Humanização para além da ciência

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Alguém respondeu meu texto sobre ciência e arte [aqui] dizendo que “ciência é a desantropomorfização do próprio humano”.
 
Exatamente. E, ao contrário do que sugere, desantropomorfização é humanização.
 
Porque a ciência traz “para nós” aquilo que é “por si”. Traduzindo, a ciência permite a ampliação do domínio humano sobre uma parcela da realidade até então alheia a nós e existindo sem qualquer relação conosco, ou sem que nos déssemos conta da relação que houver.
 
A desantropomorfização do homem é a humanização da natureza, tanto a que se refere ao próprio corpo e subjetividade humanos, quanto a natureza exterior ao corpo, na qual o humano se ambienta, tornada mundo.
 
É claro que aquela expansão do poder humano não depende apenas da ciência, mas também da ação prática, do estágio de maturidade social da cognição do sujeito e também da maturação natural e/ou social do objeto. Nem todo objeto está, em si ou por si mesmo, pronto ou disponível para ser conhecido e transformado, ainda que esteja posto diante nossos narizes e nos relacionemos com ele na trivialidade do cotidiano. E nem sempre a história e a sociedade permitem ao sujeito ultrapassar os limites que elas mesmas põem a ele.
 
São coisas que só o tempo nos permite ver com clareza. Porém, o principal domínio da realidade a ser humanizado não é natureza, e não apenas tem total relação conosco, mas se impõe a nós: a sociabilidade mundial humana, ou seja, as condições universais da formação social da mais singular individualidade.
 
Ciência para isso nós temos mais que o suficiente. Mas, ao inverso de nos encontrarmos mais capazes e próximos de humanizar a sociedade, estamos nos afastando desse dever – absolutamente imperioso, necessário e importante, abarrotado de sentido e valor – em alta velocidade e na disritmia de aviltante aceleração, perigosamente desorientados e sordidamente enfraquecidos, rumo ao pleno humanicídio ou à completa torpeza de uma deterioração total da humanidade ao patamar da selvageria. Qualquer avaliação sobre o que seria pior é problemática.
 
Os que herdarão o mundo – nossos filhos, netos, bisnetos – hão de fruir um legado de privação e desamparo, de medo e tensão, desgraças e muita dor, caso a humanidade siga a atual vida encoleirada a serviço da propriedade privada capitalista. As evidências da decadência do gênero humano são tão saturadas quanto um samba de tamanco salto fino em cima de nossas córneas. Somos obrigados a testemunhar grande parcela da população global ignorando a questão ou se lixando pra ela e, para nosso desgosto maior, ainda sentimos nos tímpanos a gritaria de uma massiva horda de bárbaros em defesa da situação vigente.
 
Por isso mesmo é que uma sociedade e individualidade autenticamente humanas, apuradas em todos os sentidos, gozando de riqueza de corpo e alma, pensamento e ação multifacetados, materialidade e espiritualidade verdadeiramente refinadas e integralmente conciliadas – demanda urgentemente uma revolução social radical, dolorosa, ampla, profunda, morosa e duradoura. A mais difícil tarefa já posta ao homem em toda a sua história e, por isso mesmo, a mais valorosa. Quem renuncia a ela, renuncia a si mesmo e apodrece por baixo da própria carniça; saboreia o cultivo do miasma que preenche sua consciência e a metástase da muxiba que convulsiona em seu peito. Não nos permitamos viver sob o jugo de tais cadáveres insepultos e engravatados.
 
Em suma: a ciência nos humaniza. Mas a humanização do indivíduo, do mundo e da própria ciência não é uma tarefa científica. Trabalhadores de todo mundo, uni-vos!
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la revolucion es ahora
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