Debates e Debatedores, Opiniões e Razões, Golpe e Materializações

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Tem uma multidão de gente que discorda de mim, e isso é absolutamente normal.
 
Infelizmente, muitas coisas atrapalham o debate, e às vezes fica difícil saber se há uma opinião na roda que seja mais consistente e coerente com o assunto discutido.
 
Acontece ainda do pensamento precisar de tempo para avaliar as idéias, e só conseguir chegar num veredito depois que o debate já acabou.
 
E aí tem vez que a gente vê que nossas idéias não estavam bem assentadas. Pra quê discutir? Pra gente aprender aquilo que achava que já sabia.

 

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Vou citar um exemplo que aconteceu comigo mesmo. (Quem estiver sem muita paciência, pula esse causo e continua no assunto mais abaixo.)
 

Um mês antes da votação na Câmara da abertura do processo do impeachment de Dilma Rousseff, eu estive no mural de um ex-aluno, discutindo veementemente com um outro sujeito e afirmando, contra o que ele dizia, todos os porquês (que eu tinha na cabeça e na minha frente) daquilo ser um golpe.
 

Eu dizia que “as afrontas ao direito” feitas contra o PT – eu citei a divulgação dos grampos e não haver denúncia, investigação ou processo aberto contra Dilma – “feriam os princípios de um Estado Democrático de Direito”. Em suma: “como pode não ser um golpe?”.
 

Um ou dois dias depois, coloquei a cabeça de volta ao lugar e percebi que ele tinha razão, ou eu é que não tinha nenhuma, pois estava apenas boiando na corrente de uma idéia que a ampla maioria da esquerda replicava – com muito mais poder de disseminação que bom senso. Uma tese fundamentada mais na razão da força que na força da razão.
 

Eu estava engolindo a lorota republicana das regras do “Estado Democrático de Direito”; estava caindo na conversa mole da esquerda brasileira – que não lê Marx, e sim Hannah Arendt, e quer “melhorar a democracia”.
 

Descobri, na prática do enfrentamento ideológico, que eu não SABIA o que era o “Estado Democrático de Direito” e suas regras, apenas desconfiava de ambos, como quem intui uma idéia mas ainda não vê como ela se articula.
 

Foi então que as coisas se encaixaram: o Judiciário não estava sendo pollitizado, assim como o Legislativo não estava sendo judicializado. Os três poderes não eram, nunca foram e não são puros, e suas atribuições não se isolam umas diantes das outras. Quem, afinal, julgou o processo? Foi o Senado. Dilma apelou pro Judiciário e perdeu. Legitimou o processo até o fim. Não houve ruptura NENHUMA com a Constituição e com a institucionalidade. Toda a novela foi política; e a marmelada judicial das pedaladas foi apenas o verniz tosco. Mas foi sobre este que a tese do golpe se apoiou: afirmando a ilusão do aspecto jurídico como preponderante, a aparência de um processo que “deveria ser justo” – quando o jurídico e o que seja “justo” é determinado politicamente. E isso porque era o que restava ao PT: transformar a sua derrota política na derrota de todo o “Estado Democrático de Direito”, o que poderia angariar-lhe apoio para resistir ao impeachment. Perdeu duas vezes: na arena política e na arena ideológica.
 

Posteriormente, eu vim a saber que o PSTU também rejeitava o discurso do golpe. Beleza, eu não estava sozinho. Não que eu pense que a quantidade de pessoas e de likes que sustentam uma idéia seja garantia de sua verdade, ou mesmo um mero indício desta. Se eu acreditar na verdade de uma opinião e todo o resto da humanidade me achincalhar, vou apenas lamentar que estejam no erro. Por que então estou dizendo isso? Porque estar no isolamento te faz acreditar que você está errado, e estar na torrente te faz acreditar que está certo. Isso é uma armadilha sofística tribal do pensamento, e é exatamente disso que a mitologia se nutre enquanto mata a razão.
 

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Voltemos ao assunto. Contei o caso acima pra dizer que mudei de idéia, quando a razão me fez reconhecer a fragilidade da opinião anterior, que eu havia comprado pronta na internet, e estruturou de forma sólida a que eu tinha ainda em formação e com peças por articular.
 
Procurei testar meu novo posicionamento e, até agora, ninguém dos muitos com quem discuti a questão me deu bons motivos para achar que devo voltar atrás.
 
Enfim. Não tive e não tenho – e não sei porquê deveria ter – nenhum receio ou vergonha de mudar de opinião. Era apenas uma idéia. Ela não tem a minha cara. Eu não sou proprietário dela. Não é porque abraço uma idéia que afirmo ser ela a melhor, mas porque ela demonstrou ser a melhor que a abracei. E se ela não é boa diante de outra, por que mantê-la?
 
Alguém pode me dizer: ora, uma idéia que eu sustento formata alguma parte de minha pessoa, e certas idéias são mais fundamentais que outras. Wittgenstein disse algo nesse sentido: imagine um indivíduo que passa pela experiência de ser abduzido por ET’s. O que pode restar de consistência na sua forma de ver o mundo, se até então ela se estruturava na coerência de algumas idéias básicas – e dentre elas, a de que um encontro com ET’s é coisa mais remota que ganhar na Megasena?
 
Ok, mas não estamos falando de opiniões sobre coisas extraordinárias. E quando discuto com religiosos, não sou eu que acredito em teologia. Aliás, aposto que um religioso, sim, ficaria completamente absurdado se presenciasse um “milagre” – principalmente por acreditar que está vendo exatamente isso, um “milagre”.
 
(Certa vez, fui numa médium que fazia “materializações”: ela quebrou um ovo cru de galinha na minha frente, e eu vi inflar de dentro dele uma bola engosmada da gema do ovo cozida. Ela cutucou o ovo e me mostrou dois ossos amarrados saindo de repente da bola, que disse ser uma bexiga de sapo. Explicou que o espírito tal foi no cemitério tal e desmanchou o feitiço que fulano fez pra mim. Esqueci de perguntar a ela: Fulano de quê? Depois do assombro, conclui a única coisa razoável acerca do fato: primeiro, explicar uma coisa usando um discurso que apela pro inexplicável, ou melhor, pro absurdo – “o espírito” que tirou a bexiga da terra material com suas mãos imateriais – mostra que, seja lá o que houve ali, a médium também não sabia do que se tratava; segundo, talvez a médium soubesse do que se tratava: qualquer mágico de circo faz você passar por uma “experiência extraordinária” – ou, como diz o outro, um “milagre”. Por fim, a realidade é maior que o pensamento e o conhecimento; por que não admitir nossa ignorância, ao invés de decalcar uma mitologia idiota qualquer por sobre o fenômeno?)
 
Por outro lado: não poderíamos dizer que há algo de minha pessoa numa opinião em que eu acredito? Afinal, agimos de acordo com o que pensamos, investimos afeto em muitas de nossas idéias, etc.
 
Ok, existe certa transitividade entre o sujeito que pensa e aquilo que ele pensa. Mas, se isso fosse não um trânsito, e sim uma unidade, não haveria o que se discutir, não haveria o que se ensinar, não haveria nada para além daquilo que “eu acho”. Abandonar certas opiniões pode ser mais que doloroso: pode ser libertador.
 
Entretanto, há quem subjetiviza as idéias a tal ponto que as trata como uma extensão sensível de sua pessoa. Afirma que o valor de verdade e racionalidade de sua opinião é estimado por si mesmo, e não reconhecido por ele como pertencente à própria idéia. É a sua opinião de pelúcia, seu bichinho de estimação abstrato, sempre acompanhado pela chupeta da fé.
 
Tem uma multidão de gente que discorda de mim, mas o que é lastimável é que uma boa parte dessa multidão tem medo que eu, ou outra pessoa qualquer, pegue suas opiniões e descasque. Como se a opinião fosse uma coisa “sua”.
 
Isso é o que me parece mais estranho: a criatura não bota fé no que acredita, e aí não ousa discutir. Prefere continuar pensando em algo que acredita não ser muito resistente à crítica, ao invés de se permitir descobrir coisa melhor no que pensar e acreditar.
 
Isso é uma forma de vaidade: o cidadão monta sobre os ombros de uma crença equilibrista e acredita que ela é bem mais que uma idéia, é constituinte de sua própria personalidade.
 
Donde a crítica à idéia se tornar, no crânio de quem se percebe tão etéreo como uma idéia é, “crítica” contra sua tão inestimável pessoa. Pois a mensagem é um apêndice do mensageiro.
 
Certamente, trata-se do cúmulo do egocentrismo de baixa autoestima, que nega ao outro o direito de criticar “o ~seu direito~ em acreditar numa asneira”; afinal, mesmo sabendo, ou desconfiando, que sua crença não tem valor de verdade, essa crença se apóia noutra crença: a revelação de que, seja lá a patranha que abrace, mesmo a mais idiota se constitui numa “afirmação” de sua individualidade, pois é “sua”; qualquer delírio possui uma “razão particular” que o justifica, e tudo isso estabelece sua liberdade e autonomia, ainda que sendo a negação de ambas.
 
Compreender como uma subjetividade se faz assim é assunto para muitas letrinhas. Melhor ser breve e apontar o indício, à guisa de conclusão.
 
A sociedade burguesa produz e cultiva diligentemente o egoísmo no qual educa os indivíduos. Ou seja, a subjetividade é formada em meio a uma sociabilidade anti-social, donde todas as referências humanas e naturais que o sujeito pode ter como parâmetros da vida prática e do pensamento se retiram para o interior de sua individualidade isolada, procurando se salvar da guerra de todos contra todos e encontrando solo fértil para o seu próprio apodrecimento e esterilidade. O indivíduo é impelido a reclamar para si o legítimo direito ao egoísmo, e portanto à perversão, à estupidez, etc.; direito que se confunde com privilégio, na medida que o egoísmo jamais se afirma perante os outros sem ostentar a feição de um abuso.
 
Um privilégio que reivindica para si a legitimidade do direito, o direito que a sociedade afirma ser particular, como uma forma de justo privilégio: a prerrogativa de ser Eu Absoluto, parâmetro de todos os critérios, medida de todas as referências, fundamento de todos os princípios, monarca de todos os poderes, rei da realidade, soberano divino da potestade maior – o seu umbigo.
 
É fatal: quem não discute aquilo que pensa, em que acredita e ao qual inclusive se identifica acaba fazendo da misologia a sua profissão de fé e cultivando a autolatria de um ego inchado à vácuo.

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Chiclete com Banana
Autoridade no assunto “EU”
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Protagonismo e vivência

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Quando o assunto de um debate é FEMINISMO, movimento NEGRO, movimento LGBT ou gira em torno de outros grupos de luta pró-minorias, por vezes a posição e o pensamento discordante (ou não!) de um sujeito – que simpatiza com a causa em questão e a ela se dispõe a somar forças, mas cuja própria individualidade não é identificável cultural, social, sexual, fenomênica ou até mesmo biologicamente (?) com as pessoas que “naturalmente” integram o movimento – são frequentemente desclassificadas e descartadas por meio da desqualificação do próprio sujeito.
 
Quando ainda no nível da argumentação, diz-se que tal indivíduo pretende assumir um protagonismo que lhe é ilegítimo, por não possuir a vivência que os autênticos membros sofreram ou sofrem cotidianamente. A centralidade de tais noções em um discurso, seja quem forem os discursantes, evidencia seu caráter subjetivista.
 
No nível da brutalidade e desonestidade completas, tacha-se um rótulo que decalca no sujeito a figura do “inimigo do movimento” (quando não um hitlerista). Assim, os demais debatedores e leitores não só se dispensam de responder o conteúdo do discurso – pois quem o proferiu foi tornado desprovido de legitimidade, autoridade e, por vezes, capacidade cognitiva ou moral para falar qualquer coisa, ainda que possua razão (de modo tal que sequer precisam continuar a distorcer suas palavras para dar a elas uma aparência de descrédito próprio) -, mas criam também, do ponto de vista gregário, um entretenimento útil e auspicioso, não importa o quão superficial, imediatista e efêmero, para unir a multidão em torno da malhação do “desafeto comum”. É tal como acontece numa torcida de futebol, numa congregação de religiosos, no engajamento em propostas e personas políticas ou também num linchamento de um suposto bandido. Coisas que, ou pessoas com quem, não se discute.
 
Antes de prosseguir, peço que não me acusem de comparar a esculhambação de alguém num debate com o ato de triturar uma pessoa na rua. “Linchamento virtual” é uma expressão mais que ridícula e infame, é puro e pleno desprezo para com todos aqueles que sofreram tamanha injustiça e violência na própria carne. O que pretendo é chamar a atenção para o procedimento aglutinador de bárbaros por meio da manipulação de um mecanismo psicológico chamado “fé” – aquele que angaria adesão tão irracional quanto afetiva e, portanto, disposição à bestialidade.
 
Mas o que me interessa aqui não é falar dos golpes baixos. Interessa discutir a primeira forma de censura, pois ela tem um apelo estético tão sedutor que até parece racional; por isso, convence e arregimenta um bocado de gente de boas intenções.
 
Por que estético? Porque basta imaginar um sujeito branco se colocando como ativista do movimento negro, ou um homem atuando com interesse e disposição propositivos em um grupo feminista, que a ilegitimidade de tais imagens imediatamente é colada em nossos olhos, em nossa pele e sensivelmente em nosso afeto, tamanha a aparência de sua obviedade.
 
Mas os sentidos às vezes nos enganam e o que parece ser óbvio pode não passar de mera ilusão.
 
Em primeiro lugar, é estranho que haja o receio de que alguém “roube o protagonismo” dos “legítimos integrantes” do movimento. Ora, onde está a bandeira da luta pelo reconhecimento do grupo? Se diluiu na disputa da maior medida de importância dos indivíduos? Numa competição pela atenção dos demais? Ou num certame de levantamento de egos?
 
De onde pode surgir a idéia de que alguém adere a uma causa de tamanha dureza interessado em se sobressair frente aos demais? Mas se o termo “protagonista” quiser designar um indivíduo que se lança à linha de frente das batalhas – sem qualquer vaidade de si ou inveja dos companheiros -, tanto pior, pois a rejeição de tal disposição (nem sempre verificável nas pessoas, portanto valorosa) indica um egoísmo ainda mais mesquinho.
 
(Nessas horas, se coloca a questão do protagonismo na luta pelos direitos dos animais, que bem combina com a sua denúncia do “especismo”: seres humanos falando pelos animais e contra si próprios [cf. o texto O anti-humanismo da crítica ao “Especismo”]).
 
Se esta questão do protagonismo é preocupação que assedia com afinco um movimento qualquer, me parece que em apenas um único sentido ela pode ser genuína: protagonismo enquanto função ou cargo de representação do movimento, como no caso dos indivíduos aos quais se delegam as tarefas de comunicação, de liderança (basta lembrar a presidente do “movimento afro do PSDB”) etc.
 
Mas não é este o sentido do termo que é usado nos debates, e sim aqueles anteriores. Donde o que era pra ser um movimento de luta se perde na inconsistência da egolatria e revela sua fraqueza de meios e propósitos.
 
Ao extremo, mas se atendo ao âmbito dos pensamentos, a recusa da participação de um indivíduo “estranho” é afirmada inclusive para situações práticas em que qualquer pessoa deveria na verdade agir, sob pena de sofrer censura por não fazê-lo. Para citar um exemplo mais ou menos recorrente: certo entendimento que circula (não sei com que grau de adesão) entre as feministas afirma que apenas mulheres podem oferecer ajuda ou defender uma mulher, pois os homens – todos eles – são opressores e serão machistas mesmo se quiserem prestar qualquer auxílio ou socorro, porque isso é manifestação de paternalismo, pretensão de superioridade, subestimação da mulher etc.
 
Tudo isso, repito, se restringe ao puro pensamento, pois no âmbito da vida real, prática e cotidiana, não existe “a mulher” e nem “os homens”. Existe a Maria, existe o João e o José, existe o indivíduo que se distingue de todos os outros por ser ele uma síntese única de muitíssimos atributos, não importa quais e quão comuns sejam. Aliás, quantos atributos possuem em comum a moradora da mansão em bairro nobre e a moradora de rua, além de serem mulheres, falarem “dialetos” socialmente distintos mas intercompreensíveis de uma mesma língua – como acontece com todas as que existem -, e uns outros mais? Quão fundamentais são os atributos que ambas possuem frente aos que não compartilham? O que determina a importância de um ou tantos em um momento, e de outros noutra situação?
 
Portanto, é perfeitamente concebível a idéia de um fulano qualquer, homem, machista inclusive, se deparar repentinamente com uma circunstância envolvendo violência física ou verbal de um homem (ou um outro animal) contra uma mulher e agir para defendê-la, caso ela esteja em desvantagem. Se não o faz, mas permanece indiferente, é cúmplice da covardia do agressor. E por qual razão deveria ela recusar sua ajuda?
 
Há homens machistas e há homens que recusam o machismo, assim como há mulheres de luta e há mulheres não apenas submissas ao machismo, mas que chegam ainda a defendê-lo. A questão do protagonismo deve levar isso em conta, se a intenção não for criar um dogma – e nada melhor que isso para minar o empoderamento de alguém.
 
Aliás, tais noções de protagonismo não são problema a se considerar quando o movimento é coeso, forte e consistente prática e teoricamente. Qualquer prática que aponte para rebaixamentos egóicos pode ser facilmente detectado e desmantelado.
 
E mais: como combater o machismo sem envolver os homens e angariar suas adesões? Não se trata de conseguir fazer o machista combater o machismo?
 
Ou a luta é pela afirmação da mulher enquanto diferença intransitiva frente aos homens? Eles não responderiam: “ora, o machismo afirma exatamente isso, podem largar as bandeiras e assumir a cozinha”?
 
A luta não visa estabelecer uma posição autenticamente humana da mulher na totalidade da sociedade? Ou seja, pela igualdade de direitos entre os diversos indivíduos (é assim que se costuma justificar a luta, mas sem muito rigor, já que a igualdade é uma forma de abstrair até mesmo os atributos cujas diferenças são o cerne de toda a questão)?
 
Se é assim, cabe compreender e reconhecer o significado profundamente humanista do feminismo.
 
Protagonismo não é, pois, um problema, mas sim uma necessidade. É o indivíduo “empoderado” que participa das ações e reflexões, que levanta propostas e incentiva a atuação autônoma e responsável, que age no sentido de fortalecer o movimento de forma honesta para consigo mesmo e os demais, que se dedica à causa e se mostra confiante nos companheiros de luta.
 
Não há porque recusar o protagonismo dos interessados na luta, e muito menos exigir o aval de alguém que efetivamente sofre preconceito e violência. Na verdade, se um indivíduo reconhece o sofrimento dos grupos oprimidos, por que não deveria se sentir na obrigação de atuar em prol de seus direitos? Por que não deveríamos esperar justamente isso de sua parte?
 
Alguém pode estar pensando: finalmente a questão da vivência apareceu, mas como ela entra nisso aí?
 
Vivência é coisa do âmbito privado do indivíduo singular. Entretanto, o que importa é o que há de comum, socialmente determinado, nas vivências de cada indivíduo; e só isso confere importância à vivência.
 
Assim, um negro que sofreu uma afronta racista sabe suficientemente bem qual é a dor de outro negro que lhe conta ter ouvido uma ofensa semelhante, ainda que não seja a mesma coisa, a mesma circunstância, a mesma dor e a mesma reação.
 
Um branco não sabe o que é racismo. Mas sabe o que é ofensa e o que é dor. Se isso lhe basta para aderir ao combate, por que exigir-lhe mais?
 
Insistir na centralidade da vivência é desprezar aquilo que une os indivíduos singulares em torno de uma compreensão e uma causa comuns e atirar tudo para o abismo da singularidade isolada: a vivência é minha, e sequer a linguagem pode te fazer compreendê-la. Ora, o que esperar disso? Um embate na arena política dos direitos? Não, porque cada indivíduo – encerrado em sua vivência única e intransponível umbigo afora – possui algo que a mais ninguém serve de critério e é impossível de ser avaliado. Sem contar que as vivências de um mesmo sujeito podem ser contraditórias entre si, e outros problemas.
 
Aí só resta medir força física bruta contra quem afirmar uma vivência contrária. Basta pensar, por exemplo, no sujeito que defende a redução da maioridade penal alegando que um menor matou um parente querido – uma vivência tão dolorosa e comovente quanto universal e politicamente efetiva, à qual todos estão sujeitos. Mas em que medida o sofrimento torna justa uma reivindicação? Este caso mostra que a dor pode tornar obscuro o entendimento, muito antes de legitimar idéias e ações.
 
Para terminar, uma provocação. Não é interessante notar que esses problemas nunca surgem entre os sem-terra, sem-teto, sem-comida etc.? Se houver adesão às suas lutas por parte de quem tem teto, comida e até mesmo um sitiozinho no interior, tanto melhor. Seus movimentos estão atentos para questões de outra grandeza e importância.
 
A luta contra a opressão de uma parte da humanidade por outra é uma luta que concerne a toda a humanidade, e aí o que importa não é promover expurgos, mas angariar aliados.
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O indivíduo em luta - na literatura clássica, moderna e pós-moderna

Ciência e Religião: Diádocos da Alienação

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Tive uma colega professora de biologia que acreditava no criacionismo.

 
Bizarro? Sim, claro. Mas fácil de entender, e nem vou brincar de explicar essa ninharia de contradição.
 
Era engraçado ver o “espírito científico” dela, ao chamar de “hipótese” a existência de deus, do homem barro, da mulher costela, da cobra falante etc.
 
“Aplicar” Popper em Darwin é científico, mas não em Phil Collins e cia.
 
Deus “existe”: é comprovado – ou, para os mais pirro-cartesianos, é plausível, provável, não-contraditório (essas coisas que não dizem respeito à realidade, mas ao pensamento lógico) – pelo argumento jumentício de que é “impossível refutar a idéia de sua existência empiricamente”.
 
Em outras palavras, o saci Pererê também existe. Uma “hipótese” que resiste à falsificação não por meio de trambiques astrológicos ou ad-hocs, mas sim na medida que seu objeto é imperscrutável, ou seja, dilui toda e qualquer objetividade, e portanto toda racionalidade e possibilidade de conhecimento.
 
Sem querer, taí um porquê de biólogos poderem ser ao mesmo tempo darwinistas e criacionistas. Divisão social do trabalho incidindo sobre a subjetividade e produzindo médicos na vida pública e monstros na água benta da privada.
 
Aí chega o agnóstico, aquele que crê ser ateu, e diz: engano seu, a ciência demonstra empiricamente que deus não existe!
 
Como se um matemático, um geólogo ou um historiador investigassem o que é isso, a existência, e se preocupassem em traduzir tais coisas sob forma de equações, classificações ou interpretações chulas sobre curiosos antigos costumes (algo que a academia certifica e banca), ao contrário de assistir missa nos domingos, como todo bom cidadão de singela inocência e consciência poluída de culpa.
 
Se tem um lampejo de lucidez notável em toda essa comédia de horripilantes trevas, é o do crente – que tira o chão do idólatra da ciência ao retrucar-lhe: a ciência não responde tudo!
 
Se soubesse do que fala, diria mais: a ciência não se ocupa e nem quer saber de discutir questões ontológicas, metafísicas etc. Ela pressupõe que tais coisas já estão resolvidas. Por isso mesmo que a maioria dos cientistas não se difere muito de bêbados perdidos na sarjeta ou adoradores de desenho animado japonês.
 
É preciso dizer a ambos o seguinte:
 
Deus não é uma hipótese, deus é a síntese e a degradação abstrativada daqueles personagens folclóricos das antigas mitologias populares, o resultado do exercício de um processo intelectualista de ampliação do caráter abstrato originário daqueles (pois mesmo o mais naturalista dos deuses era um deus e não um mortal); ou seja, a conclusão da progressiva aplicação de uma inflação especulativa de suas características antropomórficas rumo à hipóstase absoluta, ao “ser” que não tem corpo, aparência, limite, que não se faz sentir, que possui vontades e pratica ações cujas razões nos são “misteriosas” e “insondáveis” etc – de modo que nada possui de tudo aquilo que define o que existe.
 
Portanto, ninguém precisa da ciência para descartar a “hipótese” da existência do Papai Noel absoluto. Vai discutir ciência no chat do UOL!
 
Por outro lado, se o ceticismo de algum rigoroso cientista o leva a pensar na possibilidade do contrário, não devemos levá-lo a sério, e sim chamar um psiquiatra.
 
Quem convoca a ciência para “demonstrar científica e empiricamente” a afirmação ou refutação de seja o que for, procura uma palavra última de absoluta certeza no terreno do que é, ao contrário disso (e para azar dos bêbados, nerds, agnósticos e economistas austríacos), pura crítica. A propósito, é por isso mesmo que a ciência jamais teria saído das cavernas se levasse Popper a sério.
 
Algum espertinho pode me jogar na cara um grave problema que sua experiência sensível apreende em minha argumentação: por que você diz que a ciência empírica não pode afirmar certezas, enquanto sua ontologia autoritária pode?
 
Eu não disse que a ciência empírica não pode afirmar certezas, eu disse que ela não tem o que dizer sobre o que é âmbito da ontologia.
 
E quando a ciência acerta, muito pouco de seu mérito deve se atribuir ao seu empirismo. Ao contrário, a experiência sensível – sobre a qual a ciência empírica, apesar das crenças fisolóficas e epistemo-burguesas dos cientistas, NÃO se baseia – é uma fonte inesgotável de erros e ilusões. O geocentrismo é perfeitamente empírico: basta lançar os olhos ao céu – é ver pra crer, não é assim? – para constatar a sua “verdade”, enquanto o heliocentrismo é a negação da empiria.
 
Enquanto isso, a ontologia se fundamenta na prática, na lida cotidiana dos indivíduos uns com os outros, incluindo os céticos mais empedernidos e os teoricistas mais alienados (sempre bem dispostos a imaginar a prática isolada da teoria e vice-versa), e todos com a natureza – portanto, exatamente com tudo aquilo que chamamos de realidade e que pensamos ser um âmbito da obviedade, mas que possui camadas e mais camadas de efetivas determinações quase que totalmente despercebidas pela nossa experiência sensível (e é exatamente por isso que o academicismo enxerga nele os mesmos insondáveis mistérios que motivam deus a ser um misericordioso sádico etc., donde o ceticismo se tornar uma tara agarrada no tecido adiposo cerebral do subjetivíssimo empirista, uma idéia fixa que rivotril nenhum retira e nem própolis na língua resolve). Significa que a ontologia se constitui na dimensão daquilo que exige e tece o que chamamos de razão: compreensão das coisas tais como elas são – e isso é uma questão de sobrevivência do nosso próprio corpo -, e não das coisas tais como a nossa miopia pinta em nossas cabeças.
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2 igual a 1
Ah, a ironia…

Racionalidade e falsidade socialmente necessária da Fé

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Na dolorosa e assustada infância da humanidade, quando o desconhecido estava em cada aspecto da relação dos indivíduos com a natureza estranha e hostil – em meio a qual, entretanto, tinham de viver, habitar, e com ela interagir etc. -, a única forma de vencer o medo foi através de um recurso que advém à consciência naturalmente: projetar sobre os fenômenos naturais, ou por trás deles, a própria subjetividade humana, para então negociar, por meio de rezas e demais rituais mágicos, as mais diversas ilusões afetivas com essa suposta super-subjetividade controladora da natureza. Assim surgiram as mitologias e os deuses, seres antropomórficos porém sobrenaturais, capazes de fazer a realidade agir de acordo com suas vontades e humores, mas também aptos a ouvir e compreender as súplicas humanas quando lhes desse na telha e, quem sabe, atendê-las, mesmo que de formas mui particulares.
 
Grande passo deu Tales de Mileto e seus colegas ao pronunciar que a natureza é ordenada, segue padrões mensuráveis e pode ser conhecida tal como ela é, e não mais simplesmente como desejávamos que fosse. Os físicos gregos abriram a ampla vereda do pensamento desantropomorfizador que constitui a essência da filosofia e da ciência, e as mitologias podiam finalmente se recolher ao baú de um passado para sempre superado. Mas por que elas não se foram?
 
Porque o estranhamento e a hostilidade permanecem até hoje. Não mais diante da natureza, e sim da própria sociedade humana, donde Marx afirmar: ainda vivemos a pré-história da humanidade. Somos determinados pelo meio social, resta determinar o meio social de modo que este assuma um caráter autenticamente humano.
 
evolução de deus
 
 
Entretanto, enquanto isso permanece distante ou mesmo se retira do horizonte histórico da humanidade, se faz patente que, desde que o pensamento racional se torna difundido – a ponto de se fazer presente em todos ou quase todos os aspectos da vida prática cotidiana -, certamente é muito desgastante manter o fluxo de canalização de energia psíquica, o apego, para a fixação das idéias insensatas de que consistem as mitologias.
 
Por isso, o maquinal apelo a abdicar da realidade por meio da devoção fervorosa à própria submissão assume a imagem de um equipamento de guerra: o escudo e a lança da fé.
 
Credo quia absurdum (e nem sou eu que o digo). A consciência mítica não tem problemas com a barbárie, a contradição, o desatino, o preconceito etc. Mas, em sua “golden age” primitiva, e justamente por não ter o parâmetro do que seria racional – pois a razão é um atributo subjetivo histórico e, a bem da verdade, recente -, a consciência sequer concebia o que seria isso, o absurdo.
 
Na atualidade, entretanto, mesmo a razão mais trivial – demandada pela lida do dia-a-dia com o mundo atual – pode se tornar uma ameaça à frágil bolha do pensamento mítico.
 
Exemplos não faltam. Basta lembrar quão profundamente imerso neste glóbulo viscoso de irracionalidade pode se meter aquele que resolve empunhar as armas da fé contra a própria lucidez e se torna um homem-bomba, o piedoso beato que suicida e mata tantas outras pessoas em nome do “amor” de uma divindade e, é claro, também do quimérico salário casto e espiritualista de 72 virgens para desfrutar no além.
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O que é a morte?

Morres, amigo, também tu.

Por que te lamentas assim?

Morreu antes Pátroclo,

que era muito melhor que ti.

(Ilíada, XXI).

 

O que é a morte?

A morte é o “dexistir” do Eu.

Quando o corpo se desliga e tem início sua decomposição, chega ao fim o processo que chamamos de mente e que decorre do funcionamento do cérebro. Morto o tecido cerebral, não há mais memória; ou seja, o Eu se apaga. Os sentidos se encerram e já não há mais consciência a que pudessem informar acerca do mundo ao redor.

aquiles chora patroclo

E a alma? A alma é coisa distinta da mente? Se for, o destino dela será tão interessante a nós como o destino de nossa carne: se vai virar grama, comida de verme ou éter pairando no nada, é algo completamente indiferente, pois o que importa é a consciência, a memória, o Eu.

Nenhum Eu sobrevive ao fim do cérebro, de modo que morrer nada mais é que abandonar completamente a sociedade e imergir na mais plena harmonia com a natureza.

Contudo, e em um sentido bem determinado e completamente distinto do que normalmente se entende a respeito, o espírito pode continuar vivo, se cultivado pelos indivíduos ao longo das gerações e enquanto durar essa cultura.

O espírito não é uma coisa. O espírito é memória e linguagem. Portanto, não é apenas o resultado da atividade cerebral, mas ainda, e essencialmente, é um produto da sociedade.

Virar puro espírito é passar a existir enquanto memória, sem entretanto haver consciência e identidade de si, quer dizer, memória própria: agora o espírito não mais é subjetivo e a memória se tornou história. Que outros cuidem dela com leveza e graça!

Achille-e-Patroclo

Nada disso é misterioso. O contrário, sim, é obscurantismo puro.

Persiste ainda hoje a força soturna que a mitologia exerce sobre nós. E isso porque ela está ancorada em uma forma estranhada de afeto, que não encontra meios autênticos de se realizar num mundo onde impera o estranhamento entre os próprios indivíduos. Donde a força da mitologia estar na debilidade do afeto, subjugado e dominado pelo medo; e se apresenta como o que resta pensar com paixão – não apenas na medida que a sociabilidade é hostil, mas também à medida em que a própria mitologia rejeita a transformação da sociedade.

Ora, a fé procura se justificar através do medo da morte, para o qual ela traria o apaziguamento de uma esperança anti-ontológica, anti-realista, absurda. Essa é a medida de seu valor: um pretenso bem que se ergue por cima de uma fobia, de um disparate e de uma vida degenerada, os quais cuida de manter no horizonte.

Pois a sociedade estranhada do cada-um-por-si forja uma moral invertida e elege como valor o que é desvalor.

Assim é que a mitologia e a fé encarregam-se de nos manter sob a tutela de uma moral heterônoma, pueril. Mas é preciso considerar as coisas tais como elas são e reconhecer que temer ou se preocupar com a morte é um reles egoísmo. Se há alguma coisa digna de preocupação aqui é, no máximo, a forma como acontecerá; mas, ainda mais importante, com quem vai pagar o enterro.

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