Economia – uma ciência que economiza senso de realidade

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A Economia é a “ciência da riqueza”.
 
Entretanto, o pensamento econômico em geral é muito pobre em termos de compreensão ontológica. É claro que, para os que abraçam o materialismo mais imediato da vidinha empírica da sociedade mercantil burguesa, tal compreensão não passaria de um punhado de desprezíveis filigranas especulativas da filosofia – se bem que os economistas raramente desfrutam na realidade da riqueza que desejam, enquanto defendem o fato de serem privados dela.
 
Por isso, e também por seu caráter imediatamente ideológico/político, é quase um milagre encontrar um “cientista econômico” e uma facção teórica que tenham ao menos noção do que seja o objeto da Economia (ao contrário, é fácil ver a montanha de fanfarrões que reivindica para seus horóscopos econométricos a alcunha de “ciência”, como se isso significasse algo verdadeiramente relevante).
 
Vejamos, por exemplo, um pilar conceitual da turminha “marginalista” que hoje se encontra no “mainstream” da teoria econômica (*).
 
Os marginais afirmam que o valor das mercadorias é subjetivo. Segundo eles, o que determina o valor é a utilidade de um bem para o consumidor. Na medida que o consumidor tem uma oferta maior que sua necessidade, ou que já satisfez esta, o valor do bem cai junto de sua demanda.

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[Um parêntese. É disso aí que eles retiram uma suposta refutação da teoria do valor de Marx.
 
Marx chamava a atenção para a objetividade do valor, ancorado num quantum de trabalho necessário para a produção da mercadoria, donde seu valor ser independente da necessidade, satisfação e estimativas do consumidor.
 
Entretanto, seus críticos entendem que a natureza, que os objetos e as coisas, por si sós, não exalam, estabelecem ou reconhecem valores; apenas sujeitos podem fazê-lo – o que é óbvio.
 
O pequeno detalhe é que Marx não ignora a utilidade dos produtos para o consumidor, mas distingue o simples bem de consumo (que chamou de valor-de-uso) daquele que, antes disso, visa a troca – e que, portanto, traz em si o caráter de mercadoria.
 
É enquanto mercadoria que a questão do valor dos bens se põe; e toda a utilidade do produto enquanto mercadoria é poder ser trocado por outra mercadoria (dinheiro). As necessidades do sujeito simplesmente estão fora de questão aqui.
 
Mas neste artigo não pretendemos e nem precisamos mostrar, a partir do texto de Marx, que a crítica marginalista não o atinge. O que estamos tratando é da cegueira ontológica da idéia de um “valor subjetivo”.]

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Ao confundirem bem de consumo e mercadoria, os economistas periféricos pressupõem que não existe um aspecto objetivo no valor. Eles concebem os aspectos subjetivo e objetivo como mutuamente excludentes e, assim, só lhes resta afirmar a subjetividade.
 
Disso resulta um não-valor, uma vez que é desprovido do principal caractere que o torna válido frente a todos e o distingue do que é mera estimação por parte do umbigo de cada um. Ora, o que constitui um valor é justamente a sua capacidade de ser reconhecido enquanto tal – para além do mero arbítrio subjetivo do indivíduo isolado -, e isso não decorre senão da objetividade de uma produção que só se realiza socialmente.
 
Desse miserável vácuo de entendimento ontológico surge a fantasia de um mercado onde compradores e vendedores devem barganhar até o improvável consenso sobre o que seja o valor da pechincha (que eles ainda confundem com preço), para que somente então a troca possa se realizar. É uma noção ainda mais pobre que a empiria abstrata da “esfera da troca simples de mercadoria” (é como Marx chama o mercado em sua aparência mais imediata e trivial), porque não apenas se limita a fazer da imagem de uma feira de praça o modelo ideal do que seja o conjunto dos diversos, complexos e mundializados mercados mundiais; mas ainda a toma como a própria essência do vaidoso saber teórico a respeito.
 
Contudo, é característica da objetividade (seja ela natural ou social) o fato de se pôr e se impôr à subjetividade, que por sua vez não pode simplesmente permanecer indiferente àquela, mesmo que queira.
 
Donde os economistas excêntricos admitirem, afinal, uma forma de objetividade social, ainda que mística, na figura de um mercado que funciona por meio da lei da oferta e demanda, em dimensão paralela ao âmbito do valor estimativo; e eis que a cisma presunçosa de compradores e vendedores passa a ser co-determinante do valor, numa relação intransitiva com a lei objetiva (que, enquanto lei, não poderia ser também umbilical).
 
O monismo egóico descamba enfim num dualismo ontológico – tal como se víssemos Fichte retroceder a Descartes e se enrolar na questão: sendo o corpo uma coisa material e a alma uma coisa imaterial, como é possível que corpo e alma se relacionem?
 
Mas isso não é mais que desprezíveis filigranas especulativas da filosofia.
 
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* – Não, não estou dizendo que a elite da Economia é formada por delinquentes; ao contrário, nesse lumpesinato científico há vários aristocratas, como Fulano Von isso, Beltrano Von aquilo etc. – a propósito, confira no Google a origem do nome do partido conservador e aristocrático britânico “Tory”.
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Certos valores se levam em bolsas

“Interpretar o mundo”: mais interpretação que mundo

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“Interpretar”: eis aí um termo que devia causar menos simpatia e mais suspeita do que o tão difundido inverso.

Interpretação é ganha-pão de sacerdotes, meteorólogos, juristas e demais loroteiros. No latim vulgar, significa tirar do cu.

A princípio, não haveria que se interpretar nada em filosofia e ciência, e muito menos na arte.

Claro que isso se faz necessário na medida que haja algum defeito no objeto teórico ou estético: seja porque foi danificado pelo tempo, seja porque já nasceu assim – afinal, nem Deus foi um autor perfeito.

Em meio às lacunas ou na incompreensibilidade de seu teor, resta ao leitor extrair ele mesmo, “com as ‘suas’ palavras”, o sentido do texto, se houver um. Alguém pode afirmar que isso, senão inevitável, é ao menos interessante e importante do ponto de vista pedagógico (além de ser “democrático”… nesse porralouquismo sub-politicista e nanoburguês, os fetichistas da leitura em-si vão tão longe que chegam a fazer dogma da substituição do conteúdo pelo umbigo do intérprete).

J. Chasin comentou isso em “Superação do Liberalismo” (curso de pós-graduação na UFAL – 1988). Parafraseio: “pedagógico até certo ponto. Melhor é propor o seguinte: diga o que você entendeu do texto usando as palavras, os conceitos e as expressões chaves do texto, porque aquelas expressões foram criadas exatamente para dizer da melhor maneira; ou, ao menos, diga com palavras adequadas. Simplesmente um ‘diga com suas palavras’ é convidar a dizer mal, dizer com palavras piores o que disse o autor”.

Donde que um bom compositor é aquele que aprende a lapidar a escrita para, entre outras coisas, não deixar passar obscuridades que demandem dos leitores o esforço inglório de tapar buracos por si mesmos.

Imperfeições por vezes geram efeitos estéticos interessantes. Mas, como Aristóteles teria dito em sua “Retórica” (III, 1404b), “a virtude da expressão é a clareza”.

Teria dito. A imensa ironia que jaz aqui é que poucos textos são tão confusos quanto os que se atribui ao estagirita. Mas o pensador mais influente da história humana não é, a rigor, simplesmente um completo desconhecido; ele é incognoscível – senão por sua profunda marca no cérebro e na interpretação dos que o ouviam. Sua obra própria desapareceu, e o que chegou a nós e se atribui a ele é apenas um conjunto mal embaralhado das anotações de seus alunos. Como se não bastasse, são traduções de um grego que veio da tradução do árabe que traduzia o grego original.

Certas idéias podem ser, em sua simplicidade, perfeitas, e podem ser repensadas ao longo do tempo sem que os indivíduos sequer saibam tratar-se de reprises – p.ex., a aritmética. Ahora bien: idéias precisam de suportes materiais; mas nada que existe ou pode existir concretamente é perfeito e nem resiste ao tempo. Um pensamento impecável está sujeito à deterioração por conta do destino de suas mídias.

E aí, a interpretação é inescapável?

Se o sujeito tem diante de si um objeto que mantém sua rede ideal – num estado tal de integridade que possibilite deduzir ou, ao menos, dê pistas para nos indicar aquilo que se perdeu ou que é defeituoso de origem -, então ele pode se orientar pelo objeto e compreendê-lo sem ter de recorrer a piruetas hermenéticas. O nome disso não é interpretação, mas leitura imanente, apreensão que respeita a consistência e coerência objetivas que formam a grade significativa do texto em sua inerência peculiar. Isso não é apenas totalmente possível e razoável de se fazer, mas é o que qualquer um faz corriqueiramente em sua própria vida prática diante dos objetos do cotidiano.

Se o objeto está fragmentado de tal modo que se faz necessário imaginar o que pudesse ser sua contextura, não teremos aí um texto compreensível por si mesmo (pois pouco ou quase nada tem a dizer), mas sim o que pode ser matéria-prima para a elaboração de outro objeto. Isso não é interpretação, é criação, poiésis; não é leitura, é produção de texto.

Entre um e outro, resta o debate e a crítica. Seja o que o sujeito possa fazer aqui, é coisa que só pode ter importância no diálogo crítico em comunidade com leitores do mesmo conteúdo e, principalmente, tendo este diante de si o tempo inteiro a servir de parâmetro da interpretação, cuja analítica há de ser matrizada nessa demarcação.

“Configuração esta que em si é autônoma em relação aos modos pelos quais é encarada, de frente ou por vieses, iluminada ou obscurecida no movimento de produção do para nós que é elaborado pelo investigador, já que, no extremo e por absurdo, mesmo se todo observador fosse incapaz de entender o sentido das coisas e dos textos, os nexos ou significados destes não deixariam, por isso, de existir – salvo se admitido, paradoxalmente, que a impotência do sujeito no campo ideal é poder dissolutor no plano real -, donde nexos ou significados efetivos não serem passíveis de dissipação real pelas eventuais incapacidades absolutas ou transitórias dos analistas” (Chasin, “Estatuto Ontológico”).

Buenas. O Aristóteles que conhecemos pode não ser o “verdadeiro” Aristóteles. Mas o que importa é o que foi elaborado a partir de seu pensamento e chegou a nós, e além de não ser pouca coisa, possui razoável integridade. Apesar de tudo, há um objeto. E, afinal, é ele que interessa, e não o que não mais existe – menos ainda o sujeito autor e o sujeito interpretador.

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Um sujeito que deu o que falar

Ateísmo vs. Agnosticismo

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Facebucking pela rede (anti-)social afora, acabei entrando numa página de ateus e esbarrando numa conversa recheada de comparações entre o “ateísmo gnóstico” – ou ateísmo “forte”, que seria a afirmação da certeza da inexistência de deus – e o “teísmo gnóstico” – ou, simplesmente, : afirmação da certeza da existência de deus.

Os argumentos diziam que estas “certezas” são meras crenças, pois não há como provar cientificamente nem a existência, nem a inexistência de deus.

Postos nesses termos, até que faz o debate parecer ter sentido.

(Vejam que, portanto, o ateu “forte”, o ateu pra valer, é um crente.)

Contra o gnóstico, seja ateu ou crente, se ergue vaidosamente a figura do humilde agnóstico: trata-se do ateu ou crente que afirma sua dúvida acerca de sua capacidade de conhecimento e de qualquer possibilidade de se obter certezas, ao menos nesse assunto.

(E, assim, fica no ar a conclusão de que o crente “fraco”, ou teísta cético, é um ateu.)

Como se pode notar, tudo aqui gira em torno dos sujeitos e da capacidade humana de conhecimento das coisas.

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Sejamos audaciosos: vamos procurar ver como a questão pode ser apreendida do ponto de vista das próprias coisas, ou melhor, da realidade das coisas, que é ou deve ser a mesma realidade dos sujeitos.

Antes disso, devemos lembrar que a pergunta acerca da existência – de deus e de tudo o mais – não pertence ao âmbito de nenhuma ciência, mas sim da ontologia. Nenhum químico, nenhum geógrafo, nenhum matemático coloca em questão o que seja a realidade, pois não se trata de assunto da química, da geografia ou da matemática, etc. Cientistas têm mais o que fazer.

Nosso assunto aqui é filosófico.

Para ser breve como um post de facebook: por definição, o que existe é objetivo, efetivo e repleto de determinações (i.é., concreto), donde possuir aquelas pelas quais se faz sentir. P.ex.: o raio X, tal como o ar, é invisível, mas é possível detectar sua existência através de sua ação, seja por meio da impressão de chapas, seja por observar seus efeitos no desenvolvimento de tumores. Em outras palavras, ele apela aos nossos sentidos, ainda que nossa limitada visão não capte senão os indícios de sua existência.

Nota bene: não estou entrando em nenhuma problemática gnosiológica, mas apontando para a ocorrência de uma relação objetiva que se instaura entre a coisa e o nosso próprio ser (a partir da qual, e somente então, se põe a questão da possibilidade de conhecê-la).

Em outras palavras, a objetividade daquilo que existe está justamente nesse potencial (e na efetivação deste) em constituir uma relação com as outras coisas e conosco também. Ora, isso é algo que se impõe a nós; ou seja, não depende de nenhuma subjetividade para existir e se estabelecer. Portanto, não se trata de uma questão de (limites do) conhecimento.

Alguém pode, e vai, perguntar: é possível tratar do ser sem, ao mesmo tempo (ou antes), tratar do conhecimento do ser?

Eis que entra em cena a filosofia moderna ou, se se quiser, burguesa. A partir da questão acima, ela põe a subjetividade como determinante da objetividade (“ego cogito, ergo sum qui sum” – semelhanças com a Bíblia podem ser apenas coincidências), quer dizer, subordina a questão ontológica à gnosiologia/epistemologia ou simplesmente a deixa de lado.

Assim é que o ateísmo passa a ser um agnosticismo, isto é, que se funde e se confunde com a problemática gnosiológica.

Em outras palavras, o que era questão de bom senso materialista, fincado na objetividade da própria vida humana em sua prática cotidiana, se torna especulação idealista acerca do acesso ou da barreira postos ao pensamento sobre a realidade.

O agnóstico tem dúvidas acerca da realidade porque tem uma crença inabalável na idéia de que a consciência é o ponto de partida para a verdade. O último resquício de sanidade de Descartes, as idéias adventícias, é ultra-remastigado até virar solipsismo em Berkeley, ceticismo em Hume, bolha de fenômenos em Kant e positivismo depois. O mundo girando em torno do umbigo do idealismo.

Isso não é senão o abandono do ateísmo mesmo.

Se ainda existe ateísmo, é graças ao materialismo francês e seus herdeiros; pero no hay chances de entrar em detalhes sobre essa história aqui.

Interessa é notar que hoje o ateísmo, ateísmo in iure et facto, se divide em dois: um que chega e estaciona em Darwin, julgando a sociedade humana como uma extensão da natureza (that’s the World WILD Web, e dá-lhe biologismo por todos os lados – via de regra, é o ateísmo que se manifesta ideologicamente no interior do espectro político de direita); enquanto o outro vai até Marx e trata a sociedade humana como uma nova forma de ser, uma emergência inédita de nova realidade em meio à natureza, sem se confundir com ela.

Graças ao seu materialismo grosseiro, ignorante e inconseqüente, a primeira forma de ateísmo coqueteia livre e serelepe com o idealismo, donde frequentemente se desfazer em agnosticismo.

Enquanto isso, a outra forma – pode parecer surpreendente – não visa destruir o teísmo, mas compreender sua gênese e razão sociais de ser; quando muito, lutar contra seu aspecto ideológico na arena da política, i.é., combater a idéia ali onde ela se faz ação. Pois ele entende que o teísmo, a consciência mítica, a religião e o idealismo não se auto-sustentam, mas existem por conta de uma determinada forma de sociabilidade em que o estranhamento se coloca na relação dos indivíduos com a natureza e especialmente entre si próprios.

De modo que, em verdade vos digo, não é tanto um contrassenso almejar, e até conseguir, provar a não-existência de deus, desde que tal prova tenha caráter ontológico, e não científico. Entretanto, a idéia de que o mundo muda a partir da crítica – seja lá ao que for – é ingênua. Não é o ateísmo, a ontologia ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas, visto que essa consciência provém do mundo em que elas vivem; afinal, “a consciência” nada mais é que a consciência que temos do mundo. Ora, o mundo atual demanda a todos nós que anestesiemos nossa sensibilidade, e isso se consegue não apenas com química, mas também com mitologia (e ambas rendem muito dinheiro, na medida que muitos são os que atendem a essa carência de auto-castração, a esse desejo de desdesejamento, visando satisfazer as suas próprias necessidades humanas cortando estas em sua raiz). Deus é, portanto, antes de tudo um produto e um problema sociais.

Pois o mundo atual é o mundo da sociabilidade do capital ladeira (ou abismo) abaixo, rumo à autodestruição. Isso é o que explica porque, apesar de tanto desenvolvimento científico alcançado, estamos regredindo cada vez mais em termos sociais e ideológicos, ou melhor, em termos humanos.

Este entendimento, como se pode notar, termina por ultrapassar o próprio ateísmo e se torna entendimento histórico – “ciência da história”, nos termos de Marx; no senso comum acadêmico, marxismo (um termo que se torna tão popular quanto maior a ignorância a seu respeito).

(Confira os textos “Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé” e “A importância do Materialismo para a práxis de esquerda“.)

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Enfim: o ateísmo não é a crença na inexistência de deus, derivada de uma crença na possibilidade de se provar (ainda mais por meio da “ciência” – qual delas?) que deus não existe. Ao contrário, ele simplesmente descarta tal “hipótese” como fantasia infantil.

E não é exatamente da mesma forma que qualquer um lidaria com o “problema” da existência de outros tantos “seres imaginários”, tais como duendes? Mas se o agnóstico alegar que esta seria uma “falácia da falsa analogia”, uma vez que duendes são idéias “materiais” (i.é., originados numa composição elaborada pela imaginação de figuras extraídas da experiência sensível, como as de anões, orelhas pontudas, cor verde etc.), enquanto Yahweh é metafísico, resultante de nossas “falhas cognitivas” e de nossa “necessidade de respostas”: tanto pior pra Yahweh e quaisquer outras “entidades metafísicas”, por tudo isso ainda mais absurdas que duendes.

(Para discutirmos o que é isso, a idéia de deus, e como se fabrica tal idéia, confira também: “Você não pode provar que Deus não existe nem o Minotauro“, “Perfeição e Existência de Deus segundo Descartes: uma prova falaciosa“, e ainda “Ciência e Religião: Diádocos da Alienação“).

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Para fechar o post, transcrevo e debulho um trecho do comentário de um dos debatedores – que procurava distinguir, mas também relacionar, ateísmo e agnosticismo, e justificar ambas as posições. O sublinhado é meu:

– “Não sei da existência de algum deus (agnóstico) ao mesmo tempo em que não vejo motivos pra acreditar que algum exista (ateu)“.

Perfeito. Justamente porque “não vejo motivos pra acreditar que algum deus exista” (e isso decorre do fato de a posição ateísta partir da realidade na qual, por meio da qual e com a qual nós existimos; e somente esse, é evidente, pode ser um ponto de partida racional), não faz nenhum sentido se indagar acerca das possibilidades de saber da existência de algum deus – tal como faz a posição agnóstica, idealista que é, ao abstrair a realidade e a vida do próprio especulador de idéias.

Donde o agnosticismo, ao acreditar que a questão se dilui na “incapacidade humana” de provar isso ou aquilo, não se põe exatamente “em cima do muro” entre ateus e crentes, mas sim na pocilga da tibieza – lugar próprio de toda sorte e azar de covardes, conciliadores, sicofantas e demais “apartidários” -, o que é pior que estar entre ateus de direita; pois lhe apraz roçar a cachola no lamaçal ridículo dos pseudoproblemas de um pensamento isolado da prática.

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Eis aí o cardápio eleitoral da gnosiologia: escolha seu pastor.

A humanidade encalhada sobre sua tragédia

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A primeira forma de objetividade a se apresentar enquanto realidade é a natureza, na qual e sobre a qual se eleva uma segunda, desta vez social: é a partir da natureza que surge o homem, por meio da qual ele vive e ele cria aquela nova objetividade.

O homem é imediatamente ser natural, e portanto material, corpóreo, objetividade sensível e concreta. Fundado na materialidade, ergue o espírito.

Não se trata jamais de um simples fantasma envolto em uma casca carnal, a ele estranha e da qual deveria paulatinamente se livrar. Ao contrário, o fascinante no homem não é que possua espírito, mas que o produza.

Muito antes de supormos haver uma oposição entre nossa natureza corpórea (matéria) e nosso espírito (consciência, linguagem, imaginação e memória etc.), é preciso notarmos que, sem a primeira, é impossível haver o segundo.

O que é demonstrado com toda evidência pela prática.

Por meio dela, e cotidianamente, o ser imediatamente natural se faz mediatamente humano, quer dizer, ser histórico.

Emergência inédita a constituir a realidade a partir e ao lado da natureza, pois não se confunde com ela; ao inverso, o homem desdobra potencialidades presentes em ambos, que a natureza mesma jamais teria a diligência necessária para fazê-lo.

Donde transformar a natureza em cultura, a matéria em espírito, árvores em livros, montanhas em mísseis. O homem é o verdadeiro ser sobrenatural.

Mas o timão que dirige sua entificação histórica não está em suas mãos (e se é verdade que nunca esteve antes, delas se distancia ainda mais na atualidade), senão da mais brutal casualidade.

Se os indivíduos que, por meio de sua prática, sua atividade sensível, seu trabalho, cuidam de produzir e reproduzir cotidianamente a existência do mundo não se organizarem para orientar a nave humana – esta mesma que nos permite recitar o breve capítulo do espírito na longa epopéia material do cosmos -, o mar bravo fechará o horizonte da humanidade à deriva.

Pois a História não é um caminho a se seguir, quando ela é uma trilha a se abrir. No instante que a janela da História se escancara à nossa frente, ela nos impõe decidir por uma escolha: fazer a História – ou sofrê-la, sabe-se lá por quanto tempo.

O ser que se autoproduz por sobre a natureza não possui hoje a dinâmica de conduzir sua autoprodução. Teremos tempo para impedir que ela termine de se tornar a nossa autodestruição? O homem que humaniza a natureza irá, algum dia, humanizar a si mesmo?

Sairemos da heteronomia de nossa pré-história (Marx) e cumpriremos a mais difícil e importante tarefa histórica de toda a nossa História? Revolucionaremos o mundo de modo a engendrar o indivíduo autenticamente humano?

Nada impede que desistamos de nós mesmos e afundemos no chorume de nossos sangue e merda. Já não estamos mergulhados nele até o nariz?

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Propriedade privada sob o capitalismo: o auge anti-humanista de um oxímoro

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Quando se fala em “propriedade privada” e o fulano não pensa nas próprias ceroulas e no sofá da sala, às vezes surge-lhe na mente os dizeres do genial Jean-Jacques Rousseau em sua “Origem da Desigualdade entre os Homens“:

– “O primeiro que tendo cercado um terreno se lembrou de dizer: ‘Isto é meu!’, e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou tapando os buracos, tivesse gritado aos seus semelhantes: ‘Livrai-vos de escutar esse impostor; estareis perdido se esquecerdes que os frutos são de todos, e a terra de ninguém!’

No entanto, é preciso chamar-lhe a atenção para o fato de Rousseau não estar falando da propriedade privada moderna, capitalista, burguesa, mas sim de uma forma anterior – ligada à, digamos assim, posse da terra, donde a produção ser ainda determinada pela natureza: é a relação entre o sujeito que se apropria da natureza por meio de seu trabalho, por um lado, e a natureza mesma como fonte e meios do trabalho, por outro.

Por isso, nada mais ingênuo que citar Rousseau ao bradar contra a propriedade privada atual, imaginando que esta seja como um sítio cercado de arame farpado, um quintal nos fundos do barraco ou um vaso de coentro na área de serviço do cubículo apartamental.

A propriedade privada moderna não é imóvel como um chão. Não é uma fazendinha ou um lote vago no subúrbio; não é sequer uma coisa. A propriedade privada capitalista é a relação social – estabelecida há uns poucos séculos atrás por meio da mais bruta violência (e mantida hoje pelo Estado e seu aparato repressivo envernizado pelos salmos do Direito – para quê mais eles servem? -, o que revela na prática o quão absurda é a idéia de um “anarcocapitalismo”) – na qual e pela qual o trabalhador se encontra totalmente despossuído das fontes e dos meios de seu trabalho.

Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade” (Marx & Engels, “Manifesto”).

É assim que a propriedade privada, de seu anterior modo de existência na mais rústica materialidade, se torna totalmente espiritual, a ponto de poder ser agora traduzida em um objeto que não é uma coisa, que não se confunde e nem se revela naquilo que se apresenta trivialmente no cotidiano de mão em mão e nos bolsos das pessoas, mas é a representação da equivalência universal do trabalho e da produção tornados indiferentes e abstratos: o dinheiro.

Atenção: não se trata do trocado que fulano possui no porta-moedas.

A propriedade privada burguesa produz riqueza como nenhuma outra. Mas a riqueza que ela visa produzir e reproduzir não é a que os homens hão de eventualmente desfrutar e principalmente desperdiçar ou simplesmente destruir. Terra, ferramentas, máquinas, fábricas, trabalhadores, produtos úteis às necessidades de consumo humano etc, tudo isso são apenas meios circunstanciais. A produção capitalista visa a “essência” da riqueza, a riqueza enquanto tal, abstrata, imaterial, insensível, em sua pura espiritualidade; dispensando aqui maiores filigranas, é o que se diz com os termos lucro, valorização de capital, acumulação, dinheiro que faz dinheiro, D – D’ etc.

Um espírito que amaldiçoa sua própria carne, que lança a ela a injúria do pecado e a condena ao açoite da auto-imolação, na piedosa e brutal esperança de se elevar ao éter imaculado que jaz na destruição final do corpo – é um espírito maligno: eis que o homem se fragmenta num dualismo de auto-estranhamento e auto-inimizade.

Temei o Senhor: in Gold we trust.

A propriedade privada chega, enfim, ao seu auge histórico, sua pura maturidade, quando o oxímoro se torna efetividade sensível e contundente: uma apropriação que é completa desapropriação, pois toda produção é social, mas sob a propriedade privada ela é privatizada e a sociedade se torna seu esquálido servo.

Assim se transtorna a sociedade num caráter anti-social, em que todos são postos contra todos; o mundo humano torcido de cabeça pra baixo e tornado hostil à natureza e à própria humanidade.

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A subjetividade dos valores em Marx e na Áustria

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Segundo diz a “economia” austrológica, Marx nega o caráter subjetivo do valor.

Ao contrário disso, é óbvio para Marx que apenas sujeitos podem reconhecer e atribuir todo tipo de valor a qualquer coisa.

Objetos, coisas, animais etc. não reconhecem valores. Neste sentido, valores são subjetivos.

PORÉM os valores só são valores porque ultrapassam a subjetividade individual e se estabelecem enquanto objetividade social.

Isso não ocorre apenas por meio de relações intersubjetivas, mas também, e principalmente, objetivas; não apenas com outros sujeitos, mas também com objetos produzidos pelo trabalho ou coisas da natureza com que nos defrontamos.

Por exemplo, e pra falar de valores bem “subjetivos” ou “intersubjetivos”, o ato de produzir gratuita ou interesseiramente uma lesão física em alguém é reconhecido na dimensão dos chamados “valores morais” pelo nome de “violência”, e é identificado como um ato censurável, dada sua qualidade má, deletéria, donde ser proibido em qualquer código moral de qualquer cultura que houver (ou, ao menos, naquelas que os indivíduos são reconhecidos como membros de uma mesma coletividade). Por que? Tal semelhança é pura coincidência entre sujeitos e culturas, ou o valor decorre de relações objetivas, envolvendo um corpo físico e um instrumento físico, bem como indivíduos realmente existentes enquanto membros de um grupo social realmente existente, relações essas que explicam tal “coincidência”?

Em suma, e de acordo com Marx, valores são produtos ONTOLÓGICOS da atividade social.

Os austrólogos, no entanto, pensam ser o valor um fenômeno psicológico. Ou seja, o que pensam ser assunto da economia é o que se leva a consultórios de psicologia.

Ora: uma coisa qualquer, cujo valor próprio não é próprio (pois eu simplesmente estimo, por minha própria conta e risco, que ele possua tal valor) não tem, a princípio, nenhuma possibilidade de fazer valer suas qualidades perante outros sujeitos, donde não servir pra nada. Exceto se não atribuo a ele tal valor, de acordo com meu umbigo, mas reconheço nele este valor que lhe é próprio (i.é., decorrente de suas propriedades objetivas) e que se oferece ao demais, ainda que não sejam capazes de reconhecê-lo ou não estejam interessados nele.

Enquanto isso, toda a questão do que é valor (e também do que é preço) se confunde na cabeça neoliberal num subjetivismo só. Pura derivação do querer e das escolhas individuais perante as mercadorias; apenas uma questão de fôro íntimo que nada tem para nos informar de coisa alguma, pois o embate entre os agentes de um mercado de solipsistas pode resultar em qualquer coisa, independente do que foi o mercado passado e seus preços.

É tal como acontece com qualquer proposição subjetivista: cai em total e inútil misticismo.

Mais valeria a leitura prévia de Marx, antes de pretender criticá-lo e formular teorias econômicas; entretanto, ao sudeste da Alemanha nenhum valor também se encontrará, pois o objetivo da austrologia não é mais que balir uma apologia chinfrim do capitalismo.

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PS. Noutro lugar eu havia tratado a questão nos segtes. termos:

O liberalismo austríaco [é] um liberalismo subjetivista. Os aristocratas da ideologia econômica de sala de espera dos consultórios de odontólogos afirmam que o valor das mercadorias provém da percepção que o sujeito tem da utilidade de um bem; isto é, o sujeito ESTIMA o valor do produto a partir de sua necessidade de consumí-lo (ou de se livrar dele).

É a famosa patranha herdada de Böhm-Bawerk: o “valor subjetivo” – aquele que leva comprador e vendedor à mil formas de barganhas, pechinchas, depreciação da mercadoria por quem a quer ou necessita comprar e louvores por parte de quem deseja ou precisa se desvencilhar do trambolho.

É o seu ursinho de estimação como parâmetro do valor ~versus~ o ursinho daquele com quem você deseja traficar mercadorias uma com outra (por exemplo, um bem de uso por dinheiro).

Como o consumidor consegue traduzir sua necessidade em um valor monetário? Quantos reais custa a necessidade? Como ele e o vendedor chegam a um acordo, dado que o vendedor estima o valor da mercadoria por sua necessidade de vendê-la, e como ambos conseguem decidir quanto vale o dinheiro? Eis aí um punhado de questões que não interessam, pois a mão invisível do deus mercado – é o que Marx chamava de fetiche da sociedade mercantil ou “fetichismo da mercadoria” – há de resolver isso.

Pois, se o valor é estimado a partir das necessidades e do querer do sujeito, nada aponta para um consenso entre ambas as partes quanto ao valor; só se pode contar com a vontade de ambos em fazer a troca. Para sorte deles, ninguém questiona o valor que está estampado no dinheiro, pois é preciso haver um valor objetivo (e é isso que pode fazer um valor realmente dotado de validade) pra servir aos indivíduos como critério do que é uma mercadoria barata ou cara.

Ou será que o umbigo de Böhm-Bawerk refutou Marx? Assim:

“Acho que Y vale X” = Y vale X.

Ou: acho que 10 reais valem 100 reais, “LOGO” 10 reais valem 100 reais.

Ora, se a medida do valor é o umbigo do sujeito, não há nenhuma possibilidade de se fazer um “cálculo econômico” (e nem mesmo haver mercado) – exceto se admitir-se que a relação de troca é uma relação de força e o valor é imposto por um dos lados ou por fora da troca mesma.

É completamente anti-ontológico: do subjetivismo PURO é preciso que os economistrólogos saltem para a PURA objetividade do valor, isto é, para a “plena regulagem pela oferta e demanda”. E lá se vai a patranha pelo ralo.

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Heidegger versus Marx, ou: de como interpretacionar é cambalhotar as idéias

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É incrível como esta simples afirmação se mantém atual:

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo“.

Você não apenas está careca de saber que foi Marx quem a disse, mas sabe onde, quando, como, porque etc. Né? É. Mais ou menos. Ok.

Aí vem Heidegger e tenta dar rasteira no homem com um “entretanto”: tal enunciado dependeria, antes de tudo, de uma interpretação acerca da filosofia, do mundo etc. e, portanto, não teria legítima autoridade para dizer qual seria “a questão” diante de outras interpretações.

Enquanto Heidegger demonstra, por meio dessa crítica a Marx, que ele mesmo e sua crítica tampouco poderiam possuir legitimidade e autoridade para criticar seja o que for – pois mergulha no interpretacionismo como fundamento do discurso, na dissolução da objetividade num subjetivismo absoluto (“a realidade sou eu”, “ser é perceber” etc) -, Marx não está criticando o ato de se pensar, interpretar e criticar o mundo, mas a idéia de que basta fazer isso para que ele mude.

Ora, quem pensa uma coisa dessas? Não é essa a pergunta, e sim “quem não pensa dessa forma?”.

De fato, por todos os lados, não faltam “críticos da consciência” alheia. Fazem a crítica do que os outros pensam e acham que, se todos pensarem de forma “crítica”, o mundo muda e vira um paraíso.

Ainda assim, as novas idéias assistem o mundo continuar afundando e piorar. Então, o que fazem os interpretacionistas? “Repensam” o mundo, criam eufemismos, espalham aspas e hífens; e o mendigo passa a ter a dignidade de ser, agora, um “morador” de rua. Mude a cabeça, pense positivo, leia a Bíblia, repita “eu sou 100%” diante do espelho, interprete o mundo de maneira “diferente”. Talvez, e ao menos, a “sua” realidade muda. É só ver como acontece com a de quem avança no alzheimer.

Nota bene. A crítica de Marx é a denúncia de um pensamento que faz interpretações e críticas sem qualquer critério na realidade, mas apenas em si mesmo.

O próprio Heidegger jura ser necessário interpretar o mundo de uma forma qualquer – e isso diante de sua desgraça evidente – para dizer que é preciso transformá-lo.

Se Heidegger fosse judeu, poderia ter beneficiado a história do pensamento humano simplesmente por não poder ter pensado e dito nada do que pensou e disse; pois os judeus possuíam critérios para pensarem o mundo, algo do qual dependia a possibilidade de continuarem respirando e, portanto, não apenas era totalmente independente do que pensavam e interpretavam, mas ainda era o que lhes permitia distinguir o que seria uma interpretação razoável do mundo e o que era esse monte de sofismas que Heidegger chamava de “filosofia”.

Só que Heidegger não era judeu, e sim Heidegger, o filósofo que pensava para Hitler. Nada melhor que um interpretacionismo para justificar a barbárie.

E o que aconteceu de lá pra cá? O idealismo que Marx arrasou e que Heidegger reafirmou – como se nada houvesse acontecido e, pior ainda, contra o próprio Marx – venceu a disputa ideológica.

Até o marxismo chega a ser neo-hegeliano: “a ideologia” impede os trabalhadores de se revoltarem, etc. Adeus, materialismo!

Estamos sob um “imperialismo da conscientização”. E quando você ouve falar da “hegemonia do marxismo cultural”, você está escutando o ecos da crítica de Heidegger: “finja (se possível, para si mesmo também) que está criticando Marx, e pronto – Marx está refutado”. Como se “a interpretação marxista” tivesse almejado e conquistado “hegemonia cultural” – e pior: o fez ardilosamente, às custas de privar as consciências da crítica! 

E assim segue a crítica a fazer o que Marx disse ser a atividade dos neo-hegelianos: “crítica da crítica crítica”, ainda que tamanho criticismo se apóie apenas em interpretações, ou seja, pensamentos que possuem lastro em umbigos “críticos”, autodeclarados como parâmetros da realidade (afinal, Heidegger faz uma “ontologia”), da mesma forma que uma religião declara ser a única verdadeira via para a salvação.

Pois bem. Marx pôde constatar o momento histórico em que a imbecilidade se despiu da vergonha e passou a arrogar-se o status de legítimo e demolidor olhar crítico, no início do período da decadência civilizatória burguesa. Certamente ele pressentia o quão fundo na lama o pensamento humano ia atolar, se o capitalismo perdurasse poucas décadas mais. Sua morte o privou do desgosto de ver o quanto tais pressentimentos eram pálidos diante do que surgiria pouco depois – pra não falar do que se pensa e se diz hoje.

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P.S.: vale a pena notar que a relação mundo-indivíduo em Heidegger se mostra tão desconexa que ele é incapaz de enxergar uma possibilidade de superação da alienação – ou, nos termos do pensador nazista, da “derrelição”, “ruína”, “queda” [sic], “inautenticidade” etc. -, e, assim, só lhe resta concebê-la enxertada na própria natureza do “Dasein“. Não por outro motivo que ele pensa o homem como reles “ser para a morte”, desprovido de qualquer sentido, uma vez que a vida humana é inautêntica na medida mesma que é social. Outros problemas que disso advém (ou a isso servem de base) se mostram no dualismo entre ente e ser, na separação entre o âmbito ôntico e o âmbito ontológico, na “denúncia” da razão e da tecnologia (descambando em franco irracionalismo e na apologia do obscurantismo), na recusa do aspecto objetivo da natureza, da sociedade e dos indivíduos, no isolamento da subjetividade, na pretensão de fazer uma crítica ontológica à metafísica que não é mais que pura e explícita metafísica – e que se desdobra em antropologia filosófica, existencialismo e gnosiologia, ainda que ele terminantemente se recusasse a reconhecê-lo -, donde também fazer uma redução da historicidade à temporalidade e promover uma inflação subjetivista na estética; ou ainda, migrar para a hermenêutica como método, e depois para a poesia como lugar da “expressão do ser” (já que a razão não pode exprimir o Dasein – é o impasse que o faz abandonar inacabado o seu “Ser e Tempo”). Heidegger realiza sua mitomania e termina falando de uma necessidade de “abertura ao ser” – como se o fato de sermos materiais, e estarmos em meio à natureza e ao mundo humano materiais, já não nos colocasse em relação imediata com o “ser”, “abertos” a tudo que existe.

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