A esquerda que a direita odeia

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Desde que existe sociedade burguesa existe Estado, e tudo vira mercadoria; donde o Estado sempre ter sido privatizado como alavanca do capital, enquanto vende, via impostos, seus precários serviços universais para o público – desde a sustentação da concorrência do mercado até a promoção e manutenção da funcionalidade, e posterior descarte, dos trabalhadores, nas coxas ou na bala.

De acordo com as necessidades e a avareza do capital, o Estado intervém mais ou menos diretamente na economia, sempre contra os concorrentes de seus financiadores e a favor dos setores e oligo/monopólios (democracia/ditadura) que o financiam – os assim chamados “corporativistas”, ninguém menos que os capitalistas que venceram a competição e compraram o Estado para galgar posições no ranking nacional e internacional da concorrência.

Significa que a universalidade do Estado nunca foi mais que o disfarce de sua particularidade, e que nunca há concorrência sem vencedor; donde a fantasia de um mercado “livre” ser própria daqueles que perderam a guerra comercial, ao mesmo tempo que a insistência no caráter público dos interesses que o Estado deveria atender constitui a ficção e a má-fé da social-democracia, que compõe 99% da esquerda – mais afeita às doutrinas de Hannah Arendt, Foucault, Habermas etc. que às críticas de Marx.

Na eventualidade da economia dominada por oligopólios, a democracia abre disputa para o controle do Estado às representações políticas dos setores do capital, à direita e à esquerda; não para fazer a universalidade de seus discursos políticos tomar o timão do Estado, e sim para abrir aos capitais que representam o acesso ao aparato material (“dinheiro público”) do Estado.

O que a direita e a esquerda portanto disputam, entre si e para si, não é a direção da sociedade ou o usufruto do poder material do Estado, mas o cargo de mordomo dos capitais ao quais o Estado será servido; quando não disputam lugar no mercado ideológico do perdedor maior, o cargo notório de inimigo público da sociedade; que, no mundo da inversão de tudo, equivale a ser nada menos que o porta-voz dos interesses da sociedade, algo perfeitamente vantajoso para formar seus currais eleitorais.

As eleições são o mecanismo com que a direita e a esquerda desmobilizam e afastam as demandas por mudanças efetivas da vida cotidiana – que permitam a resolução dos problemas de uma sociedade corrompida pela mercantilização dos laços e relações entre os indivíduos -, em troca da gerência e perpetuação de tais males, nas coxas e na bala, rumo ao abismo que tal descaminho descortina no horizonte.

Não é por outra razão que a razão de ser da política, a defesa da propriedade privada, que toda a filosofia política, desde Platão até os contemporâneos mortos-vivos e atuantes, coloca como problema central da política a tarefa de evitar, desmantelar e afogar as revoluções. Temos nas jornadas de 2013 um exemplo histórico recente em que as forças políticas se prestaram a salvar o cassino institucional com todo zelo: vimos a esquerda trocar a disputa da direção da revolução pela defesa do governo Dilma, enquanto a direita convocou o protesto a sair das ruas e se dirigir às urnas, sendo bem sucedida em esvaziar as primeiras e vencer nas segundas.

Importa notar, e agir de acordo com isso, que a esquerda se recusou a assumir o papel de representação dos trabalhadores e fracassou como representante do capital. Enquanto isso não acontece, caminhamos para a continuidade da crise, legitimando as instituições e seus paliativos que, agora, não conseguem mais que apenas agravá-la.

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A tese de que a esquerda abandonou o “trabalho de base” devia servir para a esquerda perceber que precisa fazer “trabalho interno de base” junto à própria esquerda, trabalho teórico de esquerda, formação de militância, antes de buscar dialogar com os trabalhadores – que aliás ela só não dispensa na hora de angariar seu gado eleitoral.

Afinal, qual é a esquerda que a direita odeia? É a esquerda que faz o que a direita se propõe, mas ainda sabota o movimento dos trabalhadores, frauda eleições sindicais, sufoca as greves e negocia suas rifas com o patronato; ou seja, ganha da direita na disputa pela subserviência à burguesia.

Com uma esquerda dessas, o Brasil não precisa de direita; mas como a direita não está mais encastelada nos gabinetes, é ela que está fazendo “trabalho de base” junto aos trabalhadores, o único trabalho que a esquerda devia fazer e jamais abandonar.

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Diante de uma greve, a esquerda brasileira é incapaz de perceber que, como em toda forma de sublevação, é tudo uma questão de quem está vencendo a disputa pela direção.

Mas ela é a esquerda que não disputa movimento – porque acha que movimento tem dono. Por exemplo, na paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018, preferiu alegar que havia “dedo de empresário nessa greve”; pior, que se tratava de “um locaute para impedir a realização das eleições”.

Quando politicamente derrotada, reclama que “a democracia sofreu um golpe”; mas tão logo os trabalhadores saem à luta, ela tenta desqualificá-los e se torna, mais uma vez e com desenvoltura, uma esquerda governista, ainda que sem governo.

Como se a questão não fosse muito mais profunda e importante e que será pauta do programa de todos os candidatos a presidente ou a ditador.

Óbvio que teria dedo de empresário nisso, quando é que não tem? Quando é que a direita ficou assistindo greve pela televisão ao invés de tentar mudar a direção do movimento? Quem fica chupando dedo é quem acredita que a greve é, a priori, dos empresários, e que só resta enxovalhar os grevistas na internet, chamando-os de “massa de manobra” etc., com que esses esquerdistas de pijama atiram no que resta das próprias pernas.

Ex-querda que se deleita em denunciar a pauta da greve, sem notar que quem vence a disputa pela direção – de que ela abriu mão – elabora a estratégia e delineia as táticas.

Tal como ocorreu nas jornadas de 2013 – que tinham, a princípio, uma “direção popular”, ou seja, não tinham direção. Quem assumiu a direção foi quem disputou.

Depois que a direita assume a direção de ambas as coisas e dá o tom dos atos, não adianta absolutamente nada ficar choramingando e dizendo que se tornaram “movimentos de direita”. Óbvio! A esquerda, perplexa, não fez mais que desconfiar e se afastar dos trabalhadores, ao invés de intervir.

Facilitou pra direita a tal ponto que não custou nada a esta. Aliás, a esquerda jogou os trabalhadores em seu colo. Isso produziu um retrocesso que, isso sim, vai custar anos pra recuperar. Se é que vai.

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Pois o que temos no Brasil é uma esquerda pueril, totalmente dependente, moral e intelectualmente, do “homem da casa”, o maridão PT. Ex-querda que certamente não é aquela que a direita apreciaria como interlocutora ou mais (se a direita fosse capaz de apreciações e estivesse interessada em emitir outra coisa que grunhidos), pois nada possui de apreciável; mas é a esquerda que se aliou à direita.

A mesma que acusa sua fração menor – que não se aliou – de ser “a esquerda que a direita gosta”. Mas o que é ser do gosto do inimigo diante do ato de lamber-lhe as solas? Antes ser a esquerda que a direita gosta que ser a esquerda que gosta da direita.

Uns anos atrás, o drama era que a esquerda virava direita, enquanto a direita virava traficante de órgãos humanos, nióbio etc., donde até uma Kátia Abreu passava como esquerdista. Hoje a direita é governo (bem-vindo à democracia, se é que você ainda não percebeu o que isso significa), e a esquerda fica dando comidinha pro “fascista que mora dentro”, se achando o supra-sumo do combate à opressão ao mesmo tempo que lhe faz declarações de amor aos relinchos. Não se pauta apenas pelas pautas da direita, mas faz marketing e militância “reversos” para ela, acreditando que há qualquer esquerdismo nisso. Não é só a esquerda que a burguesia gosta, é a esquerda que gosta de apanhar da burguesia.

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É triste, mas é preciso reconhecer: todo esse entulho religioso partidário-“social” conhecido no Brasil como “a esquerda” se esforça tremendamente em ser tão vil, subserviente, mentiroso e humanamente inútil como a direita é.

E até isso é jogo que a esquerda sempre perde.

Porque é uma esquerda que sonha em ganhar disputas na arena da burguesia. É uma esquerda política, tanto mais política quanto mais anti-social e anti-socialista, ainda que se auto-engane com os vocábulos dos revolucionários de 1848, 1871 e 1917, enquanto ignora e despreza o significado deles; a partir do qual forma uma militância sub-fundamentalista – pois se o pastor serve pra alguma coisa, é para dispensar os fiéis do trabalho de se haver com uma literatura densa e maçante; e assim é que a doutrina se torna tanto mais eficiente quanto mais fast food. É a militância da “gota de prática muito mais importante que toneladas de teoria” levada às últimas e mais consequentes coerências.

Ora, se a proposta é lubrificar o reto dos trabalhadores para permitir que “o país cresça”, então é melhor abandonar logo esse papo de socialismo, que ninguém sabe mesmo o que é e nem quer saber, e virar uma neodireita a prometer uma “nova política” mais velha que Péricles, aproveitando que a direita virou uma máfia.

Falta só combinar com os yankees. Mas, como consolo vibratório, pelo menos o papel de perdedor as esquerdas sempre ganham.

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Temos de construir a luta desde o zero, ou abaixo disso, já que é preciso remover antes o vírus petista/cutista da pelegagem e sabotagem.

Uma das coisas que vale a pena refletir é se devemos reivindicar ainda o termo “esquerda” para caracterizar a defesa dos interesses dos trabalhadores.

Dialogar com os trabalhadores usando o discurso e o palavreado da política é querer cair na provável remissão a tudo que a política é e encerra.

Ou seja, se dizer de “esquerda” é se apresentar imediatamente, aos olhos do “cidadão comum”, como esteio dos mais torpes decalques: petista, stalinista, mafioso de sindicato (i.é., cutista), pelego traidor da base, social-democrata lambe-bola de banqueiro etc.

Pois o que é a esquerda, na sua quase integridade, senão exatamente isso?

Quando os neófitos dizem que não existe mais esquerda ou direita, ou que são a mesma coisa, devíamos ser menos bobos e parar de pensar “eis um marionete de direita”.

Inclusive porque a percepção popular de que há algo de podre no cassino institucional é bem antiga e perfeitamente condizente com a realidade. Só mesmo os republicanos, os politólatras, identificam isso a uma espécie de reacionarismo, um perigo potencialmente fascista etc. São cognitiva e/ou moralmente incapazes de admitir que o ranço plebeu à política provém de um senso de realismo autenticamente humanista.

E a esquerda é, primeiramente, um dos lados do gradiente político, muito antes de caracterizar uma posição “metapolítica”, revolucionária.

Não adianta querer convencer as pessoas que a esquerda é, ou deve ser, outra coisa que o profundamente arraigado, não casualmente, no entendimento comum.

Marx se recusou a usar o termo “socialismo” e adotou “comunismo” justamente por isso. Todas essas palavras estão hoje carregadas de um peso tal que ninguém vai topar ouvir uma aula de história que “esclareça” o que você ainda pretende começar a dizer, mas não vai.

Nomes são apenas nomes, e como roupas, devem ser substituídos quando encardidos e molambentos. O que importa é o que vestem, mas é preciso vestir-se de forma adequada.

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Confira também:

A hegemonia de um nominalismo às avessas nas discussões políticas

Uma nota acerca do MEDO ESQUERDISTA da revolução

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Radicalidade: moral e inteligência verdadeiramente humanas

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Porque tantas críticas à esquerda? Será que eu sou lateral-esquerdo do time da direita?

Não.

Fazer crítica à direita é o feijão com arroz, na medida que ela mesma já se autodesqualifica, ainda que a crítica seja necessária quando o óbvio precisa ser mostrado nas fuças dos inocentes (o que tem sido o caso há muito tempo, como viu Brecht).

A crítica à esquerda, na medida que ela pretende ser a representação política da luta pela emancipação dos trabalhadores, mas não faz jus a tal pretensão, deve ser implacável, de rigor e radical – por uma questão de honestidade teórica e prática para com os fins pretendidos; tão implacável, de rigor e radical quanto a crítica ao modo de vida burguês.

Radicalismo não é sectarismo ou dogmatismo, e sim a posição mais coerente e consequente com a verdade da necessidade de vida humana autêntica

Ser radical é ir à raiz das questões. Quem não é, bóia na superfície – e nada é mais conveniente, não só porque é fácil, mas porque as aparências enganam.

Assim como o reconhecimento dos princípios morais não faz necessariamente alguém ser um moralista, afirmar a existência de verdades nem sempre faz de alguém um partidário do dogmatismo.

Aliás, se “dogma” significa “verdade inquestionável”, o reconhecimento da validade de alguns “dogmas” – você pode abstrair estas aspas sem nenhum problema – é simplesmente um dever trivial (intelectual e moral, teórico e prático) de quem possui córtex cerebral.

Por exemplo, contestar algo como a verdade da afirmação “verdades existem” não faz de um sujeito o campeão da crítica, mas sim da pura e sórdida burrice.

Ater-se a princípios morais ou dogmas, na crença de que basta “desdobrá-los” e/ou “aplicá-los” nos fatos concretos para compreendê-los, eis o que produz moralismo e dogmatismo; eis aí a mistificação (do que era razoável) que merece ser alvo da crítica.

Todo crítico é um relativista, mas nem todo relativista é um crítico. A diferença entre eles é que o crítico só é capaz de fazer a crítica porque parte do reconhecimento de um critério, e faz a relação das coisas com ele; já o relativista é aquele que faz “crítica” do critério e, por isso, relativiza tudo, de modo a cair no relativismo absoluto – donde este relativista se mostrar um absolutista, exatamente o que ele imaginava se opor.

Um cético só se faz importante para o saber e para a ação na medida que reconhece verdades das quais ele parte; ceticismo absoluto é dogmatismo.

A propósito: nem todo “ismo” é abstrato, nem toda crítica é concreta. A crítica aos “ismos em geral” é, ela mesma, um… criticismo.

Nem tudo que é simples possui a virtude da clareza; por vezes, possui apenas a pobreza da simploriedade.

Pois a realidade é complexa; mas nem todo pensamento complexo é verdadeiro. Por vezes a dificuldade da idéia reside tão somente em sua falta de conteúdo e de racionalidade.

Tergiversação, rodeios e fanfarronice são formas da falsidade, ou melhor, de travestir esta com a aparência da erudição, a ostentação do acúmulo de “capital cultural”, reles manipulação mercantil de vocábulos e cultivo academicista de erva daninha nos vasos da auto-ilusão.

Donde a honestidade intelectual ser revolucionária. À esquerda jamais caberia edulcorar o discurso para este se tornar palatável, via simploriedade e eufemismos. Mas, enquanto seus fins são políticos e a política não lhe servir apenas enquanto um meio, toda crítica a ela deve ser feita e ainda será pouca. 

A História não absolverá os covardes.

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Ateísmo de direita: um culto à alienação

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Quando os religiosos criticam o ateísmo como um tipo de crença, uma “religião sem deus” (e não é saudável que sempre percebam de forma negativa essas coisas de dogmas, doutrinação, superstição e religião?… ainda que apenas as dos outros, é claro), não estão simplesmente dizendo que a calvície também é um tipo de penteado.

Porque o ateísmo de direita, burguês ou pequeno-burguês, é isso mesmo. Mistureba de biologicismo e agnosticismo em torno de uma mitologia e ritualística da fé na “ciência”, mistificação da razão, prática proselitista e reafirmação de uma “natureza pecadora” da humanidade – o egoísmo, do qual não busca salvação, mas dele se envaidece e faz apologia.

Alguns crentes associam isso ao satanismo. Estão equivocados. O satanismo é, ou seria, um paganismo – mais imaginário que histórico, é vero. Mesmo assim, enquanto os pagãos glorificam a vida, o ateísmo de direita leva o nojo que o cristão alimenta diante da vida às últimas consequências e celebra o mais agudo anti-humanismo, em adoração à mão invisível de Mamon.

Satã não passa de um querubim largado ao chão diante do Deus ateu, o único verdadeiramente Universal, perante o qual todos se ajoelham e rezam o cântico ecumênico da alienação – ainda que sua Omnipresença seja bastante exclusiva, casual e por vezes temperamental, oscilante ao cintilar na particularidade dos eleitos, dentre os quais hão de emergir seu Filho e sua seleta caterva de Iscariotes.

O que não impede, mas antes providencia, a religiosidade atéia: bendito é o dinheiro, mesmo que eu não tenha nenhum; louvado é o capital, apesar de eu ser mercadoria; sagrada é a propriedade privada, a qual me priva de toda propriedade. Jesus? Tem valor sim, enquanto empreendimento.

Weber chamou o protestantismo de “espírito do capitalismo”. Ele foi bem otimista, ou outra coisa. Antes dele, Marx já havia dito que “a religião é o espírito de um mundo sem espírito”. Pois bem: o ateísmo de direita não apenas afirma a inexistência de autenticidade humana, mas ainda repele a idéia da mera possibilidade de haver qualquer uma. Não quer um mundo espirituoso e não critica o vale de lágrimas; ao contrário, dá razão a elas, por meio de uma religião sem além e contra o espírito.

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Mammon
A propriedade privada nos tornou tão estúpidos e unilaterais que um objeto só é nosso quando é imediatamente possuído. Em lugar do todos os sentidos físicos e espirituais, fez surgir o estranhamento de todos eles: o ter. (Marx)

Uma nota acerca da bandeira do “combate à corrupção”

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O combate à corrupção parece ser, aos olhos de muitos, a principal tarefa a se cumprir para transformar o Brasil em um país melhor.

Entretanto, essa pauta tem apenas um lado: o da “moralização” da arena política, ou seja, dos políticos; mas isso não é apenas uma disneylândica utopia, é uma escamoteação do verdadeiro problema desde a sua superfície.

Pois supõe que tudo se reduz ao ato imoral do político corrupto. De início, ignora ou despreza que trata-se de uma relação – e que nela temos também os corruptores, o que se perde na medida mesma em que o protagonismo preponderante é deles, para lançar o foco apenas nos corrompidos; donde só resta presumir que a questão é individual e moral. Daqui para a propositura de que tal problema só pode ser enfrentado por uma “política ética”, isto é, por “novos políticos”, é menos de um passo.

Ou seja: sob os parâmetros de um entendimento subjetivista e irrealista (e, portanto, moralista), sobra à prática se estreitar na miserável via da busca de uma “nova” política – tão quimérica quanto o que só pode brotar da ignorância quanto à raiz econômica da politicidade, e tão “nova” quanto pode ser a política que compartilha das mesmas vistas grossas que são feitas sobre os corruptores, vulgo “financiadores” e lobbistas.

Eis aqui, nas palavras de meu amigo Hugo Vargas, o que deve ser ponto central da agenda de uma esquerda que pretende fazer jus ao seu posicionamento, isto é, que não almeja simplesmente permanecer iludindo a si mesma e aos trabalhadores quanto à seu “empoderamento” no cassino burguês do poder de Estado:

– “A Vale acaba com um rio no sudeste. Comete um crime ambiental gravíssimo. Compra parlamentares. Foi comprada a preço de banana numa maracutaia da era FHC.

A Ambev paulatinamente monopoliza o mercado de bebidas nacional. Enfia milho transgênico na cerveja. Compra parlamentares. Sem mencionar dívidas com o fisco.

Itaú e Bradesco oligopolizam o mercado bancário. Compram parlamentares. Muito provavelmente cometem fraudes no sistema financeiro a serem reveladas talvez na Lava Jato.

Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez são entidades cuja podridão ninguém ousaria contestar. Compram sua bancada de representantes também.

JBS e BRF Alimentos são comprovadamente entidades nocivas que também oligopolizam o mercado dos frigoríficos e fazem o diabo no país.

A Oi também é fruto de maracutaia da era FHC. Sugou bilhões do fundo público.

Mas qual a pauta perante tudo isso? Eleger o Lula? Eleições diretas?
Urgente seria expropriar todos esses empreendimentos. Não há momento mais oportuno, mais evidente. Todos eles devem bilhões e cometeram crimes incontáveis. São aviltantes até mesmo para a normalidade de uma democracia burguesa.

Se o PT fosse de esquerda, ele e suas entidades já estariam pautando isso pra ontem. Por ora, a situação é tão grave que falar disso, que é apenas uma reforma pontual radicalizada, nos faz parecer algum cosplay de comunista caricato”.

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políticos escrachados e empresários idolatrados
Renato “Cinco” Athayde Silva, PSOL-RJ

Método dialético de formatação do pensamento marxista vulgar

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Outro dia eu li num grupo virtual de estudos uma declaração impecável sobre a formação teórica dos stalinistas (tanto os assumidos quanto os que se escondem sob o termo “marxistas-leninistas”).

Em resposta às acusações feitas contra a realpolitik dialética por seu rebaixamento intelectual e seu desprezo por Marx, um teórico do praticismo esquerdista formulou o seguinte:

<< “Vulgar isso”, “vulgar aquilo”, mas dificilmente alguém consegue explicar toda essa confusão. O esquema é ler Engels e Marx do mais básico, depois ler Lenin, Stálin, Trotsky, Mao e estudar as experiências dos países do chamado “socialismo real”, desde a economia até a luta de classes que rolou. É muita coisa, mas com um nível desse de briga de torcida o cara não tira nada proveitoso. >>

Primoroso!

(Pena que fumaram o livro verde do Khadafi e rabiscaram o manual didático do King-Kung coreano até ficar ilegível – o que, por outro lado, nada afetou sua inteligibilidade.)

Portanto, o “esquema” é ler “o básico” de Engels e Marx e depois partir pra suas sofisticações.

(E aí deve-se “estudar as experiências” dos países do chamado socialismo real, “desde” a economia “até” a luta de classes. Como se não fossem coisas totalmente imbricadas!)

Assim, para rechaçar a vulgaridade, aplica-se a sofistaria. Mas é aquele dito “básico de Engels e Marx” que nada mais e nada menos constitui o caroço racional da formatação do pensamento militante – para a atuação aguerrida nas bocas de urna do sindicato nacional dos engraxates. Senão, vejamos.

Quando diz haver um “básico de Engels e Marx”, nosso formador de “quadros” quadrados confessa já existir uma determinada seleção dos textos. O que é que circunscreve essa seleção?

Fosse um critério passível de se extrair dos próprios escritos, eles já teriam sido elaborados segundo ele.

Mas não é. O critério é exterior e indiferente ao que Engels e Marx se dedicaram a redigir, certamente não por diversão.

No que é possível de se dialogar com a turma do básico invulgar, não é difícil de se perceber que seleção de textos é essa: primeira e segunda partes do “Manifesto Comunista” (o resto é lorota), o rascunho sobre Feuerbach da “Ideologia Alemã” (sequer desconfiam que o livro tem mais 400 páginas), o posfácio à segunda edição de “O Capital” (que resume miraculosamente os 3 livros da obra) e um punhado de pequenos textos de Engels – especialmente aqueles em que o “segundo violino” se lança à carreira solo e se arrisca a tocar intervalos para substituir o insubstituível, fazendo harmônicos soarem como guinchos e arrebentando umas cordas: por exemplo, o ensaio do “macaco que vira homem” e os capítulos do “socialismo de laboratório” e da “metafísica dialética” retirados do “Anti-Duhring”.

Este é o básico. Mas nosso revolucionário intelectual nem pretende tanto; segundo ele, o “esquema” de leitura do ainda “mais básico” já é suficiente para se conhecer Marx e Engels. Quem quiser avançar para o marxismo hard level e “suprassumir” o estágio rústico dos autores básicos pode simplesmente despejar por cima de suas singelas noções as contribuições profundamente grosseiras de Stálin e congêneres.

Eis aí como se faz o Frankenstein “marxista-leninista”. Nada de ler o que realmente importa, bastam as sinopses e o que é redigido depois para servir a elas como notas de pé de página.

É o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, versão sub-proletária.

Ou antes, é o tradicionalíssimo marxismo mimeografista das agremiações estudantis de creches municipais. Além de servir pra deixar a esquerda ainda mais burra, faz com que os trabalhadores acreditem que as “críticas” da direita a ele são “refutações demolidoras” contra Marx.


PS.: Alguém pode me acusar de estar batendo num espantalho, ao criticar o discurso de uma caricatura. Ora, as caricaturas ideais acentuam os traços de um pensamento tanto quanto acontece no caso dos desenhos: os aspectos positivos e negativos se ressaltam, e sua difusão no senso comum é maior. Não é por outra razão que Marx combate Stirner, Proudhon, Bastiat etc. Ainda assim, quem quiser conferir uma análise do pensamento do próprio Stálin, eis o link: Stalinismo: idealismo e praticismo.

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marxismo simpsoniano

Coletivismo, estatismo, ateísmo, anti-humanismo, economicismo e historicismo: lendo Marx ao contrário

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Quando as filosofias e filosofemas penetram o senso comum, viram ideologias ou passam a constituir retalhos delas.

Ideologias podem ser mais ou menos consistentes. O senso comum é um mix delas, além de conter outras idéias não-ideológicas, provindas da prática imediata, do empirismo e de restolhos ideológicos do passado.

É por isso que devemos fazer uma ou outra dissecaçãozinha básica daquelas filosofias (além das mitologias etc). É isso que faz com que tenha importância a crítica a certos autores, mesmo que não passem de imbecis acadêmicos.

Marx não criticou Bruno Bauer, Max Stirner, Proudhon, Say, Mill, Bastiat e tantos outros por esporte ou sadismo, quando talvez apenas Kant, Hegel, Smith, Ricardo etc. mereceriam a sua atenção.

E agora o senso comum, alimentado com esse tipo de capim e suas novas derivações, absorveu certas críticas feitas a Marx que lhe imputam um coletivismo, um estatismo, um ateísmo belicoso, um anti-humanismo, um economicismo e um historicismo, mil outros etc.

São tantos os que afirmam e reproduzem tais idéias que não há como citar nomes. Mas o que importa são aquelas e não estes.

Marx não é um coletivista. Ao contrário, toda a sua obra afirma a necessidade de se emancipar os indivíduos das limitações impostas a eles pelas classes sociais, mercado, divisão do trabalho etc.

Mas o individualismo de Marx não se confunde com o burguês, que isola o indivíduo no egoísmo (como algo próprio de sua “natureza”) e o contrapõe à sociedade. Para Marx, ao contrário, o indivíduo só se realiza e efetiva seus potenciais no interior da sociedade, na ampliação das relações do indivíduo com o mundo.

O mesmo quanto ao humanismo: enquanto aquele que procede da mentalidade burguesa é idealista, utópico, egoísta e reflete o fetichismo mercadológico dos “homens de igual valor” e a tolerância do ecumenismo do dinheiro, o humanismo marxiano afirma a emancipação dos indivíduos em uma sociedade autogerida.

Onde não cabe, evidentemente, nem coletivismo reacionário, nem coletivismo estatal, burguês. Tomar o Estado é necessário simplesmente porque detém poder material, que não ficará sobre o muro no caso de uma revolução. É preciso rachar o Estado e voltar seu poder contra aquilo para o qual ele existe como protetor. Senão, fiquem aí sonhando com suas miseráveis comunidades hippies.

O fim da religião, tal como a conquista ou destruição do Estado, não é o ponto central do processo revolucionário. Marx não faz crítica da religião. Para ele, não interessa a Sagrada Família, mas sim aquilo que faz a família profana se projetar no além: é o aquém da sociabilidade corrompida pela propriedade privada que demanda a ilusão de se superar o “vale de lágrimas” no pós-fim, tanto quanto demanda a força do Estado para manter-se como areia movediça sobre a qual a sociedade se assenta.

Tornado estéril o solo da propriedade privada, e estabelecida a sociedade sobre a propriedade social dos meios do trabalho, a religião e o Estado perdem razão de existir.

Isso acontecerá por força de uma economia entendida como “sistema” (que não é outra senão a imagem do mecanismo do deus-mercado e sua “mão invisível”), ou de uma meta acima da história (tal como ensina a religião) a nos guiar? Se for assim, basta cruzar os braços e esperar a revolução me emancipar e fazer de mim um indivíduo autônomo. Nota-se a coerência dessas idéias com as demais imputações; mas para acreditar nelas é preciso ser pouco mais que um vegetal trancado num cubículo de classe média.

Há muito mais pra ser dito sobre essas coisas, mas não há quem leia dissertações ou livros num blog. Para quem quiser, indico algumas leituras – e trocamos as figurinhas depois.

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capitalismo e individualidade 2
Pode acreditar nisso, abiguinho

A hegemonia de um nominalismo às avessas nas discussões políticas

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Estava conversando com um liberal que se recusa a ser identificado com a direita. Ele me perguntou: Stalin era comunista?

Eu havia dito antes que preferia ser chamado de comunista a socialista. Com essa, percebi que isso não faz muito sentido.

A esquerda em geral entende que “socialismo” e “comunismo” (me refiro especialmente àquela esquerda que não apenas já ouviu falar neste último, mas também o reivindica, nem que seja somente no fundo do abismo da imaginação) são análogos, correlatos ou até mesmo sinônimos (com que Marx arranharia o mausoléu). Entretanto, são termos considerados muito gerais, donde caber neles outros mais específicos: trotsquismo, morenismo, stalinismo, leninismo, maoísmo, guevarismo, castrismo etc.

O fato é que os rótulos não possuem nenhum significado intrínseco; também não adianta apelar para a história francesa, para a distinção que Marx sempre fez entre tais termos ou para o que aconteceu ao longo da existência da URSS. As significações são acumuladas ao longo da história e elas podem ficar de cabeça pra baixo, se assim as pessoas entenderem que os termos devem ser usados.

Claro que é importante saber como o eram na França e como Marx os definiu a partir das experiências teóricas e políticas da esquerda francesa, mas isso não basta. A URSS é indelével nessa brincadeira semântica.

Daí que Stalin poderia ser qualificado de socialista por muitos motivos, mas ele é um comunista; e isso por uma única razão, a mais forte que pode haver, e definitiva: nada mais que o fato de os bolcheviques se autodenominarem comunistas.

Mais que isso, comunistas soviéticos – quando os sovietes já haviam sido transformados em um reles nome.

Adianta lembrar que a assim chamada União Soviética se ergueu por sobre a destruição dos sovietes? A História e a linguagem podem não ser realmente feitas pelos vencedores, mas eles têm, de fato, uma rainha a mais no xadrez da práxis.

Depois da queda da URSS o termo socialista foi reabilitado de modo a fazer referência àquilo que antes era dito comunista – pois este carregava o estigma da queda do leste europeu e remetia a tudo aquilo que se identificava (ou passou a ser identificado) como stalinismo.

Quando alguém fala abobrinhas infames sobre a esquerda, o socialismo, o comunismo, e ainda mistura isso com petismo, Lula, Foro de SP, bolivarianismo, Coréia do Norte e Cuba, está pensando a partir do nível de identificação mais grosseiro, porém real, entre as proposituras da classe trabalhadora e a desgraça stalinista.

Quando dizem que não há mais direita e esquerda, pensam de acordo com a ficção tola de uma política guiada ideologicamente, mas também com a realidade do pragmatismo que leva todos os divergentes políticos ao centro, onde as alianças se celebram e as pernas e concessões se abrem.

Por conta disso, é fácil perceber que 99% das discussões na direita, na esquerda e entre ambas – ou entre liberais e conservadores de um lado e trotsquistas e stalinistas de outro – se fazem simplesmente acerca de tais nomes.

É o nominalismo medieval às avessas, pois aqui se crê que os nomes não apenas carregam em suas letras a realidade concreta, mas que esta última está encerrada nelas. A palavra não aponta para a coisa, ela é a coisa.

E o debate se torna histeria coletiva no ritual da Igreja do Verbo Satânico. Hugo Chávez falou que seu bolivarianismo (WTF) era um socialismo; a ampla maioria da esquerda e a totalidade da direita acreditaram nele, logo a Venezuela é um país socialista.

Há como escapar disso? Creio que sim, mas depende dos interlocutores, da capacidade e preocupação de pensarem as coisas para além de fórmulas prontas e vazias; e ainda, é claro, do interesse honesto em fazê-lo.

Não importa tanto se o nome disso é esquerda, marxismo, comunismo, trotsquismo etc. Importa dizer o que é ou o que se quer dizer com isso e porque.

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pedro_abelardo
Baita calamidade, amigo Abelardo!