O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

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A imagem que ilustra este texto é uma crítica, ou antes um sarcasmo, a um certo discurso pretensamente emancipador, mas abstrato, subjetivista e especulativo, que circula por aí em movimentos libertários, esquerdistas, identitários etc.

É o discurso do indivíduo isolado cujo umbigo pretende ser parâmetro do que é a realidade. Ou seja, não existe mais verdade objetiva e universal, relativizada e tornada dependente das “narrativas” dos sujeitos.

Porém, ao criticarmos esse discurso “do sujeito”, talvez devêssemos lembrar que há sujeitos oprimidos por trás dele. E também que o discurso de um sujeito, especialmente o de baixa auto-estima, é embrenhado de identificação e afeto (uma vez que certamente ele crê no valor de verdade ou validade do que diz – mesmo quando afirma que “a verdade não existe” etc -; donde, por meio dele, guiar sua prática), o que torna delicada a situação da crítica.

Há ainda que lembrar o estranho costume moderno de se pensar em “autoria” ou propriedade privada de idéias, graças ao qual os indivíduos tratam egocentricamente uma opinião como um filho sob sua posse absoluta, não importa quão “diferente” ou “própria”, quer dizer, torta e errada ela seja; uma corrente umbilical de dura ternura a liga ao baixo ventre do sujeito e a opinião se faz uma extensão discursiva e ao mesmo tempo sensível da pessoa.

De modo que facilmente se confundem nessas imaginações a mensagem e o mensageiro – confusão essa que, aliás, o próprio conteúdo desse discurso trata de afirmar.

Mas será mesmo que deveríamos, por conta de alguma perniciosa condescendência, deixar intocada a barafunda ideológica na cabeça desses sujeitos, cuidando de não ferir seus sentimentos afetuosos por suas bobagens?

Claro que não se trata de cair no mesmo subjetivismo e proceder com desprezo ao indivíduo. Antes disso, cabe reconhecer que cada situação e interlocutor demandam um modo de comunicação que cumpra o objetivo de clareza da mensagem, pois ela é o que importa.

E, então, é preciso mostrar que o pretenso instrumento ideológico relativista de luta dos oprimidos – contra o machismo, o racismo etc. se torna, ao contrário, um meio de reafirmação da opressão.

Pois quando o sujeito é tornado o fundamento da legitimidade e verdade do discurso, todo e qualquer discurso se torna automaticamente legitimado. Aliás, não há mais como se falar em legitimidade. Se cada cultura ou indivíduo é o lugar próprio da justificação e da verdade – e disso resulta uma discordância a mais natural de se esperar -, o que é que pode servir de critério para avaliar qual está certa e possui legitimidade ao reivindicar tal e tal direito?

Se não é possível que discursos contrários ou antagônicos coexistam (pois expressam interesses igualmente contrários ou antagônicos, ainda que o parlador não tenha noção disso e de seus próprios interesses), a questão só pode ser resolvida pela força ante, anti e não-discursiva. As lutas relativistas contra o “eurocentrismo” (eis aí um termo absurdo frente à diversidade cultural dos povos europeus!) dos opressores deságuam, pois, na mais completa afirmação da superioridade da “cultura européia”, do machismo, da heterossexualidade, da raça ariana etc., pois apenas a violência resta como medida de avaliação, quando tudo o mais se relativizou ao ponto subjetivista.

Eis que, mais que apenas em verbo, agora o oprimido acaba por ter de aceitar a “verdade” material do opressor, ainda que o faça manifestando certa desagradável sensação de impotência e de desilusão e resmungue pelos cantos a impressão de ter sido enganado em algum momento dessa história.

Sem uma crítica racional e objetiva não há avanços. E como o pior dos mundos possíveis sempre se torna real, por essa via abre-se todo um campo de oportunidades de cooptação e “desempoderamento” das lutas, justamente o inverso que esse discurso prometia oferecer.

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2 comentários sobre “O discurso pós-moderno enquanto ideologia do opressor

  1. Olá Erik,

    está fora de dúvida que a verdadeira e única emancipação humana é a destruição absoluta do capital. Para isso a classe produtora deve tomar consciência do processo social opressor que a condena ao martírio e de seu lugar fundamental na reprodução material (verdadeira (re-)produção) da sociedade, certo? No entanto, como lidarmos com a opressão de gênero em seu aspecto ideológico que não apenas incomoda, constrange e proíbe, mas mata, degrada e humilha? Sou absolutamente contra as correntes da esquerda pós-moderna, concordo que nelas está justamente a insipiente falta de crítica dos processos materiais que reproduzem a desrazão desumana e desumanizadora do capital. Mas as opressões cotidianas, sejam de gênero, raciais, étnicas, são intoleráveis. Como combater esse ódio unindo a isso a crítica ao capital? Pergunto isso pois convivo muito com pessoas que estão na luta dentro da lógica da “determinação ontopositiva da politicidade”, ou seja, direitos humanos, igualdade, e outros princípios ideológicos mantenedores da política, da sociedade civil, da propriedade privada e do capital. Eu mesmo estudei antropologia e já advoguei dentro dessa lógica e inclusive sou assalariado no poder público (assistência social) ainda hoje, e o debate se dá sempre em torno do pressuposto autoevidente e acrítico da determinação acima. Que método adotar para que o capital e as cretinices ideológicas do machismo, do racismo e da xenofobia sejam duplamente combatidos? uma perspectiva humanista certamente, universal, objetiva, racional. A saída está no marxismo, mas que meios adotar para que as ideias em torno do desplugue da humanidade dos nervos de aço do capital se realize, seja palpável, não apenas aos pós-modernos mas sobretudo à classe trabalhadora, que se encontra mais do que nunca desamparada em termos de ligas, sindicatos, para não falarmos dos paupérrimos partidos. O que acha?

    Abraço!

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