O (des)valor da profissão professor

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Nada mais aborrecido que a eterna repetição da lorota romântica que faz elegias absurdas a uma suposta importância fundamental da atividade docente, algo que só é real no mundo do devia-ser: “o professor é aquele que forma o cidadão ético e o profissional do futuro”, “o imperador do Japão se curva frente a um professor”, “aquele que ensina devia ser o mais valorizado dentre os profissionais”, “o professor merece ser idolatrado como um faraó”, “professor é aquele que se doa amorosamente à mais nobre das atividades” etc.
 
Não será através de um tolo auto-engano que os professores vencerão as lutas que travam contra o empresariado sanguessuga da educação mercantil e o Estado (seja qual for a instância de sua autoridade: município, estado ou federação).
 
É preciso reconhecer que a educação é um processo que ultrapassa e muito o lugar da escola, numa amplitude infinitamente maior do que está pressuposto nessa idealização do docente. E também que, na sociedade atual, a atividade do ensino poucas vezes é mais que um adestramento embrutecedor dos indivíduos, para um patamar pouco acima do que há de mais elementar para o mercado de trabalho. Quer dizer: a instituição escolar é bem menos um espaço de formação integral e crítica que de reprodução das ideologias dominantes e da força de trabalho que o capital necessita para sua própria reposição.
 
Assim, também são poucos os professores que efetivamente agregam capacidade considerável de produção de riqueza à força de trabalho – de modo a possuírem, por isso, uma rara valorização acima de outras categorias do trabalho de prestação de serviços (como é o caso de lixeiros, balconistas, atendentes de telemarketing, garçons etc.).
 
E por falar em valor, cabe notar que o salário mínimo, parâmetro mercantil de todo assalariamento fincado na mais simplória pobreza, critério da reles sobrevivência do trabalhador profissionalizado enquanto tal (e não enquanto indivíduo com múltiplas outras necessidades, capacidades e interesses – que só podem ser satisfeitos à custa de sacrifícios de sua “valorização” enquanto profissional), é a medida do quão pleno deve ser o acesso ao mundo humano pelo trabalhador, ainda que ele cultive zelosamente o sonho vazio da posse e fruição de uma verdadeira riqueza. Ao bradar pela “valorização” do profissional, estamos recusando o que diz a etiqueta fixada na carne e alma de um indivíduo condenado a se vender pelo preço que o mercado determina, sem recusar o mesmo sistema mercantil no qual tudo, inclusive pessoas, tem valor e, portanto, preço. É isso que queremos?
 
De modo algum estou dizendo que a categoria deve abaixar a cabeça para a forma ultra-degradante com que é tratada na sociedade capitalista, pois esta pretende que toda categoria de trabalhadores seja igualmente rebaixada. Estou dizendo que a emancipação dos trabalhadores só pode vir da iniciativa e luta dos trabalhadores, jamais da “valorização profissional”.
 
É preciso, pois, ter clareza sobre a fatal contradição entre educação e capitalismo. Isso não garante nenhuma conquista, mas ao menos impede o imobilismo da frustração frente às ilusões pisoteadas e abre o horizonte da grandeza e necessidade de nossa tarefa enquanto educadores e trabalhadores, sem o que os professores estarão se condenando à sempre recorrente penitência viciosa da fantasia conformada na própria humilhação.
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e na escola
Hierarquia da fábrica de trabalhadores assalariados.
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2 comentários sobre “O (des)valor da profissão professor

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