O que é COMUNISMO, afinal? – Para além do senso comum

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Em homenagem aos 200 anos de Karl Marx

 

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Comunismo NÃO É um sistema.

Comunismo é uma forma de sociabilidade que há de ser vivida sobre o pressuposto da produção e reprodução (dos indivíduos e da sociedade) calcada numa forma de propriedade (apropriação dos meios e fins do trabalho) de caráter social, donde o comunismo ser um socialismo.

Por esse mesmo motivo, o comunismo não é e não pode ser falho, pois sociabilidade não possui função.

Quando alguém acredita que o comunismo “não funciona”, é porque tem uma noção bem fantasiosa do que seja a sociedade: é uma coisa, ou melhor, uma outra coisa que os indivíduos associados – uma sociedade existente independente dos indivíduos, um “sistema” pairando sobre eles. Durkheim merecia ver isso!

Comunismo e capitalismo não são coisas, não são “modelos”, “sistemas”, esquemas, planejamentos de engenharia social ou anti-social, mas sim formas distintas de associação entre indivíduos, modos herdados e posteriormente reproduzidos por eles para organizarem entre si – no intuito de, simplesmente e antes de tudo o mais, sobreviverem – suas relações com a natureza; ou seja, o trabalho, a divisão do trabalho, a divisão dos produtos do trabalho etc.

Portanto, comunismo e capitalismo não são máquinas – que funcionam ou não, pois não são algo distinto dos indivíduos, um algo que “tem de funcionar”.

Também não estamos falando de formas de Estado, de regime político, governos etc. – aliás, assuntos que só os puros de alma crêem que devam ser pensados em termos funcionais, se é que funcionam de qualquer jeito. Quer dizer, funcionam: especialmente quando parece o contrário.

Estamos falando de pessoas vivendo suas vidas e o tempo todo em relação umas com as outras. Será que uma pessoa deve ser avaliada na medida em que “funciona”?

Trata-se de formas de sociabilidade, de um fazer-se cotidiano e entre todos os demais (Marx fala da vida prática de homens vivos e ativos); daí que a avaliação de uma forma social só pode ser realizada com seriedade se levar em conta a sua história, sua localização geográfica, suas relações econômicas e políticas internas e com as demais sociedades etc. 

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Não nos preocupemos, por exemplo, em virar uma “nova Venezuela” ou Cuba. Isso só seria possível apagando tudo que faz o Brasil, a Venezuela e Cuba serem exatamente o que são – Brasil, Venezuela e Cuba. Nem um jogador de WAR pensa de maneira tão rasa.

Se as tentativas (supondo que realmente foram) dos países ditos socialistas do século XX em transformar a sociedade naufragaram, não é porque os planos de Marx estavam errados. Primeiro, porque Marx não tinha tais planos; e depois, porque esses países existiam na realidade e não na fantasia.

Ao contrário do que reza o empirismo trivial dos “críticos dos sistemas”, a realidade é muito mais que aquilo que está estampado em nossas retinas. É assim que Tomé virou crente: olhou o céu e viu o Sol girar em torno da Terra. E depois viu a Terra girar em torno de seus olhos.

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Se alguma “ciência” social qualquer considera socialismo e capitalismo como “sistemas sócio-econômicos”, é porque, antes de tudo, além de estar descompromissada com a verdade, está compromissada com seus financiadores. A razão crítica lhe é socialmente vedada.

O relacionamento cotidiano entre indivíduos, a partir do que herdam das gerações passadas (história), em meio a determinados espaços geográficos, onde organizam o trabalho (relações econômicas) e dividem os papéis na produção e os direitos no consumo (política) nada tem de sistemático, muito menos é um modelito social. Estamos falando da prática viva de indivíduos vivos.

E quanto ao aspecto teórico: a ideologia comunista não é um TED ou um stand-up de esquemas e propostas. É uma crítica à forma atual do indivíduo viver em meio a outros indivíduos, no interior da qual se vislumbra uma saída da monstruosidade moderna. 

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Comunismo não é uma “nova política” para aplicar por sobre o capitalismo (a noção mesma de aplicação de teorias, modelos etc. já denuncia a tremenda falta de sentido ontológico que dá consistência ao mingau produtor das sinapses críticas). Por pensar assim que os austrólogos imaginam refutar Marx por meio de problemas que só fazem sentido numa economia capitalista (como, p.ex., o “cálculo econômico” – que o capitalismo não parece saber fazer muito bem, se é que pretende). Projetam no comunismo o que não ultrapassa a caixinha que encerra seus pensamentos.

Comunismo não é alternativa de organização econômica, política ou ideológica do mercado. Não é produção para a troca. Comunismo é sociedade de consumo. Produção para atender as necessidades de consumo dos indivíduos. Ao contrário disso, e do que circula no senso comum, capitalismo é o exato oposto de uma sociedade de consumo; é sociedade mercantil. No capitalismo o consumo dos indivíduos e os próprios indivíduos simplesmente não interessam; importa unicamente valorizar o capital, custe a humanidade e a natureza se preciso for.

Comunismo não é quando o trabalhador tem propriedade dos frutos de seu próprio trabalho; a partir da qual, troca seu produto por outro que necessita mas não produz.

Não se trata de ter posse privada nenhuma do que se produz, com fins a usar o produto como capital ou dinheiro, pois do contrário estaríamos na situação da troca enquanto escambo. Ora, no comunismo não há troca ou produção para o mercado, e antes de tudo porque, nele, ambos são dispensáveis. Uma produção que visa o consumo não mede os produtos entre si, ou seja, prescinde da existência do valor. O que determina a economia  são as necessidades do indivíduo, e elas não são condicionadas por suas capacidades manuais e intelectuais de produção. A satisfação das carências do indivíduo não se subordinam ao que ele pode e consegue produzir.

A economia comunista é baseada no compartilhamento dos produtos de trabalhos que se desenvolvem de acordo com as necessidades, os interesses e gostos dos produtores. Tal compartilhamento é social, e não coletivo. Não há mesmo a necessidade de qualquer contato físico entre os indivíduos que disponibilizam os produtos. Estamos falando de uma sociabilidade pós-capitalista, e não tribal.

O compartilhamento social é uma utopia ou já se entrevê na realidade?

Assim como meio de produção não se confunde com o produto final, tão logo o indivíduo se apropria de um bem designado ao seu consumo pessoal (pois, no comunismo, todo produto se destina ao consumo, ao contrário do que ocorre na sociedade mercantil moderna), não há porque contestar seu direito de posse e usufruto sobre ele. Aliás, conceber o questionamento de tal direito se torna puro nonsense.

Nota bene: não se trata de dizer que “se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”; pois o que é isso, uma classe social, a quem tudo pertenceria? Como poderia uma classe social ser proprietária de quaisquer bens, como uma classe social poderia usufruir deles? Por outro lado: como a produção seria propriedade de cada indivíduo da classe trabalhadora? Como se determinaria a distribuição da parte de cada um no interior da classe trabalhadora sem reduzir o indivíduo ao mero dispêndio de sua força em certa quantidade de tempo trabalhado – ou haveria outra medida do que poderia ser seu direito? Pois essa redução configura a determinação comum aos indivíduos da classe. Essa redução é a redução dos indivíduos à classe, sua abstração enquanto apenas trabalhadores, meros “proprietários” ou provedores de mera força de trabalho. E toda essa questão quando o que interessa é acabar com as classes sociais!

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Comunismo não é uma forma diferente de Estado, é a destruição ou a caducidade do Estado.

“Ora, mas e a ditadura do proletariado?…”

No Manifesto Comunista de 1848 – este que foi o divisor de águas da história moderna, o ano que uma revolução proletária varreu toda a Europa, tornando reacionária e mesquinha a até então iluminista e esclarecida classe burguesa, marcando o início da decadência da sociabilidade do capital –, Marx diz:

— “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade.

/…/ a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas [grifos meus: estamos longe de qualquer hobbesianismo aqui].

Isto naturalmente só poderá realizar-se, a princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”.

Eis aí a democracia como o próprio modo de exercício da ditadura dos trabalhadores. Seu caráter será de autêntica democracia na proporção mesma em que essa ditadura for bem sucedida no que interessa, sua finalidade sine qua non, que lhe dá seu tom próprio e específico: investir o poder político contra a propriedade privada que sustenta a dominação burguesa.

Por fim, emancipada do arraigado moedor social de carne humana, a propriedade privada, os indivíduos podem abolir o tolhimento que as classes sociais, o mercado, o dinheiro, “a economia” etc. lhes impõem, e a sociedade pode se expurgar do gigantesco representante oficial do capital, o Estado:

— “Uma vez desaparecidos os antagonismos de classe no curso do desenvolvimento, e sendo concentrada toda a produção nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe, se se converte por uma revolução em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação – onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”.

É preciso atentar para algo essencial: estamos falando de revolução.

Não há revolução sem que seja preciso tomar o poder material do Estado, porque do contrário, o Estado irá sufocar a revolução, tal como faz com a mais ínfima greve. O Estado sufoca greves porque o Estado é a antítese da revolução, e uma greve é o pré-vestibular desta.

De fato, se não houver o contexto de uma revolução dos trabalhadores, tomar o poder é o mesmo que manter o poder, pois ele apenas muda de mãos. Ora, mas aí a ditadura “do proletariado” não seria ditadura do proletariado, seria ditadura de um grupo em torno de um ditador.

A finalidade da ditadura do proletariado, ao contrário (isto é, no contexto de uma revolução), não é política – no sentido em que visa apenas tornar ineficaz “a oposição” (enquanto mera oposição política) –, e sim social: trata-se, imediatamente, de tornar ineficaz a contra-revolução; mas, acima de tudo, trata-se de sufocar as forças despóticas do capital como um todo. Daí ser o único caminho real, não-utópico, da realização de uma verdadeira democracia, assentada na soberania dos trabalhadores; e esta é a única soberania legítima, uma vez que é calcada nos legítimos produtores do mundo social.

Isso é a revolução, da qual a ditadura do proletariado é apenas um meio. A finalidade imediata da ditadura do proletariado não é política, senão enquanto visa acabar com a própria política. O que pressupõe sua finalidade maior, condição necessária daquela, a socialização da propriedade privada (e eis aqui o que é o essencial, onde está posta a diferença entre comunismo e anarquismo; pois este mira a copa estatal como determinante da raiz social, quando não simplesmente ignora esta – e não é por outra razão que o anarquismo é apropriado pela direita e vira proposta de um capitalismo à là Somália).

Donde a democracia realmente social deve finalmente terminar dissolvendo a si mesma, última forma de Estado e regime de governo, na medida em que o fim da propriedade privada (e portanto das classes sociais) os torna obsoletos, caducos.

Pois a organização da sociedade por quem a produz e reproduz é precisamente a desintegração das classes sociais, ou seja, da parasitagem exercida por quem não trabalha sobre quem trabalha. Não há mais sustentação real para existir um aparato de dominação e nem o exercício desta.

O fim da propriedade privada é não apenas a finalidade, mas também o fim da ditadura do proletariado. E a revolução social é o meio para tornar social a apropriação dos meios e fins da produção. E não haverá outro. 

Sem revolução, nada feito.

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Alguém pode perguntar: “que garantia terei que um governo dos trabalhadores não irá se transformar em uma outra ditadura de novos senhores?”

Nenhuma.

“Garantia” é uma noção criada pelo e usada para o mercado, nada mais que uma promessa para conquistar consumidores e vencer a concorrência. E nem assim o comércio garante realmente alguma coisa (pra qualquer problema existe a “justiça” do consumidor, na qual o indivíduo será mais um entre milhares a tentar reverter uma situação na qual foi lesado). “Garantia” é, portanto, uma noção mais fictícia que real. Nada que existe é garantido.

Mas uma coisa é certa: as galinhas só passam a tomar conta do galinheiro quando este galinheiro está organizado o suficiente para expulsar as raposas que desde sempre o comandaram.

Portanto, a ditadura do proletariado pressupõe uma abertura real à participação popular, sem a qual ela não acontece. E isso não é nada, mas menos ainda é pouco.

Não há ditadores na ditadura do proletariado. A revolução é que orienta o processo: trata-se da sociedade se auto-organizar, a ponto de se despir da necessidade de uma esfera acima dela a comandar-lhe.

Eis a tarefa histórica que devemos a nós mesmos e às futuras gerações. Herdamos esta dívida, e ela só tem crescido, enquanto o prazo se esgota. Pelo que estamos aqui, senão pela humanidade?

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Marx e Engels na tipografia do Manifesto de 1848
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Socialismo “classe média” para barrar a revolução

 

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Interessante notar como aqueles que fazem a “crítica da classe média” se enquadram exatamente no que chamam de “classe média”.

Ou melhor, “exatamente”: pois nada é mais inexato que essa pseudocategoria sociologista.

Essa “classe média” autocrítica, ou talvez crítica de uma “outra” classe média, constitui um bom bocado do eleitorado e da militância das esquerdas pequeno-burguesas, tais como o PT, PCdoB e PSOL, partidos da esquerda limpinha e cheirosa, cujo socialismo (quando ainda há algum) é um mar de flores cristãs que chegará através da paz e do amor.

Revolução? Nem pensar. Esse socialismo chegará pelas mãos da “classe média esclarecida” através de seus representantes políticos enfurnados em conchavos com a burguesia, pois a democracia é bela e o Estado deve pôr em ação políticas que garantam a felicidade “para todos”.

Revolução é utopia, mas querer distribuir renda sem mexer na produção da renda, não…

Por isso, trabalhadores não entram no bonde, pois hoje em dia querem apenas desfrutar de aparelhos celulares e tênis de marca (o socialismo pequeno-burguês é franciscano e prega a renúncia dos pobres ao consumo).

Além disso, a TV, o futebol e a Ambev os hipnotiza, ao lado de Jesus. Donde que os trabalhadores não são mais e nunca serão potencialmente revolucionários; então o negócio é dar-lhes bolsa-esmola e centrar foco na disputa pela “classe média”.

Por isso é que tais socialistas falam da “classe média” tanto quanto o pastor fala do diabo. É uma espécie de narcisismo.

Se esquecem do seguinte:

Os trabalhadores nunca foram revolucionários. Sempre encheram a cara de Faustão, Jesus, Galo, Raposa, redtube, cerveja barata e outras coisas mais.

Assim como faziam os trabalhadores russos antes de derrubarem o Czar.

Não havia Faustão, é certo, mas a TV apenas reforça hoje o que a Igreja já fazia há uns dois mil anos e que, aliás, fazia de forma muito mais eficaz.

Isso impediu alguma das revoluções já ocorridas na história? Não. E por que?

O que é que acontece numa revolução que os caras mais acomodados ao status quo resolvem de repente derrubá-lo?

Não é por outro motivo que o termo é exatamente esse: “revolução”.

A propósito,

“Não é a consciência que determina o ser, mas o ser que determina a consciência” – Marx.

E ainda:

“Toda revolução é impossível, até o momento em que se torna inevitável” – Trotsky.

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de boas na revolução
de boas na revolução

Epistemologia: glacê crítico para decorar ideologias burguesas

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Epistemologia é a área da Filosofia que mais produz asneiras sob a crença de estar pensando de maneira “crítica”.

É o playground predileto dos filósofos da burguesia, de Descartes a Popper et caterva.

Quanto mais absurda e mais enrolada em pseudoproblemas – tais como “de que modo o cérebro, que é uma coisa material, se relaciona com a mente, que é imaterial?”, donde o ceticismo, o relativismo, a negação da razão, a afirmação da Vontade do Führer, a defesa do liberalismo etc. -, mais “crítica” ela se pretende.

Algumas declarações típicas surgiram num debate, e como elas estão adentrando o senso comum, achei que valia a pena rabiscar uns comentários:

– “[É falso] acreditar que o papel da ciência é buscar uma essência ocultada pelas aparências que, se descoberta, proporcionaria um conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”.

Sim, a ciência busca descobrir a essência ou lógica do objeto por sob sua aparência; mas não tem nada a ver com adquirir um “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade” (de fato, um papo estranho). A pessoa que afirma ser a concepção de ~ciência como descoberta~ um “totalitarismo epistemológico” acusa um espantalho; pois pensa que o objeto (seja qual for) a ser descoberto é inerte, donde poderíamos desvelar suas camadas até chegar à sua essência íntima e estável e, então, ter um saber absoluto acerca dele. Ora, isso o “crítico” só pode pensar estacionado à frente da carroça de Parmênides, dizendo amém ao infantilismo ontológico da metafísica. Pois nada que existe está estagnado: tudo está em processo, e quando conhecemos algo da coisa, ela já está adquirindo novas determinações. Ontologicamente, não há como ter “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”. Isso é conversa de sacerdote que imagina possuir o whatsapp de Deus.

– “Há um caráter falseável de toda teoria que almeja a descrição da realidade. Não existe “conhecimento verdadeiro”. O que existe é conhecimento com maior capacidade de sobrevivência a críticas”.

Eis o que pensava Popper. Ele acreditava que teorias não poderiam ser verificadas de forma definitiva, mas acreditava que elas poderiam ser falsificadas assim. Enquanto não fossem falsificadas e fossem resistindo aos testes (e enquanto fossem úteis), ficavam no pódio (ou “paradigma”). O problema dessa conversa definitivista-ao-contrário é que os procedimentos que testam a teoria estão todos embasados em outras teorias, de modo que a falsificação de uma teoria é que pode ser falsa. Em suma, teorias não são verificáveis e nem falseáveis de forma definitiva. Aliás, quem é que está preocupado com isso?

O que mede o caráter “definitivo” do conhecimento não é nenhum laboratório de falsificacionismo, mas sim a necessidade humana e o quanto uma teoria a satisfaz. Por exemplo: a lógica dos agentes infecciosos conhecidos como “vírus” deixou de ser conhecida de modo “definitivo” tão logo o HIV se tornou um problema pandêmico e revelou à ciência que sua lógica era especificamente mais complexa que até então se sabia sobre os vírus. Mesmo assim, tal conhecimento satisfaz a necessidade de combater a maioria deles, e é ele que pode servir de base para decifrarmos a imensa variabilidade genética, o rápido ciclo de replicação e de mutação e demais propriedades específicas do HIV (sobre o qual já se sabe bastante coisa).

– “Todo contato que temos com a realidade já produz um objeto mental construído pelo nosso entendimento, portanto, não é correto afirmar que há uma primazia do objeto em relação ao sujeito”.

Kant regurgitado até virar alfafa sub-idealista. “Todo contato que temos com a realidade ~~produz~~ um objeto mental ~~construído~~ pelo nosso entendimento”. O objeto mental é produzido no contato que temos com a realidade ou ele é construído pelo nosso entendimento? Se é preciso haver contato com a realidade antes de imaginarmos o objeto, é óbvio que há uma primazia da realidade… e lá se vai a tentativa de dizer que a realidade é construída pelo sujeito (uma “crítica” que se desenvolve ainda no maternal).

– “Nossa mente constrói regularidades através de interpretações, não apenas é passiva de uma regularidade dada do objeto”.

Não é “apenas” passiva de uma regularidade dada pelo objeto, mas então reconhece que a regularidade é dada por ele; que, aliás, é o único critério existente pra avaliarmos as interpretações que a mente constrói.

– “A lógica das coisas não é algo dado na realidade, mas sim, construída por uma mente capaz de ‘logicalizar’ [sic] a realidade”.

Uma mente que fornece à realidade a sua lógica! Será que isso é filosofia, ou é religião? Estamos falando de cientistas ou de Deus? De fato, a lógica das coisas não está dada a nós, mas muito menos a construímos. Ela é extraída da realidade (das coisas reais) por meio da investigação, e então é decifrada e, por fim, descoberta. Como disse Marx, se a aparência das coisas correspondesse à sua essência [ou: se a lógica das coisas estivesse naturalmente exposta aos nossos olhos nus], a ciência não seria necessária. Se for pra brincar de “inventar lógicas”, é bem melhor fazer ficção científica que fazer da filosofia e da ciência uma palhaçada que abre alas para o irracionalismo e o anti-humanismo burgueses.

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mas consegue parir Schopenhauer, positivistas etc

Um diálogo maiêutico sobre eurocentrismo e epistemologia com uma acadêmica pós-mod

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Típica figura acadêmica veio me dizer que iria participar de um evento sobre “epistemologia do sul”.

Perguntei: o que é uma “epistemologia do sul”?

Ela respondeu: “em princípio, são críticas às narrativas do colonialismo eurocêntrico”.

– E o que é eurocentrismo?

– “Eurocentrismo é a centralização da ideia de pensamento tal qual ele se forma e se faz na Europa, é o pensamento enquanto centralidade, o chamado pensamento único, dominante, hegemônico”.

– Vamos com calma. Qual idéia de pensamento???

– “A de dominador”.

– Onde isso aparece na epistemologia?

– “Na epistemologia funciona pelo conceito de natureza e no que pode o homem sobre a natureza”.

– Bom, primeiro temos de ver se essa epistemologia eurocêntrica é realmente um constructo cultural de um continente com enormes diferenças culturais em seus tantos povos distintos, se ela é “interesseira” (política) ou não. Daí veremos o que é a tal “crítica ao eurocentrismo” e quão crítica ela é.

– “A crítica ao eurocentrismo passa pela filosofia da natureza, pelo romantismo, pela hermenêutica…”.

– Pra começar, natureza em epistemologia não é a natureza que também chamamos de universo; natureza aqui significa essência, um grupo de atributos fundamentais pra constituir o conceito de um objeto. Nada tem de dominação nisso.

– “O que é essência? Tempão que não ouço isso”.

– Essência: grupo de atributos fundamentais pra constituir o conceito de um objeto.

– “Fundamentais”.

– Sim.

– “Qual o prazo de validade disso?”

– O dia que não mais houver lembrança do objeto nas culturas. Mas deixe-me dar um exemplo: o que é uma mesa? A cor da mesa é um atributo necessário para definir o que uma mesa é? Dizer o que é uma mesa, de modo que o seu ouvinte não confunde isso com uma cadeira ou uma cama, é dizer com precisão o conceito de mesa, que expressa o grupo de atributos fundamentais pra dizer o que é mesa. A cor não é um deles.

– “Vou ver a definição no google e como dizer isso”.

– Eu fui ao Aurélio procurar saber o que é mesa, mas a definição é horrível… então eu mesmo fiz o conceito aqui. Traz aí a do google e depois eu digo a minha.

– “Eu diria que o google traz o contrário do que diriam os antropólogos… móvel composto de um tampo horizontal, que se destina a fins utilitários: refeições, jogos, escrita, costura, apoio etc”.

– Definição ruim, mas melhor que a do Aurélio. Eu digo que mesa é um móvel de superfície plana, material sólido consistente, geralmente sustentado por um ou mais pés (mas tb pendurado por linhas na parede ou teto), cuja função é sitiar refeições, reuniões, estudos etc.

– “É mais uma metáfora do que uma metonímia… os antropólogos dizem que a mesa é um lugar de conversar, que as refeições foram colocadas à mesa pela sociedade ocidental”.

/…/

PS. Talvez alguém diga que eu não expressei o conceito de mesa com precisão, pois eu disse que é um móvel “~geralmente~ sustentado por um ou mais pés (mas tb pendurado por linhas na parede ou teto), cuja função é sitiar refeições, reuniões, estudos ~etc~”.

Há mesas em forma de cubo ou tocos de árvore, sem pés nem penduradas, com fins ritualísticos, necrológicos ou orgiáticos, entre muitos mais.

Mas o que mede a precisão do conceito não é um rol dos tantos atributos que se pode auferir do que existe e do que irá se inventar, bem como dos tantos usos conhecidos, costumeiros, inéditos e imaginários, e sim do tipo e lugar de conversa e do interlocutor em que se comunica o conceito.

Nada disso é pós-modernismo, mas sim uma formulação baseada na ontoprática, na observação da cotidianeidade das regras de uso da linguagem. Isso é o último Wittgenstein, mas já aparece antes em Marx.

 

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O indivíduo em luta - na literatura clássica, moderna e pós-moderna
progresso do estranhamento

J. Chasin, meu mapa para conhecer o universo marxiano

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Outro dia um interpretacionista me disse que leio Marx através das lentes de J. Chasin.

Na verdade, não. Eu apenas aprendi a ler com o Chasin. Agora o que eu leio é o próprio Marx, não fico lendo o que alguém “interpretou” do Marx.

(Inclusive o Chasin ficou devendo quanto à última década de Marx. Mas é que ele morreu antes de entrar aí.)

Depois um amigo me perguntou se, ao estudar no curso em que o Chasin lecionava, cheguei a “desfrutar do baita privilégio de conhecê-lo”.

Sim, conheci.

A historieta é boa, mas é triste, porque não foi um contato amistoso. Quem quiser saber, continua a ler.

Ele estava furando a greve de 98, e eu era um calouro burro. Entrei no movimento estudantil e estava organizando uma assembléia de alunos. Abri a porta durante a aula dele – por que não fiquei por lá, maldito deus??? – e o interrompi para pedir um tempinho e dar o toque nos alunos.

Até aí, tudo bem. Mas eu estava acompanhado de um estudante, militante do PCB, que dizia “o Chasin não pode me ver aqui”. Tretas. O Chasin já ia me responder quando, sei lá porque, meu coleguinha resolve enfatizar meu pedido e dá as caras.

Aquele senhor branquelo, cabeludo, com óculos de televisão na cara e um maço de cigarros aceso na boca, ficou vermelho de cima a baixo e expulsou a gente aos berros: “não quero saber de assembleiazinha nenhuma de…”. Agradeci no mesmo instante e fechei a porta antes dele acabar de falar.

Daí pra frente eu tinha algo mais que as maledicências insolentes de movimento estudantil pra me fazer acreditar que o Chasin fosse um revisionista (afinal, como pode um marxista “defender o FHC contra o PT”? etc.), e passei a alimentar certa repulsa por ele.

Poucos meses depois, Chasin morreu, no dia 31 de dezembro.

Pensei que havia me livrado de um professor hostil.

No ano seguinte, me matriculei na matéria obrigatória que a professora Ester, sua recém-viúva, abalada e deprimida, ministrou naquele semestre.

Lá nas últimas aulas ela passou o “Estatuto Ontológico” pra turma ler. Esse texto mudou tudo na minha cabeça.

Meus colegas ficavam boiando na linguagem do Chasin. Eu fiquei completamente admirado. Ele não era um acadêmico, mas um puta escritor, pintor de idéias, jardineiro das palavras e lutador de navalha teórica. Um limpa-trilhos no estômago; e que vocabulário colorido, que pesquisa de rigor, que autenticidade radical! Como outro colega já havia me advertido: “Chasin é filósofo, os outros são professores de filosofia”.

Foi então que toda aquela terra perdida que é um curso de filosofia passou a fazer sentido pra mim, e tudo mais que consigo compreender. Chasin me apresentou um norte, um critério, um mapa para tudo aquilo que é pensamento e história humanos. Ele me mostrou um Marx completamente diferente, novo, rico, revolucionário sem concessões, um universo inteiro a se desbravar com fascínio, totalmente diferente daquele espantalho insípido de manual – que, com sorte, é o que as pessoas chegam a conhecer. Foi um Marx que não está na interpretação de ninguém; foi aquele que está em seus escritos. E eu fiz essa coisa quase sobrenatural que é pegar o autor e ler o que ele mesmo disse.

E cheguei aqui. Marx me ensinou quase tudo de filosofia, e um tanto de muitas outras coisas por aí. Chasin me ensinou a ler. E com eles, eu eduquei meu pensamento e minha expressão.

Talvez eu tenha tido sorte. Muita gente sofreu e ainda sofre com a morte do Chasin. Eu apenas lamento por não ter aproveitado a oportunidade de sofrer o mesmo. Mas eu tenho a fortuna de cultivar o que ele pensou e escreveu de melhor. Aí, só lamento por quem não leu. Não ouse morrer antes.

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Chasin

Economia – uma ciência que economiza senso de realidade

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A Economia é a “ciência da riqueza”.
 
Entretanto, o pensamento econômico em geral é muito pobre em termos de compreensão ontológica. É claro que, para os que abraçam o materialismo mais imediato da vidinha empírica da sociedade mercantil burguesa, tal compreensão não passaria de um punhado de desprezíveis filigranas especulativas da filosofia – se bem que os economistas raramente desfrutam na realidade da riqueza que desejam, enquanto defendem o fato de serem privados dela.
 
Por isso, e também por seu caráter imediatamente ideológico/político, é quase um milagre encontrar um “cientista econômico” e uma facção teórica que tenham ao menos noção do que seja o objeto da Economia (ao contrário, é fácil ver a montanha de fanfarrões que reivindica para seus horóscopos econométricos a alcunha de “ciência”, como se isso significasse algo verdadeiramente relevante).
 
Vejamos, por exemplo, um pilar conceitual da turminha “marginalista” que hoje se encontra no “mainstream” da teoria econômica (*).
 
Os marginais afirmam que o valor das mercadorias é subjetivo. Segundo eles, o que determina o valor é a utilidade de um bem para o consumidor. Na medida que o consumidor tem uma oferta maior que sua necessidade, ou que já satisfez esta, o valor do bem cai junto de sua demanda.

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[Um parêntese. É disso aí que eles retiram uma suposta refutação da teoria do valor de Marx.
 
Marx chamava a atenção para a objetividade do valor, ancorado num quantum de trabalho necessário para a produção da mercadoria, donde seu valor ser independente da necessidade, satisfação e estimativas do consumidor.
 
Entretanto, seus críticos entendem que a natureza, que os objetos e as coisas, por si sós, não exalam, estabelecem ou reconhecem valores; apenas sujeitos podem fazê-lo – o que é óbvio.
 
O pequeno detalhe é que Marx não ignora a utilidade dos produtos para o consumidor, mas distingue o simples bem de consumo (que chamou de valor-de-uso) daquele que, antes disso, visa a troca – e que, portanto, traz em si o caráter de mercadoria.
 
É enquanto mercadoria que a questão do valor dos bens se põe; e toda a utilidade do produto enquanto mercadoria é poder ser trocado por outra mercadoria (dinheiro). As necessidades do sujeito simplesmente estão fora de questão aqui.
 
Mas neste artigo não pretendemos e nem precisamos mostrar, a partir do texto de Marx, que a crítica marginalista não o atinge. O que estamos tratando é da cegueira ontológica da idéia de um “valor subjetivo”.]

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Ao confundirem bem de consumo e mercadoria, os economistas periféricos pressupõem que não existe um aspecto objetivo no valor. Eles concebem os aspectos subjetivo e objetivo como mutuamente excludentes e, assim, só lhes resta afirmar a subjetividade.
 
Disso resulta um não-valor, uma vez que é desprovido do principal caractere que o torna válido frente a todos e o distingue do que é mera estimação por parte do umbigo de cada um. Ora, o que constitui um valor é justamente a sua capacidade de ser reconhecido enquanto tal – para além do mero arbítrio subjetivo do indivíduo isolado -, e isso não decorre senão da objetividade de uma produção que só se realiza socialmente.
 
Desse miserável vácuo de entendimento ontológico surge a fantasia de um mercado onde compradores e vendedores devem barganhar até o improvável consenso sobre o que seja o valor da pechincha (que eles ainda confundem com preço), para que somente então a troca possa se realizar. É uma noção ainda mais pobre que a empiria abstrata da “esfera da troca simples de mercadoria” (é como Marx chama o mercado em sua aparência mais imediata e trivial), porque não apenas se limita a fazer da imagem de uma feira de praça o modelo ideal do que seja o conjunto dos diversos, complexos e mundializados mercados mundiais; mas ainda a toma como a própria essência do vaidoso saber teórico a respeito.
 
Contudo, é característica da objetividade (seja ela natural ou social) o fato de se pôr e se impôr à subjetividade, que por sua vez não pode simplesmente permanecer indiferente àquela, mesmo que queira.
 
Donde os economistas excêntricos admitirem, afinal, uma forma de objetividade social, ainda que mística, na figura de um mercado que funciona por meio da lei da oferta e demanda, em dimensão paralela ao âmbito do valor estimativo; e eis que a cisma presunçosa de compradores e vendedores passa a ser co-determinante do valor, numa relação intransitiva com a lei objetiva (que, enquanto lei, não poderia ser também umbilical).
 
O monismo egóico descamba enfim num dualismo ontológico – tal como se víssemos Fichte retroceder a Descartes e se enrolar na questão: sendo o corpo uma coisa material e a alma uma coisa imaterial, como é possível que corpo e alma se relacionem?
 
Mas isso não é mais que desprezíveis filigranas especulativas da filosofia.
 
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* – Não, não estou dizendo que a elite da Economia é formada por delinquentes; ao contrário, nesse lumpesinato científico há vários aristocratas, como Fulano Von isso, Beltrano Von aquilo etc. – a propósito, confira no Google a origem do nome do partido conservador e aristocrático britânico “Tory”.
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Certos valores se levam em bolsas

“Interpretar o mundo”: mais interpretação que mundo

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“Interpretar”: eis aí um termo que devia causar menos simpatia e mais suspeita do que o tão difundido inverso.

Interpretação é ganha-pão de sacerdotes, meteorólogos, juristas e demais loroteiros. No latim vulgar, significa tirar do cu.

A princípio, não haveria que se interpretar nada em filosofia e ciência, e muito menos na arte.

Claro que isso se faz necessário na medida que haja algum defeito no objeto teórico ou estético: seja porque foi danificado pelo tempo, seja porque já nasceu assim – afinal, nem Deus foi um autor perfeito.

Em meio às lacunas ou na incompreensibilidade de seu teor, resta ao leitor extrair ele mesmo, “com as ‘suas’ palavras”, o sentido do texto, se houver um. Alguém pode afirmar que isso, senão inevitável, é ao menos interessante e importante do ponto de vista pedagógico (além de ser “democrático”… nesse porralouquismo sub-politicista e nanoburguês, os fetichistas da leitura em-si vão tão longe que chegam a fazer dogma da substituição do conteúdo pelo umbigo do intérprete).

J. Chasin comentou isso em “Superação do Liberalismo” (curso de pós-graduação na UFAL – 1988). Parafraseio: “pedagógico até certo ponto. Melhor é propor o seguinte: diga o que você entendeu do texto usando as palavras, os conceitos e as expressões chaves do texto, porque aquelas expressões foram criadas exatamente para dizer da melhor maneira; ou, ao menos, diga com palavras adequadas. Simplesmente um ‘diga com suas palavras’ é convidar a dizer mal, dizer com palavras piores o que disse o autor”.

Donde que um bom compositor é aquele que aprende a lapidar a escrita para, entre outras coisas, não deixar passar obscuridades que demandem dos leitores o esforço inglório de tapar buracos por si mesmos.

Imperfeições por vezes geram efeitos estéticos interessantes. Mas, como Aristóteles teria dito em sua “Retórica” (III, 1404b), “a virtude da expressão é a clareza”.

Teria dito. A imensa ironia que jaz aqui é que poucos textos são tão confusos quanto os que se atribui ao estagirita. Mas o pensador mais influente da história humana não é, a rigor, simplesmente um completo desconhecido; ele é incognoscível – senão por sua profunda marca no cérebro e na interpretação dos que o ouviam. Sua obra própria desapareceu, e o que chegou a nós e se atribui a ele é apenas um conjunto mal embaralhado das anotações de seus alunos. Como se não bastasse, são traduções de um grego que veio da tradução do árabe que traduzia o grego original.

Certas idéias podem ser, em sua simplicidade, perfeitas, e podem ser repensadas ao longo do tempo sem que os indivíduos sequer saibam tratar-se de reprises – p.ex., a aritmética. Ahora bien: idéias precisam de suportes materiais; mas nada que existe ou pode existir concretamente é perfeito e nem resiste ao tempo. Um pensamento impecável está sujeito à deterioração por conta do destino de suas mídias.

E aí, a interpretação é inescapável?

Se o sujeito tem diante de si um objeto que mantém sua rede ideal – num estado tal de integridade que possibilite deduzir ou, ao menos, dê pistas para nos indicar aquilo que se perdeu ou que é defeituoso de origem -, então ele pode se orientar pelo objeto e compreendê-lo sem ter de recorrer a piruetas hermenéticas. O nome disso não é interpretação, mas leitura imanente, apreensão que respeita a consistência e coerência objetivas que formam a grade significativa do texto em sua inerência peculiar. Isso não é apenas totalmente possível e razoável de se fazer, mas é o que qualquer um faz corriqueiramente em sua própria vida prática diante dos objetos do cotidiano.

Se o objeto está fragmentado de tal modo que se faz necessário imaginar o que pudesse ser sua contextura, não teremos aí um texto compreensível por si mesmo (pois pouco ou quase nada tem a dizer), mas sim o que pode ser matéria-prima para a elaboração de outro objeto. Isso não é interpretação, é criação, poiésis; não é leitura, é produção de texto.

Entre um e outro, resta o debate e a crítica. Seja o que o sujeito possa fazer aqui, é coisa que só pode ter importância no diálogo crítico em comunidade com leitores do mesmo conteúdo e, principalmente, tendo este diante de si o tempo inteiro a servir de parâmetro da interpretação, cuja analítica há de ser matrizada nessa demarcação.

“Configuração esta que em si é autônoma em relação aos modos pelos quais é encarada, de frente ou por vieses, iluminada ou obscurecida no movimento de produção do para nós que é elaborado pelo investigador, já que, no extremo e por absurdo, mesmo se todo observador fosse incapaz de entender o sentido das coisas e dos textos, os nexos ou significados destes não deixariam, por isso, de existir – salvo se admitido, paradoxalmente, que a impotência do sujeito no campo ideal é poder dissolutor no plano real -, donde nexos ou significados efetivos não serem passíveis de dissipação real pelas eventuais incapacidades absolutas ou transitórias dos analistas” (Chasin, “Estatuto Ontológico”).

Buenas. O Aristóteles que conhecemos pode não ser o “verdadeiro” Aristóteles. Mas o que importa é o que foi elaborado a partir de seu pensamento e chegou a nós, e além de não ser pouca coisa, possui razoável integridade. Apesar de tudo, há um objeto. E, afinal, é ele que interessa, e não o que não mais existe – menos ainda o sujeito autor e o sujeito interpretador.

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Um sujeito que deu o que falar