A esquerda que a direita odeia

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Desde que existe sociedade burguesa existe Estado, e tudo vira mercadoria; donde o Estado sempre ter sido privatizado como alavanca do capital, enquanto vende, via impostos, seus precários serviços universais para o público – desde a sustentação da concorrência do mercado até a promoção e manutenção da funcionalidade, e posterior descarte, dos trabalhadores, nas coxas ou na bala.

De acordo com as necessidades e a avareza do capital, o Estado intervém mais ou menos diretamente na economia, sempre contra os concorrentes de seus financiadores e a favor dos setores e oligo/monopólios (democracia/ditadura) que o financiam – os assim chamados “corporativistas”, ninguém menos que os capitalistas que venceram a competição e compraram o Estado para galgar posições no ranking nacional e internacional da concorrência.

Significa que a universalidade do Estado nunca foi mais que o disfarce de sua particularidade, e que nunca há concorrência sem vencedor; donde a fantasia de um mercado “livre” ser própria daqueles que perderam a guerra comercial, ao mesmo tempo que a insistência no caráter público dos interesses que o Estado deveria atender constitui a ficção e a má-fé da social-democracia, que compõe 99% da esquerda – mais afeita às doutrinas de Hannah Arendt, Foucault, Habermas etc. que às críticas de Marx.

Na eventualidade da economia dominada por oligopólios, a democracia abre disputa para o controle do Estado às representações políticas dos setores do capital, à direita e à esquerda; não para fazer a universalidade de seus discursos políticos tomar o timão do Estado, e sim para abrir aos capitais que representam o acesso ao aparato material (“dinheiro público”) do Estado.

O que a direita e a esquerda portanto disputam, entre si e para si, não é a direção da sociedade ou o usufruto do poder material do Estado, mas o cargo de mordomo dos capitais ao quais o Estado será servido; quando não disputam lugar no mercado ideológico do perdedor maior, o cargo notório de inimigo público da sociedade; que, no mundo da inversão de tudo, equivale a ser nada menos que o porta-voz dos interesses da sociedade, algo perfeitamente vantajoso para formar seus currais eleitorais.

As eleições são o mecanismo com que a direita e a esquerda desmobilizam e afastam as demandas por mudanças efetivas da vida cotidiana – que permitam a resolução dos problemas de uma sociedade corrompida pela mercantilização dos laços e relações entre os indivíduos -, em troca da gerência e perpetuação de tais males, nas coxas e na bala, rumo ao abismo que tal descaminho descortina no horizonte.

Não é por outra razão que a razão de ser da política, a defesa da propriedade privada, que toda a filosofia política, desde Platão até os contemporâneos mortos-vivos e atuantes, coloca como problema central da política a tarefa de evitar, desmantelar e afogar as revoluções. Temos nas jornadas de 2013 um exemplo histórico recente em que as forças políticas se prestaram a salvar o cassino institucional com todo zelo: vimos a esquerda trocar a disputa da direção da revolução pela defesa do governo Dilma, enquanto a direita convocou o protesto a sair das ruas e se dirigir às urnas, sendo bem sucedida em esvaziar as primeiras e vencer nas segundas.

Importa notar, e agir de acordo com isso, que a esquerda se recusou a assumir o papel de representação dos trabalhadores e fracassou como representante do capital. Enquanto isso não acontece, caminhamos para a continuidade da crise, legitimando as instituições e seus paliativos que, agora, não conseguem mais que apenas agravá-la.

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A tese de que a esquerda abandonou o “trabalho de base” devia servir para a esquerda perceber que precisa fazer “trabalho interno de base” junto à própria esquerda, trabalho teórico de esquerda, formação de militância, antes de buscar dialogar com os trabalhadores – que aliás ela só não dispensa na hora de angariar seu gado eleitoral.

Afinal, qual é a esquerda que a direita odeia? É a esquerda que faz o que a direita se propõe, mas ainda sabota o movimento dos trabalhadores, frauda eleições sindicais, sufoca as greves e negocia suas rifas com o patronato; ou seja, ganha da direita na disputa pela subserviência à burguesia.

Com uma esquerda dessas, o Brasil não precisa de direita; mas como a direita não está mais encastelada nos gabinetes, é ela que está fazendo “trabalho de base” junto aos trabalhadores, o único trabalho que a esquerda devia fazer e jamais abandonar.

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Diante de uma greve, a esquerda brasileira é incapaz de perceber que, como em toda forma de sublevação, é tudo uma questão de quem está vencendo a disputa pela direção.

Mas ela é a esquerda que não disputa movimento – porque acha que movimento tem dono. Por exemplo, na paralisação dos caminhoneiros em maio de 2018, preferiu alegar que havia “dedo de empresário nessa greve”; pior, que se tratava de “um locaute para impedir a realização das eleições”.

Quando politicamente derrotada, reclama que “a democracia sofreu um golpe”; mas tão logo os trabalhadores saem à luta, ela tenta desqualificá-los e se torna, mais uma vez e com desenvoltura, uma esquerda governista, ainda que sem governo.

Como se a questão não fosse muito mais profunda e importante e que será pauta do programa de todos os candidatos a presidente ou a ditador.

Óbvio que teria dedo de empresário nisso, quando é que não tem? Quando é que a direita ficou assistindo greve pela televisão ao invés de tentar mudar a direção do movimento? Quem fica chupando dedo é quem acredita que a greve é, a priori, dos empresários, e que só resta enxovalhar os grevistas na internet, chamando-os de “massa de manobra” etc., com que esses esquerdistas de pijama atiram no que resta das próprias pernas.

Ex-querda que se deleita em denunciar a pauta da greve, sem notar que quem vence a disputa pela direção – de que ela abriu mão – elabora a estratégia e delineia as táticas.

Tal como ocorreu nas jornadas de 2013 – que tinham, a princípio, uma “direção popular”, ou seja, não tinham direção. Quem assumiu a direção foi quem disputou.

Depois que a direita assume a direção de ambas as coisas e dá o tom dos atos, não adianta absolutamente nada ficar choramingando e dizendo que se tornaram “movimentos de direita”. Óbvio! A esquerda, perplexa, não fez mais que desconfiar e se afastar dos trabalhadores, ao invés de intervir.

Facilitou pra direita a tal ponto que não custou nada a esta. Aliás, a esquerda jogou os trabalhadores em seu colo. Isso produziu um retrocesso que, isso sim, vai custar anos pra recuperar. Se é que vai.

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Pois o que temos no Brasil é uma esquerda pueril, totalmente dependente, moral e intelectualmente, do “homem da casa”, o maridão PT. Ex-querda que certamente não é aquela que a direita apreciaria como interlocutora ou mais (se a direita fosse capaz de apreciações e estivesse interessada em emitir outra coisa que grunhidos), pois nada possui de apreciável; mas é a esquerda que se aliou à direita.

A mesma que acusa sua fração menor – que não se aliou – de ser “a esquerda que a direita gosta”. Mas o que é ser do gosto do inimigo diante do ato de lamber-lhe as solas? Antes ser a esquerda que a direita gosta que ser a esquerda que gosta da direita.

Uns anos atrás, o drama era que a esquerda virava direita, enquanto a direita virava traficante de órgãos humanos, nióbio etc., donde até uma Kátia Abreu passava como esquerdista. Hoje a direita é governo (bem-vindo à democracia, se é que você ainda não percebeu o que isso significa), e a esquerda fica dando comidinha pro “fascista que mora dentro”, se achando o supra-sumo do combate à opressão ao mesmo tempo que lhe faz declarações de amor aos relinchos. Não se pauta apenas pelas pautas da direita, mas faz marketing e militância “reversos” para ela, acreditando que há qualquer esquerdismo nisso. Não é só a esquerda que a burguesia gosta, é a esquerda que gosta de apanhar da burguesia.

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É triste, mas é preciso reconhecer: todo esse entulho religioso partidário-“social” conhecido no Brasil como “a esquerda” se esforça tremendamente em ser tão vil, subserviente, mentiroso e humanamente inútil como a direita é.

E até isso é jogo que a esquerda sempre perde.

Porque é uma esquerda que sonha em ganhar disputas na arena da burguesia. É uma esquerda política, tanto mais política quanto mais anti-social e anti-socialista, ainda que se auto-engane com os vocábulos dos revolucionários de 1848, 1871 e 1917, enquanto ignora e despreza o significado deles; a partir do qual forma uma militância sub-fundamentalista – pois se o pastor serve pra alguma coisa, é para dispensar os fiéis do trabalho de se haver com uma literatura densa e maçante; e assim é que a doutrina se torna tanto mais eficiente quanto mais fast food. É a militância da “gota de prática muito mais importante que toneladas de teoria” levada às últimas e mais consequentes coerências.

Ora, se a proposta é lubrificar o reto dos trabalhadores para permitir que “o país cresça”, então é melhor abandonar logo esse papo de socialismo, que ninguém sabe mesmo o que é e nem quer saber, e virar uma neodireita a prometer uma “nova política” mais velha que Péricles, aproveitando que a direita virou uma máfia.

Falta só combinar com os yankees. Mas, como consolo vibratório, pelo menos o papel de perdedor as esquerdas sempre ganham.

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Temos de construir a luta desde o zero, ou abaixo disso, já que é preciso remover antes o vírus petista/cutista da pelegagem e sabotagem.

Uma das coisas que vale a pena refletir é se devemos reivindicar ainda o termo “esquerda” para caracterizar a defesa dos interesses dos trabalhadores.

Dialogar com os trabalhadores usando o discurso e o palavreado da política é querer cair na provável remissão a tudo que a política é e encerra.

Ou seja, se dizer de “esquerda” é se apresentar imediatamente, aos olhos do “cidadão comum”, como esteio dos mais torpes decalques: petista, stalinista, mafioso de sindicato (i.é., cutista), pelego traidor da base, social-democrata lambe-bola de banqueiro etc.

Pois o que é a esquerda, na sua quase integridade, senão exatamente isso?

Quando os neófitos dizem que não existe mais esquerda ou direita, ou que são a mesma coisa, devíamos ser menos bobos e parar de pensar “eis um marionete de direita”.

Inclusive porque a percepção popular de que há algo de podre no cassino institucional é bem antiga e perfeitamente condizente com a realidade. Só mesmo os republicanos, os politólatras, identificam isso a uma espécie de reacionarismo, um perigo potencialmente fascista etc. São cognitiva e/ou moralmente incapazes de admitir que o ranço plebeu à política provém de um senso de realismo autenticamente humanista.

E a esquerda é, primeiramente, um dos lados do gradiente político, muito antes de caracterizar uma posição “metapolítica”, revolucionária.

Não adianta querer convencer as pessoas que a esquerda é, ou deve ser, outra coisa que o profundamente arraigado, não casualmente, no entendimento comum.

Marx se recusou a usar o termo “socialismo” e adotou “comunismo” justamente por isso. Todas essas palavras estão hoje carregadas de um peso tal que ninguém vai topar ouvir uma aula de história que “esclareça” o que você ainda pretende começar a dizer, mas não vai.

Nomes são apenas nomes, e como roupas, devem ser substituídos quando encardidos e molambentos. O que importa é o que vestem, mas é preciso vestir-se de forma adequada.

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Confira também:

A hegemonia de um nominalismo às avessas nas discussões políticas

Uma nota acerca do MEDO ESQUERDISTA da revolução

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Epistemologia: glacê crítico para decorar ideologias burguesas

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Epistemologia é a área da Filosofia que mais produz asneiras sob a crença de estar pensando de maneira “crítica”.

É o playground predileto dos filósofos da burguesia, de Descartes a Popper et caterva.

Quanto mais absurda e mais enrolada em pseudoproblemas – tais como “de que modo o cérebro, que é uma coisa material, se relaciona com a mente, que é imaterial?”, donde o ceticismo, o relativismo, a negação da razão, a afirmação da Vontade do Führer, a defesa do liberalismo etc. -, mais “crítica” ela se pretende.

Algumas declarações típicas surgiram num debate, e como elas estão adentrando o senso comum, achei que valia a pena rabiscar uns comentários:

– “[É falso] acreditar que o papel da ciência é buscar uma essência ocultada pelas aparências que, se descoberta, proporcionaria um conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”.

Sim, a ciência busca descobrir a essência ou lógica do objeto por sob sua aparência; mas não tem nada a ver com adquirir um “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade” (de fato, um papo estranho). A pessoa que afirma ser a concepção de ~ciência como descoberta~ um “totalitarismo epistemológico” acusa um espantalho; pois pensa que o objeto (seja qual for) a ser descoberto é inerte, donde poderíamos desvelar suas camadas até chegar à sua essência íntima e estável e, então, ter um saber absoluto acerca dele. Ora, isso o “crítico” só pode pensar estacionado à frente da carroça de Parmênides, dizendo amém ao infantilismo ontológico da metafísica. Pois nada que existe está estagnado: tudo está em processo, e quando conhecemos algo da coisa, ela já está adquirindo novas determinações. Ontologicamente, não há como ter “conhecimento definitivo da realidade em sua totalidade”. Isso é conversa de sacerdote que imagina possuir o whatsapp de Deus.

– “Há um caráter falseável de toda teoria que almeja a descrição da realidade. Não existe “conhecimento verdadeiro”. O que existe é conhecimento com maior capacidade de sobrevivência a críticas”.

Eis o que pensava Popper. Ele acreditava que teorias não poderiam ser verificadas de forma definitiva, mas acreditava que elas poderiam ser falsificadas assim. Enquanto não fossem falsificadas e fossem resistindo aos testes (e enquanto fossem úteis), ficavam no pódio (ou “paradigma”). O problema dessa conversa definitivista-ao-contrário é que os procedimentos que testam a teoria estão todos embasados em outras teorias, de modo que a falsificação de uma teoria é que pode ser falsa. Em suma, teorias não são verificáveis e nem falseáveis de forma definitiva. Aliás, quem é que está preocupado com isso?

O que mede o caráter “definitivo” do conhecimento não é nenhum laboratório de falsificacionismo, mas sim a necessidade humana e o quanto uma teoria a satisfaz. Por exemplo: a lógica dos agentes infecciosos conhecidos como “vírus” deixou de ser conhecida de modo “definitivo” tão logo o HIV se tornou um problema pandêmico e revelou à ciência que sua lógica era especificamente mais complexa que até então se sabia sobre os vírus. Mesmo assim, tal conhecimento satisfaz a necessidade de combater a maioria deles, e é ele que pode servir de base para decifrarmos a imensa variabilidade genética, o rápido ciclo de replicação e de mutação e demais propriedades específicas do HIV (sobre o qual já se sabe bastante coisa).

– “Todo contato que temos com a realidade já produz um objeto mental construído pelo nosso entendimento, portanto, não é correto afirmar que há uma primazia do objeto em relação ao sujeito”.

Kant regurgitado até virar alfafa sub-idealista. “Todo contato que temos com a realidade ~~produz~~ um objeto mental ~~construído~~ pelo nosso entendimento”. O objeto mental é produzido no contato que temos com a realidade ou ele é construído pelo nosso entendimento? Se é preciso haver contato com a realidade antes de imaginarmos o objeto, é óbvio que há uma primazia da realidade… e lá se vai a tentativa de dizer que a realidade é construída pelo sujeito (uma “crítica” que se desenvolve ainda no maternal).

– “Nossa mente constrói regularidades através de interpretações, não apenas é passiva de uma regularidade dada do objeto”.

Não é “apenas” passiva de uma regularidade dada pelo objeto, mas então reconhece que a regularidade é dada por ele; que, aliás, é o único critério existente pra avaliarmos as interpretações que a mente constrói.

– “A lógica das coisas não é algo dado na realidade, mas sim, construída por uma mente capaz de ‘logicalizar’ [sic] a realidade”.

Uma mente que fornece à realidade a sua lógica! Será que isso é filosofia, ou é religião? Estamos falando de cientistas ou de Deus? De fato, a lógica das coisas não está dada a nós, mas muito menos a construímos. Ela é extraída da realidade (das coisas reais) por meio da investigação, e então é decifrada e, por fim, descoberta. Como disse Marx, se a aparência das coisas correspondesse à sua essência [ou: se a lógica das coisas estivesse naturalmente exposta aos nossos olhos nus], a ciência não seria necessária. Se for pra brincar de “inventar lógicas”, é bem melhor fazer ficção científica que fazer da filosofia e da ciência uma palhaçada que abre alas para o irracionalismo e o anti-humanismo burgueses.

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mas consegue parir Schopenhauer, positivistas etc

O Estado prejudica a livre concorrência?

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Nobres e perpétuos candidatos a ideólogos e carpetes da burguesia costumam rezar o mantra do combate ao intervencionismo estatal sobre o mercado, pretendendo que isso torne “livre” a concorrência (vamos fingir no momento que isso não é um oxímoro) – a partir do que chegaremos ao auge da História, o “verdadeiro capitalismo”… que acabará com a pobreza e transformará todo trabalhador em “empreendedor”.
 
Em primeiro lugar, esse lumpesinato intelectual não sabe o que é capitalismo. Sonham com um mar em que os peixinhos irão nadar “livremente” com os tubarões, disputando meras provas de velocidade pelo prazer do esporte.
 
Que trabalhadores e capitalistas são igualmente proprietários de mercadorias que se trocam por meio de contratos livremente acordados, assim como leões e gazelas celebram suas relações sem nenhuma intervenção desleal a favor dos invejosos e preguiçosos.
 
Que, em suma, a concorrência parte de uma circunstância de igualdade, e é a ética do trabalho que irá alçar aqueles que se tornarão não-trabalhadores.
 
Que o resultado da concorrência não será o contínuo fortalecimento dos vencedores, e portanto a diminuição de seu contingente, mas sim que essa acumulação cada vez mais ampliada significará um maior acesso dos trabalhadores aos “recursos escassos” e aos bens produzidos.
 
É como colocar o Mike Tyson pra lutar com o Popó e querer te convencer que ambos vão ganhar, e que vc deve apostar no Popó.
 
Por fim, esses neo-economistas de horóscopo austríaco não compreendem que o intervencionismo do Estado não se opõe à concorrência no mercado.
 
Pois o Estado, como tudo mais, se compra e se vende. Ele é apenas um meio de incrementar o ganho dos negócios particulares, da mesma forma que a maior organização do trabalho, o aumento da produtividade, o arrocho salarial, a sonegação, a publicidade etc.
 
Portanto, esse papo de que é preciso privatizar os serviços públicos, eliminar impostos, eleger “administradores” no lugar dos políticos etc. nada mais é que chorumela de quem entrou no ringue e perdeu os dentes no primeiro assalto.
 
Neoliberais, ancaps e libertários acreditam, assim, que se o capitalismo não foi benevolente diante de suas incompetências e incapacidades mentais, é porque ele está sob efeito da “doutrinação” de falsos ídolos.
 
Eis como o Santander pôde ser chamado de banco “comunista”.
 
A solução? Acabar com o Estado e proteger a propriedade privada com as próprias unhas.
 
Vai dar serto çim, abiguínio.
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direitista varou noite defendendo o capitalismo

Fernando Pessoa e o “verdadeiro anarquismo” a serviço da burguesia

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Fernando Pessoa expõe, em seu conto “O Banqueiro Anarquista” (PDF para download), uma argumentação consistente para identificar o anarquismo enquanto uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa (também chamada de “libertarianismo” e demais variantes), em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas.

Observem estes trechos. No primeiro, ele fundamenta a ideologia sobre uma antropologia filosófica – o egoísmo enquanto “natureza humana” (ah, como a natureza é conveniente!…):

– “Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao Estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, por que cargas d’água defenderia o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta“.

No segundo, ele justifica a corrupção geral da sociabilidade burguesa (o que Hobbes chamava de “guerra de todos contra todos” na selva onde “o homem é o lobo do homem”) sem nenhum pudor:

– “Não é natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta; e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter a compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso… E veja você.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o fato que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro. Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo – confesso-lhe, meu amigo, que empreguei tudo quanto há – o açambarcamento [roubo], o sofisma [fraude] financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?!

Fernando Pessoa é honesto em seu cinismo auto-complacente. Mas por que eu disse que isso é “uma ideologia perfeitamente pequeno-burguesa, em seu interesse mais essencial e intransferível: servir para lamber as solas dos capitalistas”?

Porque acredita na fantasia do “enriquecimento às custas do próprio esforço” (ainda que esse “mérito” seja resultado de toda sorte de meios ilegais e imorais – afinal, F. Pessoa condena a moral e o Direito como “não-naturais”, donde serem “ficções”) – como se o trabalhador partisse de uma situação desprovida de pré-condições, de uma linha de largada em que toda a concorrência entre os indivíduos estivesse equilibrada, e a partir da qual é que se instauraria pra valer.

Essa fantasia não enriquece trabalhador nenhum, mas serve como uma luva na hora de defender “quem chegou lá“, ou melhor, quem já estava lá por meio de herança de capital e de força política.

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A hegemonia de um nominalismo às avessas nas discussões políticas

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Estava conversando com um liberal que se recusa a ser identificado com a direita. Ele me perguntou: Stalin era comunista?

Eu havia dito antes que preferia ser chamado de comunista a socialista. Com essa, percebi que isso não faz muito sentido.

A esquerda em geral entende que “socialismo” e “comunismo” (me refiro especialmente àquela esquerda que não apenas já ouviu falar neste último, mas também o reivindica, nem que seja somente no fundo do abismo da imaginação) são análogos, correlatos ou até mesmo sinônimos (com que Marx arranharia o mausoléu). Entretanto, são termos considerados muito gerais, donde caber neles outros mais específicos: trotsquismo, morenismo, stalinismo, leninismo, maoísmo, guevarismo, castrismo etc.

O fato é que os rótulos não possuem nenhum significado intrínseco; também não adianta apelar para a história francesa, para a distinção que Marx sempre fez entre tais termos ou para o que aconteceu ao longo da existência da URSS. As significações são acumuladas ao longo da história e elas podem ficar de cabeça pra baixo, se assim as pessoas entenderem que os termos devem ser usados.

Claro que é importante saber como o eram na França e como Marx os definiu a partir das experiências teóricas e políticas da esquerda francesa, mas isso não basta. A URSS é indelével nessa brincadeira semântica.

Daí que Stalin poderia ser qualificado de socialista por muitos motivos, mas ele é um comunista; e isso por uma única razão, a mais forte que pode haver, e definitiva: nada mais que o fato de os bolcheviques se autodenominarem comunistas.

Mais que isso, comunistas soviéticos – quando os sovietes já haviam sido transformados em um reles nome.

Adianta lembrar que a assim chamada União Soviética se ergueu por sobre a destruição dos sovietes? A História e a linguagem podem não ser realmente feitas pelos vencedores, mas eles têm, de fato, uma rainha a mais no xadrez da práxis.

Depois da queda da URSS o termo socialista foi reabilitado de modo a fazer referência àquilo que antes era dito comunista – pois este carregava o estigma da queda do leste europeu e remetia a tudo aquilo que se identificava (ou passou a ser identificado) como stalinismo.

Quando alguém fala abobrinhas infames sobre a esquerda, o socialismo, o comunismo, e ainda mistura isso com petismo, Lula, Foro de SP, bolivarianismo, Coréia do Norte e Cuba, está pensando a partir do nível de identificação mais grosseiro, porém real, entre as proposituras da classe trabalhadora e a desgraça stalinista.

Quando dizem que não há mais direita e esquerda, pensam de acordo com a ficção tola de uma política guiada ideologicamente, mas também com a realidade do pragmatismo que leva todos os divergentes políticos ao centro, onde as alianças se celebram e as pernas e concessões se abrem.

Por conta disso, é fácil perceber que 99% das discussões na direita, na esquerda e entre ambas – ou entre liberais e conservadores de um lado e trotsquistas e stalinistas de outro – se fazem simplesmente acerca de tais nomes.

É o nominalismo medieval às avessas, pois aqui se crê que os nomes não apenas carregam em suas letras a realidade concreta, mas que esta última está encerrada nelas. A palavra não aponta para a coisa, ela é a coisa.

E o debate se torna histeria coletiva no ritual da Igreja do Verbo Satânico. Hugo Chávez falou que seu bolivarianismo (WTF) era um socialismo; a ampla maioria da esquerda e a totalidade da direita acreditaram nele, logo a Venezuela é um país socialista.

Há como escapar disso? Creio que sim, mas depende dos interlocutores, da capacidade e preocupação de pensarem as coisas para além de fórmulas prontas e vazias; e ainda, é claro, do interesse honesto em fazê-lo.

Não importa tanto se o nome disso é esquerda, marxismo, comunismo, trotsquismo etc. Importa dizer o que é ou o que se quer dizer com isso e porque.

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Baita calamidade, amigo Abelardo!

A subjetividade dos valores em Marx e na Áustria

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Segundo diz a “economia” austrológica, Marx nega o caráter subjetivo do valor.

Ao contrário disso, é óbvio para Marx que apenas sujeitos podem reconhecer e atribuir todo tipo de valor a qualquer coisa.

Objetos, coisas, animais etc. não reconhecem valores. Neste sentido, valores são subjetivos.

PORÉM os valores só são valores porque ultrapassam a subjetividade individual e se estabelecem enquanto objetividade social.

Isso não ocorre apenas por meio de relações intersubjetivas, mas também, e principalmente, objetivas; não apenas com outros sujeitos, mas também com objetos produzidos pelo trabalho ou coisas da natureza com que nos defrontamos.

Por exemplo, e pra falar de valores bem “subjetivos” ou “intersubjetivos”, o ato de produzir gratuita ou interesseiramente uma lesão física em alguém é reconhecido na dimensão dos chamados “valores morais” pelo nome de “violência”, e é identificado como um ato censurável, dada sua qualidade má, deletéria, donde ser proibido em qualquer código moral de qualquer cultura que houver (ou, ao menos, naquelas que os indivíduos são reconhecidos como membros de uma mesma coletividade). Por que? Tal semelhança é pura coincidência entre sujeitos e culturas, ou o valor decorre de relações objetivas, envolvendo um corpo físico e um instrumento físico, bem como indivíduos realmente existentes enquanto membros de um grupo social realmente existente, relações essas que explicam tal “coincidência”?

Em suma, e de acordo com Marx, valores são produtos ONTOLÓGICOS da atividade social.

Os austrólogos, no entanto, pensam ser o valor um fenômeno psicológico. Ou seja, o que pensam ser assunto da economia é o que se leva a consultórios de psicologia.

Ora: uma coisa qualquer, cujo valor próprio não é próprio (pois eu simplesmente estimo, por minha própria conta e risco, que ele possua tal valor) não tem, a princípio, nenhuma possibilidade de fazer valer suas qualidades perante outros sujeitos, donde não servir pra nada. Exceto se não atribuo a ele tal valor, de acordo com meu umbigo, mas reconheço nele este valor que lhe é próprio (i.é., decorrente de suas propriedades objetivas) e que se oferece ao demais, ainda que não sejam capazes de reconhecê-lo ou não estejam interessados nele.

Enquanto isso, toda a questão do que é valor (e também do que é preço) se confunde na cabeça neoliberal num subjetivismo só. Pura derivação do querer e das escolhas individuais perante as mercadorias; apenas uma questão de fôro íntimo que nada tem para nos informar de coisa alguma, pois o embate entre os agentes de um mercado de solipsistas pode resultar em qualquer coisa, independente do que foi o mercado passado e seus preços.

É tal como acontece com qualquer proposição subjetivista: cai em total e inútil misticismo.

Mais valeria a leitura prévia de Marx, antes de pretender criticá-lo e formular teorias econômicas; entretanto, ao sudeste da Alemanha nenhum valor também se encontrará, pois o objetivo da austrologia não é mais que balir uma apologia chinfrim do capitalismo.

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PS. Noutro lugar eu havia tratado a questão nos segtes. termos:

O liberalismo austríaco [é] um liberalismo subjetivista. Os aristocratas da ideologia econômica de sala de espera dos consultórios de odontólogos afirmam que o valor das mercadorias provém da percepção que o sujeito tem da utilidade de um bem; isto é, o sujeito ESTIMA o valor do produto a partir de sua necessidade de consumí-lo (ou de se livrar dele).

É a famosa patranha herdada de Böhm-Bawerk: o “valor subjetivo” – aquele que leva comprador e vendedor à mil formas de barganhas, pechinchas, depreciação da mercadoria por quem a quer ou necessita comprar e louvores por parte de quem deseja ou precisa se desvencilhar do trambolho.

É o seu ursinho de estimação como parâmetro do valor ~versus~ o ursinho daquele com quem você deseja traficar mercadorias uma com outra (por exemplo, um bem de uso por dinheiro).

Como o consumidor consegue traduzir sua necessidade em um valor monetário? Quantos reais custa a necessidade? Como ele e o vendedor chegam a um acordo, dado que o vendedor estima o valor da mercadoria por sua necessidade de vendê-la, e como ambos conseguem decidir quanto vale o dinheiro? Eis aí um punhado de questões que não interessam, pois a mão invisível do deus mercado – é o que Marx chamava de fetiche da sociedade mercantil ou “fetichismo da mercadoria” – há de resolver isso.

Pois, se o valor é estimado a partir das necessidades e do querer do sujeito, nada aponta para um consenso entre ambas as partes quanto ao valor; só se pode contar com a vontade de ambos em fazer a troca. Para sorte deles, ninguém questiona o valor que está estampado no dinheiro, pois é preciso haver um valor objetivo (e é isso que pode fazer um valor realmente dotado de validade) pra servir aos indivíduos como critério do que é uma mercadoria barata ou cara.

Ou será que o umbigo de Böhm-Bawerk refutou Marx? Assim:

“Acho que Y vale X” = Y vale X.

Ou: acho que 10 reais valem 100 reais, “LOGO” 10 reais valem 100 reais.

Ora, se a medida do valor é o umbigo do sujeito, não há nenhuma possibilidade de se fazer um “cálculo econômico” (e nem mesmo haver mercado) – exceto se admitir-se que a relação de troca é uma relação de força e o valor é imposto por um dos lados ou por fora da troca mesma.

É completamente anti-ontológico: do subjetivismo PURO é preciso que os economistrólogos saltem para a PURA objetividade do valor, isto é, para a “plena regulagem pela oferta e demanda”. E lá se vai a patranha pelo ralo.

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O fascismo colore o Brasil: a esquerda “classe média” pira!

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“Tenho 5000 amigos nesta rede. A maior parte, de esquerda. Desses, a maioria parece estar vivenciando algum tipo de luto. Uns ficam choramingando pelos cantos, decantando a falta de esperança, pranteando os tempos idos. Outros deliram, sem peias. Passam os dias e noites a conversar com um coxinha imaginário. Riem do coxinha imaginário, apontam o dedo pro coxinha imaginário, berram: “BATERAM PANELAS? AGORA AGUENTA!”. Os verdadeiros coxinhas, quando não foram eliminados da timeline dessas pessoas em algum momento entre 2013 e o ano passado, estão plácidos, contentes, a compartilhar fotos de gatos, cachorro, comida. Eles não ligam. Isso me assusta, pois é um sintoma, eu reconheço sintomas.
 
Esse post gigante e algo confessional é para dizer que aquela sombra [da depressão], minha velha conhecida, está rondando muitos de vocês. Vocês precisam se cuidar. Ou vocês dão o seu jeito de irem lixando, pouco a pouco, as diversas camadas de cinza, ou deveriam procurar tratamento adequado. Saiam dessa espiral de lágrimas, luto, negação, está começando a ficar preocupante. Luto não era verbo? Pois então”.
 

 Pedro Munhoz 

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Eis aí uma observação arguta do Pedro Munhoz, à qual eu gostaria de acrescentar um rabisco.

A respeito do “avanço e proliferação do fascismo no Brasil”, que draga as energias psíquicas de tantos esquerdistas por aí, eu havia dito, em março (cá e lá no facebook), algo que vale a pena redizer:

Essa tese de um “crescimento do fascismo no país” é: empirista, impressionista, falsa, derivada da coleta de casos em jornais e “fundamentada” no marketing político do medo, no reginoduartismo difundido pelo PT em apuros e por suas rêmoras (p.ex., Guilherme Boulos e sua “crescente onda conservadora no Brasil”).

É preciso lembrar que o fascismo é pequeno-burguês, e isso é normalíssimo. E que a “classe média” não apita. Late mas não abocanha.

O que a manadinha fascista queria era a queda do PT. Já bastava a ela. Depois que o PT caiu, ela continuou a fazer seus atos? Bateu em comunistas na rua, quando ficou claro que os problemas do país não eram o PT no poder e a esquerda em geral? 

Não. Depois que o PT caiu, os fascistas vestiram o pijama. Pra eles era isso que estava em questão, algo totalmente independente dos problemas econômicos e políticos e seus desdobramentos, pois em suas fantasias o único problema era vencer o que não passa de um mito: “o partido e a política comunista em ação no Brasil”. E eis que estão dispensados de ter qualquer clareza sobre qualquer coisa.

O fascismo, portanto, não cresceu e nem se expandiu: esteve aí desde sempre, ainda que deitado eternamente em berço esplêndido, amando a Pátria em seus sonhos, mas eclodindo quando chamado pelo MBL a salvar da morte vermelha o lábaro da liberdade.

Engraçado é reconhecer que, quanto à determinação social do fascismo, a Marilena Chaui não estava de todo errada. A pequena burguesia (que ela chama de “classe média”, com a precisão de um hipopótamo) sempre foi fascista. Se agora “o gigante acordou”, se de repente o fascismo resolve dar as caras e mostra sua cabeça monstruosa, daqui a pouco ele dorme de novo.

Nada disso seria qualquer problema se a maior parte da esquerda brasileira não insistisse em dormir ao seu lado. 

O sono da esquerda produz monstros.

Quanto a isso, recentemente eu falei da “classe média autocrítica” – ou crítica de uma “outra” classe média -, que constitui um bom bocado do eleitorado e da militância das esquerdas light, essas que querem conquistar a pequena-burguesia para um socialismo de reformas do capitalismo, feitas através da política (p.ex., o próprio PT, seu pet amestrado PCdoB e seu filho adolescente rebelde PSOL).

Centram foco na disputa pela “classe média”, da qual falam tanto quanto o pastor fala do diabo, num bizarro exercício de narcisismo.

Deixam de disputar os trabalhadores porque são socialistas cuja perspectiva social é pequeno-burguesa, donde se vêem engalfinhados em um vórtice de obscurantismo teórico e prático que os lança em perdição e ceticismo e depois os cospe na direção da religião, do cinismo e do liberalismo.

Pois que tratem de se livrar dessa idéia fixa peçonhenta em atacar a pequena-burguesia que colore seus pesadelos, e mirem esforços para a organização dos trabalhadores, a única classe que pode ter interesses em mudar a sociedade.

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