Debates e Debatedores, Opiniões e Razões, Golpe e Materializações

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Tem uma multidão de gente que discorda de mim, e isso é absolutamente normal.
 
Infelizmente, muitas coisas atrapalham o debate, e às vezes fica difícil saber se há uma opinião na roda que seja mais consistente e coerente com o assunto discutido.
 
Acontece ainda do pensamento precisar de tempo para avaliar as idéias, e só conseguir chegar num veredito depois que o debate já acabou.
 
E aí tem vez que a gente vê que nossas idéias não estavam bem assentadas. Pra quê discutir? Pra gente aprender aquilo que achava que já sabia.

 

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Vou citar um exemplo que aconteceu comigo mesmo. (Quem estiver sem muita paciência, pula esse causo e continua no assunto mais abaixo.)
 

Um mês antes da votação na Câmara da abertura do processo do impeachment de Dilma Rousseff, eu estive no mural de um ex-aluno, discutindo veementemente com um outro sujeito e afirmando, contra o que ele dizia, todos os porquês (que eu tinha na cabeça e na minha frente) daquilo ser um golpe.
 

Eu dizia que “as afrontas ao direito” feitas contra o PT – eu citei a divulgação dos grampos e não haver denúncia, investigação ou processo aberto contra Dilma – “feriam os princípios de um Estado Democrático de Direito”. Em suma: “como pode não ser um golpe?”.
 

Um ou dois dias depois, coloquei a cabeça de volta ao lugar e percebi que ele tinha razão, ou eu é que não tinha nenhuma, pois estava apenas boiando na corrente de uma idéia que a ampla maioria da esquerda replicava – com muito mais poder de disseminação que bom senso. Uma tese fundamentada mais na razão da força que na força da razão.
 

Eu estava engolindo a lorota republicana das regras do “Estado Democrático de Direito”; estava caindo na conversa mole da esquerda brasileira – que não lê Marx, e sim Hannah Arendt, e quer “melhorar a democracia”.
 

Descobri, na prática do enfrentamento ideológico, que eu não SABIA o que era o “Estado Democrático de Direito” e suas regras, apenas desconfiava de ambos, como quem intui uma idéia mas ainda não vê como ela se articula.
 

Foi então que as coisas se encaixaram: o Judiciário não estava sendo pollitizado, assim como o Legislativo não estava sendo judicializado. Os três poderes não eram, nunca foram e não são puros, e suas atribuições não se isolam umas diantes das outras. Quem, afinal, julgou o processo? Foi o Senado. Dilma apelou pro Judiciário e perdeu. Legitimou o processo até o fim. Não houve ruptura NENHUMA com a Constituição e com a institucionalidade. Toda a novela foi política; e a marmelada judicial das pedaladas foi apenas o verniz tosco. Mas foi sobre este que a tese do golpe se apoiou: afirmando a ilusão do aspecto jurídico como preponderante, a aparência de um processo que “deveria ser justo” – quando o jurídico e o que seja “justo” é determinado politicamente. E isso porque era o que restava ao PT: transformar a sua derrota política na derrota de todo o “Estado Democrático de Direito”, o que poderia angariar-lhe apoio para resistir ao impeachment. Perdeu duas vezes: na arena política e na arena ideológica.
 

Posteriormente, eu vim a saber que o PSTU também rejeitava o discurso do golpe. Beleza, eu não estava sozinho. Não que eu pense que a quantidade de pessoas e de likes que sustentam uma idéia seja garantia de sua verdade, ou mesmo um mero indício desta. Se eu acreditar na verdade de uma opinião e todo o resto da humanidade me achincalhar, vou apenas lamentar que estejam no erro. Por que então estou dizendo isso? Porque estar no isolamento te faz acreditar que você está errado, e estar na torrente te faz acreditar que está certo. Isso é uma armadilha sofística tribal do pensamento, e é exatamente disso que a mitologia se nutre enquanto mata a razão.
 

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Voltemos ao assunto. Contei o caso acima pra dizer que mudei de idéia, quando a razão me fez reconhecer a fragilidade da opinião anterior, que eu havia comprado pronta na internet, e estruturou de forma sólida a que eu tinha ainda em formação e com peças por articular.
 
Procurei testar meu novo posicionamento e, até agora, ninguém dos muitos com quem discuti a questão me deu bons motivos para achar que devo voltar atrás.
 
Enfim. Não tive e não tenho – e não sei porquê deveria ter – nenhum receio ou vergonha de mudar de opinião. Era apenas uma idéia. Ela não tem a minha cara. Eu não sou proprietário dela. Não é porque abraço uma idéia que afirmo ser ela a melhor, mas porque ela demonstrou ser a melhor que a abracei. E se ela não é boa diante de outra, por que mantê-la?
 
Alguém pode me dizer: ora, uma idéia que eu sustento formata alguma parte de minha pessoa, e certas idéias são mais fundamentais que outras. Wittgenstein disse algo nesse sentido: imagine um indivíduo que passa pela experiência de ser abduzido por ET’s. O que pode restar de consistência na sua forma de ver o mundo, se até então ela se estruturava na coerência de algumas idéias básicas – e dentre elas, a de que um encontro com ET’s é coisa mais remota que ganhar na Megasena?
 
Ok, mas não estamos falando de opiniões sobre coisas extraordinárias. E quando discuto com religiosos, não sou eu que acredito em teologia. Aliás, aposto que um religioso, sim, ficaria completamente absurdado se presenciasse um “milagre” – principalmente por acreditar que está vendo exatamente isso, um “milagre”.
 
(Certa vez, fui numa médium que fazia “materializações”: ela quebrou um ovo cru de galinha na minha frente, e eu vi inflar de dentro dele uma bola engosmada da gema do ovo cozida. Ela cutucou o ovo e me mostrou dois ossos amarrados saindo de repente da bola, que disse ser uma bexiga de sapo. Explicou que o espírito tal foi no cemitério tal e desmanchou o feitiço que fulano fez pra mim. Esqueci de perguntar a ela: Fulano de quê? Depois do assombro, conclui a única coisa razoável acerca do fato: primeiro, explicar uma coisa usando um discurso que apela pro inexplicável, ou melhor, pro absurdo – “o espírito” que tirou a bexiga da terra material com suas mãos imateriais – mostra que, seja lá o que houve ali, a médium também não sabia do que se tratava; segundo, talvez a médium soubesse do que se tratava: qualquer mágico de circo faz você passar por uma “experiência extraordinária” – ou, como diz o outro, um “milagre”. Por fim, a realidade é maior que o pensamento e o conhecimento; por que não admitir nossa ignorância, ao invés de decalcar uma mitologia idiota qualquer por sobre o fenômeno?)
 
Por outro lado: não poderíamos dizer que há algo de minha pessoa numa opinião em que eu acredito? Afinal, agimos de acordo com o que pensamos, investimos afeto em muitas de nossas idéias, etc.
 
Ok, existe certa transitividade entre o sujeito que pensa e aquilo que ele pensa. Mas, se isso fosse não um trânsito, e sim uma unidade, não haveria o que se discutir, não haveria o que se ensinar, não haveria nada para além daquilo que “eu acho”. Abandonar certas opiniões pode ser mais que doloroso: pode ser libertador.
 
Entretanto, há quem subjetiviza as idéias a tal ponto que as trata como uma extensão sensível de sua pessoa. Afirma que o valor de verdade e racionalidade de sua opinião é estimado por si mesmo, e não reconhecido por ele como pertencente à própria idéia. É a sua opinião de pelúcia, seu bichinho de estimação abstrato, sempre acompanhado pela chupeta da fé.
 
Tem uma multidão de gente que discorda de mim, mas o que é lastimável é que uma boa parte dessa multidão tem medo que eu, ou outra pessoa qualquer, pegue suas opiniões e descasque. Como se a opinião fosse uma coisa “sua”.
 
Isso é o que me parece mais estranho: a criatura não bota fé no que acredita, e aí não ousa discutir. Prefere continuar pensando em algo que acredita não ser muito resistente à crítica, ao invés de se permitir descobrir coisa melhor no que pensar e acreditar.
 
Isso é uma forma de vaidade: o cidadão monta sobre os ombros de uma crença equilibrista e acredita que ela é bem mais que uma idéia, é constituinte de sua própria personalidade.
 
Donde a crítica à idéia se tornar, no crânio de quem se percebe tão etéreo como uma idéia é, “crítica” contra sua tão inestimável pessoa. Pois a mensagem é um apêndice do mensageiro.
 
Certamente, trata-se do cúmulo do egocentrismo de baixa autoestima, que nega ao outro o direito de criticar “o ~seu direito~ em acreditar numa asneira”; afinal, mesmo sabendo, ou desconfiando, que sua crença não tem valor de verdade, essa crença se apóia noutra crença: a revelação de que, seja lá a patranha que abrace, mesmo a mais idiota se constitui numa “afirmação” de sua individualidade, pois é “sua”; qualquer delírio possui uma “razão particular” que o justifica, e tudo isso estabelece sua liberdade e autonomia, ainda que sendo a negação de ambas.
 
Compreender como uma subjetividade se faz assim é assunto para muitas letrinhas. Melhor ser breve e apontar o indício, à guisa de conclusão.
 
A sociedade burguesa produz e cultiva diligentemente o egoísmo no qual educa os indivíduos. Ou seja, a subjetividade é formada em meio a uma sociabilidade anti-social, donde todas as referências humanas e naturais que o sujeito pode ter como parâmetros da vida prática e do pensamento se retiram para o interior de sua individualidade isolada, procurando se salvar da guerra de todos contra todos e encontrando solo fértil para o seu próprio apodrecimento e esterilidade. O indivíduo é impelido a reclamar para si o legítimo direito ao egoísmo, e portanto à perversão, à estupidez, etc.; direito que se confunde com privilégio, na medida que o egoísmo jamais se afirma perante os outros sem ostentar a feição de um abuso.
 
Um privilégio que reivindica para si a legitimidade do direito, o direito que a sociedade afirma ser particular, como uma forma de justo privilégio: a prerrogativa de ser Eu Absoluto, parâmetro de todos os critérios, medida de todas as referências, fundamento de todos os princípios, monarca de todos os poderes, rei da realidade, soberano divino da potestade maior – o seu umbigo.
 
É fatal: quem não discute aquilo que pensa, em que acredita e ao qual inclusive se identifica acaba fazendo da misologia a sua profissão de fé e cultivando a autolatria de um ego inchado à vácuo.

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Chiclete com Banana
Autoridade no assunto “EU”
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Lula vs. PSOL: a política tal como ela é

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A crítica de Lula ao PSOL (em entrevista a José Trajano, jul. 2017), ao contrário do que se resmunga nas redes sociais, não diz mais de um que do outro. Diz muito sobre ambos, e diz coisa ainda mais importante que os dois.

A fala de Lula possui uma qualidade que, ao invés de ser desprezada, devia servir de lição à esquerda; pois ela provém de um senso de realidade absolutamente condizente com a política – tal como ela é.

Por isso mesmo, aliás, é um discurso que exala cinismo e fanfarronice do começo ao fim.

E por não alcançar sequer o mais ingênuo dos realismos é que o PSOL se contenta em defender suas boas intenções e contra-atacar Lula e o PT no campo da moral.

Não que haja qualquer exagero, leviandade ou mentira no elenco dos fatos com que o PSOL demonstra o apodrecimento completo e irreversível do PT e de seu carismático guru do pau oco. Aliás, o PSOL faz muito bem em expô-lo.

O problema é que, por acreditar na mais cândida das ilusões – a “política possível nos marcos da ética”, a ética na política -, o PSOL não tem como ir além da denúncia moral, convenientemente recheada de autoproclamações de seus princípios “inabaláveis”.

Fica assim: “você é fresco” versus “você é degenerado”.

Lula reduz a política à realpolitik? Não, porque não se reduz uma coisa ao que ela de fato é. O que ele e o PT fizeram foi abandonar, há muitos anos atrás, a inocência das “teorias” políticas da “boa vontade”, nas quais muitos petistas e ex-petistas continuam se lambuzando como crianças até hoje. Pois as alternativas que se colocam para uma esquerda que não pretende acabar com a propriedade privada e o Estado, mas apenas administrar o comitê dos negócios do capital de uma forma mais “social” (o famoso perfume sobre a bosta), só podem ser estas: ou exercer o poder político assumindo toda a prostituição geral que lhe é intrínseca, ou não exercer poder nenhum para além da enganação de si mesmo e dos trabalhadores.

Donde ambos, Lula e PSOL, estarem tão certos quanto errados. O PSOL é o PT de fraldas, e o PT é a esquerda cujo politicismo atingiu as últimas e inevitáveis consequências. Ou seja, são a expressão de diferentes momentos de uma mesma esquerda, exatamente aquela – que a burguesia gosta.

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o legítimo esquerda caviar
política de esquerda

Uma nota acerca da bandeira do “combate à corrupção”

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O combate à corrupção parece ser, aos olhos de muitos, a principal tarefa a se cumprir para transformar o Brasil em um país melhor.

Entretanto, essa pauta tem apenas um lado: o da “moralização” da arena política, ou seja, dos políticos; mas isso não é apenas uma disneylândica utopia, é uma escamoteação do verdadeiro problema desde a sua superfície.

Pois supõe que tudo se reduz ao ato imoral do político corrupto. De início, ignora ou despreza que trata-se de uma relação – e que nela temos também os corruptores, o que se perde na medida mesma em que o protagonismo preponderante é deles, para lançar o foco apenas nos corrompidos; donde só resta presumir que a questão é individual e moral. Daqui para a propositura de que tal problema só pode ser enfrentado por uma “política ética”, isto é, por “novos políticos”, é menos de um passo.

Ou seja: sob os parâmetros de um entendimento subjetivista e irrealista (e, portanto, moralista), sobra à prática se estreitar na miserável via da busca de uma “nova” política – tão quimérica quanto o que só pode brotar da ignorância quanto à raiz econômica da politicidade, e tão “nova” quanto pode ser a política que compartilha das mesmas vistas grossas que são feitas sobre os corruptores, vulgo “financiadores” e lobbistas.

Eis aqui, nas palavras de meu amigo Hugo Vargas, o que deve ser ponto central da agenda de uma esquerda que pretende fazer jus ao seu posicionamento, isto é, que não almeja simplesmente permanecer iludindo a si mesma e aos trabalhadores quanto à seu “empoderamento” no cassino burguês do poder de Estado:

– “A Vale acaba com um rio no sudeste. Comete um crime ambiental gravíssimo. Compra parlamentares. Foi comprada a preço de banana numa maracutaia da era FHC.

A Ambev paulatinamente monopoliza o mercado de bebidas nacional. Enfia milho transgênico na cerveja. Compra parlamentares. Sem mencionar dívidas com o fisco.

Itaú e Bradesco oligopolizam o mercado bancário. Compram parlamentares. Muito provavelmente cometem fraudes no sistema financeiro a serem reveladas talvez na Lava Jato.

Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez são entidades cuja podridão ninguém ousaria contestar. Compram sua bancada de representantes também.

JBS e BRF Alimentos são comprovadamente entidades nocivas que também oligopolizam o mercado dos frigoríficos e fazem o diabo no país.

A Oi também é fruto de maracutaia da era FHC. Sugou bilhões do fundo público.

Mas qual a pauta perante tudo isso? Eleger o Lula? Eleições diretas?
Urgente seria expropriar todos esses empreendimentos. Não há momento mais oportuno, mais evidente. Todos eles devem bilhões e cometeram crimes incontáveis. São aviltantes até mesmo para a normalidade de uma democracia burguesa.

Se o PT fosse de esquerda, ele e suas entidades já estariam pautando isso pra ontem. Por ora, a situação é tão grave que falar disso, que é apenas uma reforma pontual radicalizada, nos faz parecer algum cosplay de comunista caricato”.

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políticos escrachados e empresários idolatrados
Renato “Cinco” Athayde Silva, PSOL-RJ

Método dialético de formatação do pensamento marxista vulgar

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Outro dia eu li num grupo virtual de estudos uma declaração impecável sobre a formação teórica dos stalinistas (tanto os assumidos quanto os que se escondem sob o termo “marxistas-leninistas”).

Em resposta às acusações feitas contra a realpolitik dialética por seu rebaixamento intelectual e seu desprezo por Marx, um teórico do praticismo esquerdista formulou o seguinte:

<< “Vulgar isso”, “vulgar aquilo”, mas dificilmente alguém consegue explicar toda essa confusão. O esquema é ler Engels e Marx do mais básico, depois ler Lenin, Stálin, Trotsky, Mao e estudar as experiências dos países do chamado “socialismo real”, desde a economia até a luta de classes que rolou. É muita coisa, mas com um nível desse de briga de torcida o cara não tira nada proveitoso. >>

Primoroso!

(Pena que fumaram o livro verde do Khadafi e rabiscaram o manual didático do King-Kung coreano até ficar ilegível – o que, por outro lado, nada afetou sua inteligibilidade.)

Portanto, o “esquema” é ler “o básico” de Engels e Marx e depois partir pra suas sofisticações.

(E aí deve-se “estudar as experiências” dos países do chamado socialismo real, “desde” a economia “até” a luta de classes. Como se não fossem coisas totalmente imbricadas!)

Assim, para rechaçar a vulgaridade, aplica-se a sofistaria. Mas é aquele dito “básico de Engels e Marx” que nada mais e nada menos constitui o caroço racional da formatação do pensamento militante – para a atuação aguerrida nas bocas de urna do sindicato nacional dos engraxates. Senão, vejamos.

Quando diz haver um “básico de Engels e Marx”, nosso formador de “quadros” quadrados confessa já existir uma determinada seleção dos textos. O que é que circunscreve essa seleção?

Fosse um critério passível de se extrair dos próprios escritos, eles já teriam sido elaborados segundo ele.

Mas não é. O critério é exterior e indiferente ao que Engels e Marx se dedicaram a redigir, certamente não por diversão.

No que é possível de se dialogar com a turma do básico invulgar, não é difícil de se perceber que seleção de textos é essa: primeira e segunda partes do “Manifesto Comunista” (o resto é lorota), o rascunho sobre Feuerbach da “Ideologia Alemã” (sequer desconfiam que o livro tem mais 400 páginas), o posfácio à segunda edição de “O Capital” (que resume miraculosamente os 3 livros da obra) e um punhado de pequenos textos de Engels – especialmente aqueles em que o “segundo violino” se lança à carreira solo e se arrisca a tocar intervalos para substituir o insubstituível, fazendo harmônicos soarem como guinchos e arrebentando umas cordas: por exemplo, o ensaio do “macaco que vira homem” e os capítulos do “socialismo de laboratório” e da “metafísica dialética” retirados do “Anti-Duhring”.

Este é o básico. Mas nosso revolucionário intelectual nem pretende tanto; segundo ele, o “esquema” de leitura do ainda “mais básico” já é suficiente para se conhecer Marx e Engels. Quem quiser avançar para o marxismo hard level e “suprassumir” o estágio rústico dos autores básicos pode simplesmente despejar por cima de suas singelas noções as contribuições profundamente grosseiras de Stálin e congêneres.

Eis aí como se faz o Frankenstein “marxista-leninista”. Nada de ler o que realmente importa, bastam as sinopses e o que é redigido depois para servir a elas como notas de pé de página.

É o mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, versão sub-proletária.

Ou antes, é o tradicionalíssimo marxismo mimeografista das agremiações estudantis de creches municipais. Além de servir pra deixar a esquerda ainda mais burra, faz com que os trabalhadores acreditem que as “críticas” da direita a ele são “refutações demolidoras” contra Marx.


PS.: Alguém pode me acusar de estar batendo num espantalho, ao criticar o discurso de uma caricatura. Ora, as caricaturas ideais acentuam os traços de um pensamento tanto quanto acontece no caso dos desenhos: os aspectos positivos e negativos se ressaltam, e sua difusão no senso comum é maior. Não é por outra razão que Marx combate Stirner, Proudhon, Bastiat etc. Ainda assim, quem quiser conferir uma análise do pensamento do próprio Stálin, eis o link: Stalinismo: idealismo e praticismo.

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marx_simpson
marxismo simpsoniano

A hegemonia de um nominalismo às avessas nas discussões políticas

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Estava conversando com um liberal que se recusa a ser identificado com a direita. Ele me perguntou: Stalin era comunista?

Eu havia dito antes que preferia ser chamado de comunista a socialista. Com essa, percebi que isso não faz muito sentido.

A esquerda em geral entende que “socialismo” e “comunismo” (me refiro especialmente àquela esquerda que não apenas já ouviu falar neste último, mas também o reivindica, nem que seja somente no fundo do abismo da imaginação) são análogos, correlatos ou até mesmo sinônimos (com que Marx arranharia o mausoléu). Entretanto, são termos considerados muito gerais, donde caber neles outros mais específicos: trotsquismo, morenismo, stalinismo, leninismo, maoísmo, guevarismo, castrismo etc.

O fato é que os rótulos não possuem nenhum significado intrínseco; também não adianta apelar para a história francesa, para a distinção que Marx sempre fez entre tais termos ou para o que aconteceu ao longo da existência da URSS. As significações são acumuladas ao longo da história e elas podem ficar de cabeça pra baixo, se assim as pessoas entenderem que os termos devem ser usados.

Claro que é importante saber como o eram na França e como Marx os definiu a partir das experiências teóricas e políticas da esquerda francesa, mas isso não basta. A URSS é indelével nessa brincadeira semântica.

Daí que Stalin poderia ser qualificado de socialista por muitos motivos, mas ele é um comunista; e isso por uma única razão, a mais forte que pode haver, e definitiva: nada mais que o fato de os bolcheviques se autodenominarem comunistas.

Mais que isso, comunistas soviéticos – quando os sovietes já haviam sido transformados em um reles nome.

Adianta lembrar que a assim chamada União Soviética se ergueu por sobre a destruição dos sovietes? A História e a linguagem podem não ser realmente feitas pelos vencedores, mas eles têm, de fato, uma rainha a mais no xadrez da práxis.

Depois da queda da URSS o termo socialista foi reabilitado de modo a fazer referência àquilo que antes era dito comunista – pois este carregava o estigma da queda do leste europeu e remetia a tudo aquilo que se identificava (ou passou a ser identificado) como stalinismo.

Quando alguém fala abobrinhas infames sobre a esquerda, o socialismo, o comunismo, e ainda mistura isso com petismo, Lula, Foro de SP, bolivarianismo, Coréia do Norte e Cuba, está pensando a partir do nível de identificação mais grosseiro, porém real, entre as proposituras da classe trabalhadora e a desgraça stalinista.

Quando dizem que não há mais direita e esquerda, pensam de acordo com a ficção tola de uma política guiada ideologicamente, mas também com a realidade do pragmatismo que leva todos os divergentes políticos ao centro, onde as alianças se celebram e as pernas e concessões se abrem.

Por conta disso, é fácil perceber que 99% das discussões na direita, na esquerda e entre ambas – ou entre liberais e conservadores de um lado e trotsquistas e stalinistas de outro – se fazem simplesmente acerca de tais nomes.

É o nominalismo medieval às avessas, pois aqui se crê que os nomes não apenas carregam em suas letras a realidade concreta, mas que esta última está encerrada nelas. A palavra não aponta para a coisa, ela é a coisa.

E o debate se torna histeria coletiva no ritual da Igreja do Verbo Satânico. Hugo Chávez falou que seu bolivarianismo (WTF) era um socialismo; a ampla maioria da esquerda e a totalidade da direita acreditaram nele, logo a Venezuela é um país socialista.

Há como escapar disso? Creio que sim, mas depende dos interlocutores, da capacidade e preocupação de pensarem as coisas para além de fórmulas prontas e vazias; e ainda, é claro, do interesse honesto em fazê-lo.

Não importa tanto se o nome disso é esquerda, marxismo, comunismo, trotsquismo etc. Importa dizer o que é ou o que se quer dizer com isso e porque.

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pedro_abelardo
Baita calamidade, amigo Abelardo!

“O comunismo não funciona”? – ou: As vias irracionalistas do discurso de direita

socialismo-vs-capitalismo

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Uma das lorotas mais repetidas pelas maritacas do grupo Naspers é o mantra que diz:

– “O comunismo não funciona”.

Cante uma centena de vezes e experimente a amplitude cósmica de sua consciência sintonizando o absoluto. Amém.

“Hare Krishna”, rezar o terço, “Nam Myoho Renge Kyo”, hinários do Mestre Irineu, “Marcha Soldado” e “Louro Quer Biscoito” produzem os mesmos efeitos. O negócio da direita, afinal, não é esclarecer, mas aliciar. Pra quê apelar para o cérebro, se o intestino produz resultados rápidos e pungentes?

(Bom, eu prefiro a vagarosa razão. Não tem muito a ver com a velocidade das urgências políticas – e de tudo mais no capitalismo -, mas é honesta e cria laços mais fortes.)

Quando alguém acredita que o comunismo “não funciona”, é porque tem uma noção bem fantasiosa do que seja a sociedade: é uma coisa, ou melhor, uma outra coisa que os indivíduos associados – uma sociedade existente independente dos indivíduos, um “sistema” pairando sobre eles. Durkheim merecia ver isso!

Comunismo e capitalismo não são coisas, não são “modelos”, “sistemas”, esquemas, planejamentos de engenharia social ou anti-social, mas sim formas distintas de associação entre indivíduos, modos herdados e posteriormente reproduzidos por eles para organizarem entre si – no intuito de, simplesmente e antes de tudo o mais, sobreviverem – suas relações com a natureza; ou seja, o trabalho, a divisão do trabalho, a divisão dos produtos do trabalho, a divisão das cacetadas nas cabeças etc.

Portanto, comunismo e capitalismo não são máquinas – que funcionam ou não, pois não são algo distinto dos indivíduos, um algo que “tem de funcionar”.

Também não estamos falando de formas de Estado, de regime político, governos etc. – aliás, assuntos que só os puros de alma crêem que devam ser pensados em termos funcionais, se é que funcionam de qualquer jeito. Quer dizer, funcionam: especialmente quando parece o contrário.

Estamos falando de pessoas vivendo suas vidas e o tempo todo em relação umas com as outras. Será que uma pessoa deve ser avaliada na medida em que “funciona”?

Trata-se de formas de sociabilidade, de um fazer-se cotidiano e entre todos os demais (Marx fala da vida prática de homens vivos e ativos); daí que a avaliação de uma forma social só pode ser realizada com seriedade se levar em conta a sua história, suas entificações geográficas, suas relações econômicas e políticas internas e com as demais sociedades etc. etc.

Ou seja: não nos preocupemos, por exemplo, em virar uma nova Venezuela ou Cuba. Isso só seria possível apagando tudo que faz o Brasil, a Venezuela e Cuba serem exatamente isso – Brasil, Venezuela e Cuba. Nem um jogador de WAR pensa de maneira tão rasa.

Se as tentativas (supondo que realmente foram) dos países ditos socialistas do século XX em transformar a sociedade naufragaram, não é porque os planos de Marx estavam errados. Primeiro, porque Marx não tinha tais planos; e depois, porque esses países existiam na realidade e não na fantasia.

Mas é que tem gente que pensa que a realidade é aquilo que está estampado em suas retinas. É assim que Tomé virou crente: olhou o céu e viu o Sol girar em torno da Terra. E depois viu a Terra girar em torno de seus olhos.

engenharia social


 

É com a inteligência de um plâncton e a honestidade de uma hiena que a direita faz sua campanha incansável para reverter, a ponto de transubstanciar à completa inversão, a imagem que a população tem dela.

E que ótimo que ela voltou ao poder! Pois parece que uns e outros por aí se esqueceram o que é a democracia, a política, o que é e o que quer o poder político: o jogo da burguesia em seu próprio estádio.

Claro que a mídia vai continuar dando, ou vendendo, aquela forcinha; e as redes sociais, como boas chupadoras da cloaca da imprensa que são, vão seguir cotidianamente regurgitando esses despautérios para nos fazer acreditar que a esquerda é que merece ser desqualificada das formas mais aviltantes.

É difícil lidar com esse pessoal quando não se tem experiência nenhuma com o trabalho dos pastores de bois e ovelhas (não me refiro à profissão daqueles que vendem Deus e depois esfregam os rendimentos na cara dos idiotas). Temos que ficar explicando pra eles, pra começar – e toda hora -, que o fato de Lula e Dilma não serem traficantes de cocaína, nióbio e órgãos humanos não significa que o PT é de esquerda. Se você chegar a tocar no assunto em questão – a “função comunista” da sociedade -, já pode comemorar uma vitória.

De resto, não se discute num fórum visando apenas o interlocutor. Fosse por ele, eu já estaria no bar tomando um suco de cevada. Pensem nisso… 🙂

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capitalismo-e-prosperidade-da-humanidade
Çertamemte o capitalismo fumsiona!

O fascismo colore o Brasil: a esquerda “classe média” pira!

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“Tenho 5000 amigos nesta rede. A maior parte, de esquerda. Desses, a maioria parece estar vivenciando algum tipo de luto. Uns ficam choramingando pelos cantos, decantando a falta de esperança, pranteando os tempos idos. Outros deliram, sem peias. Passam os dias e noites a conversar com um coxinha imaginário. Riem do coxinha imaginário, apontam o dedo pro coxinha imaginário, berram: “BATERAM PANELAS? AGORA AGUENTA!”. Os verdadeiros coxinhas, quando não foram eliminados da timeline dessas pessoas em algum momento entre 2013 e o ano passado, estão plácidos, contentes, a compartilhar fotos de gatos, cachorro, comida. Eles não ligam. Isso me assusta, pois é um sintoma, eu reconheço sintomas.
 
Esse post gigante e algo confessional é para dizer que aquela sombra [da depressão], minha velha conhecida, está rondando muitos de vocês. Vocês precisam se cuidar. Ou vocês dão o seu jeito de irem lixando, pouco a pouco, as diversas camadas de cinza, ou deveriam procurar tratamento adequado. Saiam dessa espiral de lágrimas, luto, negação, está começando a ficar preocupante. Luto não era verbo? Pois então”.
 

 Pedro Munhoz 

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Eis aí uma observação arguta do Pedro Munhoz, à qual eu gostaria de acrescentar um rabisco.

A respeito do “avanço e proliferação do fascismo no Brasil”, que draga as energias psíquicas de tantos esquerdistas por aí, eu havia dito, em março (cá e lá no facebook), algo que vale a pena redizer:

Essa tese de um “crescimento do fascismo no país” é: empirista, impressionista, falsa, derivada da coleta de casos em jornais e “fundamentada” no marketing político do medo, no reginoduartismo difundido pelo PT em apuros e por suas rêmoras (p.ex., Guilherme Boulos e sua “crescente onda conservadora no Brasil”).

É preciso lembrar que o fascismo é pequeno-burguês, e isso é normalíssimo. E que a “classe média” não apita. Late mas não abocanha.

O que a manadinha fascista queria era a queda do PT. Já bastava a ela. Depois que o PT caiu, ela continuou a fazer seus atos? Bateu em comunistas na rua, quando ficou claro que os problemas do país não eram o PT no poder e a esquerda em geral? 

Não. Depois que o PT caiu, os fascistas vestiram o pijama. Pra eles era isso que estava em questão, algo totalmente independente dos problemas econômicos e políticos e seus desdobramentos, pois em suas fantasias o único problema era vencer o que não passa de um mito: “o partido e a política comunista em ação no Brasil”. E eis que estão dispensados de ter qualquer clareza sobre qualquer coisa.

O fascismo, portanto, não cresceu e nem se expandiu: esteve aí desde sempre, ainda que deitado eternamente em berço esplêndido, amando a Pátria em seus sonhos, mas eclodindo quando chamado pelo MBL a salvar da morte vermelha o lábaro da liberdade.

Engraçado é reconhecer que, quanto à determinação social do fascismo, a Marilena Chaui não estava de todo errada. A pequena burguesia (que ela chama de “classe média”, com a precisão de um hipopótamo) sempre foi fascista. Se agora “o gigante acordou”, se de repente o fascismo resolve dar as caras e mostra sua cabeça monstruosa, daqui a pouco ele dorme de novo.

Nada disso seria qualquer problema se a maior parte da esquerda brasileira não insistisse em dormir ao seu lado. 

O sono da esquerda produz monstros.

Quanto a isso, recentemente eu falei da “classe média autocrítica” – ou crítica de uma “outra” classe média -, que constitui um bom bocado do eleitorado e da militância das esquerdas light, essas que querem conquistar a pequena-burguesia para um socialismo de reformas do capitalismo, feitas através da política (p.ex., o próprio PT, seu pet amestrado PCdoB e seu filho adolescente rebelde PSOL).

Centram foco na disputa pela “classe média”, da qual falam tanto quanto o pastor fala do diabo, num bizarro exercício de narcisismo.

Deixam de disputar os trabalhadores porque são socialistas cuja perspectiva social é pequeno-burguesa, donde se vêem engalfinhados em um vórtice de obscurantismo teórico e prático que os lança em perdição e ceticismo e depois os cospe na direção da religião, do cinismo e do liberalismo.

Pois que tratem de se livrar dessa idéia fixa peçonhenta em atacar a pequena-burguesia que colore seus pesadelos, e mirem esforços para a organização dos trabalhadores, a única classe que pode ter interesses em mudar a sociedade.

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