (*).
 
Os marginais afirmam que o valor das mercadorias é subjetivo. Segundo eles, o que determina o valor é a utilidade de um bem para o consumidor. Na medida que o consumidor tem uma oferta maior que sua necessidade, ou que já satisfez esta, o valor do bem cai junto de sua demanda.

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[Um parêntese. É disso aí que eles retiram uma suposta refutação da teoria do valor de Marx.
 
Marx chamava a atenção para a objetividade do valor, ancorado num quantum de trabalho necessário para a produção da mercadoria, donde seu valor ser independente da necessidade, satisfação e estimativas do consumidor.
 
Entretanto, seus críticos entendem que a natureza, que os objetos e as coisas, por si sós, não exalam, estabelecem ou reconhecem valores; apenas sujeitos podem fazê-lo – o que é óbvio.
 
O pequeno detalhe é que Marx não ignora a utilidade dos produtos para o consumidor, mas distingue o simples bem de consumo (que chamou de valor-de-uso) daquele que, antes disso, visa a troca – e que, portanto, traz em si o caráter de mercadoria.
 
É enquanto mercadoria que a questão do valor dos bens se põe; e toda a utilidade do produto enquanto mercadoria é poder ser trocado por outra mercadoria (dinheiro). As necessidades do sujeito simplesmente estão fora de questão aqui.
 
Mas neste artigo não pretendemos e nem precisamos mostrar, a partir do texto de Marx, que a crítica marginalista não o atinge. O que estamos tratando é da cegueira ontológica da idéia de um “valor subjetivo”.]

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Ao confundirem bem de consumo e mercadoria, os economistas periféricos pressupõem que não existe um aspecto objetivo no valor. Eles concebem os aspectos subjetivo e objetivo como mutuamente excludentes e, assim, só lhes resta afirmar a subjetividade.
 
Disso resulta um não-valor, uma vez que é desprovido do principal caractere que o torna válido frente a todos e o distingue do que é mera estimação por parte do umbigo de cada um. Ora, o que constitui um valor é justamente a sua capacidade de ser reconhecido enquanto tal – para além do mero arbítrio subjetivo do indivíduo isolado -, e isso não decorre senão da objetividade de uma produção que só se realiza socialmente.
 
Desse miserável vácuo de entendimento ontológico surge a fantasia de um mercado onde compradores e vendedores devem barganhar até o improvável consenso sobre o que seja o valor da pechincha (que eles ainda confundem com preço), para que somente então a troca possa se realizar. É uma noção ainda mais pobre que a empiria abstrata da “esfera da troca simples de mercadoria” (é como Marx chama o mercado em sua aparência mais imediata e trivial), porque não apenas se limita a fazer da imagem de uma feira de praça o modelo ideal do que seja o conjunto dos diversos, complexos e mundializados mercados mundiais; mas ainda a toma como a própria essência do vaidoso saber teórico a respeito.
 
Contudo, é característica da objetividade (seja ela natural ou social) o fato de se pôr e se impôr à subjetividade, que por sua vez não pode simplesmente permanecer indiferente àquela, mesmo que queira.
 
Donde os economistas excêntricos admitirem, afinal, uma forma de objetividade social, ainda que mística, na figura de um mercado que funciona por meio da lei da oferta e demanda, em dimensão paralela ao âmbito do valor estimativo; e eis que a cisma presunçosa de compradores e vendedores passa a ser co-determinante do valor, numa relação intransitiva com a lei objetiva (que, enquanto lei, não poderia ser também umbilical).
 
O monismo egóico descamba enfim num dualismo ontológico – tal como se víssemos Fichte retroceder a Descartes e se enrolar na questão: sendo o corpo uma coisa material e a alma uma coisa imaterial, como é possível que corpo e alma se relacionem?
 
Mas isso não é mais que desprezíveis filigranas especulativas da filosofia.
 
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* – Não, não estou dizendo que a elite da Economia é formada por delinquentes; ao contrário, nesse lumpesinato científico há vários aristocratas, como Fulano Von isso, Beltrano Von aquilo etc. – a propósito, confira no Google a origem do nome do partido conservador e aristocrático britânico “Tory”.
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Certos valores se levam em bolsas

Ateísmo vs. Agnosticismo

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Facebucking pela rede (anti-)social afora, acabei entrando numa página de ateus e esbarrando numa conversa recheada de comparações entre o “ateísmo gnóstico” – ou ateísmo “forte”, que seria a afirmação da certeza da inexistência de deus – e o “teísmo gnóstico” – ou, simplesmente, : afirmação da certeza da existência de deus.

Os argumentos diziam que estas “certezas” são meras crenças, pois não há como provar cientificamente nem a existência, nem a inexistência de deus.

Postos nesses termos, até que faz o debate parecer ter sentido.

(Vejam que, portanto, o ateu “forte”, o ateu pra valer, é um crente.)

Contra o gnóstico, seja ateu ou crente, se ergue vaidosamente a figura do humilde agnóstico: trata-se do ateu ou crente que afirma sua dúvida acerca de sua capacidade de conhecimento e de qualquer possibilidade de se obter certezas, ao menos nesse assunto.

(E, assim, fica no ar a conclusão de que o crente “fraco”, ou teísta cético, é um ateu.)

Como se pode notar, tudo aqui gira em torno dos sujeitos e da capacidade humana de conhecimento das coisas.

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Sejamos audaciosos: vamos procurar ver como a questão pode ser apreendida do ponto de vista das próprias coisas, ou melhor, da realidade das coisas, que é ou deve ser a mesma realidade dos sujeitos.

Antes disso, devemos lembrar que a pergunta acerca da existência – de deus e de tudo o mais – não pertence ao âmbito de nenhuma ciência, mas sim da ontologia. Nenhum químico, nenhum geógrafo, nenhum matemático coloca em questão o que seja a realidade, pois não se trata de assunto da química, da geografia ou da matemática, etc. Cientistas têm mais o que fazer.

Nosso assunto aqui é filosófico.

Para ser breve como um post de facebook: por definição, o que existe é objetivo, efetivo e repleto de determinações (i.é., concreto), donde possuir aquelas pelas quais se faz sentir. P.ex.: o raio X, tal como o ar, é invisível, mas é possível detectar sua existência através de sua ação, seja por meio da impressão de chapas, seja por observar seus efeitos no desenvolvimento de tumores. Em outras palavras, ele apela aos nossos sentidos, ainda que nossa limitada visão não capte senão os indícios de sua existência.

Nota bene: não estou entrando em nenhuma problemática gnosiológica, mas apontando para a ocorrência de uma relação objetiva que se instaura entre a coisa e o nosso próprio ser (a partir da qual, e somente então, se põe a questão da possibilidade de conhecê-la).

Em outras palavras, a objetividade daquilo que existe está justamente nesse potencial (e na efetivação deste) em constituir uma relação com as outras coisas e conosco também. Ora, isso é algo que se impõe a nós; ou seja, não depende de nenhuma subjetividade para existir e se estabelecer. Portanto, não se trata de uma questão de (limites do) conhecimento.

Alguém pode, e vai, perguntar: é possível tratar do ser sem, ao mesmo tempo (ou antes), tratar do conhecimento do ser?

Eis que entra em cena a filosofia moderna ou, se se quiser, burguesa. A partir da questão acima, ela põe a subjetividade como determinante da objetividade (“ego cogito, ergo sum qui sum” – semelhanças com a Bíblia podem ser apenas coincidências), quer dizer, subordina a questão ontológica à gnosiologia/epistemologia ou simplesmente a deixa de lado.

Assim é que o ateísmo passa a ser um agnosticismo, isto é, que se funde e se confunde com a problemática gnosiológica.

Em outras palavras, o que era questão de bom senso materialista, fincado na objetividade da própria vida humana em sua prática cotidiana, se torna especulação idealista acerca do acesso ou da barreira postos ao pensamento sobre a realidade.

O agnóstico tem dúvidas acerca da realidade porque tem uma crença inabalável na idéia de que a consciência é o ponto de partida para a verdade. O último resquício de sanidade de Descartes, as idéias adventícias, é ultra-remastigado até virar solipsismo em Berkeley, ceticismo em Hume, bolha de fenômenos em Kant e positivismo depois. O mundo girando em torno do umbigo do idealismo.

Isso não é senão o abandono do ateísmo mesmo.

Se ainda existe ateísmo, é graças ao materialismo francês e seus herdeiros; pero no hay chances de entrar em detalhes sobre essa história aqui.

Interessa é notar que hoje o ateísmo, ateísmo in iure et facto, se divide em dois: um que chega e estaciona em Darwin, julgando a sociedade humana como uma extensão da natureza (that’s the World WILD Web, e dá-lhe biologismo por todos os lados – via de regra, é o ateísmo que se manifesta ideologicamente no interior do espectro político de direita); enquanto o outro vai até Marx e trata a sociedade humana como uma nova forma de ser, uma emergência inédita de nova realidade em meio à natureza, sem se confundir com ela.

Graças ao seu materialismo grosseiro, ignorante e inconseqüente, a primeira forma de ateísmo coqueteia livre e serelepe com o idealismo, donde frequentemente se desfazer em agnosticismo.

Enquanto isso, a outra forma – pode parecer surpreendente – não visa destruir o teísmo, mas compreender sua gênese e razão sociais de ser; quando muito, lutar contra seu aspecto ideológico na arena da política, i.é., combater a idéia ali onde ela se faz ação. Pois ele entende que o teísmo, a consciência mítica, a religião e o idealismo não se auto-sustentam, mas existem por conta de uma determinada forma de sociabilidade em que o estranhamento se coloca na relação dos indivíduos com a natureza e especialmente entre si próprios.

De modo que, em verdade vos digo, não é tanto um contrassenso almejar, e até conseguir, provar a não-existência de deus, desde que tal prova tenha caráter ontológico, e não científico. Entretanto, a idéia de que o mundo muda a partir da crítica – seja lá ao que for – é ingênua. Não é o ateísmo, a ontologia ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas, visto que essa consciência provém do mundo em que elas vivem; afinal, “a consciência” nada mais é que a consciência que temos do mundo. Ora, o mundo atual demanda a todos nós que anestesiemos nossa sensibilidade, e isso se consegue não apenas com química, mas também com mitologia (e ambas rendem muito dinheiro, na medida que muitos são os que atendem a essa carência de auto-castração, a esse desejo de desdesejamento, visando satisfazer as suas próprias necessidades humanas cortando estas em sua raiz). Deus é, portanto, antes de tudo um produto e um problema sociais.

Pois o mundo atual é o mundo da sociabilidade do capital ladeira (ou abismo) abaixo, rumo à autodestruição. Isso é o que explica porque, apesar de tanto desenvolvimento científico alcançado, estamos regredindo cada vez mais em termos sociais e ideológicos, ou melhor, em termos humanos.

Este entendimento, como se pode notar, termina por ultrapassar o próprio ateísmo e se torna entendimento histórico – “ciência da história”, nos termos de Marx; no senso comum acadêmico, marxismo (um termo que se torna tão popular quanto maior a ignorância a seu respeito).

(Confira os textos “Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé” e “A importância do Materialismo para a práxis de esquerda“.)

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Enfim: o ateísmo não é a crença na inexistência de deus, derivada de uma crença na possibilidade de se provar (ainda mais por meio da “ciência” – qual delas?) que deus não existe. Ao contrário, ele simplesmente descarta tal “hipótese” como fantasia infantil.

E não é exatamente da mesma forma que qualquer um lidaria com o “problema” da existência de outros tantos “seres imaginários”, tais como duendes? Mas se o agnóstico alegar que esta seria uma “falácia da falsa analogia”, uma vez que duendes são idéias “materiais” (i.é., originados numa composição elaborada pela imaginação de figuras extraídas da experiência sensível, como as de anões, orelhas pontudas, cor verde etc.), enquanto Yahweh é metafísico, resultante de nossas “falhas cognitivas” e de nossa “necessidade de respostas”: tanto pior pra Yahweh e quaisquer outras “entidades metafísicas”, por tudo isso ainda mais absurdas que duendes.

(Para discutirmos o que é isso, a idéia de deus, e como se fabrica tal idéia, confira também: “Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro“, “Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa“, e ainda “Ciência e Religião: Diádocos da Alienação“).

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Para fechar o post, transcrevo e debulho um trecho do comentário de um dos debatedores – que procurava distinguir, mas também relacionar, ateísmo e agnosticismo, e justificar ambas as posições. O sublinhado é meu:

– “Não sei da existência de algum deus (agnóstico) ao mesmo tempo em que não vejo motivos pra acreditar que algum exista (ateu)“.

Perfeito. Justamente porque “não vejo motivos pra acreditar que algum deus exista” (e isso decorre do fato de a posição ateísta partir da realidade na qual, por meio da qual e com a qual nós existimos; e somente esse, é evidente, pode ser um ponto de partida racional), não faz nenhum sentido se indagar acerca das possibilidades de saber da existência de algum deus – tal como faz a posição agnóstica, idealista que é, ao abstrair a realidade e a vida do próprio especulador de idéias.

Donde o agnosticismo, ao acreditar que a questão se dilui na “incapacidade humana” de provar isso ou aquilo, não se põe exatamente “em cima do muro” entre ateus e crentes, mas sim na pocilga da tibieza – lugar próprio de toda sorte e azar de covardes, conciliadores, sicofantas e demais “apartidários” -, o que é pior que estar entre ateus de direita; pois lhe apraz roçar a cachola no lamaçal ridículo dos pseudoproblemas de um pensamento isolado da prática.

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cardápio do ateísmo agnóstico
Eis aí o cardápio eleitoral da gnosiologia: escolha seu pastor.

“O comunismo não funciona”? – ou: As vias irracionalistas do discurso de direita

socialismo-vs-capitalismo

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Uma das lorotas mais repetidas pelas maritacas do grupo Naspers é o mantra que diz:

– “O comunismo não funciona”.

Cante uma centena de vezes e experimente a amplitude cósmica de sua consciência sintonizando o absoluto. Amém.

“Hare Krishna”, rezar o terço, “Nam Myoho Renge Kyo”, hinários do Mestre Irineu, “Marcha Soldado” e “Louro Quer Biscoito” produzem os mesmos efeitos. O negócio da direita, afinal, não é esclarecer, mas aliciar. Pra quê apelar para o cérebro, se o intestino produz resultados rápidos e pungentes?

(Bom, eu prefiro a vagarosa razão. Não tem muito a ver com a velocidade das urgências políticas – e de tudo mais no capitalismo -, mas é honesta e cria laços mais fortes.)

Quando alguém acredita que o comunismo “não funciona”, é porque tem uma noção bem fantasiosa do que seja a sociedade: é uma coisa, ou melhor, uma outra coisa que os indivíduos associados – uma sociedade existente independente dos indivíduos, um “sistema” pairando sobre eles. Durkheim merecia ver isso!

Comunismo e capitalismo não são coisas, não são “modelos”, “sistemas”, esquemas, planejamentos de engenharia social ou anti-social, mas sim formas distintas de associação entre indivíduos, modos herdados e posteriormente reproduzidos por eles para organizarem entre si – no intuito de, simplesmente e antes de tudo o mais, sobreviverem – suas relações com a natureza; ou seja, o trabalho, a divisão do trabalho, a divisão dos produtos do trabalho, a divisão das cacetadas nas cabeças etc.

Portanto, comunismo e capitalismo não são máquinas – que funcionam ou não, pois não são algo distinto dos indivíduos, um algo que “tem de funcionar”.

Também não estamos falando de formas de Estado, de regime político, governos etc. – aliás, assuntos que só os puros de alma crêem que devam ser pensados em termos funcionais, se é que funcionam de qualquer jeito. Quer dizer, funcionam: especialmente quando parece o contrário.

Estamos falando de pessoas vivendo suas vidas e o tempo todo em relação umas com as outras. Será que uma pessoa deve ser avaliada na medida em que “funciona”?

Trata-se de formas de sociabilidade, de um fazer-se cotidiano e entre todos os demais (Marx fala da vida prática de homens vivos e ativos); daí que a avaliação de uma forma social só pode ser realizada com seriedade se levar em conta a sua história, suas entificações geográficas, suas relações econômicas e políticas internas e com as demais sociedades etc. etc.

Ou seja: não nos preocupemos, por exemplo, em virar uma nova Venezuela ou Cuba. Isso só seria possível apagando tudo que faz o Brasil, a Venezuela e Cuba serem exatamente isso – Brasil, Venezuela e Cuba. Nem um jogador de WAR pensa de maneira tão rasa.

Se as tentativas (supondo que realmente foram) dos países ditos socialistas do século XX em transformar a sociedade naufragaram, não é porque os planos de Marx estavam errados. Primeiro, porque Marx não tinha tais planos; e depois, porque esses países existiam na realidade e não na fantasia.

Mas é que tem gente que pensa que a realidade é aquilo que está estampado em suas retinas. É assim que Tomé virou crente: olhou o céu e viu o Sol girar em torno da Terra. E depois viu a Terra girar em torno de seus olhos.

engenharia social


 

É com a inteligência de um plâncton e a honestidade de uma hiena que a direita faz sua campanha incansável para reverter, a ponto de transubstanciar à completa inversão, a imagem que a população tem dela.

E que ótimo que ela voltou ao poder! Pois parece que uns e outros por aí se esqueceram o que é a democracia, a política, o que é e o que quer o poder político: o jogo da burguesia em seu próprio estádio.

Claro que a mídia vai continuar dando, ou vendendo, aquela forcinha; e as redes sociais, como boas chupadoras da cloaca da imprensa que são, vão seguir cotidianamente regurgitando esses despautérios para nos fazer acreditar que a esquerda é que merece ser desqualificada das formas mais aviltantes.

É difícil lidar com esse pessoal quando não se tem experiência nenhuma com o trabalho dos pastores de bois e ovelhas (não me refiro à profissão daqueles que vendem Deus e depois esfregam os rendimentos na cara dos idiotas). Temos que ficar explicando pra eles, pra começar – e toda hora -, que o fato de Lula e Dilma não serem traficantes de cocaína, nióbio e órgãos humanos não significa que o PT é de esquerda. Se você chegar a tocar no assunto em questão – a “função comunista” da sociedade -, já pode comemorar uma vitória.

De resto, não se discute num fórum visando apenas o interlocutor. Fosse por ele, eu já estaria no bar tomando um suco de cevada. Pensem nisso… 🙂

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Çertamemte o capitalismo fumsiona!

Marxismo de cátedra: deturpar para “atualizar” Marx

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Todo aquele que defende um qualquer figurinha marxista ou pós-marxista célebre, do tipo “pensador importante” (leitor/intérprete/comentarista) de Marx [*], frequentemente faz suas apologias usando a noção tosca da cronologia enquanto determinante da veracidade ou utilidade (?) do pensamento, a partir da qual estabelece, por meio do próprio nariz, o momento em que a teoria fundante venceu seu prazo de validade e passou a demandar uma “renovação”. Donde o marketing se apresentar como algo assim: tal ou qual pensador “contribuiu” (com seus dejetos) para “atualizar” a teoria marxista, que por sua própria “dialética” se faz superada (!), bem como pelo fato do capitalismo ter “mudado” (apesar de continuar sendo o capitalismo) dos tempos de Marx pra cá.
 
Sim, hoje o capitalismo esconde Pokemons em telefones celulares, quando o século XIX mal conheceu o telefone fixo. Quanto à dialética, entenda-se a segte. fórmula: algo que está posto é negado, e o que é negado é negado de novo, e então resgata-se algo do algo que foi negado antes e mistura-se com o restolho do que foi negado de sua negação, e por fim tal negação da negação chega à etapa superior da “suprassunção” ou síntese de posição e negação. Agora, basta aplicar esse caixote na realidade (e também na teoria marxiana), e pronto: tudo se enquadra à conveniência da pouca inteligência.
 
Ao contrário dessa teologia mal travestida de materialismo, é preciso notar o seguinte: não há necessidade alguma de “modernizar” (ou pós-modernizar) Marx e escrever “O Capital versão século XXI” – mesmo que sob a pretensão legítima de ultrapassá-lo (se bem que o modus operandi habitual do mercado teorista é costurar calça filosófica de festa junina com retalhos de idéias alheias, selecionadas, arrancadas e rearranjadas na mais perfeita seriedade do puro arbítrio, o que compete no ranking dos best-sellers de ficção sofística com as “novas” teorias que se proclamam substitutas do marxismo) -, mas antes compreendê-lo.
 
Os referenciais filosóficos que Marx elaborou ao fazer a crítica da filosofia, da política e da economia política (isso que hoje se chama de “economia” quando se faz alusão ao aspecto teórico, e “capitalismo” quando se refere ao aspecto prático – eis aí uma mudança significativa…) ofereceriam um ganho de qualidade teórico e ideológico enorme para a esquerda, ao fornecerem parâmetros para análises de casos particulares com a consistência de sua perspectivação no contexto global e de sua avaliação quanto à maior ou menor aproximação do real por meio de constante trânsito crítico entre identificação ideal e prática social.
 
Precisamos, pois, conhecer tais referenciais marxianos, não para “aplicá-los” na realidade (o que nada mais é que uma noção idiota do que seja e pra que serve uma teoria) ou na circunstância específica de cada país, e sim para delinearmos as coordenadas do mapeamento que precisamos tracejar quando buscamos diagnosticar a situação própria do que pretendemos e necessitamos tornar nosso campo de ação; permitindo ainda reconhecermos em tal conjuntura, articulada com suas linhas de força históricas, as tendências de desdobramento dos fatos atuais, de modo a nos indicar quais devem ser as tarefas práticas a se cumprir para uma intervenção social efetiva.
 
Nada disso é preocupação de profissionais da irresponsabilidade ideológica e de fã-clubes da manipulação teórica. Estes não passarão, pois as imposturas afrontam a realidade prática e dela se afastam, só se mantendo em pé enquanto, por meio de pura e simplória soberba, convencem suas platéias de que escrevem certo por linhas tortas e conformadas.


 

* – a lista é infindável e serve de exemplo de como o trabalho teórico, em geral e via de regra (mui especialmente o acadêmico), é produzido com muito mais diletantismo que rigor, intentio recta e honestidade intelectual; afinal, o douto elucubrador tem de ser “original” pra poder ganhar alguma merreca em troca da atividade pensatória, já que esta ocupa um raquítico nicho onanista na divisão do trabalho.

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Artesanato para decorar sua edição do Capital

De como conhecer vinhos é conhecer a própria ignorância

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Uvas Malbec fazem vinhos gostosos.
 
Porém, o que importa no vinho não é a uva, mas antes quem produz e aonde, e mesmo como mistura uvas.
 
Porque o solo é que determina o gosto da uva, e cada região tem características de solo particulares, e cada produtor tem um jeito de fazer também.
 
E ainda outra coisa: nunca uma garrafa de vinho é igual à outra, mesmo quando o nome, o produtor, as uvas e a data de produção são iguais. Aliás, o vinho de uma garrafa muda ao longo do tempo em que você o bebe, e tudo isso é causado por oxidação e coisas afins.
 
Por maior que seja a experiência que alguém possa ter, nunca se conhece vinhos que não se bebeu. Então, não há porque se preocupar em ser “conhecedor” de vinhos. Tem muito mais empáfia nesse negócio que verdadeiramente conhecimento; e quando alguém vem falar de “notas”, “buquê”, “caráter” do vinho e mil outras coisas, e enche esse discurso de adjetivos literários, não faz muito mais que uma poesia disfarçada de saber enologista.
 
Somalierismo é uma literatura metida a besta, e só convém como uma diversão ao se encher bem a cara com um bom vinho.
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socrates (2)
só sei que Sukita é um veneno

 

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Categorias da mente

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Um amigo me perguntou o que é consciência. Não sou psicólogo e não revirei os dicionários, mas curto arriscar elucubrações – mesmo quando o pitaco é um surfe no tsunami da minha ignorância. Eis o rabisco para a férula de vossas críticas:

Antes de tudo, consciência é, digamos assim, uma categoria da mente. É uma central de apreensão de informações trazidas do exterior pelos sentidos, ou que chegam do interior por outras categorias e pela sensibilidade interna.

O importante, portanto, é a mente. Ela é um sistema operacional que o cérebro executa por meio de suas sinapses. Este sistema constitui a subjetividade, conjunto de todas as categorias mentais, quer dizer, “eu”. Vejamos algumas delas.

A mente opera ou manifesta a memória, constituída por imagens e idéias (conteúdo linguístico, não-imagético) que acessamos pela consciência; mas a maior parte de seu conteúdo fica guardada no que alguns chamam de inconsciente.

(Imediatamente se vê por este conteúdo que a atividade mental, apesar de ocorrer por sobre um sistema nervoso configurado em torno de certas rotinas de disparo neuronal, se determina essencialmente pelas diversas instâncias interativas de caráter social, nas quais vamos nos formando desde as primeiras experiências relacionais com objetos, sujeitos e processos humanos ou humanamente mediados.)

Ao lado de tal conteúdo temos a imaginação, responsável por processar as informações da consciência e da memória e produzir novas imagens e idéias. Donde o pensamento ser ato da imaginação sobre o conteúdo da memória e se dar de forma consciente, ou na consciência.

Mas nem toda produção mental se dá por meio da vontade, que é uma categoria ativa da mente.

Sonhar também é ato da imaginação sobre a memória, mas a consciência está, nesse caso, totalmente voltada para si mesma e não recebe as informações do exterior que chegam à mente pelos sentidos. Além disso, o inconsciente sorve quase toda a produção da imaginação, tão logo ela passa pela consciência.

As emoções ou sentimentos também são categorias da mente e se manifestam na interseção da memória, imaginação, consciência e inconsciente. Para lembrar o termo de Descartes, elas são “idéias adventícias“, cuja produção não é determinada pela vontade.

Quanto à razão, não se trata de uma categoria ou faculdade da mente. A razão é um modo objetivo, desantropomorfizado, ontologicamente orientado de pensamento, produto histórico da atividade prática social. [*]

De resto, o que seria aquilo que chamei de “minha ignorância”? É algo realmente meu, de minha mente, ou é uma falta?

A ignorância possui ao menos três níveis, ou há três tipos de ignorância. Primeiro, ela é aquilo que nos é totalmente alheio e desconhecido, e portanto sequer é inconsciente para nós; em segundo lugar, é aquilo que está no inconsciente e não conseguimos trazer à consciência, ou não aparece a ela, senão, no máximo, fragmentos que uma intuição ou sentimento manifesta de forma tortuosa (Freud grita aqui); por fim, é a consciência de que há algo que não nos é consciente, mas nos dá indícios mais ou menos claros de existir (dentro ou fora da mente), de modo que sabemos que não sabemos desse algo.

Para além de tudo isso, me resta começar a ler alguns bons dicionários.

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* – Confira o texto: O homem não é um animal racional, ou: o que é Razão?

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mente vazia
não faça de seu cérebro um apêndice do intestino alheio