Uma nota sobre o misticismo da noção de “ideologia” no marxismo vulgar

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Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim“.

Marx: Prefácio de 59 (grifos meus)
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Por que “o pobre” vota na direita?
 
Por que os trabalhadores não se revoltam contra sua própria condição de dominados?
 
O que faz com que “não percebam” a desigualdade social como injustiça?
 
Essas e outras questões afins são respondidas pelo marxismo vulgar a partir do “conceito de ideologia de Marx”, que explicaria a dominação e hegemonia da classe burguesa.
 
Trata-se de uma tese ela mesma tão dominante e hegemônica no marxismo quanto simplória e idealista:
 
A Ideologia[*] (não é nem uma ideologia, é a maiúscula mesmo) torna os trabalhadores dóceis e escamoteia a exploração ao naturalizar as relações sociais.
 
Mas o mistério começa quando perguntamos: como é que ela “cola” na cabeça deles?
 
(A título de provocação: antes do capitalismo havia também uma “ideologia feudal” que mascarava a servidão dos trabalhadores na corvéia, de modo a impedir que eles não se rebelassem contra ela?)
 
Pois a tese da dominação por meio da “ideologia” – de lavra neo-hegeliana e combatida por Marx em “A Ideologia Alemã” (um dos livros mais ignorados entre os marxistas em geral) – não tem uma palavra sequer a dizer quanto à chantagem do assalariamento, ou melhor, à separação de trabalhadores e meios de produção. Por isso mesmo é que ela possui esse aura místico e nas brumas deste se mantém.
 
E o pior é ver isso sendo vendido como marxista – quando o marxismo busca, ao contrário, compreender as produções ideais a partir das relações sociais de produção, donde jamais admitir a idéia de uma fantasmagoria flanando sobre os indivíduos e determinando suas ações de forma descolada de suas vidas materiais ou decalcada em seus cérebros.
 
Ao mandar o materialismo às favas, o marxismo vulgar não perde apenas a total capacidade de compreensão do que sejam as ideologias, mas também a possibilidade de simplesmente identificá-las enquanto ideologias. Daí pra frente, tudo se torna gato pardo na noite escura: a práxis se torna praticismo mecânico e realpolitik oportunista, e o próprio marxismo vira um Frankenstein teorético qualquer.
 
Exemplos não faltam, né?
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* A propósito da tradicional idéia de uma “ideologia dominante” na sociedade capitalista, a “ideologia burguesa”:

Não existe “a ideologia burguesa”, e sim várias ideologias burguesas. Qual delas é a dominante?

Ao meu ver, é difícil dizê-lo. Principalmente porque o “senso comum” está impregnado de muitas ideologias (inclusive não-burguesas), porém nenhuma delas está presente nele por inteiro, senão em pedaços. Poucas pessoas procuram estudar as ideologias e conhecê-las integralmente.

De modo que talvez pudéssemos dizer que o dominante no senso comum são retalhos ideais de procedência burguesa, mas isso não significa que sejam partes de uma mesma ideologia. Por exemplo, encontramos nele um bocado de idéias realistas, mas pragmáticas (derivadas das relações práticas mais imediatas, empíricas, da sociabilidade mercantil), ao lado dos idealismos mais místicos; ou então, idéias que fazem apologia direta do mundo atual ao lado das que fazem outra forma dessa apologia, por via “crítica”, negando o paraíso da primeira forma ao mesmo tempo que toda via de superar tal mundo; cientificismos e subjetivismos; positivismos e pós-modernismos; flower-power e punk; ateísmo e agnosticismo; Keynes e Mises; etc. 

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PS. Marx não fala em lugar algum que “a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”, mas sim que

As idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão submetidas em média as idéias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As idéias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como idéias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, ou seja, as idéias do seu domínio. Os indivíduos que constituem a classe dominante também têm, entre outras coisas, consciência e, portanto, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o conteúdo de uma época histórica, é evidente que o fazem em toda a sua extensão, e consequentemente, entre outras coisas, dominam também como pensadores, como produtores de idéias, e regulam a produção e a distribuição de idéias do seu tempo; donde as suas idéias são as idéias dominantes da época“.

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[Confira este outro texto, em que relaciono ideologia, alienação e fetichismo: Alienação: fenômeno objetivo social, e também este aqui, a respeito da relação consciência – vida cotidiana: Nada mais natural que um pobre de direita]
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“Escola Sem Partido”: doutrinação e partidarismo

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Quem se põe a favor da Escola Sem Partido usa como argumento uma simetria falaciosa, forrada de noções igualmente falsas: “se vc é contra a ESP, tem de ser contra a separação entre Estado e Igreja”, pois escola que toma partido é igual Estado com religião oficial.
 
São tantas asneiras condensadas num só chorume que fica difícil saber por onde começar.
 
Que seja em primeiro lugar o segte: a ESP não se volta contra as escolas, mas sim contra os professores – de humanas, que são “todos marxistas”.
 
Donde, em segundo lugar, ser mentira que a ESP não tem partido, pois se coloca em combate político-ideológico contra o que chamam de “doutrinação partidária” e, portanto, tomam partido.
 
Se uma coisa não é igual à outra, então resta explicar porque há (mais de um) partido político defendendo a ESP no Congresso e no MEC.
 
Fato é, e está esfregado na nossa cara, que o sentido do termo “partido” que a ESP combate tem muito mais a ver com o de posição político-ideológica que o de agremiação política.
 
É também notável o uso do termo “doutrinação”: pois ao redor da ESP gravitam pessoas e instituições que tomam partido de bandeiras religiosas.
 
Numa coisa eles estão corretos: doutrinação “de verdade” é a deles.
 
Entrementes, o melhor Estado para os religiosos é o Estado laico. Quem quiser adquirir ou trocar de religião pode escolher nas gôndolas do mercado da fé se vai virar evangélico, católico, espírita, hippie de butique ou astrólogo em Virgínia; e quem é empresário do ramo de indulgências não pode admitir um Estado que monopoliza o comércio religioso e dita qual é a única doutrinação oficial – a menos que seja a sua, claro.
 
Mas isso é uma questão de concorrência. Quanto mais o capital acumula, menos democracia e liberdade de venda e compra.
 
Pois bem, a ESP não quer uma escola laica, democrática e livre. Ela é, aliás, um sintoma da super-acumulação do capital religioso.
 
Ao contrário desse nivelador de pensamento, aquele que toma partido de uma posição político-ideológica (algo diferente de vender o peixe de um partido político) se põe a participar de um debate, onde coloca argumentações, faz e ouve críticas. Doutrinação é coisa de religião, e aí nada se discute.
 
Outra (e aqui temos a simetria explícita do argumento): escola não é Estado. Não se escolhe viver sob este como se escolhe aquela (pra citar uma única diferença, suficientemente gritante). E ainda tem que as escolas sempre tomaram partido político, ideológico e religioso, principalmente se são escolas “livres”, ou seja, privadas. Ao menos em tese, as escolas públicas são laicas e prezam pela diversidade. Ora, a ESP também toma partido pela privatização da educação.
 
Além disso, impedir que o professor tome partido é pretender um educador que não assume o que pensa e se coloca sobre o muro a respeito de questões que exigem uma posição, inclusive por uma questão moral (p.ex., será realmente imparcial, desejável, saudável e ética a posição que se pretenda neutra frente ao fato histórico da escravidão no Brasil?), ao mesmo tempo que imagina uma classe de alunos totalmente passivos e vulneráveis ao seu discurso.
 
Por fim, traçar uma analogia entre um professor sem partido e um Estado sem Igreja, i.é., sem partido em termos de religião, pressupõe uma identidade entre aparato estatal (que pretende se situar acima dos indivíduos e seus interesses particulares) e indivíduo, como se um professor devesse ser um “representante universal” da sociedade e o próprio conhecimento não fosse um campo de luta ideológica; e mais, basta intercambiar os termos da equação para se constatar o absurdo de se pensar um Estado que não toma partido em termos de política, paralelamente a um professor que deva se colocar acima – e que possa se manter ileso – à religião. Mas, na prática, o Estado toma partido religioso, tal como a sociedade faz, enquanto a ESP deseja e age politicamente em prol da doutrinação religiosa de professores e alunos. Ambos atuam em prol de uma exigência societária do capital, pela qual religião e política são postas, impostas e repostas como canga na moleira dos indivíduos.
 
Pois não há religião que não seja política, assim como a política é religiosa.
 
Em suma: a ESP é o projeto de uma educação política, religiosa e capitalista – a seguir à risca tudo aquilo que a educação burguesa é, e que a educação como formação humana não deve ser.
 
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Alguém pode pensar que defendo uma escola sem partido. Sim, defendo. Por isso mesmo é que tomo partido contra a ESP, e julgo ser nosso dever tomar partido em todas as questões pertinentes à cisão da sociedade em classes – sob determinação do capital, mantida por seu Estado político e aterrada pelas bençãos da religião.
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isto não é uma religião - mas serve bem a uma
isto não é uma religião, mas serve bem a uma

O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”

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O veganismo diz que comer carne é especismo.
 
Trata-se, com o perdão do trocadilho, de uma espécie de antropocentrismo.
 
Os veganos criticam aqueles a quem chamam de especistas por estes julgarem ser o homem superior às outras espécies, a ponto de pretender tomar e realizar decisões que as envolvam, etc.
 
Especismo é isso: se afirmar enquanto pertencente a uma espécie superior. E isso vale tanto para quem come carne quanto para quem tem um gato pra alimentar.
 
Donde o vegano idealizar um mundo humano totalmente afastado e isolado dos animais. Hein?
 
O pequeno detalhe que parece escapar (na melhor das hipóteses) aos veganos é que, ao se colocarem em defesa dos animais, estão se colocando como superiores a eles (e a quem não for vegano, claro). Pois os bichos carecem de um representante e defensor da causa animal, e este é o vegano, imbuído das tarefas que foram delegadas a ele por ele mesmo, já que animais não são capazes de outorgar tal autoridade.
 
A bem da verdade, o veganismo luta contra uma evidência tão luminosa que os próprios animais conseguem percebê-la, com exceção dos gatos. Os cães que o digam…
 

Portanto, a crítica ao especismo não é crítica, é apenas uma confissão de pequenez que o indivíduo vegano projeta sobre os outros – e não é outra coisa que leva um Schopenhauer a destilar seu desprezo à própria humanidade. Mas, se veganos e filósofos irracionalistas não são ou não se sentem superiores a uma barata, por que afinal crêem que os outros devam concordar com isso? Que vão plantar batatas.

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vegan iludido edt

Ditadura do Proletariado?

a força do voto na democracia
 
Patrióticos defensores da democracia (ou do que entendem por isso) exercem em portais de internet sua crítica à “ditadura em que o Brasil se encontra”, ou seja, à “ditadura do proletariado” instalada no país pelo PT, um regime político execrável desde já por ser uma ditadura; ainda que, paradoxalmente (ou não), alguns deles tenham defendido a autocracia burguesa nos anos 60-70 e ainda hoje a defendam.
 
A consistência desse criticismo gasoso deriva direta ou indiretamente da noção obscura, de apostila mimeografada, do marxismo de quinta mão que confunde socialismo com estatismo: é o comunismo hobbesiano! Olha lá o Stálin que não deixa dúvidas a ninguém.
 
Ao condenar Dilma por ela ser ela mesma e não um Bolsonaro, mostram que, de fato, a democracia desejada não é tão contrária assim à ditadura; o que importa é que o Estado seja ocupado e mantido pelas forças políticas e ideologias com as quais simpatizam (seja por interesse real ou ilusório).
 
Oposições podem existir, desde que sejam da panelinha alheia, nunca a “nossa”, e sejam inefetivas.
 
Nessa brincadeira, é capaz de alguém dizer que o MDB era a prova de que não houve, de 64 pra cá, ditadura nenhuma no Brasil, exceto após a eleição do Lula. Aposto que já disseram…
 
Ao centralizar toda a questão no embate político, tais críticos agem como religiosos: a minha posição política é a verdadeira posição da nação, enquanto as outras são pagãs, heréticas, falsa idolatria, ditadura, “comunistas” etc. O interessante é notar que este politicismo é compartilhado igualmente pelo adversário: pois este governo é popular, “para todos”, possui “projeto de nação”, apesar de todas as evidências contrárias a ambos.
 
Os dois lados pregam que a democracia é “nossa”, a ditadura é “deles”, e recortam fatos isolados para comprovarem o que dizem. No final das contas, o embate se torna um ranking onde a competição é pelo que rouba menos, quem traiu menos e quem meteu mais a faca e o ferro nas costas e no cu do povo, etc.
 
Ambos financiados pelos mesmos grupos econômicos: olha lá a Vale e a Odebrecht pagando a campanha dos principais candidatos a presidente, governador, prefeito, senador, deputado e vereador.
 
eua e cuba - democracia e ditadura
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Chegamos então no X da questão.
 
A questão NÃO É uma oposição ditadura vs. democracia. A princípio, todo regime de Estado é ditatorial, pois é uma forma de exercício de poder material (seleção de investimentos, monopólio da violência etc.) de uma parte da sociedade sobre o seu conjunto; e a democracia também é um meio pelo qual certa parte irá ditar os caminhos e descaminhos de toda uma sociedade.
 
A questão é: qual parte irá ditar os caminhos e descaminhos da sociedade?
 
A ditadura burguesa em que nos encontramos é a dominação de uma minoria de usurpadores da riqueza produzida pela maioria por sobre esta. É claro que há concorrência no interior da burguesia e, portanto, a impressão de uma democrática “alternância de poder”; mas que jamais põe a soberania do capital sobre o trabalho em xeque.
 
A ditadura do proletariado é radical justamente porque inverte essa equação e visa organizar a sociedade a partir das mãos daqueles que são seus verdadeiros produtores.
 
É radical porque rompe a bolha especulativa da política (em perpétua “crise de representação” – quando não há representação nenhuma senão do capital) e se assenta na própria sociedade.
 
Ainda assim, podemos encontrar em Marx o entendimento de uma ditadura do proletariado enquanto regime autoritário. Mas sua finalidade não é política – no sentido em que visa apenas tornar ineficaz “a oposição” (enquanto mera oposição política) -, e sim social: trata-se de sufocar as forças despóticas do capital como um todo. Nesse sentido, a ditadura do proletariado é o único caminho real, não-utópico, da realização de uma verdadeira democracia, assentada na soberania dos trabalhadores, e esta é a única soberania legítima, uma vez que é calcada nos legítimos produtores do mundo social.
 
Por fim, tal democracia, finalmente determinada como realmente social, termina por dissolver a política, o Estado e os regimes de governo, na medida mesma em que os torna obsoletos, ou seja, caducos.
 
Pois a organização da sociedade por quem a produz e reproduz é precisamente a desintegração das classes sociais, ou seja, da parasitagem exercida por quem não trabalha sobre quem trabalha. Não há mais sustentação real para existir um aparato de dominação e nem o exercício desta.
 
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Democracy
 
Nas palavras do Manifesto de 48,
 
— “Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não existe para estes nove décimos que ela existe para vós. Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade que só pode existir com a condição de privar de toda propriedade a imensa maioria da sociedade”.
 
— “/…/ Vimos acima que a primeira fase da revolução operária é o advento do proletariado como classe dominante, a conquista da democracia”.
 
Eis aí a democracia como fim imediato da ditadura dos trabalhadores. Seu caráter será de autêntica democracia na proporção mesma em que a ditadura for bem sucedida ao investir o poder político contra a propriedade privada que sustenta a dominação burguesa.
 
— “O proletariado utilizará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas [grifos meus: estamos longe de qualquer hobbesianismo aqui].
 
— Isto naturalmente só poderá realizar-se, a princípio, por uma violação despótica do direito de propriedade e das relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção”.
 
Por fim, emancipada do arraigado moedor social de carne humana (a propriedade privada), a sociedade pode se expurgar do gigantesco representante oficial do capital (o Estado), e os indivíduos podem abolir o tolhimento que as classes sociais, o mercado, o dinheiro, “a economia” etc. lhes impõem:
 
— “Uma vez desaparecidos os antagonismos de classe no curso do desenvolvimento, e sendo concentrada toda a produção nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se constitui forçosamente em classe, se se converte por uma revolução em classe dominante e, como classe dominante, destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói juntamente com essas relações de produção as condições dos antagonismos entre as classes e as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.
 
— Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, surge uma associação – onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos”.
 
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justiça - o bem mais caro de uma democracia
 
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Alguém poderia perguntar: “que garantia terei que um governo dos trabalhadores não irá se transformar em uma outra ditadura de novos senhores?”
 
Nenhuma.
 
“Garantia” é uma noção criada pelo e usada para o mercado, nada mais que uma promessa para conquistar consumidores e vencer a concorrência. E nem assim o comércio garante realmente alguma coisa (pra qualquer problema existe a “justiça” do consumidor, na qual o indivíduo será mais um entre milhares a tentar reverter uma situação na qual foi lesado). “Garantia” é, portanto, uma noção mais fictícia que real. Nada que existe é garantido.
 
Mas uma coisa é certa: as galinhas só passam a tomar conta do galinheiro quando este galinheiro está organizado o suficiente para expulsar as raposas que desde sempre o comandaram.
 
Portanto, a ditadura do proletariado pressupõe uma abertura real à participação popular, sem a qual ela não acontece.
 
Não há ditadores na ditadura do proletariado. E sim uma sociedade que se auto-organiza, a ponto de se despir da necessidade de uma esfera acima dela a comandar-lhe.
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Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé

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Na dolorosa e assustada infância da humanidade, quando o desconhecido estava em cada aspecto da relação dos indivíduos com a natureza estranha e hostil – em meio a qual, entretanto, tinham de viver, habitar, e com ela interagir etc. -, a única forma de vencer o medo foi através de um recurso que advém à consciência naturalmente: projetar sobre os fenômenos naturais, ou por trás deles, a própria subjetividade humana, para então negociar, por meio de rezas e demais rituais mágicos, as mais diversas ilusões afetivas com essa suposta super-subjetividade controladora da natureza. Assim surgiram as mitologias e os deuses, seres antropomórficos porém sobrenaturais, capazes de fazer a realidade agir de acordo com suas vontades e humores, mas também aptos a ouvir e compreender as súplicas humanas quando lhes desse na telha e, quem sabe, atendê-las, mesmo que de formas mui particulares.
 
Grande passo deu Tales de Mileto e seus colegas ao pronunciar que a natureza é ordenada, segue padrões mensuráveis e pode ser conhecida tal como ela é, e não mais simplesmente como desejávamos que fosse. Os físicos gregos abriram a ampla vereda do pensamento desantropomorfizador que constitui a essência da filosofia e da ciência, e as mitologias podiam finalmente se recolher ao baú de um passado para sempre superado. Mas por que elas não se foram?
 
Porque o estranhamento e a hostilidade permanecem até hoje. Não mais diante da natureza, e sim da própria sociedade humana, donde Marx afirmar: ainda vivemos a pré-história da humanidade. Somos determinados pelo meio social, resta determinar o meio social de modo que este assuma um caráter autenticamente humano.
 
evolução de deus
 
 
Entretanto, enquanto isso permanece distante ou mesmo se retira do horizonte histórico da humanidade, se faz patente que, desde que o pensamento racional se torna difundido – a ponto de se fazer presente em todos ou quase todos os aspectos da vida prática cotidiana -, certamente é muito desgastante manter o fluxo de canalização de energia psíquica, o apego, para a fixação das idéias insensatas de que consistem as mitologias.
 
Por isso, o maquinal apelo a abdicar da realidade por meio da devoção fervorosa à própria submissão assume a imagem de um equipamento de guerra: o escudo e a lança da fé.
 
Credo quia absurdum (e nem sou eu que o digo). A consciência mítica não tem problemas com a barbárie, a contradição, o desatino, o preconceito etc. Mas, em sua “golden age” primitiva, e justamente por não ter o parâmetro do que seria racional – pois a razão é um atributo subjetivo histórico e, a bem da verdade, recente -, a consciência sequer concebia o que seria isso, o absurdo.
 
Na atualidade, entretanto, mesmo a razão mais trivial – demandada pela lida do dia-a-dia com o mundo atual – pode se tornar uma ameaça à frágil bolha do pensamento mítico.
 
Exemplos não faltam. Basta lembrar quão profundamente imerso neste glóbulo viscoso de irracionalidade pode se meter aquele que resolve empunhar as armas da fé contra a própria lucidez e se torna um homem-bomba, o piedoso beato que suicida e mata tantas outras pessoas em nome do “amor” de uma divindade e, é claro, também do quimérico salário casto e espiritualista de 72 virgens para desfrutar no além.
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Nada mais natural que um pobre de direita

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Parece uma contradição. Mas não é. É natural que os “pobres” gravitem ao redor do pensamento de direita. Claro que isso vale igualmente para a “classe média” (e o que dizer dos “ricos”?). E não há nada mais sobrenatural (sim, esse é um bom termo) que pobres, classe-médias e principalmente ricos de esquerda.

Antes que pensem que sou um naturalista maluco, quero dizer que não me refiro à nenhuma naturalidade biológica, mas sim à vida humana que se vive de maneira espontânea no dia-a-dia da atual forma social moderna.

É interessante notar que a galera “politizada” fica estupefata em constatar que o povão vota na direita e sustenta bandeiras as mais toscas e brutais, até mesmo contra seus próprios interesses – supondo que os indivíduos tenham alguma noção mínima de quais sejam estes, ou melhor, que não façam a velha confusão entre seus mais baixos e imediatos instintos burgueses e a consciência de si mesmos enquanto indivíduos sociais, o que demanda uma boa dose de reflexão.

Ser de direita é algo natural para quem nasce e vive trivialmente na sociedade capitalista; ora, não se pode esperar que o pensamento não acompanhe a forma de vida do indivíduo, e a forma de vida no capitalismo é aquela que coloca todos em concorrência e isolamento uns contra os outros. Vida selvagem, pensamento idem.

pobre de direita é um vagabundo

É preciso ter alguma sensibilidade (inata ou provocada, não vem ao caso) pra notar que essa forma de vida não é, digamos assim, tão orgânica quanto a naturalidade haveria de ser, e que poderia ser bem diferente e melhor, para então poder se lançar a um verdadeiro processo de educação dos sentidos e do pensamento, e iniciar e superação da naturalidade social posta para cada indivíduo desde seu nascimento (cf. este discurso do índio Zé Elétrico, em Árido Movie), de modo a desenvolver a crítica e, por fim, se tornar de esquerda.

Tudo se educa em nós, mas educar-se é uma questão que passa por uma necessidade que o indivíduo pode sofrer ou não. Além disso, este processo pode ser mais ou menos lento, doloroso e sempre contraditório, uma vez que a individualidade deixa de corresponder (ainda que tal correspondência seja brutal) à sociabilidade vigente, o que pode não ser muito confortável. E a vida na selva de pedra já é dura demais para ainda suportá-la sem as flores das ilusões e do autoengano, que encobrem e enfeitam os grilhões! O indivíduo pode facilmente preferir embotar a sensibilidade e sabotar o pensamento, gozar e acreditar no próprio cinismo e se dar por satisfeito, ou melhor, por adaptado e convencido de sua escolha.

Daí que não há nada de estranho no pobre que é de direita. Extraordinário seria o contrário.

Aliás, nem é estranho que, ainda que assuma uma posição crítica consciente, muitas vezes o indivíduo vacile e pense ou aja de forma machista, autoritária, possessiva, egoísta, fazendo piadinhas “politicamente incorretas” contra os mais fracos etc. Pois é preciso lutar contra o fascista que mora dentro, nascido na naturalidade social burguesa, e matá-lo no paredão da autocrítica: vencer-se a si mesmo cotidianamente, dado que a sociabilidade cotidiana é determinante da individualidade, de um modo ou de outro.

Isso é só o começo da longa e tortuosa trilha rumo à superação da atual forma de vida, trilha que só pode ser escalada em meio às mais complexas interações com outras individualidades dispostas à luta e a maioria contrária a ela. Pois o próprio indivíduo é, em si mesmo, um complexo, universal e contraditório nódulo na imensa rede humana tecida social e historicamente, em meio a toda sorte de outras tantas contradições que perfazem na vida prática a essência e existência humanas.

Superar as velhas contradições e alcançar o patamar de uma nova humanidade, tanto mais autônoma quanto mais se desgarra da heteronomia natural, e abrir os horizontes de uma vida autêntica: a mais radical, profunda, desejável e razoável tarefa humana. Eis aí a razão de ser da esquerda – mudar o mundo que criamos e recriamos o tempo todo e em sociedade.

Não se trata de esperar que os que virão façam isso, quando nós mesmos estamos vivos aqui e agora. Essa é a tarefa histórica que dá propósito e sentido para a vida. E o que poderia ser mais radical do que estar vivo?

“Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente. Se o homem é social por natureza, desenvolverá sua verdadeira natureza no seio da sociedade humana” – Marx.

 

capitalista pobre

Uma nota a respeito do “combate à doutrinação nas escolas”

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A despeito da intenção de combater o que identifica como “doutrinação” de alunos por professores, um blog chamado “Escola Sem Partido” – que reúne a nata azeda da direita mais ardilosa e ressentida do país – promove na verdade uma campanha de perseguição contra o pensamento marxista ou, antes, a qualquer coisa que assim lhes pareça adequado classificar, de acordo com parâmetros retirados da mais plena ignorância e/ou da mais rebaixada má-fé.

 

Pois a tropa do impolutos guerreiros da imparcialidade enxerga, com pleno apuro, um interesse ideológico no marxismo que não possui – e nem deseja possuir – a universalidade olímpica que a educação deve almejar, se quiser realizar-se com a perfeição que lhe cabe por definição e honradez.

 

Mas em que medida pode existir um puro desinteresse (social e político) no saber, ou em que medida essa suposta neutralidade social e política não seria apenas uma ficção (contrária, pois, inclusive a interesses legítimos numa educação humanista e crítica) para uso doutrinário e abuso político, é algo que talvez passe ao largo dessa militância “anti-doutrinária”. Talvez não.

 

Os sujeitos que escrevem no blog são explícitos ao pregarem que a “doutrinação” ocorre apenas no pensamento que diverge da verdadeira doutrina, digo, da imaculada concepção – um ideário mal ajambrado que gravita entre o neoliberalismo e o neoconservadorismo, tão “neos” quanto inconsistentes. Tudo aquilo que ideologicamente se coloca à esquerda, ou seja, na perspectiva social do trabalho, é tachado pejorativamente de “doutrinário”, de “emburrecimento”, “contaminação” político-ideológica, etc. É tal como se verifica no subnível do entendimento religioso mais ou menos consciente de seu sectarismo: “a minha teologia foi escrita pelo próprio deus, as teologias alheias são apenas formas de idolatria satânica e ignorância da Verdade, etc”.

 

De forma ingênua ou, ao contrário, maliciosa, trata-se de fazer alguém acreditar (e é claro que as montanhas de desavisados embarcaram) que a proposta não possui “qualquer espécie de vinculação política, ideológica ou partidária”; como quem pretende que suas “idéias” ou, em termos mais concretos, seu posicionamento político, ideológico e doutrinário se situe acima das questões em debate na sociedade, acima dos conflitos e das lutas, acima dos antagonismos de interesses que estão postos pela própria situação dos indivíduos na relação social travada em torno da reprodução da sociedade. Ou seja, que seu discurso não seja ideológico, quando, na verdade, o é totalmente; que não seja político, quando o é integralmente; que não seja partidário, quando, mesmo não vinculado a nenhum partido específico, toma partido nas questões que me referi acima.

 

Além disso, se observarmos o que de fato ocorre nas escolas, fica fácil de perceber que professores que criticam e deturpam Marx, o socialismo e demais alvos da “anti-doutrinação” não estão na exceção, e sim na regra, enquanto defendem o empreendedorismo da venda de balas no sinal em direção ao futuro e certeiro cargo de executivo numa multinacional.

 

 

doutrinação nas escolas

 

Ora, se os alunos – “nossos intocáveis filhos” – quiserem entrar para o PT ou pro DEM, para uma religião qualquer, ter “orgulho” de serem brancos, brasileiros, héteros etc. (coisas nas quais a persistência certamente exige muito esforço), não cabe a ninguém bancar o paradoxal “anti-doutrinador” que lhes descerá goelas abaixo uma doutrina da “emancipação”. Que sigam o que lhes der na telha e errem por conta própria, pois nada pode ser mais contrário ao aprendizado e ao exercício de alguma liberdade e autonomia que esse discurso da “defesa de meu filho”.

 

A idéia de que haja ou possa haver essa tal “doutrinação” dos alunos por parte dos professores pressupõe 1) que os alunos recebam passivamente aquilo que os professores dizem em aula, como numa espécie de “lavagem cerebral” em laboratório, o que só existe em ficções das mais tolas; 2) que o próprio mundo humano não esteja permeado por idéias políticas, vindas de todos os lugares, e bem mais dos meios de comunicação (incluindo blogs) do que da escola – mas quem proíbe os filhos de assistir à TV, acessar a internet e sair do quarto?; 3) que o caráter político e ideológico dos assuntos que um professor aborda em sala de aula seja necessariamente danoso à formação cidadã do aluno; 4) que tal caráter político e ideológico não esteja presente também na metodologia de ensino, e que haja assuntos, áreas e conteúdos ideológica e politicamente neutros.

 

Tudo isso quando, ao contrário, ser “doutrinado” por uma ideologia ou muitas, bem como pela crítica às ideologias, não apenas é inevitável, como também faz parte da formação para a vida em sociedade. “Defender” o filho contra o próprio mundo, encerrando-o numa bolha contra tudo que o mundo lhe traz, o tempo todo, de ideologias e informações, isso sim é deletério. O desenvolvimento de uma consciência crítica não passa por se colocar à distância das ideologias, mas pelo saber que elas existem, porquê elas estão aí e o que elas dizem, para que o indivíduo possa formar uma posição própria a respeito delas. E isso vai acontecer de um jeito ou de outro, independente das intenções doutrinárias dos pais e dos professores.

 

Não digo que devamos “respeitar” o conteúdo de uma ideologia, como se isso fosse o mesmo que respeitar o indivíduo que as abraça. Tudo pode e deve ser colocado em discussão. E nesse processo, por vezes mais lento e contraditório que gostaríamos que fosse, o indivíduo vai lapidar o seu próprio posicionamento. Tal como estamos fazendo neste exato instante, e ao longo de nossas vidas, sempre.

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